Tatiana Nascimento contra a crueldade intolerábel

Si, seguramente vostedes, vendo o título deste artigo, pensen no filme dos irmáns Coen, que, sendo comedia non é comedia inocente senón que morde, morde para espabilar espectador e espectadora. Admito una coincidencia que resulta propositada. Si. Propositada porque fai referencia á loita feminista, negra e lésbica, nun mundo, o Brasil de hoxe, onde eses tres activismos se enfrontan a una sociedade poscolonial onde o racismo, onde machismo e a identidade sexual problematizada (por non utilizar otras peores cualificacións, se cadra máis xustas) son pan de cada día.

Cabe, pois, cualificar a actitude de Tatiana Nascimento, activista LGTBI, activista polos dereitos dos negros, actvista polo feminismo, como una actitude valente nunha sociedade cal a brasileira que precisa espíritos fortes e decididos, persoas que non calen e denuncien, constantemente, constantemente valentes.

Máxime nas novas xeracións, e o de Tatiana Nascimento é un dos nomes que máis forte ecoan na novísima poesía brasileira. Nacida 1981, en Brasília, ela aínda non fixo os 40 anos mais é xa unha poeta moi experimentada. Non só poeta, slamer, cantora, compositora e editora (con Bárbara Esmenia fundou a Padê Editorial, onde viu a luz o seu primeiro poemario, Lundú). Precisamente o seu Lundú  foi escollido polo Projecto Nacional Leia Mulheres como un dos mellores libros de 2016, entre outros recoñecementos. Posteriormente, en 2018 lanza mil994. Máis recentemente 07 notas sobre o apocalipse, ou, poemas para o fim do mundo, pela editora carioca KZA1, en 2019.

E tamén, tamén ten proxectos en prosa, entre eles unha novela, polo que sabemos.

E non desaproveita momento nin ocasión para loitar contra a crueldade intolerábel desde a súa voz de muller, de muller negra, de muller lesbiana, desde a súa voz disidente e poderosa.

Pois crueldade intolerábel é a d@s human@s consigo mesm@s. Homo hominis lupus que non semella cesar nunca

En Palavra preta recollemos estas manifestacións como exemplo:

no brasil, racismo é crime. mal-julgado, subnotificado, ridicularizado, mas é crime. o racismo é entendido como crime de ódio, não de desprezo. obrigar uma funcionária doente de covid a trabalhar tem a ver com o racismo como desprezo racial y de classe, o que é vil, aberrante, desumano y terrível, mas não é crime no brasil. hoje em dia já é difícil conseguir uma sentença que criminalize alguém que xinga abertamente uma pessoa negra de macaca ou preto feio. ainda mais difícil é mostrar a articulação da psiquê colonial FORJADA NO SADISMO VISUAL DE 300 ANOS DE TRÁFICO, EXPLORAÇÃO ESCRAVIZADA Y PUNIÇÃO FÍSICA/MORTE DE PESSOAS NEGRAS TRATADA COMO ESPETÁCULO ao tipo de discurso que transcrevi ali.

é difícil porque vivemos no meio do mundo branco. todas as pessoas, brancas ou negras, ou indígenas, ou amarelas, ou ciganas y outras raças-etnias que eu não sei nomear, vivem no meio do mundo colonial de supremacia branca que aprendeu a nos odiar de formas explícitas y que depois de séculos seriam, algumas, consideradas crimes; y de formas veladas que não são consideradas crimes. mas sim “acidentes”, “descuidos”, “acaso”, “desmotivadas”. só uma pessoa branca que cresceu na porra da 109 sul da asa sul de brasília, com aqueles prédios enormes y apartamentos onde as crianças comem gorgonzola esquentado no microondas ouvindo ella fitzgerald na hora do lanche y ouvindo o pai ler florbela espanca, só pessoas que são brancas y criadas na ilha da fantasia que o racismo cria pras pessoas brancas, é que não acham brutal y criminoso o fato de uma mulher igualmente branca ter um cachorro provavelmente comprado com o qual ela mesma não desce y negligenciar o cuidado com uma criança negra de cinco anos num prédio em que ela não mora, com elevadores que ela não conhece, porque elas todas, as pessoas brancas que assistem isso y querem apelar pra humanidade descuidada da assassina branca de uma criança preta, foram ensinadas a nos desprezar.”

