Laís Araruna de Aquino: a poesía como un sopro da beleza que nos resta.

Se Camila Assad, a semana pasada non era demasiado frecuente na Rede, hoxe, con Laís Araruna de Aquino, temos moita máis sorte, polo que poderán ler unha boa mostra da súa poesía, da súa obra, da cal polo momento só coñezo un título: Juventude (Reformatório, 2018). Un só título, non é a primeira vez, mesmo teño difundido poesía brasileira de muller de poetas non éditas. Certamente, o título, “Juventude” dá para pensar en posteriores títulos xa de poesía “máis madura”. Se temos en conta que Láis naceu no 1988 (Recife) e versalitidade coa que ela se manexa á hora de poetar, non é precisamente calidade o que lle falta, todo o contrario; así que, evolución haberá (temática e formal) mais iso será porque é o normal en calquera autoría. O feito de ela ser de Recife, tan lonxe do triángulo São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ( ou do eixo SP-RJ)  tamén pode ter ter que ver en que tardara tanto en publicar, aínda que hai unha nada desprezábel tradición de autorías recifeñas, ente elas Manuel Bandeira, un dos nomes fundamentais para Laís..

Porque a poeta é un ser sensíbel que non quere calar, porque a poesía nunca é incoente e ela sabe ben de que parte debe estar. Se miramos na súa poesía da selecta hai dous conceptos que se repiten significativamente. “Noite”, dá unha idea da concepción da vida. E “sopro”, que dá unha idea da concepción da poesía, que pola súa brevidade é iso, sopro, e se botamos man dun seu  poema podemos concluir, como no título, que é un sopro de beleza e a beleza é todo o sentido que ainda nos resta.

Concíbese a poesía como un espazo de liberdade, tan necesario non só por ter a pel negra, mais fundamentalmente. E a voz poética feminina como unha voz de todas as mulleres, solidariedade e sororidade imprescindíbeis nos tempos que nos toca vivir. A escrita de pel negra non pode substraerse ás “escrivivencias” de Conceição Evaristo, non, porque para as autorías de pel negra non existe a liberdade temática de que goza a pel branca, ten na súa condición racial un imperativo temático ineludíbel. A poeta non pode formar parte da “vocación suicida da normalidade” porque fica interrompida a “ética da aceptación” -en palabras de Daniel Salgado no seu último poemario (Os paxaros, Xerais, 2021.

Deste xeito proponse unha ética do corpo, tanto na súa reivindicación racial como na inevitábel loita contra  o tempo. E esta ética do corpo denuncia, reflexiona e denuncia. Exerce a única liberdade posíbel, a poesía.

Tamén me satisfai moito non ser eu o  primeiro galego a reparar na poesía de Laís, que é unha poesía de moita consistencia, absolutamente contraria á vulgaridade procura ser ese sopro de beleza que abra a noite a un esperanzador día. Non, pois a revista Palabra Comum (Revista galega lusófona) xa divulgou a súa poesía, coa que precisamente comezamos a nosa selecta, xa o fixo en 2019.

Resta por dicir que Juventude recibiu o Premio Maraã de 2017, un bo motivo para ser editada, e que profesionalmente non se dedica a nada que teña que ver coas Letras, senón que a súa actividade laboral exércea no Dereito. Dígoo, porque a inmensa maioría de poetas que divulgamos rematan sendo formadas en Letras.

A continuación, como sempre, déixovos o seu Facebook e animo a que sexa seguido, pois ten ben interese.

Vai a súa poesía, enormemente vitalista, un sopro de beleza na noite dos días.

(Na PalabraComum)

INDIVÍDUO N. 3 (OU A FESTA DO VAZIO)

então retornas ao mesmo tema
que faz um homem entre demasiados homens,
existência entre existências refluindo sobre si

um homem, aberto ao tédio e aos desertos,
cujo ser, de tanto contemplar,
não imolou a própria vertigem
até o som da lira ou do asco crepitar

e a sua existência –
este incêndio da face destituída ao espelho,
tão breve como a pulsão da aurora
ao encontro da noite fria

as tardes não te darão nada, meu filho,
a não ser a hora demasiado tardia de caminhos esgotados
ou o fundo vazio de estações indivisas
que te convidam a morrer no azul

é inútil assim ir como permanecer
exaurido no homem antes de ti
mas, se vais, escolhe o longo caminho
fora dos portos conhecidos,
propícios aos naufrágios dentro de si

no limiar da noite esquiva, entre esquinas mal iluminadas de astros,
a chama ausente do satélite inundará o teu ser
com um chamado lúbrico para o abandono
na vasta planície onde cantam as sereias do nada

mas não te afogues em aporias
deixa que o sopro do absoluto –
isto que ainda tens de uma infância –
dê-te o fôlego, mas não a chave inútil

não há portas
todas as construções ruíram
mas sob a tua soleira – a do teu ser –
o vento continua a rugir

o vento – ou as vozes que conjuras
na festa do vazio

ODE À MANHÃ

a manhã levanta do horizonte
tenho vontade de escrever e a cabeça não dói
está nublado e chove um pouco como se
deus molhasse as pontas secas
do coração entrincheirado da véspera

