A poesía é HELENA ZÉLIC cargada de futuro e loita.

Helena Zélic é outra autora moi nova ( São Paulo, 1995), mais que, desde os mesmos inicios se presenta como un poeta de moita calidade. E non só iso. Porque non se trata só de escribir ben, de atopar estratexias formais belas, ou novidosas ou que merezan destaque. Alén diso hai que ter mensaxe, saber abrir os ollos de quen te está lendo. E é iso precisamente o que mellor distingue a Helena Zélic ( poderán comprobalo na selección de poemas que no remate figurará, como sempre). E é iso tamén, o que necesitamos que sexa a poesía. Non se trata de ninguna función docente. Trátase de que nos incomode, que nos pregunte, que nos abra os ollos, que non nos deixe ser espectadores pasivos, que nos amose posíbeis camiños de loita, que nos anime a non ser conformistas, que nos mova a ser rebeldes e a non abandonar nunca a loita, que nos anime a crearmos continuamente novas loitas porque queremos un mundo mellor. Esa é a poesía verdadeiramente útil, a que paga a pena.

Helena Zélic é poeta desde tan nova, e é tan boa poeta desde tan nova, e é poeta tan concienciada socialmente, políticamente (por suposto), crítica e loitadora, que se fai  imprescindíbel. Xa dixen que despois poderán ler unha selección de poemas seus, o meu propósito é divulgar poesía brasileira de muller, mais non quixera que quen lea isto ficara satisfeit@ co lido, non, o nome de Helena Zélic é un nome a  seguir no futuro con moita atención. O futuro sempre é necesario. E que sexa un futuro mellor que o presente, é imprescindíbel.

Quero salientar tamén que a poesía de Helena Zélic non son palabras bonitas e combatentes no ar. Pode dicirse que a súa é unha poesía experiencial, non é novidoso dicilo mais si é importante lembrar que a súa poesía nace da actualidade que autora vive, desa actualidade e das necesidades que a Helena acha que den ser atendidas. Por sinal, a loita feiminista, a loita das mulleres por seren ( que xa vai sendo hora!) recoñecidas en pé de igualdade co sexo oposto. Por algo foi participante activa da Marcha Mundial das Mulleres. Por algo é unha convencida militante feminista, convencida e activa. Por algo a poesía de Helena é un constante desafío á moral (patriarcal, consumista, conservadora, burguesa e inmobilista) imperante. Ou o racismo, ou…

Politicamente tamén é consciente, militante activa dunha poesía anticapitalista, dunha poesía denuciadora e defensora das clases sociais máis humildes, menos favorecidas. A este tipo de poesía ténselle chamado “poesía socialista”, por veces. Iso é o de menos, o nome. O importante é que sendo así, socialmente preocupada, consciente e loitadora…tamén é unha poesía fondamente humana. Fondamente humana pola súa loita feminista e tamén pola súa loita cívica.

Revolución. Terremoto. Unha subversión que poña as cousas onde realmente deben estar, como realmente deben ser, non como nos foi imposto por unha historia contada polos homes, polos homes ricos e poderosos e brancos.

En canto á súa obra, no 2016 publica Constelações (Patuá) e no  2018 Durante um terremoto (Patuá) e tamén das plaquettes 3255 km (Nosotros, 2019) e Caixa preta (2019, Primata), alén de participar en revistas e antoloxías. Velaquí a mínima información bibliográfica que demos atopado desta extraordinaria poeta, graduada en Letras e moi consciente da súa latinoamericanidade, totalmente emancipada da metrópoloe portugiesa, que tamén viviu en Chile e coa que comparto tamén o  interese no pobo chilota, na súa cultura e na discriminación que padece.

Ben, como nestas presentación non queremos demorar moito, que o importante é a divulgación da súa poesía, é hora de dar noticia da súa páxina web , tamén do seu blog cando tiña 21 anos, ou do Facebook onde seguila.

Recomendo moito a lectura deste artigo sobre Constelações.

Recomendo moito a lectura deste artigo sobre Durante un terremoto.

Recomendo moito, tamén, a lectura de Capitolina, revista que non se entendería sen ela.

No amor, na loita política, sempre a poesía, sempre Helena.