……………………………

uma criança negra morreu porque uma mulher branca pôde desprezar sua vida y não ter sua cara estampada em todos os jornais como monstra assassina (o que não estou dizendo que ela seja ou não, mas é como a mídia gosta de falar de mulheres que matam crianças). uma mulher branca foi DIRETAMENTE responsável pela morte de uma criança negra de cinco anos y há pessoas brancas que querem culpar a mãe da criança por ser empregada doméstica y o quê, não ter dinheiro pra pagar uma creche? y em tempos de pandemia ter que levar sua criança pro trabalho? tb foi culpa da doméstica que a patroa comprou um cachorro y não quis descer com ele?

o antirracismo de vocês é cínico porque vocês querem lotar atos antifascistas pra levar covid de volta pras casas onde suas empregadas pretas continuam vos servindo. o antirracismo de vocês é um devaneio porque vocês dizem fogo nos racistas achando que estarão livres das chamas. o antirracismo de vocês é uma mentira porque não é sobre ninguém além dos seus próprios egos.

esse é o mundo de vocês. y vocês estão cada vez mais confortavelmente racistas nele.”

Son dous salientados moi ilustrativos.

Tamén teño entendido que empredeu o proxecto de escribir un poema cada día. Na ligazón a Palabra preta tamén poden vostedes consultar moitos poemas dos recollidos aquí e otros máis. Porén, o primeiro de nada é a lectura de Lundú.

Teño que decir que formalmente me parece unha poeta de expresión rica. Tomando como referencia a disposición espacial do poema, ela alíñaos tanto a esquerda como a dereita ou centrados, en posición vertical ou horizontal. Certamente, hoxe este tipo disposición formal resulta moi doada e asequíbel. Mais ese é só o principio, porque tamén incide da dimensión da palabra: xoga con elas, estratifícaas, destrúeas, constrúe outras novas botando man de claquera recurso posíbel (desde as parénteses á concepción silábica por exemplo). E dáse nela una interesante conxunción entre a forza explosiva do momento de inspiración ou aparición do motivo poético desencadeante…e despois o traballo inxente sobre o texto primeiramente concebido. E tamén, tamén a conxunción do poema breve, inclusive moi breve, e o poema longo, demorado, dun discurso denunciante que non se esgota doadamente senón que se encadea en denuncias tal e como a realidade nos ensina que toda crueldade intolerábel trae aparelladas otras que dela derivan. Para máis, é autora que xoga moito co ritmo, demostrando unha técnica poética moi asentada, ben asentada e moi, moi útil expresivamente. Ao meu parecer, a variedade de recursos formais e a vontade de experimentar coa palabra definen a súa poesía.

E quero comentar, finalmente, o uso lingüístico de y e mesmo de castelanismos (españolismos, di ela) léxicos como una maneira de individualizar o seu discurso. Ela di que o fai impresionada pola sonoridade do español e como signo de latinidade. Resulta curioso porque aquí, na Galiza, na España, o tido como idioma sonoro é o galego e tamén o irmán portugués. Non deixa de ser un preconcepto, un estereotipo, prexuízo neste caso favorábel (entre os moitos que nos denigran). Claro que ela está rodeada do “español” arxentino, chileno, uruguaio, colombiano… que é moi distinto da sequidade castelá, moi-moi diferente.

E, agora, vai a súa poesía:

(“I CAN’T BREATH”)

um suspiro que atravesse
a pandemia, a distância,
o medo, o trauma,
o pânico ancestral do
pretocídio en tor nan do
nossos nomes em bandeiras
hasteadas como Eguns que mais
não dançam, nem bendizem, só vão
embora
emb…
ê!
pretidão
pretidão acesa
preditão acesa que eles
tentam / apagar/am / (m)eu peito
tem uma chama igualmente es
cura y brilhante que bebe
ar no que essa noite
ilumina

de lua rindo
frouxo eu

aqueço
uma vela
y acendo mais
um pouco o
sonho

de que olhos
tão pretos vivam
em paz caminhem
em paz fumem um
em paz sonhem
em paz comam
em paz amem

demais

y durmam

tranquiles…

(nossa paz
é que eles
extermina)

y

dissipem
quando for na
sagrada hora do Orun

(que aqui a
lei de branco,
profana sempre,

quer roubar o ar
que Oyá nos
concedeu

divina).