ontem quando olhei o céu estrelado
só pude ver o vazio na cavidade do meu peito
mas a manhã veio como uma certeza e uma novidade
agora a água cessou, um hino se inicia
os pássaros dão glória e se lançam no azul

deus abre e fecha a sua obra
ou são os homens que esquecem a criação?
ao poeta cabe apanhar a luz do ser
e dar-lhe o cristal do nome, onde a imagem fulgura
e deixa-se permanecer como um estremecimento –
compete atentar para a anunciação,
os raios do sol quebrando numa geometria
concreta sobre a folhagem,

e deixar que a nossa alma se encha
de alegria ao crepúsculo, ao refluxo das águas
ou à chegada do sono após a exaustão
às vezes, lembramos nossos corpos imperfeitos
e sentimos exalar a tristeza da finitude
mas damos graças – ou deveríamos dar –

por ter acontecido de estarmos aqui
como um lampejo entre os dias e a noite,
entre um afeto e uma cicatriz,
entre Sêneca e Walser,
as flores do campo e o estio,
sendo por tudo tocados nesta alternância
e a tudo tocando

aconteceu de estarmos aqui,
neste instante fecundo,
salvo para sempre porque votado ao esquecimento e ao fim –
ao invés de vagarmos anonimamente e sem rumo
como a poeira eterna do universo

AS MEMÓRIAS INVISÍVEIS

caminhas pelas estradas polvorentas da tua memória
recebes o vento pelas costas
algum sopro veio do mediterrâneo e tem a secura do deserto
pessoas cruzam e desaparecem para nunca mais
estás sob o sol asfixiante de junho à esquina da Calle Evangelista
ou passeias no Luxemburgo sob um guarda-chuva chinês
foi este ano ou o passado ou uma década atrás
(agora já contas as décadas)
mas os nomes traem as coisas
falta-lhes o excesso a mancha a impureza
os nomes têm a textura derruída da ausência
e a sua lâmina, uma ponta cega encardida pelo tempo
a Rua da Aurora no começo de uma tarde em agosto
não é a Rua da Aurora no começo de uma tarde em agosto
é também o teu ser precário sobre o Capiberibe veloz
e os quadros e arcos das pontes na extensão do azul
sem os nomes as coisas dormem no lago universal
do esquecimento e misturando-se às águas e às algas
destituem-se pouco a pouco como as margens de um rio
tragadas pela correnteza
chamá-las porém não lhes devolveria a face
(vulto que se perdeu ao virar a esquina)
cada coisa porém guarda o seu secreto nome
sob a arquitetura inviolável de um momento extinto

a poesia é – talvez – a tentativa de construir
para esse nome – uma esfinge à luz do dia

NOTURNO N. 3

as nuvens estão baixas e cinzentas
como carvão queimado
a lua –
um pingente barato
ou, talvez, a coisa em si, satélite
não apareceu no firmamento
o céu está despovoado –
há no vento um presságio insignificante
quiçá, um barulho nos cômodos do apartamento
mas certamente não um chamado ou um embuste
tudo é excessivo para aquele que busca
colmatar as lacunas –
meu corpo está aberto como uma vala seca de rio,
exposta e indefesa aos vazios que a noite carrega
na transparência opaca das coisas
não chegaremos muito longe
todos os espelhos foram quebrados
desde o expurgo do último metafísico
nossos olhos piscam, confinados em arquiteturas
não virá a nave com que atravessaríamos
as veias escondidas deste breu
mas nunca se sabe a cadência dos meteoros
que podem riscar o céu
não esperes o fulgor de uma eternidade
de que não saberias o uso
a noite é este brilho interrompido –
para nós, que esperávamos a razão total
sob a glacialidade de uma estrela
mas é nesta noite – e não em outra maior
que nos cabe perceber a sua chama pura e inútil,
o seu afago tão largo como o vento,
ó morada transitória do sentido,
onde, por um momento apenas, nossos corações se acalentam
e depois se extraviam

