Fernanda Young: unha poeta a reivindicar

FERNANDA YOUNG

Tentamos, sobre todo, traer a estas páxinas poetas novas, presentar e partillar a poesía dos nomes máis novos da poesía brasileira de muller. Hoxe é a primeira vez que nos acontece que a poeta escollida, Fernanda Young, xa morreu; pois viviu entre 1970 e 2019. Ademais, Fernanda Young non só escribiu poesía, tamén foi guionista (roterista, en portugués) recoñecida, tanto en cine como en televisón, actriz, presentadora, novelista…Unha alma inqueda e apaixonada, que comezou estudos en diferentes áreas ( Letras, Xornalismo, Artes Plásticas, que eu saiba) sen rematar ninguna. Mais, o que nos interesa a nós, é que tamén foi poeta, e como tal a reivindicamos, como unha das voces máis profundas da lírica brasileira de muller actual ou contemporánea.

Coñézolle tres poemarios: Dores do Amor Romântico (2014). A mão esquerda de Vènus (2016) e o póstumo Posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar (2019), que sei que é narrativa, mais a forza poética do título deixa ben ás claras o espírito indomábel, a forza da paixón, a orixinalidade e forza da proximidade coa que Fernanda nos fai sentir as súas mensaxes, os seus textos. Esas serán, precisamente, algunas das características que definan a súa poesía.

Rebeca Fucks comenta moi acertadamente o alto grao de empatía que quen le sente diante dos seus poemas. É dicir, o alto grao de comunicación directa con quen le. O eu poético (continuamos con Rebeca) é visceral e sente medo, frustración, cansazo, depresión (igual que o eu lector, reiteramos), e iso leva Rebeca a falar dun eu poético oscilante, inseguro, sempre á procura da súa propia identidade, ela, Fernanda, esa muller multifacética, a súa voz poética constitúe proxección da muller de carne e óso, esa muller de carne e óso que tamén sente as ausencias, o vacío que deixan as ausencias, o vacío que deixan as ausencias aínda que tamén nos deixen cicatrices que lembran o abandono.

A temática da súa poesía sempre ten que ver co mundo dos afectos. Pois é a temática dos afectos a que máis a preocupa, o cal non quere dicir que permaneza allea ao devir político e social, que ten condenado. E quizá pasaría a formar parte da súa de non ser pola prematura norte que a levou.

E, sendo así,  poeta dos afectos, consegue ser orixinal; algo ben complicado, con esa temática, nos nosos días.

Velaquí a súa poesía

(En Cultura Genial)

Votos de submissão

Caso você queira posso passar seu terno, aquele que você não usa por estar amarrotado.
Costuro as suas meias para o longo inverno…
Use capa de chuva, não quero ter você molhado.
Se de noite fizer aquele tão esperado frio poderei cobrir-lhe com o meu corpo inteiro.
E verás como minha a minha pele de algodão macio, agora quente, será fresca quando janeiro.
Nos meses de outono eu varro a sua varanda, para deitarmos debaixo de todos os planetas.
O meu cheiro te acolherá com toques de lavanda – Em mim há outras mulheres e algumas ninfetas – Depois plantarei para ti margaridas da primavera e aí no meu corpo somente você e leves vestidos, para serem tirados pelo total desejo de quimera.
Os meus desejos irei ver nos teus olhos refletidos.
Mas quando for a hora de me calar e ir embora sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim.
Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola, mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim.
(Nem vou deixar – mesmo querendo – nenhuma fotografia.
Só o frio, os planetas, as ninfetas e toda a minha poesia).

7. ***

Há certas águas que não matam a sede,
Você já notou?
Como a saudade que não nos conduz a
Nenhuma epifania.
Saudade deveria sempre render um verso
Perfeito, visto que para nada serve.
Acordamos cansados por
Senti-la,
Se é que dormimos.
Ela nos rouba o presente,
Nos cega o futuro.
Estou assim agora: presa
Ao passado quando
Estive com você.

8. Crânio

As suas outras costelas me
encarceraram em seu plexo.
toc-toc-toc, bati com
timidez, logo que notei
Que deveria partir.
Ninguém abriu a porta.
Pedi, chorei, arranhei seu
interno. Nada.
Você não me quis, mas me
Prendeu. Você não me quis,
mas me costurou em você.

 (En Tudo é poema)

Sou uma casa completa.
Tenho recantos em minhas
Dobras, lareira e um belo
Jardim de tulipas negras.

Também sou uma caravela
Que corre ruidosa e
Escorregadia sobre os oceanos
Que conduzem a novos
Continentes.

E uma caneta macia de um
Garçom orgulhoso; ele gosta
De ouvir: – Que caneta boa!
Quando assinam a conta.