Van os seus poemas:

OUÇO COM ATENÇÃO QUANDO POETAS FALAM

algo importante pode

estar prestes a sair

da boca de poetas

ouço com atenção

mesmo quando poetas chegam

quase lá mesmo quando fingem

entregar o ouro

bruto

ouço

algo importante está na ponta

da língua que poetas estendem

para a gente agarrar ou lamber

com atenção

quando algo importante está no centro

da terra e da gente que é vivo

i ching magma espírito matéria

poetas traduzem pela meta/

de propósito

algo importante será revelado

pela câmera analógica de poetas

quando a luz avançando o sinal vermelho

poetas são carteiros

do único envelope

extraviado aquele

quando todas as versões

são possíveis

quando

poetas lavarem a roupa

suja do mundo encontrarão

no bolso da calça um bilhete

ilegível e por isso vão lê-lo

em voz alta

poetas falam

por isso sempre que posso

ouço com atenção

poetas falam

ouço com atenção até quando

sua voz é a minha

tomada de empréstimo

seguindo o dedo

que segue a linha

*

PROCEDIMENTO

a poesia é uma cirurgia

às vezes corpo aberto

às vezes câmera oculta

a poesia é uma cirurgia e eu gosto

de sobreviver

*

SIGNOS EM ROTAÇÃO

o poema é

tempo arquetípico

linguagem em tensão

silêncio e não-significação

poesia e, além disso, outras coisas

um ato inexplicável exceto por si mesmo

retorno da palavra à sua primeira natureza

irredutível à palavra e, não obstante, só a palavra o exprime

uma unidade que só consegue constituir-se pela plena fusão dos contrários

sua necessária dependência da palavra tanto como sua luta por transcendê-la

uma experiência em que a nossa condição, ela mesma, revela-se ou manifesta-se

mediação entre uma experiência original e um conjunto de atos e experiências posteriores

o verso é

unidade indivisível  e compacta

……………………………………………..

dimensões

e se todos esses dias
toda a angústia, toda a treva
todos esses sonhos
todos os abraços
toda guerra e invasão
mais as terras dos quilombos
as festas e as decapitações históricas
o grande amor de nossas vidas
a revolução bolivariana
o nosso medo do escuro
os reflexos das poças d’água
o barulho dos bules ferventes
as certezas que escondemos
forem o sonho estranho
de uma cachorra velha
que se mexe, de olhos fechados,
na soleira de um mundo
por completo desconhecido?


cassandra

como um país que não se esquece de seus mortos e seus vivos
como um povo que resguarda a língua anterior às fronteiras
porque são eles mesmos a língua,
a língua é eles
como tua capacidade de amar novas pessoas
e reconhecer cheiros antigos
e querê-los, porque assim respira mais.

como a dura revolta de nossos ossos,
como as multidões que se levantam,
tu tem direito à tua história.


bem-vinda

em uma casa desconhecida
é preciso observar os movimentos das coisas:

o gás se vem da rua ou botijão
as árduas relações entre tomadas e eletrodomésticos
botões de liga e desliga
a política da limpeza
se toda sujeira é política.
as cores das chaves, as trancas trocadas
encaixar, tirar e encaixar de novo
na busca do que é espontâneo.
entrar na casa como se sempre fosse.
sair como quem volta ao pôr do sol.

conhecer as gavetas, os tacos soltos
os insetos que invadem o verão
a hora da caminhonete de frutas
o dia do lixo para fora
a vizinha, e a outra, e a outra.
as vizinhas são sempre muitas.

compreender a linguagem do cão
quando pede, quando avisa,
quando, cão, espanta os gatos do telhado.
aí descobres que há gatos no telhado
e os barulhos deixam de assustar.

em uma casa desconhecida
tudo o que se move é sinal
conversa intermediada
entre objetos e combinados.
em uma casa desconhecida
é preciso chegar manso
e apoderar-se.

( Se quren escoitalo, na voz Naju Gomes, aquí teñen a ligazón. )


aula de poesia

na aula de poesia líamos gabriela
desalojada estrangeira, e dor,
disseram que eu era a melhor
para traduzir a palavra saudade.
todos me olhavam curiosos
e as bocas faziam curvas
na sinuosa formação das sílabas.