MAIO 2018, NAS GRAÇAS

eu então sabia que a vida seria isto
enquanto descia a rua com meu cachorro
eu sabia que descia aquela rua no entardecer
da minha juventude, uma rua de mangueiras, jasmins e acácias,
em cuja esquina uma buganvília jorrava
em flor sobre os muros de uma casa,
renovando-me o gesto de calma contemplação
contra o meu espírito obstinado em velhas questões
seria isto –
passeios e intermitências, pensamentos engastados
em nomes e sínteses inúteis, mas no caminho não-raro
uma rua desaguava no céu polido de azul
ou uma lufada de vento fresco saciava o verão quase eterno
a cada manhã, logo cedo, os raios do sol ainda baixo,
perto do horizonte, iluminavam-me a face sem aquecer,
devolvendo a promessa dos dias como um sábado sem deveres
ou uma infância fora do tempo
seriam essas delicadezas inesperadas do cotidiano
e, por isto mesmo, esperadas sem ânsia e inquietude
seria isto e a consciência latejando como quem diz
estás viva e é isto ou nada
eu sabia que seria isto
a vida se consumando ininterruptamente
nos seus pedaços, sem uma borda ou um anteparo
de onde pudéssemos conservar intacta a memória
dos dias, sem a contaminação de tantos outros dias
perdidos na malha dos anos;
a vida se consumando sem o fulgor do bronze
ou de incêndios violentos, como uma perda gradual
que dá por si tarde demais
eu me despedia das quimeras, dos clarões duradouros de felicidade,
que pudessem alcançar todo o caminho
e ressignificar os fatos mais aleatórios, redimindo-os
em uma vida cheia de sentido –
as coisas ficavam para trás mais sutilmente
como o rastro de um barco no oceano
ou a fumaça de algum fósforo logo dissipada
talvez a mudança mais perceptível fosse o meu
rosto examinado atentamente, uma ou outra
marca que insistia em não abandonar,
a recuperação inexata da pele, que não fechava
as aberturas do tempo
por isto, por essas configurações que se perdiam
a todo instante, eu tinha de me deixar arrebatar
pela dignidade de cada coisa no mundo e iluminar-me
de sua presença, para que o sentido nascesse
dentro de mim como um voo de pássaro planando no azul
desprovido de direção, um voo que é todo voo
e não outra coisa ou desejo de ir ou retornar
um voo como um gesto vibrando no ar
no seu puro movimento
o sentido nasceria ao deixar-me existir
ao lado de cada coisa existente,
de que somos talvez apenas o mensageiro –
cada coisa –
as folhas do bambu vibrando sobre a mesa
o azul acima das antenas dos edifícios
exaurindo-se no fogo lento do horizonte
a hora escorrendo na boca da noite até encontrar o sono –
eu sabia que a vida seria isto ou qualquer outra coisa
escoando veloz dentro do tempo
veloz e volátil como o perfume das espadas de são jorge
numa noite ordinária de maio
e dentro desta noite meu coração batendo compassado
no meio de invisíveis destroços e nascimentos
até que o fluxo abandone o meu corpo
e paire acima, na copa das árvores, ondulando
no movimento eterno das massas de ar, indo e vindo
incessantemente, sem dar pela minha ausência
neste mundo

PREFIRO OS DIAS DE CHUVA

prefiro os dias de chuva
não obstante o eu esbarre na resistência
das coisas que estão aí fora e não dão passagem
os pragmáticos comprariam cigarros
eu imagino a sensação de um trago cálido
e a imagem é mais real que o ato em si
como a lembrança deste dia fundará outro dia maior
sim, prefiro os dias de chuva
posso ficar fundamentalmente só
estendendo a pouca roupa no varal ou aguando
as plantas da casa
os arranhões do mundo não escalavram
a ficha da existência dispensa carimbo
deito no chão frio
isto confere qualquer sentido à falta de sentido
como ter um guarda-chuva no exato momento
em que não tempestua e aranhas
monstruosas assomam no jardim
não pensei sobre o resto do dia
não, pensei e nada resolvi
sobre a longa tarde de sábado
ou um modo novo de evitar o aniquilamento
provocado pela passagem do tempo
porque as possibilidades se desgastam facilmente
no uso da existência
o recurso do sonho
o recurso do prazer
o recurso da indiferença
todos subterfúgios barrados na intrincadíssima peneira do real
mais real que qualquer realidade suposta
no entanto permanecer não é um recurso
é um imperativo de recusa à dissolução
na noite anônima e animal
porque o homem é a negação daquilo
que ele não é
cogito levantar do chão
se eu me agarrasse à aposta de Pascal
escolheria a existência de Deus
e momentaneamente teria um ganho infinito
mas o não-saber cai-me tão pesadamente
como uma fissura impede represar uma certeza
cuja única certeza é pôr-se eternamente em questão
como um homem é uma transitoriedade
no devir de todas as coisas
ah mas este momento e esta chuva
sim, esta chuva e este momento
nada os rouba mais de mim

TEIA

não há seguro contra o estar no mundo
nem tua casa te previne contra o assalto da existência
as janelas não impedem o vento e o cortejo de passos
de te trazerem signos do nada
o silêncio acusa que estás no centro de coisas
que não oferecem consolo porque apenas remetem a teu exílio
o expediente de levantar da poltrona e abrir a porta
da geladeira mede o intervalo de tempo gasto
e não sabes de que te serviria mais
teu olhar interroga paredes e detém-se numa lamparina
em vão um inseto debate-se contra o vidro
não há senão esta só e única realidade

à beira do Capiberibe ou do Nevá

JUVENTUDE

Teus amigos – alguns – mudaram de cidade
os teus irmãos já não moram
com teus pais
foram para o norte, o sudeste
para as Índias, talvez

Mas tu, fiel, ficaste
com o teu cachorro
tens tempo para o trabalho
para à tardinha à janela olhar detidamente
as gentes que passam
para a poesia – os livros
que nunca leste

Não precisas da economia do verbo
sempre podes falar sobre o tempo
(como são úmidos e quentes os dias do ano)
ou sobre o maldito governo
deste país miserável
com alguém no elevador
nas filas do mercado
– vai tudo muito caro

E quando o dia for muito belo
para as conversas pequenas e fáceis
restam-te os solilóquios
ou o sonho da espera
ainda tens muitos anos à frente
e a esperança, essa imprudente
te acompanha, oh jovem

