Laura Assis: o corazón ollando o ceo

A poeta escollida esta asemana para divulgar a súa poesía desde a Ferradura en Tránsito II é Laura Assis, que naceu en Juiz de Fora no 1985, e é poeta, editora e profesora, pois graduouse en Letras pola UFJF, é mestra en estudos literarios pola mesma institución e doutora a en literatura pola PUC-Rio. Ben, velaí un mínimo currículo formativo, que a dicir verdade, estes datos de nada serven cando se trata de presentar a poesía dunha autora. Case sempre é así. Porque bastante máis útil resulta dicir, por exemplo, que unha das fontes das que bebe con máis aproveitamento é Fernando Pessoa.

Mais é hora de dar noticia da súa obra. Como autora, coñezolle os seguintes poemarios:

Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014)

Todo poema é a história duma perda (plaquette, Edições Macondo, 2016)

Mecânica de nuvens aplicada (Capiranhas do Parahybuna,  2018)

Duas veces o sol (Aquela Editora, 2019)

Alén diso tamén participou na antoloxía Naquela lingua (Elsinore, 2107) editada en Portugal), e tamén e Boa sorte. 7 poetas brasileñas, onde é traducida ao castelán.

É moi importante reler os títulos. Entón aparecen palabras como mapas, nuvens, perda, ou sol. Estas palabras remítennos ao sentido da orientación, en  primeira instancia. E ao ceo como obxectivo do ollar, como bóveda que ampara todos os camiños, como constelación de puntos que nos permiten saber onde estamos, a onde imos, de onde vimos. Un lugar no que atopar revelacións. Revelacións que precisa o corazón.

Porque é unha poeta que lle concede grande importancia ás cousas do corazón. Poderiamos dicir que mesmo é unha romántica do século XXI que ten as raíces ben abrazadas no século XX. (E isto é algo que non podemos dicir de moitas poetas galegas). O xa citado Fernando Pessoa resulta fundamental.

Debruzarse sobre os seus libros, deixarse lavar polos seus versos é como aceptar a man dunha amiga que nos vai permitir un mellor coñecemento xa non só dela senón de nós mesmos, da nosa propia alma.

E tamén no Facebook.

Mais o grande mérito da Laura Assis é que escribe unha poesía seria sobre o amor, lonxe do sentimentalismo arrebatado adolescente. E iso vese pouco por aquí, na Galiza, onde é máis propio de amadores da poesía, afeccionados simplemente. Dalgunha maneira (verbal) Laura Assis tende pontes entre o corazón humano, a vida (que debería xirar na súa volta) e a bóveda celeste en que nos perdemos ou atopamos cando máis negra é, cando buscamos/precisamos os fulgores (unha boa imaxe tamén) que os poemas acendan en nós ou nos reflictan no espazo.

Agora, o sentimento pídenos que vaiamos ás súas fontes, os seus ecritores fetiche. Non o imos facer, o noso obxectivo é divulgar a súa poesía, unha poesía formalmente ben traballada e que chega con facilidade á sensibilidade lectora…até adonarse dela por completo.

POST-SCRPITUM: Logo de escribir o artigo, infórmame a propia Laura Assis que hai datos incorrectos pois existe outra poeta do mesmo nome e por riba son da mesma Universidade. Tamén corrixín o Facebook. Para que non exista máis confusión procedo a eliminar, hoxe luns ás 21,10 horas, as informacións que poden levar a confusión, e tamén o derradeiro poema, o que se pode ler a partir de agora si é da Laura Assis que motiva este artigo.

Vai a súa poesía:

Revelações

I

Nunca estou sozinha nos corredores
de lojas e supermercados;
isso poderia ser uma história de amor,
mas é exatamente o contrário.

II

Existem várias maneiras
de se livrar de um corpo:
obrigue o corpo
a esconder
seu corpo;
olhe pro corpo
como quem vê
outra coisa
no lugar
do corpo;
ensine ao corpo
que tudo bem
ser ferido e morto
por outro corpo;
convença o corpo
de que ele é
apenas um corpo
(e nada mais).

…………………………………….

IV

(outra vez essa imagem
lacerando aí dentro,
mas agora você sabe
o que fazer pra se salvar)

V

entre todas as possibilidades ela escolhe
sem saber a minha preferida quer dizer
se tudo tivesse acontecido de outro modo
se você tivesse me visto antes se tivesse
dito isso se ela tivesse sido vista ou contado
outra história e dito a mesma coisa mas
vindo de outra família enfim eu gosto de
jazz sim e não acredito em astrologia ela
disse e eu até que me viro na cozinha o que
dizer dessa conversa continuo é bom olhar
algo pronto e existindo no mundo e saber
que fui eu que enfim era algo parecido
com o primeiro encontro mas aquele não era
o primeiro e é claro que a gente não chamava
de encontro como se o telefone tocasse agora
e pudesse ou não ser engano um sonho uma
coincidência tudo tinha que poder ser lido até
o último momento de outro modo o acaso um
livro que só se entrega na última página mas
o que fazer nesse caso com a intuição e mais
do que tudo onde colocar as mãos do que você
está falando desculpa talvez eu tenha entendido
tudo errado ou imagina nada disso talvez não

………………………………….

Os nomes desaparecem aos poucos,
como luzes desafiando a lógica,
pequenos incêndios que se afogam,
quando amanhece se confundem
com a claridade irrestrita do dia.

Ninguém sabe se foram ofuscados,
ou apenas se desmancharam no ar.