– a saudade é um imprevisto
que se alarga pelo continente,
poderia dizer
e mostrar tuas fotografias.
sinto falta do calor
mas vejo miragens.
o que veio primeiro, a palavra
ou o mundo?
questionaria ao país sem nome
já sabendo sua resposta. –

mas, desatenta, não soube falar.
pega no flagra trocava contigo
como cartas a doris dana, loucura
além da contagem dos dias
mensagens secretas,
minúsculos furtos.


setembro

os desenhos dos filhos pequenos
tinham sem exceção uma paisagem
sol amarelo e carros de polícia
triângulos em fila, cordilheira
um horizonte fechado
as crianças de 73 olhavam o mundo
e o mundo era esse
naqueles tempos
quando os papais
de repente
foram todos embora

(Se queren escoitalo na voz de Ive Rebelo, fágano aquí.)


procedimento básico

durante um temblor
imite os nativos, eles disseram.
se correrem, corra.
se pararem, pare.
se seguirem, siga.

se for preciso, você pode
segurar no braço
de uma desconhecida
porque você não é daqui
você não entende, mas eles sim
olha para a desconhecida com cara de medo
o que você sente é medo
conta os segundos
e ouve o barulho da terra
morrendo, não, crescendo
para onde eu não sei
depois você abre os olhos
como um recém-nascido você abre
e olha as paredes das casas
elas estão intactas
dessa vez, juro, estão.

(Se querren escoitalo na  voz da propia Helena, velaí a ligazón )

……………………………………..

um narrador que grita

nunca, nesta vida ou nas próximas
poderei escrever como uma poeta portuguesa.
posso imitar os versos grandiosos
de uma poeta portuguesa
posso copiar os sentimentos precisos
de uma poeta portuguesa
posso falsificar documentos
como faz a decadência das fronteiras
sem pátria e sem trabalho
duas casas e nenhuma.

posso dizer que sou
e assim chegar ao limite
convencer alguns católicos
não-praticantes do ofício da fé
andar nas ruas como uma poeta portuguesa
erguer talheres como uma poeta portuguesa
falar dos mares e do amor infinito e súbito
como o faria uma poeta portuguesa;
como se sozinha o detivesse
no centro do corpo
contra os monstros marítimos.

posso fingir que compreendo e que me espanto;
posso escrever como uma subdesenvolvida
a fingir que conhece a solidão do hemisfério norte
e os cânones das bibliotecas
que nomeiam ruas, escolas e tentativas.

posso esculpir um pássaro e narrar seu voo
como se voasse.
como se existisse para tal fim.
posso contar as pérolas
dos pecados da ave maria
(em segredo sepulcral).
mas nunca, sob hipótese alguma,
poderei escrever como uma poeta portuguesa.

são outros os meus heróis.


inolvidable

perguntou
o que é mulher
apenas para destrinchar respostas
depois perguntou o que é o fogo
brincava
mas não sabia exatamente
se da combustão vinha o calor
ou vice-versa

se vinha das pernas o toque
ou o toque nas pernas

duas mulheres sussurram
sílabas mais altas do que deviam
tudo é mais
do que devia
menos o silêncio

duas mulheres atracadas
no topo do mundo
visíveis a olho nu
às vizinhas comedidas
às senhoras que passeiam
com seus cães também idosos
em passos lentos
a dança sincrônica
dos passos dos cachorros
duas mulheres uivam
ao mesmo tempo
no topo do mundo
na grande janela
no meio da rua
e em cima dela
uma e a outra.

tenho medo de deixar esta imagem sumir
pelos dias
repito-a na fronte dos olhos
a luz cabisbaixa
dos postes da prefeitura
a formar meias luzes
seu rosto e o meu
as mãos
espalhadas
tenho medo de que suma na memória
a dobra da perna
repito-a
até que encontre
a palavra exata
e sua tradução
em mil línguas
e a minha
e a sua.


3.255 km

um par de noites pensando qual
a dedicatória inesgotável
para cada um dos livros
escritos por outras pessoas
que te enviarei por correio
já cobertos de grifos
quando tudo o que pudermos
ao invés das leituras em voz alta
e das ideias ditas
nos mesmos milissegundos
for a tradução bilíngue
o descompasso de fusos horários
e o medo assustador
de nos tornarmos outras pessoas
de códigos indecifráveis
como os olhos das estátuas.

talvez tente escrever manso
para que não se preocupe comigo
talvez algo de monstruoso apareça
no verso branco da capa
junto a fotos de paisagens e nudez.
o mundo que se agiganta.
es que te extraño, tortillera.

quando não puder me contar
das rodas gigantes que habitam seus sonhos
três segundos após acordar
talvez pensemos que sonhamos menos

livros se perdem em caixas
de mudanças, carretos,
casas que reduzem de tamanho.

ainda assim estarei ali
em meia dúzia de palavras
arrebatadoras talvez ansiosas
ao lado de sua cama
(eu só queria habitar seus lençóis)

com amor,
helena

………………………………………………………………..