Posso ser os elásticos de
Pompom nas chiquinhas de
Uma menina que chora,
Chata, no pátio ao lado.

Ou um simples copo de água
Oferecido a alguém que
Trouxe uma pesada
Encomenda.

Quiçá sou eu, sim, eu.
Eu mesma. Sofisticada e
Demencial. Essa que fala
Demais e diz que te ama,
Que não quer ir, e não quer
Ficar aqui.

Esse aqui que vaga e
Ressente.

…………………….

Às vezes sinto vontade de faltar com a verdade,
Ser cínica, mas nunca vil,
nem mesmo mentirosa.

Omissa?
Não, omitir é para os fracos!
Talvez irônica,
Dúbia.
Charmosa, claro.

Eu contaria um pouco aqui,
Um pouco ali.
Com o tom certo, bem calmo
Ou não – dependendo para quem
Conto.

Os amantes – homens ou mulheres – não me cobrariam tanto,
E eu poderia ter quantos eu quisesse.

Mas é que a verdade é excitante, máscula,
Como uma espada.

Aqueles que gostam da lâmina, os poucos, irão lambê-la.
E eu gosto de ser lambida pela coragem.
A língua que lambe pode se ferir,
Assim como quem diz a verdade.

Por isso decidi contá-la.

………………………….

Queria dormir.
Vivo na conjugação do
Eu queria dormir,
Eu queria descansar,
Eu queria dormir
Com você,
Eu queria viajar
Com você.
Eu sou o sujeito da
Conjugação do queria.
E é claro que não devia.
Mas devia também.
É uma conjugação minha.
Eu-queria-e-não-devia.
Eu queria, e como não posso,
Fiz algo que não devia.
Então devia desistir,
Queria.

…………………

Só há uma ideia do que a minha natureza
entende como paixão.
O corpo reage assim: taquicardíaco,
etílico, esfomeado.
Na ansiedade torno-me aquela que
não suporto,
a mesma que esperava na escada,
querendo ser levada
para algum lugar, longe dali.
O que aguardo é ficar longe
dessa menina que está sentada nos
degraus frios da escada.
E nas horas em que o mármore branco,
dessas horas, horas de uma tabela tonal
cinza-rato, gelam meu sexo, minha pele,
fico em dúvida se quero,
realmente, que o outro chegue.
Duvidar do que desejo angustia tanto,
a ponto de me fazer fugir.
E quando decido ir, ameaço,
testando aquele de quem espero ter atenção.
Deixando tudo mais tenso,
nervoso,
excitante.
Então, molhada eu fico, ainda ali
nos tais degraus de ansiedade,
lisos e frios,
de mármore-medo.

…………………….

Nada é bom para mim, aprenda.
Eu pareço razoável, até mesmo
Bela, mas sou essa, bem estranha.
E muitas vezes doente.
Não se deixe levar por minha
Tradução de My Funny Valentine,
Eu sou a mais escrota do bairro
De qualquer cidade.
Mas eu irei mudar meu cabelo,
E não será por você.
Vou te contar minha história,
E você irá achar que é mentira.
Tudo que posso te dizer é:
Fique.
Hoje não é o nosso dia,
Mas fique

…………………

Fazer carinho em si mesmo
É insatisfatório,
Pois não sabemos o que sentir:
O ser tocado ou o tocar.
Já no erógeno
Onde é mexido há mais do
Que uma pessoa,
Não apenas o eu
Que manipula a mão.
Vencemos a inescrutável
Solidão,
Eu sou você, você é ora
Você, ora outro, ora ela
Entre as minhas pernas,
Na boca,
Nos seios,
E aonde mais houver
Fissuras.

……………………

Queria ser simples. De tudo que já quis,
juro, esse me parece o mais disparatado
dos desejos. De todas as ideias de
merda que tive, essa é a que mais fere.
Queria não me importar se o Noturno número dois
que escuto é mal interpretado. Porque
afinal não entendo de piano e não posso
dizer que essa é uma merda de uma
interpretação. Mas eu sei que é uma
merda e isso me fere os nervos mais que
os ouvidos. Fere tanto quanto a ideia de
ser simples. Queria ser simples a ponto
de ser querida. Querida por ser querida e
não por ser especial. O especial é
complexo. Raro. Intratável em sua
ausência de singeleza. Porque eu poderia
anunciar que sou delicada, e implorar sem
implorar, por cuidados. Queria ser simples
e ser cuidada com esmero. Porque a minha
delicada simplicidade iria sugerir atenção.
A leveza da simplicidade me traria sopas,
bombons, margaridas. Mas eu ganhei fama
e minha criada acaba de trazer um petisco
que só vende em uma padaria bem longe.