[pra marcus, que segue sorrindo]

a dança

“qual é a música, maestro?”

eu ainda tô aprendendo
a te amar
a não contar as horas
não chorar demoras
nem temer recusa

desalimentar expectativas difusas
(profusão de análises semânticas
dum “oi” que significa só ele
mesmo: “oi”)

eu ainda tô aprendendo
a me perdoar
não ter falado um tanto
(ou ter falado tanto)
por ter errado tanto
quanto você
por me machucar

(y com certeza um dia
me perdôo por te
machucar)

eu ainda tô aprendendo
a tatear a densidade leve do ar
nessa ponte que erguemos entre
o meu y o teu
silêncio
a tua y a minha
ausência
a histórica
carência
a memória da
latência
a querência da
trajetória que tentamos
trilhar juntas mesmo em tanta
perdição

y inda tô desaprendendo
o teu mais que meu
desapego
y el mío mais que el tuyo
celo

a esquecer
o que não
tem per
dão

não existe mais máquina do tempo
depois dos 32 (anos, dentes, anéis de
saturnos, casório-y-separação, DRs y des
ilusão)

mas talvez tem mágica no vento capaz de
dar uma pausa no tudo que aconteceu depois
que eu viajei pra salvador y você cantou,
no caminho do aeroporto,

“nunca mais
vou gostar de você
nunca mais”

.

ou se não uma pausa, só:
dissolver o mal-estar,
se não dissolver só:
nos lembrar:

que num tem mal-estar maior que aquele afeto doido que foi/fez
sentido. que um dia caiu. que se machucou. que joelho ralou.
y que um dia virou outro afeto: uma noite se desvelou.

y olha:

fosse aquele tempo eu cobria com babosa
machucada y mel (melhores cicatriz
antes) o joelho ralado do afeto
eu colava um bandeid em
cima y até dava um

bejinho

pra sarar

mais depressa

mas como o tempo é esse agora tô mirando
a cicatriz pra lembrar que
tudo que corre
pode tropeçar, pode cair,
pode escorregar. ou pode ganhar
impulso pra voar, na beira dos dois gumes:
planar. pousar.

demorou uma era, bissexta²,
pra eu poder me rever do seu lado
y tô reaprendendo andar no meu passo
(que c zombeteira troca com o seu). sipá um dia

nesse tempo-espaço

a gente

até

volta a se bailar.

y vocês adorariam
que a gente
simplesmente odiasse vocês
tacasse fogo em vocês
violasse vocês
escravizasse
seu passado
colonizasse
seu futuro
aniquilasse
seu presente
reinventasse as naus,
espaciais dessa vez,
pra ir matar
sequestrar
traficar y
explorar

até a morte
até o sexo
até a alma
até o divino
até a falta de ar

de vocês

y chamasse seu deus
de errado
y chamasse seu corpo
de feio
y seu pensamento
de primitivo
y sua família
de selvagem

vocês iam adorar
que a gente simplesmente
oprimisse y odiasse vocês como
vocês nos oprimiram y odiaram
(nos oprimem, nos odeiam)

porque aí ia parecer que foi só
coincidência
seleção natural
a lei do mais forte

y não um projeto de supremacia racial
calcado em pilares de grana,
heterocisnorma, “fé” de
uma seita
hegemônica
;
porque aí ia parecer que vocês
nos catequizaram tanto que
não nos restaria mais
nada a não ser

ser

como

vocês

(mas nosso espelho
se chama Abebe
y vida plena
sempre foi
o nosso forte

essas políticas
de morte são a
tradução de vcs).

