Camila Assad: as infinitas posibilidades do caos.

Hai tempo xa que quería escribir sobre a poesía de Camila Assad, mais como a súa presenza na Rede non me dá para facer unha selecta  á altura do que ela merece e a min me gustaría, fun adiando a ocasión até hoxe. Até hoxe, en que considero que unha poeta desta altura non pode agardar máis, pois, aínda que a selecta da súa poesía me gustaría que fose maior, o que reunín ben abondará para deixar unha imaxe fiel dunha poeta extraordinaria, unha poeta da década dos 80¨ (finais) que agora se atopa comezando eses anos que se din de madureza  atendendo á evolución biolóxica. Que se din, porque, en realidade Camila é, desde os seus inicios, unha voz poética tremendamente potente, consistente, esixente e moi traballada, desas que un cando un as le, nunca esquece. E non por afortunada casualidade senón que desde a mesma concepción do poema se proxecta unha autoría, unha voz moi persoal, moi singular, absolutamente imprescindíbel.

Cal é entón a súa poética? Cal é a súa concepción? Pois da lectura dos seus poemas extráese que non procura que quen le sinta admiración polo texto. Ese é un obxectivo moi primario e a poesía de Camila Assad está tan traballada, e a poesía de Camila Assad é sempre unha quebra da obviedade convencidísima…de xeito que os seus textos están máis destinados a incomodar a que le, a inquirilo e movelo a reflexión…que a epatar, que ao inmovilismo admirativo.

Camila Assad (Presidente Prudente, cidade do interior de São Pualo, 1988) non é unha poeta prolífica. Tendo en conta a importancia que lle concede ao traballo sobre a expresión, á contínua experimentación na procura da mellor expresión, o seu perfeccionismo…tamén non era de agardar outra cousa. Deica o momento coñézolle Cumulonimbus (2017, Quintal Edições), e eu não consigo parar de morrer (Urutau, 2019); teño noticia de que tamén publicou Desterro, mais pouco sei del, tamén é de 2019, chamou a atención do ProAc/SP e permitiulle publicar na Macondo, nela establece un diálogo do corpo coa cidade, unha temática moi de ideario feminista (visto deste lado do Atlántico) polo que ten de reifección, de refacer continuamente a muller o seu corpo (esa necesidade), cousa que, se se pon en contacto co seu anterior título (eu não consigo parar de morrer) resulta bastante agardábel. Non quero con isto dicir que os seus pomarios non teñan unha personalidade propia e diferencial, distintiva; mais ese título, “eu não consigo parar de morrer” resulta tremendamente significativo, tanto que en si vale por todo un poemario. Debo vencer, pois, a tentación de continuar o camiño temático que veño de sinalar, a fin de contas estas presentacións pretendo que sexan breves.

Mais hai outra cousa, vostedes poderán comprobalo na selecta, que non pode esquecer porque dá conta de algo que xa dixemos (o contínuo traballo sobre o texto) e á vez tamén é tremendamente sintomático: a ruptura da voz poética tradicional da poesía; Camila procura diversas voces, diversas personaxes que se manifesten, case se pode dicir que existe unha voz supranarradora que dá entrada a otras desde as cales se procuran novas focalizacións que, desde o estrañamento, se proxectan a atraen a atención de quen le, de quen le unha poesía que nunca é inocente. En realidade, a escrita nunca é inocente, e, desde a voz femenina e feminista hai tantas cousas que contar, hai tantas cousas que denunciar ( neste Brasil hiperconservador, machista e racista).

Camila Assad é tamén unha poeta urbana, como poderán ler. É desde a cidade que ela se propón sorber o mundo, precipitarse no mundo para achar o seu lugar ou para denunciar o que ve, o que sente ao ver. E na súa visón do mundo ha de influír, con toda seguranza, a súa intensa actividade tradutora, que sempre achega voces poéticas interesantes non só polo que din senón tamén por como o din.

Aínda sabendo que xa falei moito del, quero reiterar o título eu não consigo parar de morrer. A bon seguro ha resultar central na súa obra porque é unha extraordinariamente bela forma de expresar como se sente a muller, como se senten as mulleres que o mundo non remata de entender, de asimilar, de contemplar na especificidade dos valores que o seu sexo lles confire e a Historia oculta.