Podes por um minuto
em tudo acreditar
para desacreditar logo depois
frustração após frustração
teus olhos têm um brilho inextinguível

Tudo está bem
mesmo as coisas fora de lugar
és jovem
podes o recurso extremo
dorme mais um pouco

MEUOFÍCIO

às cinco da tarde um som de apito no ar
anunciou à rua o vendedor de doce japonês
um outro – que inusitado – cruzou comigo
meia hora mais tarde no fim do passeio
em condições ordinárias não se cruza duas vezes
com vendedores de doce japonês
hoje é um dia ordinário cortado pelo maravilhamento
como todos os dias do ano
pela manhã quando atravessava para o cais no Bairro do Recife
as águas e os céus se dividiram em duas metades
de esplêndido azul
e meu coração fundeou à-toa
junto aos barquinhos do Capiberibe
no fim da tarde eu vestia minha camisa branca
bastante usada e rasgada e gostava de que pensassem
em mim alheia às coisas materiais deste mundo
não importa mas o homem é um ser
de grandes questionamentos – inclusive dos menores
meu trabalho consiste em redigir petições
como todos os demais
entanto meu ofício é deixar o coração aberto
permanentemente
o espanto não escolhe a hora de entrar

REITERAÇÕES SOBRE UM TEMA

o vento no canavial
as bandeirinhas de Volpi
os leões que Hokusai desenhou todos os dias
por 219 dias até morrer

a forma não se atinge nunca
na reiteração das coisas no tempo
as coisas – elas mesmas
são outras e tu
outro és

e o café as camisas brancas o assoalho da casa,
o qual pisaste e tornarás a pisar,
numa configuração nunca idêntica,
porque a madeira desbota e teus cabelos vão a cinza

viver – eis a fissura
é estar inacabado até o fim

…………………………..

(Na Gueto)

a incerteza que nos move

I.
(A recusa de validade a todas as hipóteses
constitui um ato de pensamento — e de fé)

II.
Nos Ensaios, Sartre diz que a existência
é um frêmito no ar;
rastro apagado na areia ou vaga dissipada
no espelho; oblívio, rosto contorcido e submerso
em mar,
__________nuvens
_______________e urna,
ó porvir de eternidade e vazio

a existência —
_______________este acaso furioso
que se arroga um estatuto e uma dignidade,
em cujo propósito estancou sem saída
porque cresceu,
deu por si e
multiplicou-se
vorazmente à beira da estrada, sem compreender

o que estamos fazendo aqui afinal,
desmesuradamente apaixonados pela vida
e por constelações extintas,
enquanto nos arrojamos à praia
com qualquer despojo do navio

como se do que trouxéssemos de lá
houvesse arqueologia possível ou
se escavássemos a fundo os vestígios do nada
subitamente este desapareceria em meio
às palavras

III.
Suspeito, porém, de que tudo seja
mais um jogo à força do uso — e da crença,
a de haver ao menos entre um e outro sujeito
um fio ou liame comum que nos restitua contra a completa
arbitrariedade da falta de Deus

e assim comuns, arraigados na falta e nos deveres da falta,
tentamos um campo de virtude sem imortalidade,
forjando entre pedras a lavra

e nesta ordem de aleatórios meu coração escalavra
_____________________________________sem rumo
entre Delfos e Tirésias,
Ovídio
e a Melancolia,
aferrando-se ao fato que nenhuma razão ou cosmogonia desbasta,
o de não haver ninguém retornado para tirar à incerteza
a sua íntima condição, de tempo e glória

e, porque não estamos consumados em certeza,
como um curso extinto de rio ou uma encosta
à força do vento, até a planura e o sal,

porque não quedamos apenas ao sopro do ar
(se sopro há)
balouçando como o canavial nos morros
ou os trigais no campo

por isto não somos à força de ser
e o nosso ser — uma ferida do tempo
que não cicatriza nunca

convite

A terra abre suas pálpebras
e oceano e céu são um convite ao fim do mundo
os seus cílios são brancos cúmulos na dissolução da tarde
há um incêndio de sombras brandas e sangue púrpuro,
sem qualquer ruído

é apenas o sol deposto e a passagem do dia,
um estremecimento forte da pele, um respiro
mais fundo e as velhas questões acossando
tua consciência irredutível de estar vivo agora
e não depois

então diz adeus, despe a tua condição, forasteiro
deixa que a tua matéria seja a água e o esquecimento
do gosto acre da saliva deglutindo a seco
o contato incômodo com a existência

os dias que foram, os dias que virão
teu medo mais derradeiro
tua angústia mais inominável
deita-os na coluna de espuma

enquanto o corpo é envolvido pela escuridão,
que não te pede absolutamente nada,
a não ser o silêncio profundo da tua alma
e das tuas obsessões calidamente cultivadas

escuta só o corpo latejando na concha
fria do universo, reverberando abandonos
e o êxtase da solidão

existe apenas esta canção de muito longe,
que todos os homens, em todas as épocas,
já ouviram, sentindo a escassez infinita
de si ante o pálio frio e espectral das estrelas