………………………..

Há um poema acima de mim,
Um que paira na camada sutil e
Iluminada, onde meus braços
– mesmo quando pulo – não alcançam.
Ontem, subi numa cadeira.
A cadeira era manca e temi ficar na ponta dos pés.
O medo, mesmo que me faltasse bem pouco,
Para puxar o fio desse balão,
Não deixou que eu o pegasse.
E quase que por pirraça,
O poema ficou mais longe de mim.
Estou sentada na beira da cama.
A garganta dói pois tenho preso,
Entre paredes de carne vermelho-inflamação,
Um coração que entalei como um sapo.
O sapo das palavras que queremos dizer,
E calamos.
Meu coração-sapo pulsa nervoso e
Quase resignado.
Estou sentada na beira da cama,
Temendo chorar
Com o poema indo embora.
Pois, se eu chorar, terei o rosto – que dizem belo –
Desfigurado.
Não, não posso chorar!
Tem Paris pela janela e bons óculos para encobrir
A cegueira que a tristeza me causa.
Vou vestir um elegante traje,
Chutar a cadeira que me deixou mais manca e delicada,
E comprar um batom.

……………………

(En António Miranda)

Com um livro sobre o colo estéril
versejo uma ideia que me foge,
aquela frase exata que sempre busquei.
Com o exato momento da palavra,
que tivesse o tom do improvisado jazz
e a razão de um vidente esquizofrênico.
Ai, como eu gostaria de ter escrito
certos versos que neste livro leio!
Cercaria meus sonhos com grandes muros,
no jarro de minha mesa sorririam flores
e tudo isto já não mais seria plágio.

……………………

Não vou aguentar. Não, não vou aguentar
mais. Essa vontade de despir-me inteira
e mostrar aquilo que fará de mim apedrejável.
Então vou. Vou. Terei de aguentar.
Sofrer quietinha. Sofrer quietinha.
Deixar para lá essa ideia
de que o amor é o meu ofício.
De que o meu verso é imprescindível
e que somente os homens podem amar assim,
tantas vezes, e sem pudores.
Sim. Isso. Somente os homens são poetas.
Livres. Metafísicos. Sem compromissos.
Eu sou mulher. Punida sempre. Vagabunda.
Indecente.
Vou. Vou aguentar. Pois o que pulsa é
a língua portuguesa. Não a carne vermelha
— também língua — que guardo entre as pernas.
Nem essa, mais molhada, dentro da boca.
Não. A maldição veio com os grandes
navegadores: carrapatos, impetigos,
escorbutos e piolhos. Saudades. Paixão.
Saliva. Poesia.
A culpa não é sua, nem minha.
Mas serei eu a que irá arder nas chamas,
porque bruxos não existem.
0 que há no mundo das paixões e erros
são putas. Putas. Putas. Putas. Sou uma puta.
Serei eu quem morrerá primeiro.

…………………………………………………….

(De Fernanda Young, páxina on oficial) https://fernandayoung.wordpress.com/

Despir o outro de como quer ser visto

Despir-se daquilo que o outro quer ver

Vestir o desejo do outro despir.

Despir o desejo de quem se vestiu

Daquilo que esperava mostrar – disfarçando-se, vestindo-se

O tempo gasto para despir o corpo que se veste para o outro

O tempo gasto para vestir tudo o que vai ser tirado,

Quando o outro não quer vestido

Mas o que se vestiu quer ser despido.

Vestir o outro de quereres, 

Despir a carência de todos.

Foder,

Todo mundo nu ou vestido,  consigo

e mentindo.

…………………………….

A lente do amor grudou na retina e trouxe a realidade
para a paixão.
Agora, nela, vê-se poros abertos, veias desconcertantes
e azuis ao lado das narinas, que inspiram e expiram
o cansaço enfisêmico dos pulmões que já inflaram de
êxtase e susto
espera e dor.

Como é engraçada a miopia dos amantes histéricos.

Mas os olhos podem descansar do criativo,
as lentes revelam o cabelo debaixo da peruca e,
abaixo do cabelo, o couro. Que por vezes
escama e coça e dá vontade de escalpelar.

Como é engraçada a verdade que ninguém quer ouvir.

E aqueles, antes cegos, quase idiotas, reconhecem
primeiro a sombra, depois os relevos,
enfim as cores e as texturas.
E as lentes preenchem a transparência, entupindo-a
de estômagos, pâncreas, fígados e intestinos;
não dando mais para ver-se – vê-se o outro.
Então há o horror, e por fim, que é começo, o amor.

Como é engraçada a vida, posto que é só isso.

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