raíces y rotas (ou “todos nomes de deus”):

dialgum lugar da exuzilhada entr açaí púrpura grená
y um sebastiânico marrom-esroxeado
foi que eu vim;

& no meio dum hiato transatlântico
diastema nostálgica do
embargo tectônico
foi que eu quase
quase quase me perdi;

em busca do naufrágio supersônico
que (d)eu(s) me livra(i)sse desse
ranço pós-mestiço (que
o pânico catiço desse
um pau no lastro heurístico)

esse ex-fado laico-pai-nosso
deles nos bas tarda mas não falha,
y navalha, y navalha, valha-me meu
santo-ex/tado-de-ex/pírito tão aquém
desses vício em amém)

eu vi:

do apométrico em
mefafísico
de algo herético al
goritmico in
quisitorial ar
dente ao al
corão al
dente não basta mono
-temático
-teológico
tem que latifundiar

a fé (sem um vento, afefé,
uma lufada, lufã, ou sipá me ouve
tupã, quiçá boitatá ou bessen), tamb
ém
hein
sem
feng-shui de templos ou umbrais
pero cá
nas
bandas equatoriais há um
bandas ancestrais; me traz
uma ma
cumba y una buen
cumbia quifas meu Sahashara
se d i z Orí e n t a r (s)in paz (do chuí

ao saara,
adelante
y de atras

são todos pontos
cardiopatas cardinais
da mesma Sé
ara | se
para —

que religare que nada
— os ohmens
dos reles i-
mort-
ais)

……………………………

o presságio
:
nesses tempos tão sombrios
conservemo-nos serenxs
cada movida da luta
sempre é mais,
nunca menos

o fascismo é apenas uma face
do medo, e não do poder

enquanto nutrimos a esperança
eles não vão
nos vencer

……………………………………….

“o seu nome eu escrevi
na areia
a onda do mar […]”

é salgado é sagrado
é saudade o mar
era vc vc era
:no sonho

de tantas eras
marés areias
lua cheia era no
outro hemisfério, sur

quanto aqui tela preta
o céu-ecrã meio blur
que meus olho, imit
ando rebentação
salgada s
agrada saudade

de vc vc vc,

—ejava
—ulhava,
—inhêra só,
a—gava:

“eu não sou daqui,
eu não tenho amor”

…………………………………………

aprender a tempestade,
soltar seu peso,
secar ao sol:

rugir trovões

derramar a tempestade,
despir de peso,
pairar no sol:

cantar trovões

suceder a tempestade,
fluir seu peso,
beijar o sol:

gozar trovões

antecipar a tempestade,
ruir seu peso,
lunar o sol:

cuír trovões

e pra que nada te desfaça,
se refaça, se refaça
se re-
faca.

……………………………….

sonhei que vc era o mar
suas ondas diziam
que iam
ficar com tudo
me lembro de pensar
que já tinha te dado tudo

y de bom grado. qualquer coisa
que restasse vc tb podia
levar.

do lado de lá do sonho uma
voz no tempo dizia
“2063
ou 63 anos”
(o que chegar primeiro)

y eu
acordei
assim mesmo
sabendo que já tinha

acordado.

…………………………………….

dos peligros dessa sede ni su pérola:

em momento outro
talvez
mergulhar sua acidez
(concha de beber voraz)

no enquanto
minha paz

……………………………………..

a paixã uma égua indomável ruminando
pa ci en te men te
o capim alado:

espero no sonho duma esquina
onde torto entorna avesso y
a rua dobra o sono dobra
meu volume por você
dobra
esquenta
abaixo – meu centro gravitacio
now

te encontro na esquina desse sonho
onde avesso encontra o doce y
sua voz de véu macio úmida
dobra meu ardume por vc
aguos
ardente
afunda – léguas cheiro [seu] trabissêro ]meu[
sazonal

me entorno nas quinas das arestas das
falanges que um dia c guardou y há
de reguardar again nas minhas
frest amém há de cavalgar
meu costume por vc há
um som
estan que q
atravess a crina

entre a noite y o salto

[in ci den tal]