O mundo é puro caos.

O mundo é puro caos onde o negativo ocupa os espazos que deberían ser positivos.

Hai séculos, hai moitos séculos, hai todos os séculos que ninguén atopa a razón.

A poesía é un camiño, unha praxe, un método de autocoñecemento. A poesía é unha forma de partillar.

A poesía nunca é inocente.

Sen vertixe non se pode atopar o equilibrio.

Cada vertixe é unha posibilidade.

Como sempre, deixo ligazón ao seu Facebook, e non é preciso que indique que a súa lectira é do máis interesante. 

Imos coa súa poesía, precipitémonos.

(Na Ruido Manifesto)

1)

M. não está conseguindo

se lembrar de seus mortos

o rosto da mãe, o gosto da

nicotina exalando pela

pele ao fim do dia.

*

é como se o passado fosse

um túnel de desenhos animados

em preto e branco arranhados

em uma parede.

ela ainda está tentando.

pensa em bois e plumas,

pensa em como carregamos

sempre conosco um mugido

de tristeza.

uma memória extinta é um país que sumiu do globo terrestre

hoje vou contar todos os

melros entre a prisão

e o Walmart onde agora

na sua tristeza galopante

um homem careca soa a

buzina no carro, onde um bebê

balbucia pela primeira vez

um som parecido com “água”,

onde a namorada — com toda sua

infelicidade — prende com um grampo

a franja recém-cortada.

*

agora mesmo

na emergência

no ápice da crise

ao lado da enfermeira

diz que se sente enterrada

como uma mosca no âmbar

como as tvs da sala de espera

e gira a ampulheta dourada

do desespero.

*

eu penso em quando eu era

uma criança, em quantas vezes

o mundo parecia que ia quebrar,

mas então, milagrosamente,

impiedosamente, não o fez.

*

2)

nunca fomos tão ingênuos

mas a materialidade das superfícies

encarando arestas brutas

invadiram nossas mãos.

toda mão é ferramenta

serve para estancar o sangue

do porco recém-abatido

serve para contar as horas

em que o sangue permanece quente

serve para acariciar os cabelos

consolar: não chore o abate suíno,

a vida é muito menos que isso.

*

3)

eu lhe peço para que não olhe

a saia rodando com o vento

e com os movimentos bruscos do

quadril adentrando a trigésima

temporada invicta. tem algo de

maligno no teu olhar, por isso não

note a unha roída, o pó compacto

ressecado no compartimento de

organização de maquiagens; é

hora de começar a escrever

poesia em bactérias e esperar

pela contaminação. o ambiente

anaeróbico favorece o desaparecimento

das doenças incuráveis. a pelúcia

ainda está na sua cama, mas

eu não me atrevo.

*

4)

construo as ruínas pra dizer que já estive

aqui. mesmo nos dias de feira eu vinha

acampar nos seus quintais sem verde.

mesmo a pé eu vinha, exalando fogo

pelos buracos do nariz, expelindo os

órgãos, como se não me fossem úteis

assim como saber que o coração de um

peixe tem apenas duas cavidades e o dos

anfíbios três.

*

5)

eu esqueci nome da minha mãe

declarei guerra contra a Suíça. me

aliei aos alfaiates que restaram na

avenida São Luiz, vamos costurar seu silêncio.

é mais que promessa, veja, o fim da manufatura

me permite ter três jogos de lençol

— embora nenhuma cama

………………………

(Nos “poemas da quarentena” de Macabéa Edições)

silente

não sei como deve ser fundar uma vila

chegar entre mata muito fechada ou

ir ao encontro da natureza inviolada

dos terrenos e das clareiras mais sagradas e puras do mundo

sei apenas dividir meu cabelo, partir o pouco pão a que tenho direito,

gastar a cor das sapatilhas com que ando

não sei

recuperar a luz dos dias mais bonitos

e escrevo neste lugar temente

de que de repente tudo finde

e nós não tenhamos testemunhado

quase nada sobre a beleza daquilo

que vimos e não pudemos guardar

………………………………….