este ar, este mar não te saúdam
mas te recebem
se tu deixas a ti mesmo para trás

encarando o silêncio
(a partir de P. Auster)

esta paisagem, os morros verdes,
o céu parcialmente azul
pairam ante o olho nu
com sua textura fechada
a que palavra alguma dá a face

aquilo sobre que te direi já não será
o que está aí, na manhã indiferente
ao anseio de dizer —
sobre a solidez suave deste verde
e por cima deste verde um azul conspurcado
de nuvens e poros,
como um mar invadido subitamente
de espuma

no balé livre das árvores,
o dia deslizará em direção à noite
eu deslizarei em direção à noite
mas a palavra não é uma estaca
no decurso do tempo —
é uma via franqueada
ao que ainda não existe mas está lá,
prestes a dissolver-se como uma vela
que o vento reflui

pois tudo consiste nisto, na compulsão
de dizer
não o que o dia silenciosamente guarda
na sua esfinge desde sempre aberta

mas dizer a experiência única, solitária e abissal,
de que saltamos para a palavra, revolvendo
o enxame de asas e caos, revolvendo
mais fundo ainda, sob o excesso
ou o vazio, o silêncio esquivo
e crepuscular,

revolvendo, no mais fundo
e derradeiro, o espaço
anterior ao silêncio,
onde me encontro

………………………………….

( Na Acrobata)

Nós Só Compreendemos Muito Depois

(a alma é uma intensidade a que regressamos
quando concedemos às coisas o silêncio
para serem percebidas em sua totalidade.)

é perto das quatro, o sol incide
obliquamente sobre as palmeiras
o vento rege uma canção entoada pelos
pássaros e cigarras –
aquela que veio de nenhum passado

agora, uma ave branca cruza o silêncio
nós só compreendemos muito depois
esta paisagem, este corpo, esta travessia
compreendemos numa estação diversa
quando as folhas estão secas no chão
ou sabem à resina

tudo está calmo e quieto
mas ninguém sabe os mundos que o coração
do homem abriga
os bois se juntam no pasto
e tangem os rabos contra as moscas
e também meu coração tange algo
que não sei nomear

estamos no presente como em um lago
onde pousamos os pés
e não sentimos o assoalho
e de repente se faz muito tarde

quando desejamos regressar
e abrimos a porta da memória,
há um caminho que muda
a cada entrada

então, na curva de tantos dias,
deixamos um pouco do passado
agora, o musgo cresceu
range a porta

damos talvez por uma falta
mas não saberíamos dizer
mesmo isto –
nós só compreendemos muito depois


Sobre o Mundo como Vontade de Poder

para Cela

quando saltou sobre o muro e nadou na piscina
do prédio ainda em construção, tinha oito anos
e um desprezo por regras de propriedade. ela era
uma pequena Raskólnikov e também desprezava
regras estúpidas que reproduzissem a cruel dominação
que crianças pampers exerciam sobre crianças frágeis
e submissas. por isto, não era tributável das qualidades
morais em voga – dispensável dizer sobre a estética
menos que kitsch e middle class do rebanho de
infantes que frequentava. apesar disto, estava entre
eles porque quase confinavam com os limites físicos
do seu mundo. mas, então, primeiro lhe negaram os dois
reais que haviam apostado. e ela subiu com as roupas
molhadas e os bolsos vazios para o seu quarto.
depois, compreendeu que, para eles, era um tipo
selvagem e andrógino – para eles, que só cultivavam
o que entendiam e eram tanto mais fortes quando em
comum professavam desdém em clubes de desestima
alheia. outros se revezaram no mesmo papel, trocados
apenas os nomes: os ferozes padeiros do mal;
os ferozes leiteiros do mal – os arautos das
congregações dos integrados, os que vão à missa
e comungam, ou não comungam, pagam o dízimo
e se pensam mais cristãos que o cristo, os que não
vão e têm piedade de si, os cordeiros e lobos que
se alimentam do mesmo pasto. and so it goes.
então, aos poucos, ela desceu ao fundo da ilha do seu
coração, onde preferia histórias como a de Crusoé
e era, em todo seu afeto, ignorada pela civilização.
agora, lê freuds, jungs, deleuzes – e explica alguma
coisa, ora outra e não pisa o território hostil da infância.
vezenquando, se lhe perguntamos se deseja sair
em férias conosco a uma praia, diz que não gosta
de se banhar e não mostra o corpo com facilidade.
prefere, diz, alguma quinta, menos frequentada,
onde beberá bastante do vinho, falará sobre literatura
e sonhará viver como nos filmes de Rohmer.