……………………………………

mãos distantes
corpos próximos
apenas longe
de outros olhos

……………………………………

Depois de tudo,
acender os olhos,
e repetir o código,
quase um aviso:
a cada corpo,
de um modo
ou de outro,
abandonado
ou perdido,
um verso novo
pra desalinhar
de vez
esse
seu mundo.

……………………….

Você deve estar agora
escrevendo outro poema
sobre muros e fracassos
ou espremendo alguém no espaço
em que não posso mais estar.

Você pode estar agora
se entregando a outra vida.
O que vocês fazem aos domingos?
O que vocês não contam um pro outro?
O que você vê quando fecha os olhos?

Você deve estar agora
tentando ser feliz em São Paulo,
descobrindo o desenho de outras fronteiras
ou apenas aprendendo a lidar
com a sintaxe instável
da sua própria pele.

………………………………..

Chão

O silêncio

não é o melhor meio

de conter acidentes.

corpo escolha luz sorte

detalhe perda relógio tudo

existe além da linguagem

(seu nome:

serial de rumores

que nada diz

sobre seus gestos)

Talvez ler

o livro do mundo

seja também

saber perdê-lo.

Antes do ruído

a vida é.

(da revista “Lado 7”, número 5, Editora 7Letras)

………………………………..

MANUAL

Escusado moldar
partida metrificação.
Cortar no meio verso
e erguer muro
de (in)concreto sal
e regência.

Será proveito calcular
traço de planificação
e enviar sentido
dobrado em papel
onde não cabe
essência?

Antes rasgar os mapas.
Subverter a forma
é tiro na luz.

Ritmo pede
mais que ar:
asa.

Signo quer
o universo
ou nada

Torna-se a carne verbo.
A vida é no imperativo
Amor, palavra.


PERFEIÇÃO

O antes da linguagem,
uma ponte.

Água salgada no seu rosto
ou
apenas ímpeto?

Pavimento liso,
sem rugas, sem rasgos.
O antes de tudo.
Sem monstros, sem nada.

Quis ser o quê?
Sol?
Sonhei, mas não mais.
A vida é.
Só.
……………………….

Oberkampf

Nossos pais morreram

no mesmo acidente estúpido:

vimos o sangue,

vimos os corpos.

E você me fez prometer

que jamais

te deixaria

Morávamos

no mesmo

prédio,

no mesmo

andar.

Sua porta era colada

à minha porta e

entrar no seu quarto

ou no meu

era igual,

mas ao contrário.

O metrô passava a cada

três ou quatro

minutos

a estação era a cozinha

da sua casa,

parecia Oberkampf

mas com menos

azulejos amarelos.

Sua voz ainda era

uma força da natureza

que me alcançava

na sinestesia

dos sonhos.

E dos sonhos

acordei

e nunca mais

escrevi sobre cadernos

folhas

em branco

desertos

palavras escondidas

atrás de

palavras escondidas

E as coisas passaram

a ser como antes eram:

as coisas,

só as coisas

pouco importa a ênfase

pouco importa a verdade

o que importa é a vida

(e a vida

não cabe).

[de Depois de rasgar os mapas, 2014]

#

Dia

Ninguém sabe o que virá na trama estreita

da tarde que se abre livre sob teus passos,

mas neste espaço onde tudo muda,

e ainda assim nada acontece,

a comunicação é impossível

e isso é o que me faz querer tornar possível

o mundo que vejo em você.

Longe daqui eu seria outra pessoa,

acordaria cedo, falaria sobre o infinito,

desacreditaria de desastres e livros

ou escreveria poemas

sobre ter o coração no lugar certo.

Mas talvez explicando assim

você pare de me olhar

como quem não espera nada

além de um acidente:

antes das casas, casamentos e filhos,

depois das mortes, das visitas, dos confrontos

— a violência da sua presença

girando todos os dias

na órbita exata

das minhas escolhas.

[de Todo poema é a história de uma perda, 2016]

#

Ruína

Eu sei, éramos indelicados

com quem

acreditava na vida:

vinte anos e as paredes

impregnadas

de espanto

e desprezo

pela revolução.

Escuta, não sobrou nada,

anulamos todos os sinais,

nossa presença:

um ponto

sob o radar, e tudo

se perdeu por lá

com a certeza de um

incêndio.

Espero que agora

seus olhos

ofusquem

as luzes minerais

do Boulevard Saint-Michel.

Espero que você

esqueça

tudo aquilo que se desfez

na sombra clara do futuro

que não soubemos adivinhar.

…………………………………

PASSO

Ainda que isso seja

inversamente proporcional 

(pode ser que eu me perca

no meio do passo

e  tudo acabe

antes de você chegar)

quem não dança,

esmaece:

gira

mais devagar.

…………………………………………….

ACERTO

Eu entendo
as variações
e não importa
onde você está,
espaço e tempo
são só equações.

Imagem e movimento
são sinais
ou projeções
que preparo
ou aparto
enquanto escuto
passos
em outra direção.

Eu desenho
traços,
pontos exatos,
rabiscos.

Sempre há risco
mas a vida é bem
mais difícil
que isso.

O resto é abismo
e de noite existe
essa matéria
invisível
inventando desvios
nas palavras
que você ainda
não aprendeu
a dizer.

…………………………………………..

LIKE A BITTER STRANGER

o mal de todo dia

entrou pelas suas mãos

e tirou o melhor de mim

motoristas de táxi

sabem mais da minha vida

do que meus pais

meus amigos

largaram o jogador

e o jogo

se jogaram

do sétimo

andar

entre copos vazios

e corredores apertados

o mundo ainda é tudo

que quase não aconteceu

……………………………


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