:a cama a galope
cai na dureza de asfalto
do dia que aurora acre, des
lembrança mascarando feito

sonho escondid o madrugal d

o que é uma febre
que é um desejo
que me des
dobra me
esquina
me saliva você toda y:

toda sua ausência
toda sua ausênc
toda sua au
zen

a saudade é uma ciência da fé,
da paciência

um indisciplinamento selvagem quinem
]arre égua[ um

cio

……………………………………

DR imaginária (na ausência da tua presença):

“muito intensa
muito instável
muito volátil
muito difícil”

muito muita

“muito confusa
muito reclusa
muito difusa
muito muita”

muita coisa

“muito densa
muito concha
muito agressiva
muito explosiva”

– quebradiça

– passiva-agressiva

– manipulativa

– fogo de palha

(y eu ardendo
mariô)

“muito tensa
muito reflexiva
muito implicante
muito devaneante”

(“era só sexo
c que achou que era
amor”)

“muito evaporante, muito água,
muita água, muito mágoa,
muita marca, muita
história, muita
coisa muita
frescura”

(“só poesia
c que achou
que era calor”)

muito corte
muita cesura
muito fissura:
muito desejo

amava demais
queria demais
pedia demais
dava demais

recusava seu menos

queria muito, de você
queria tudo
menos o
pouco
que
c
me
dava:

muito vulcão
pouco magma
muita explosão
pouca lava

muita promessa
pouca dádiva

muita paixã
pouco apreço
muito afã mas
pouco tu me afagava
o pouco afeto teu me afogava

carência demais é ruim mesmo
mas retalho de amor é pior

ausência demais é
uma grande presença
do avesso

y mesmo c perto
eu sentindo só.

………………………………………

“qual é a música, maestro?”

eu ainda tô aprendendo
a te amar
a não contar as horas
não chorar demoras
nem temer recusa

desalimentar expectativas difusas
(profusão de análises semânticas
dum “oi” que significa só ele
mesmo: “oi”)

eu ainda tô aprendendo
a me perdoar
não ter falado um tanto
(ou ter falado tanto)
por ter errado tanto
quanto você
por me machucar

(y com certeza um dia
me perdôo por te
machucar)

eu ainda tô aprendendo
a tatear a densidade leve do ar
nessa ponte que erguemos entre
o meu y o teu
silêncio
a tua y a minha
ausência
a histórica
carência
a memória da
latência
a querência da
trajetória que tentamos
trilhar juntas mesmo em tanta
perdição

y inda tô desaprendendo
o teu mais que meu
desapego
y el mío mais que el tuyo
celo

a esquecer
o que não
tem per
dão

não existe mais máquina do tempo
depois dos 32 (anos, dentes, anéis de
saturnos, casório-y-separação, DRs y des
ilusão)

mas talvez tem mágica no vento capaz de
dar uma pausa no tudo que aconteceu depois
que eu viajei pra salvador y você cantou,
no caminho do aeroporto,

“nunca mais
vou gostar de você
nunca mais”

.

ou se não uma pausa, só:
dissolver o mal-estar,
se não dissolver só:
nos lembrar:

que num tem mal-estar maior que aquele afeto doido que foi/fez
sentido. que um dia caiu. que se machucou. que joelho ralou.
y que um dia virou outro afeto: uma noite se desvelou.

y olha:

fosse aquele tempo eu cobria com babosa
machucada y mel (melhores cicatriz
antes) o joelho ralado do afeto
eu colava um bandeid em
cima y até dava um

bejinho

pra sarar

mais depressa

mas como o tempo é esse agora tô mirando
a cicatriz pra lembrar que
tudo que corre
pode tropeçar, pode cair,
pode escorregar. ou pode ganhar
impulso pra voar, na beira dos dois gumes:
planar. pousar.

demorou uma era, bissexta²,
pra eu poder me rever do seu lado
y tô reaprendendo andar no meu passo
(que c zombeteira troca com o seu). sipá um dia

nesse tempo-espaço

a gente

até

volta a se bailar.