  Vida de Campo

quando chega ao campo, minha vó logo
se deixa ficar ao terraço, à cadeira de balanço,
os pensamentos para cá e para lá
como a gente descansa nessa paragem do tempo
verde, quando faz chuva, nos meses de junho a agosto
nos demais meses o mato fica seco
a gente descansa nessa paragem do tempo
e eu lhe digo que do pouco que faço
também descanso
um dia me deixarei ficar toda a semana
morarei aqui
com meus cachorros, o rumorejo das árvores
ao vento e toda a saparia
minha vó ri e diz é tão bom
nem precisa de gente
eu rio e repito nem precisa
de gente
ao longe, em uma estrada que meu olhar alcança,
um ruído de motor de carro
minha vó fala sobre o silêncio
e sua voz e o silêncio se confundem

no campo, o vento é o maestro de todas as coisas
de tudo que rege,
o ar, o balanço das palmeiras, o voo
dos pássaros e sua fala de canto,
de tudo isto, sobe o silêncio
e no corpo adentra – imenso

…………………………………

(Na Arribação)

QUANDO DEUS ERA CRIANÇA

quando Deus era criança, suas mãos passeavam
pelos campos de centeio desde a manhã até a noite
suas mãos eram pássaros e gorjeios inundavam o vento

os campos cresceram
as mãos de Deus sangraram de cansaço –
Ele sentia-se só, no coração despovoado da infância
e a sua voz era uma harpa plangente contra o vento

quando Deus era criança, sua ferida tinha o cheiro dos campos
o cheiro da solidão dos campos
e as suas lágrimas eram uma chuva escura sobre o vale

que coisa triste era Deus
que triste não ser visto e ouvido
que triste não ser compreendido
então, da matéria da sua solidão, Deus criou o homem
e deu-lhe liberdade para ver, ouvir e compreender
em uma paisagem austera, onde os astros brilham distantes

e o homem, feito da matéria de Deus,
é como um resquício triste de luz na sombra do vale,
é como um recinto que todos abandonaram
deixando uma vela acesa –

onde nomes pousam na tentativa de compreender
como se fora sol, mas é apenas chama provisória –
aonde os nomes descem do nome não revelado de Deus,
como houvesse um nome não revelado de Deus,
e partem como pássaros para o azul

e quando o sol deita na planície vasta
e o homem diz meu Deus
Deus sofre –
porque, não sendo compreendido,
não compreende a sua criação

*

TRAGA TUDO PARA CASA

segundo lustro dos anos 2000 pós-aula na faculdade
de direito do recife – cela e eu pegávamos o carro
íamos pela ponte onde augusto cismava
e dávamos na loja da cultura na beira do Capiberibe
onde escutávamos discos e folheávamos livros
cela comprou um dylan que o mês passado fez cinquenta anos
pagou setenta reais com a bolsa do estágio e talvez eu tenha
protestado mas flertávamos com a liberdade dos beats
e o pouco dinheiro que o kerouac tinha na estrada
o fato é que não havia streaming nem internet
nem pirataria que substituísse o disco
quase dois lustros depois quando escutamos
o nashville cela se diz descobridora do álbum
que de alguma forma mudou nossas vidas
tudo começou porque duda trouxe do canadá o no direction home
e guiga comprou mas não deu o modern times para rafa
e terminou que eu e cela também compramos o bringing it all back home
e escutamos e amamos todos ao som dessas canções
que de alguma forma mudaram nossas vidas
hoje é certo me pego vezenquando em busca de algum espectro
que substitua o espectro do passado mas o ritual mudou
rafa mora em são paulo e cela também
a cultura fechou as portas e quase ninguém mais compra e vende discos
e quando penso em tudo isso me vem um sabor acre na boca
tudo mudou
mas casei com guilherme e a quadrilha não acabou
que a canção seja sempre cantada
que o desejo permaneça em nossas bocas
forever Young

…………………..

(máis na Gueto)

noturno no campo n. 2

sobre as vozes da tarde os noturnos de Chopin
antecipam o coração silencioso da noite
o som dos homens retumba demasiadamente no espaço
a porta está cerrada como uma metáfora
o dia finda e as janelas estão abertas em par
sobre cigarras latidos e trevas
eles se foram e tudo ficou amplo
mas as palmeiras tão familiares não dão alento
a hora do lobo não distingue forma e enterra o cortejo de sombras —
em alguma parte mais obscura também eu sou lobo
com a face voltada para a face ausente da noite
o sentido não importa mais, não há nada trágico no ar
sequer o prenúncio de uma espera
contemplo demoradamente a fixidez do breu
uma e outra árvore se entreveem tacitamente no horizonte
dedilho nas costelas uma canção há muito esquecida
mas escutando atentamente são pancadas fortes
que martelam dentro do corpo
o vazio escavou profundamente seu canto seco
como desta terra não houvesse salvação
(há salvação mas não para nós)
então faço um movimento para afastar o presságio
e acompanho um barulho que se perdeu longe na estrada

…………..

morro na medida em que tenho consciência de morrer
(Bataille)

há dias em que não conheço a morte
são dias em que estar entre coisas
não se divide entre estar e não estar entre coisas
como viver fosse o fato mais natural

a vida sem a morte é uma canção
antiga repetida sem lembrança
não falta nem evoca nada
como os campos sob um sol casto
não suscitam a não ser si mesmos

e um deitar longa e atemporalmente sobre a relva
com todas as vozes — do eu — em silêncio
e estando sedento é como estivesse saciado

entanto acontece de se viver no limiar
de algo que escapa até o fim
tornando a vida mesma um limiar indefinido

por isso na transição do dia
divisa a réstia de luz sem a nostalgia
de mais luz
e tua vida expandirá como num sopro