(Na Poesia Primata)

Eu moro nos atrasos

e por isso ninguém nunca

                      me encontra

Eu me exilo no bolso

rasgado do teu terno azul

– aquele reservado para os

velórios dos parentes distantes

Eu sou minúscula

por vezes

  invisível

Eu moro na poeira

oculta dos idiomas

                  extintos

Eu submerjo das águas

da fonte central

da cidadela de

três mil membros

– dizimada há

mais de meio século

Quando fito o espelho

nem me percebo

sou maleável, sou

um elástico de cabelo

desses que se perde um por dia

                                        por aí

há prazer no inacabado por isso Florença

chorou ao perceber a última demão seca.

não se pode confiar nas aparências, ela me

disse, não confie porque sei que embaixo de

tanta camada não há beleza. sei a cor do tijolo bruto

o amarelo canário não disfarça as bolhas no cimento

que ela sabe, ainda resistem, ainda a encaram.

.



eu construo uma antessala

com balões de gás hélio

e reciprocidades

fico apanhada ao seu dedo mindinho

como se um furacão nos cingisse

e você fosse a esperança derradeira

as mesas estavam postas

mas foi tudo

             derrubado

………………………….

(Na SubVersa)

como transpor dez anos de ausência de um coração minguado pro meu estéril papel?
como misturar o que vem da carne mole e tenra do músculo que pulsa a gritar teus nomes perdidos àquilo que vem da árvore extinta?
eu que ousei considerar ser possível
destilar o que fenece daquilo que vibra
ou até mesmo fragmentar o que se sente
daquilo que provoca brando alivio.
como sobreviver a todas as faces
conversas
estórias?
Bob deu um tiro no peito na Alemanha em 09.
Ebba pariu um rebento loiro na Dinamarca em 11.
Lucas casou-se com Benny em cerimônia de luxo na Califórnia em 13.
Marilia ficou órfã hoje pela manhã na Vila Mariana.
mas como eu faço
pra medir desgosto em pés ou em polegadas?
unir matéria física àquilo que foi feito pra dissociar?
você
você já sabia que não ia ficar mas disse que ia mesmo assim e eu aprecio quem mente por consolo
você vai casar parir um rebento virar órfão e dar um tiro no peito nesses anos iminentes e como é que eu vou fazer pra transmutar meus pés que ardem em bagagem que plana desafiando a gravidade em senso comum?
vai doer uns 10 mil pés e umas 10 mil polegadas e eu nem lembro mais o quanto isso significa mas sei que é muito.

………………………

Para rematar, e porque ten moita importancia no seu traballo intelectual, lean estas traducións de Louise Glük, Nobel de Literatura 2020.

Teoria da memória

Muito, muito tempo atrás, antes de eu ser uma artista atormentada, afligida pela saudade ainda incapaz de estabelecer ligações duradouras, muito antes disso, eu era um governante glorioso unindo todos em um país dividido – foi o que me disse a cartomante que examinou minha mão. Grandes coisas, disse ela, estão à sua frente, ou talvez atrás de você; é difícil ter certeza. E ainda, ela acrescentou, qual é a diferença? Agora mesmo você é uma criança de mãos dadas com uma vidente. Todo o resto é hipótese e sonho.

Pingos de neve

Você sabe o que eu fui, como eu vivi? Você sabe
o que é desespero; então
o inverno deve ter algum significado para você.

Eu não esperava sobreviver,
a terra me suprimindo. Eu não esperava
acordar novamente, sentir
na terra úmida o meu corpo
capaz de responder novamente, lembrando
depois de tanto tempo como se abrir novamente
na luz fria
da primeira primavera –

assustada sim, mas entre vocês novamente
chorando mas arriscando alegrias

no vento cru do novo mundo.

Manhã

Você quer saber como eu gasto meu tempo?
Eu caminho pelo gramado frontal, fingindo
estar capinando. Você deve saber que
Eu nunca estou capinando, de joelhos, puxando
aglomerados de trevo dos canteiros de flores: na verdade
Estou procurando por coragem, por alguma evidência de que
minha vida vai mudar, embora isso
leve uma eternidade, verificando
cada aglomerado para a folha
simbólica, e logo o verão estará terminando, as folhas já girando, sempre as árvores doentes
indo primeiro, a morte virando
amarela brilhante, enquanto alguns pássaros escuros executam
seu toque de recolher musical. Você quer ver as minhas mãos?
Tão vazias agora quanto na primeira nota.
Ou a intenção sempre foi
continuar sem um sinal?