……………………………….

com a benção de Oxalá,

seu nome uma mancha bonita
carrega meu plexo: aquela dignidade
de quem já sangrou y bem tranquilamente
cose no tempo suas cicatriz,

balança no v e n t o:
bandeira rosa, é,
mas rosa sa(n)
grado que
ele deu
pra ap
assentar Onira, viu?

né coisa de cor de barbie

não

(que tudo o tempo faz
velho, y tudo
que é velho
agridoça feito licor)

………………………….

o avesso da vida num é a morte, é o medo:

eles plantam um chip na gente,
no fundo da nuca, quinem aquele filme
do keanu reeves, lembra?, quinem na base
da espinha daquele outro, do cronenberg, sabe?,

plantaram um nanochip no fundo da gente
pra ativar um medo de morrer quando
tá quase ficando feliz. (a daisy
sabe. analu também. y os
pássaros com nina, eles
sabem eles sabem ela
disse que eles
sabem)

plantaram um p(s)icochip na gente
f e m t o z e p t o y o c t o
lá no fundo do nosso
cerebelo vaso
vagal lá
onde o lolo tá tão inflamado que
as patinha dele perdem o equilíbri
o focinho fica torto prum lado cambale

ando achando procurando buscando esse
micro nano pico femto atto zepto
yoctochip que eles plantaram

no mundo

do fim do fundo
de mim eu s
ou
tão apo
calíptica mel
dels mesmo num
sendo católic a
postólic a romanic
a bíblic será que será
que será que será que será
se num é eles o chip deles não?,

será que é da nasa será que é de louça
será que é de éter o chip da cia? y se com
a morte nos meus calcanhar eu ando escapando
por um triz

y se eu morrer y não cair
no céu ? y se eu pudesse e
ntrar na minha vi – iii – da

[imagina o milton cantando essa paródia aqui, imagina imag
ina imag inimag]

…………………………………

a dança dos mortos:

eu tenho a razão no passado,
o futuro nos sonhos,
y o corpo numa
brecha do espaço-tempo
[#ElaNãoEstáMais]Presente¹:

veio com útero, mas nem
por isso me chamo
mulher

; eu também quero furar
aquellos muros eu tam
bem sou feita

de ar
de verve
__ tédio y
de medo eu

já dancei a coreografia
lenta quando amor
te acord a vida

, eu tam

bem atraves
sei aquele mar sem colete

nenhum.


††
†††
notas:
¹nos deixem celebrar
que estamos vivas não
venham carpidar nossxs
Eguns: 13/04/2016; 14/03/2018

v. 2

…………………………

a solidã da poeta preta

porque tive uma amante que
amava me beijar assim que eu saía
do palco mas em nenhuma das muitas
vezes que fiquei de cama por tristeza
fraqueza
loucura
ou dor
apareceu,

aprendi que
quanto mais as pessoas gostam
da poeta menos querem ver a pessoa

.

e eu, que
como todas as pessoas
quero também ser gostada
por ser pessoa
(não só
poeta),

não consigo mais ver
coisa boa
nalguém chegar
elogiando minha poesia
mas virando olhos, mas distraindo
quando começo a falar qualquer coisa

que não responda mais
seus elogios

eu nunca escrevi poesia
pra ter fãs. pra ser famosa.
pra virar trender. eu só montei

uma ponte pra

me

comunicar

y eu sei que num tem a ver
com minha poesia, que é uma linguagem,
que é sagrada, que é um pedaço fundo bonito
importante de mim (mas só um pedaço)

mas às vezes dá vontade de ser só
uma p e s s o a
no meio de
outras

sem nada mais grandioso que apenas
o encontro que se desdobra
no silêncio da presença

sem aplauso
sem holofote
nem preten-sã
“sem divas nem divãs”
(quinem dolores me disse)

sem a máscara
das palavras
escolhidas a dedo
mas sem
t(r)ocar

………………………………..