…………………

(máis na Acrobata)

ATRÁS DO NOME

dizemos a palavra casa para referir a uma casa
dizemos casa e indicamos com a mão –
temos um nome
dizemos esta é uma casa, a minha
e ao alcance das mãos estão as coisas a que referimos
nós somos os que colocam o mundo à distância
das nossas mãos
então, quando caminhamos, atrás de nós caminham
os nomes; à nossa frente, caminha o passado
e, quando vemos o futuro, dizemos o passado

um homem não sabe que pode deixar os nomes
no chão e caminhar com as mãos vazias
sempre dirá isto, sempre dirá aquilo
não sabe que pode deixar os nomes no chão
e ancorar sua casa no vazio
sempre dirá isto ou aquilo
porque não sabe que pode se livrar
do vazio, livrando-se do nome
não sabe que pode desancorar dos nomes
habitando o vazio


ESTAR-AQUI É EXCESSIVO

Da oitava elegia de Rilke escolho o verso
estar-aqui é excessivo como título deste poema
estou em casa, sentada à mesa e escrevo
estou em face de coisas e abro-lhes um parêntese
no mundo
não basta estar aqui desde que isto significa
a consciência de estar-aqui em face de coisas
considero-as por um instante e ouço-lhes o chamado
ou sou eu que lanço um apelo incompreensível
eis a cadeira, a mesa, as folhas do bambu mexendo
ao sopro do ventilador
mas isto não é tudo
essas coisas remetem-me a mim mesma: o que faço
entre elas, qual o sentido desta remissão?
tomo tempo suficiente meditando a questão
tomo consciência de que o tempo atravessa este momento
e o ar torna-se pesado
tomo consciência desta consciência que ocupa as vigílias –
somos o que estanca em face das coisas
pondo-se a si a questão do que faz entre elas
enquanto é arrastado pelo destino de ser o remetido
ao próprio destino

sim, estar-aqui é excessivo


CONVITE

A terra abre suas pálpebras
e oceano e céu são um convite ao fim do mundo
os seus cílios são brancos cúmulos na dissolução da tarde
há um incêndio de sombras e sangue,
sem qualquer ruído

é apenas o sol deposto e a passagem do dia,
um estremecimento forte da pele, um respiro
mais fundo e as velhas questões acossando
tua consciência irredutível de estar vivo agora
e não depois

então diz adeus, despe a tua condição de estrangeiro
deixa que a tua matéria seja a água e o esquecimento
do gosto acre da saliva deglutindo a seco
o contato incômodo com a existência

os dias que foram, os dias que virão
teu medo mais derradeiro
tua angústia mais inominável
deita-os na coluna de espuma

enquanto o corpo é envolvido pela escuridão,
que não te pede absolutamente nada,
a não ser o silêncio profundo da tua alma
e das tuas obsessões calidamente cultivadas

escuta só o corpo latejando na concha
fria do universo, reverberando abandonos
e o êxtase da solidão

escuta esta canção de muito longe,
que todos os homens, em todas as épocas,
já ouviram, sentindo a escassez infinita
de si ante o pálio frio e espectral das estrelas

este ar, este mar não te saúdam
mas te recebem
se tu deixas a ti mesmo para trás

………….

(Na Vício Velho)

Para Charles, com amor e miseria

(I)

Um homem, não; a Humanidade. Nada mais trivial
que nascer, morrer, povoar o mundo, superpovoar o planeta.
Perdoem-me, um nascimento é um novo começo,
mas entra na estatística como os demais. Sim, sofremos.
Os outros animais também sofrem, as plantas sofrem,
e nós ignoramos – talvez não com o nosso coração.
Até as pedras sofrem, rachadas pelo vento e pelo sol.
E então damos o nome de dignidade ao nosso sofrimento.
Mas, quando olhamos para dentro e vemos o vazio,
os psiquiatras tiram do livro o sintoma, os poetas repetem
“abismo” – e la nave va. Agora o homem deita confortavelmente
no leito de Procusto, temos um nome para cada coisa
e tudo se tornou exemplar. Mas o futuro talvez não chegará.
No ano de 2050, com otimismo, dois graus de superaquecimento
e mortandade. Ursos polares reviram o nosso lixo;
baleias morrem com quilos de plástico no estômago;
e o foie gras é uma comida de luxo que homens mimados,
bem-amados pelas suas mães e cuidados pelas instituições,
compram para escapar de um a outro tédio.
As mais sortidas esperas – eis o legado da técnica ou da exploração.
Homens – os que trocamos a austeridade do trabalho
pela escolha laboriosa da próxima refeição.