Sirene

Tornei-me uma criminosa quando me apaixonei.
Antes disso eu era garçonete.

Eu não queria ir para Chicago com você.
Eu queria me casar com você, eu queria que
sua esposa sofresse.

Eu queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todas as cenas fossem cenas tristes.

Uma boa pessoa
Pensa assim? Eu mereço

créditos pela minha coragem —

Sentei no escuro na sua varanda.
Tudo estava claro para mim:
Se sua esposa não te deixasse ir
isso provaria que ela não te amava.
Se ela te amasse
ela não gostaria que você fosse feliz?

Eu acho agora que
se eu sentisse menos eu seria
uma pessoa melhor. Eu fui
uma boa garçonete.
Eu conseguia carregar oito garrafas.

Eu costumava te contar meus sonhos.
Ontem à noite eu vi uma mulher sentada em um ônibus escuro –
No sonho, ela está chorando, o ônibus em que ela está
está se afastando. Com uma mão
ela está acenando; a outra acaricia
uma caixa de ovos cheia de bebês.

O sonho não resgata a donzela.

Primeira memória

Há muito tempo, fui ferida. Eu vivi
para me vingar
contra meu pai, não
pelo que ele era –
pelo que eu fui: desde o começo dos tempos,
na infância pensei que
aquela dor significava que
eu não fui amada.
Isso significa que eu amei.

Os orixinais:

Theory of memory

Long, long ago, before I was a tormented artist, afflicted with longing yet incapable of forming durable attachments, long before this, I was a glorious ruler uniting all of a divided country-so I was told by the fortune-teller who examined my palm. Great things, she said, are ahead of you, or perhaps behind you; it is difficult to be sure. And yet, she added, what is the difference? Right now you are a child holding hands with a fortune-teller. All the rest is hypothesis and dream.

Snowdrops

Do you know what I was, how I lived? You know
what despair is; then
winter should have meaning for you.

I did not expect to survive,
earth suppressing me. I didn’t expect
to waken again, to feel
in damp earth my body
able to respond again, remembering
after so long how to open again
in the cold light
of earliest spring –

afraid, yes, but among you again
crying yes risk joy

in the raw wind of the new world.

Matin

You want to know how I spend my time?
I walk the front lawn, pretending
to be weeding. You ought to know
I’m never weeding, on my knees, pulling
clumps of clover from the flower beds: in fact
I’m looking for courage, for some evidence
my life will change, though
it takes forever, checking
each clump for the symbolic
leaf, and soon the summer is ending, already
the leaves turning, always the sick trees
going first, the dying turning
brilliant yellow, while a few dark birds perform
their curfew of music. You want to see my hands?
As empty now as at the first note.
Or was the point always
to continue without a sign?

Siren

I became a criminal when I fell in love.
Before that I was a waitress.

I didn’t want to go to Chicago with you.
I wanted to marry you, I wanted
your wife to suffer.

I wanted her life to be like a play
In which all the parts are sad parts.

Does a good person
Think this way? I deserve

Credit for my courage –

I sat in the dark on your front porch.
Everything was clear to me:
If your wife wouldn’t let you go
That proved she didn’t love you.
If she loved you
Wouldn’t she want you to be happy?

I think now
If I felt less I would be
A better person. I was
A good waitress.
I could carry eight drinks.

I used to tell you my dreams.
Last night I saw a woman sitting in a dark bus–
In the dream, she’s weeping, the bus she’s on
Is moving away. With one hand
She’s waving; the other strokes
An egg carton full of babies.

The dream doesn’t rescue the maiden.

First memory

Long ago, I was wounded. I lived
to revenge myself
against my father, not
for what he was—
for what I was: from the beginning of time,
in childhood, I thought
that pain meant
I was not loved.

It meant I loved.

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