SOBRE QUANDO MONTAMOS SIBILOS

certas palavras fazem
barulhos bonitos
quando faladas
fissura
rastro
malefício
baluarte
frissom
casulo
tijolo
socialismo

ainda que pouco saibamos
dos reais significados
para tanto significante
fonema após fonema
mesclados, mordidos em busca
nos mapas da boca humana:

dentes, palato, garganta
é toda vontade de dizer.

…………………………………………

POEMA DA DIALÉTICA

que a eternidade dos homens e mulheres é a mudança.
hoje estamos amanhã não.
às vezes a amo mais; às vezes.
é que não passo fome.
como acordar no dia seguinte
a um golpe de estado?
se o sol é o mesmo, ardente
se as rotas dos carros mantém seus traçados
no mapeamento da cidade
se não vemos diferença
entre os abacateiros de ontem e hoje
a terra seca, a água seca, os caminhões
mas quando um cobrador de ônibus
já meio careca
declama ao mundo de viajantes
esse partido não está lá por nós
é gira catracas para os moleques
nós a humanidade lembramos:
estamos vivos

a mão de quem mexe as terra não são as mesmas:
cada dia um novo reforço
para os mesmos calos

………………………………………..

em uma casa desconhecida
é preciso observar os movimentos das coisas:

o gás se vem da rua ou botijão
as árduas relações entre tomadas e eletrodomésticos
botões de liga e desliga
a política da limpeza
se toda sujeira é política.
as cores das chaves, as trancas trocadas
encaixar, tirar e encaixar de novo
na busca do que é espontâneo.
entrar na casa como se sempre fosse.
sair como quem volta ao pôr do sol.

conhecer as gavetas, os tacos soltos
os insetos que invadem o verão
a hora da caminhonete de frutas
o dia do lixo para fora
a vizinha, e a outra, e a outra.
as vizinhas são sempre muitas.

compreender a linguagem do cão
quando pede, quando avisa,
quando, cão, espanta os gatos do telhado.
aí descobres que há gatos no telhado
e os barulhos deixam de assustar.

em uma casa desconhecida
tudo o que se move é sinal
conversa intermediada
entre objetos e combinados.
em uma casa desconhecida
é preciso chegar manso
e apoderar-se.

…………………………………..

EM NOME DA ORDEM

amor
é coisa de mulherzinha
mas também a solidão
coisa de mulherzinha feia e/ou carente
bem como as lágrimas, a dança, os backing vocals:
todos coisas de mulherzinhas,
várias delas.

a poesia
é coisa de mulherzinha
os livros de receita
o preparo do almoço
a louça suja
todas as etapas são
coisas de mulherzinhas
e somente delas.

a mistura do vermelho e do branco
que estampa objetos diversos
e roupas de bonecas
é coisa de mulherzinha.
a ponta dos dedos,
o manuseio,
a agulha e a linha,
são meticulosamente coisas
de mulherzinha.

o medo é coisa de mulherzinha
o trauma é coisa de mulherzinha
e as dores
e as ervas.

tudo indica que não nos cabe
a palavra plena e primeira.

tampouco os superlativos:
expressamente proibidos
em nome da ordem.

………………………………..

faz tempo
um poema que expresse
amor
só o amor, sem tempos duros
sem pratos quebrados na parede
e a angústia das lâmpadas

pensei
que estivesse o corpo intacto
que já não sentisse nada mas
o amor, esse escafandro
escancarado
crescendo as plantas marinhas

a gente deu as mãos
pensei de brincadeira
não consigo escrever esses versos
sem pensar em seu rosto
e seus cabelos
alguma coisa aconteceu
no meu organismo
não consigo imaginar alguém
que leia este poema
e não veja nele
o seu rosto e seus cabelos
meu rosto
meus cabelos.

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