“ouvir história”

era uma vez,

era uma vez era uma vez era uma vez era uma vez era uma
era
era uma
foz

era uma vez e era uma
tez era uma tez e outra
tez: escurid
ão
era
arid
ez

era uma es
grima era xadr
ez uma gu
erra

erra uma vez
era uma vez
erra uma vez e erra uma
voz
(era uma v o z
era uma VOZ
era uma voZ
era uma vOZ
era uma VoZ
era uma voz)

éramos
errantes

nós

nos
quiseram
nós
fizeram
rés
vós

mas som
e s O m
e SoM
e SOM
e s o m
e so M
e som

e somos
era
vez
tez
voz
e somos
foz:

peles-mares
navegantes
delirantes
trans
bord
antes

era uma, nós
nós há Eras:
u m a

(na)
(não)
(?)

e somos
sim nós Somos

tez

uma Era tez
uma Era t e z
uma Era t e Z
uma Era t E Z
uma Era T E Z
uma Era TE Z
uma Era TEZ

Uma Era voz
e todas
derrepente
mente voz
se fez:

“era um era dois era cem […]
tinha um que jurou
me quebrar
mas não lembro de dor
nem receio
só sabia das ondas do mar…”

……………………………………….

naquele correio elegante que eu não te entreguei no luzia,

eu podia dizer (num fosse soar tão desintrospectivo
– respeito de admiração pássara seu plano
cada vez mais entumesmada)
querer deitar minha solidão na tua,
conchas, não só o encaixe
mas a voz-mar que tem
essa sua sabedoria antiga infl
amável acre-doce ofá macio me

fura quase um dengo

y enquanto elas dormiam, a noite passava
acordada como a gente ficou, que há
toda uma cartografia de beijo en
cantado ante as incompatibil
idades
drásticas
que quase nunca atrapalham começ
ares (até dos contatinho num-presta-mas
dá-tanto-cariño) mas mesmo assim assombram:
medo
velho-familiar de intimidaderrejeiçãorrelaçãonada-pra-sempre

namorismoautomático

(você disse, pragmática, terra-ascendendo no que eu

quíron:

a falta – a completude – a fala – a quietude)

acho que enquanto eu voava na mesma
hora y meia que a CPTM levava teu sono da
sul pra oeste, dormi o que adiei da noite passada,
tando muito muito cansada (também não tenho mais
juventude pra desnoitar virada pero no mucho: seus beijo

irresistíveis (!!))

mas tivesse outra feita eu desdorm
ia tudo de novo contigo, que
foi que nem sonhar acor
dada as pálpebras brilhando de cansaço

y desejo uma pedagogia do encontro casual
passageiro: quase romance, meio magia,
tanto mistério.
.
..

[y de todo jeito vc já tava ocupada
respondendo correio-eleg
antes duma outra
estação]

……………………………….

a solidão anda comendo
meus silêncio anda comendo
minhas palavra anda comendo
qualquer coisa que não seja
uma y otro anda comendo

os medo
anda comendo meus desejo
anda comendo aquela coragem,

anda

comendo

mas come parada
come sentada
come dormindo também

come meus sonho os abismo
que me olham de volta sua boca
enorme aberta come meus
passo y até
o remorso
que não sinto
a saudade
que não tenho
um pedaço
que me falta
um retalho
dos meus
pulmão

a solidão
anda roendo
meus ósso
anda talhando
a medula
anda enferrujando
a espinha
anda circuitando
o nervoso central
meu cistema
nervoso
central
anda circuitando
o nervoso central
meu cis
tema:
nervosa
tangencial

anda tacando
serpentina confete purpurina
nessa quarta-feira cinza
como fosse carnaval;

y eu fico aqi
meio olhando
meio tropeçando
(de longe qem vê
parece qe eu tô pul
ando)
e eu fico aqui
só olhando
enquanto
ela só
não me come
as pupila, tampouco,

entretanto
nos cílio já chega
a saliva a saliva dela

chega, da solidão, essa
solidão qe anda
comendo

minha solidão

etc.

…………………………

vis
des
confiança herança
des
menina:
os arautos do sexo fá
ci
o sexo frá
gi
o sexo
vil.
violado
(por eles mesmos

……………………………..

pajubá, ou
tradução alvejante de cultura retinta:
chamar de padê
cocaína
(y depois Laroyê que eh diabólico…
mas quem mata quem morre
quem ganha na trata do
tóxico?

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