(II)

Eu me perdia inutilmente em questões como essas.
Mas, como fazemos à vista do superliminar, resolvi
me distrair e fui correr no clube. Eu já estava correndo
quando vi um garoto de quatro anos com um patinete
no meio da pista. Ao passar por ele, senti que se punha
em movimento e ganhava velocidade. Não sei por que
acelerei o passo, mas o barulho da roda não diminuiu.
Foi aí que escutei uma voz dócil gritar “ei, não é justo,
você está acelerando. M’espera.” O garoto havia percebido
que eu jogava – logo eu, que momentos antes havia desprezado
tudo, como se despreza o homem na ideia de humanidade.
Mas na hora eu só pude correr ainda mais rápido.
Então o garoto me esperou para a próxima volta. Quando o patinete
se pôs em movimento mais uma vez, fui o mais rápido que pude.
Eu me sentia puxada pelos cavalos de Zeus e não iria mais parar.
Depois, me despedi dele, rindo com toda a minha alma, porque tocava
you can’t always get what you want, e eu disse “vamos, deixe isso pra lá”.
Eu senti que minhas esperanças tinham sido renovadas,
porque, me perdoando a fraqueza de ganhar de um garotinho,
esquecia nele a minha ideia atroz de humanidade – nele, a quem
chamei Charles, dizendo-lhe em silêncio “meet you at the corner”.
Sim, Charles, eu sempre vou te encontrar na esquina.
Sobretudo quando estiver a passeio, na tentativa de ver
as quase extintas raposas-do-campo no final da tarde.
Agora eu sei que poderei sonhar com lobos e raposas e estar entre eles,
aguardando com paciência a minha vez na sua dança solitária,
para poder urrar em uma língua bela e desconhecida toda a minha dor
contra a face ausente da noite estrelada.
Eu saberei, quando os encontrar,
talvez em uma fotografia ou no livro esquecido de Kafka ou Kaváfis,
que a beleza perdeu todo o sentido –
ou que a beleza é todo o sentido que ainda nos resta

………………………..

GRAMÁTICA DA NOITE

A noite desce inescrutável
as estrelas são efígies destituídas de rosto
no vento, sopram signos diáfanos,
arredios como serpentes não encantadas
em todo o horizonte, amontoa-se o espólio
da ausência, essa forma que toma
o que foi e o que não será e jaz
na vala entre as coisas circundantes e teu corpo
(na soleira do ser,
a vigência do nada espreita)
entre sombras sem substância,
o pensamento divaga como um bote
cujo laço foi rompido
mas, desde que a vida se recusou imaginada,
o drama se deslocou para trás do palco,
entre mecanismos e metalinguagem
o corcel trôpego do teu espírito
encontra espelhos que conduzem
ao claustro na noite larga
é preciso retornar à planície
dos fatos e dos homens, tendo acima os caminhos aéreos
que as correntes frias e as andorinhas traçam
sim, é preciso sempre retornar das torres
onde a loucura se refugia,
onde toda voz é um eco,
e o vento é um látego que fustiga
escuta o uivo doce das palmeiras,
o orvalho nascendo sobre as pétalas da grama,
sem esperar de deus o canto
os pilares da noite suportam todo o vazio,
deixando-te os ombros para o pouso
de mãos tênues e pássaros
desde que caíste no irremediável,
estás destinado ao nunca mais
abandona-te a este ofício –
respiras, logo dissipas
este sopro breve de vida
mas, sob a asa lépida do instante,
faz – demoradamente – a tua morada

…………………….

Na Germina https://www.germinaliteratura.com.br/2019/lais_araruna_de_aquino.htm

…………………

Este é do seu Faceboook, para celebrar un aninovo:

ERGUEI BEM ALTO A VIDA, CARPINTEIROS

é fim de ano novamente e meu corpo, digo, meu celular

bugou; não tenho mais spotify, não bebo vinho e não jogo

tênis; meu estômago e minhas costas doem; em compensação,

troco a bebida fermentada por uma destilada e saboreio o uísque

gold reserve que Luiz deu ao papai – ah não! me corrijo a tempo

– a painho; e agora estamos vagando por todas as praias

de Alagoas e falando sem parar sobre a geografia abençoada

do Nordeste e os exóticos coqueiros nacionais, que substituíram

tão mal ou bem a mata tropical; no fundo, nada mudou, estamos em pleno

declínio, depois de trinta anos de prosperidade – a minha

o Brasil é um longo país dizendo adeus

e agora já posso anunciar que a minha geração teve a sua guerra;

mas eu não tive, não; estou deitada em um barco inerte

que corta os campos amarelos e secos; urubus lá no alto rondeiam

a minha cabeça e tudo é um teatro que monto dentro de um picadeiro;

ontem, estive triste, hoje, não mais; a melancolia é um vício plebeu

que troco por cartas, passeios no fim de tarde e uma boa cevada

seja dito, irmãos, só contra a ressaca não há salvação

quanto ao resto, as baronesas, verdejantes, esplendem no Capiberibe

na rua do cupim, eu como pão de queijo e tomo um coado, pitanga

ou caramelo, das Geraes; e, na Beira Rio, posso correr ao sol de trinta

graus contra algo que um dia chamei angústia e hoje trato com omeprazol

como disse Bergman, no fear, no self; e o meu Eu desce tão bem

na geleia de amora que Cela comprou, que eu só posso exclamar, raro leitor

a vida é uma beleza, vamos!

se um dia acabarem comigo, ah inexistentes detratores e inimigos,

não poderão nunca, jamais, falar que eu não fui do meu tempo

sou contraditória, cínica (tanto por nada!) mas não vulgar

vamos, erguei bem alto a viga, carpinteiros

)

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