Luz Ribeiro: muller e negra, o sangue que ferve…

O seu nome é Luciana Ribeiro, mais faise chamar Luz Ribeiro. Luz Ribeiro é muller multifacética, se vostedes consultan a Wikipedia acharana descrita como poeta e pedagoga. Se vostedes len o seu FaceboooK atoparán que alñi se define como artista. Abriu os ollos por primeira vez en São Paulo, no ano 1988. E fíxose consciente de que é muller e  de que é negra, e que por tanto sofre unha dupla exclusión, que é marxinada por ser negra e por ser muller. E non aturou, non consentiu. Ela rebelouse. Ela rebélase continuamente. A xente rebelde sempre ten a niña admiración. Sen rebeldía non hai progreso. Por outra parte excluír da sociedade, marxinar da sociedade unha importantísima parte da poboación porque é muller constitúe unha grandísima bobagem, unha auténtica parvada ou parvoíce só propia de seres incultos ou que detentan un complexo de superioridade que como persoas os reducen á mínima expresión. No entanto, eles teñen o poder. Hai que loitar. Excluír da sociedade, marxinar unha persoa por ser negra é tamén unha auténtica bobagem, unha auténtica parvada…crer que a cor da pel determina a intelixencia da xente é de seres estúpidos, estupidamentre estúpidos. No entanto eles teñen o poder. Hai que loitar. Hai que rebelarse.

Cando isto sucede expresado na túa propia lingua…desde este lado Atlántico non son capaz de imaxinar totalmente o que a persoa debe sentir.

E se por riba naces nunha periféria dunha grande cidade…

Por algures teño lido que ás veces ela, Luz Ribeiro, non se sente poeta. Resulta lóxico se a lingua que falas te vai integrar na tradición que ensina nas escolas quen precisamente te marxina. Mais tamén é certo que ela é artista, pois tamén é actriz.

Entendo que cando es muller, muller e negra, no Brasil tes que loitar con todo o teu corpo, por que o corpo é a pel, e a voz, a palabra, o instrumento. Non é de estrañar entón que Luz Ribeiro se especialice na poesía falada (Slam), e que sexa unha extraordinaria slamer toda vez que tamén é actriz. Non é de estrañar que ela faga parte de colectivos poéticos como Poetas ambulantes, do Slam do 13 ou colectivo de artista contra o racismo Legítima defensa. E tampoco é de estrañar que o primeiro título publicado sexa Eterno contínuo (Selo do Burro, 2013). E tampoco é de estrañar que o segundo título (estanca e espanca) tamén faga referencia á inxustiza de permanecer estancad@s nunha tradición que afoga, ese peso que estanca, que enxordece, e a necesidade de axotar esa tradición, de reconstruíla precisamente a partir das voces silenciadas, tan arteiramente silenciadas. Por iso a súa poesía é poesía que é sangue que ferve.

A arte como liberación.

A poesía como voz rebelde.

O cotián, a vida do día a a día como materia artística, literaria. Porque a loita, a rebeldía, a necesidade de liberación non son cousa puntual de un día ou de un libro. É un presente contínuo que nos fai sentir estancados e é preciso espancar esa inmobilidade/invisibilidade que nos retén prisioneir@s.

Da súa poesía tense salientado a súa versatilidade poética Ben, iso quere dicir que Luz Ribeiro é unha poeta técnicamente rica, experiente e moi competente. Poderán comprobalo na selecta que a continuación presentamos. Desde a poesía rimada á poesía como obxecto visual no texto.

Si. Mais o que a min me importa é a rebeldía, a loita contra a marxinación por ser muller e por ser negra.

Desde este lado do Atántico, un brinde solidario con todas elas, as mulleres bravas como Luz Ribeiro!

Non deixen de visitar o seu Facebook, antes sinalado, porque aí hai moita poesía

Sobre a muller negra, racismo e poesía, recomendo moito ler este traballo de Renata Dorneles Lima no que se explica ben o  movimiento de movilización das persoas merxinadas, periféricas, encarnado nas voces paulistas de Luz Ribeiro, Lizandra Souza e Mel Duarte.

Imos coa súa poesía.

(En Margens)

……………………

(do seu blog)

dos dias de coléra

hoje eu resolvi abrir o peito
e enxergar o quanto que cabe aqui dentro
foram mais de 20 anos tentado me esconder
buscando uma resposta que me fizesse ver

entregando para tantos o que só cabe a mim
um coração sofrido que pra toda dor consente  um sim
e ao findar de cada experiência
sente mais os hematomas do que a própria consciência

preta blindada dos pés a cabeça
fria por necessidade, não por natureza
busco nutri meu  ori pra achar uma fortaleza
e ainda que fraca que  haja luz e aqueça

minha pele negra também busca um lugar ao sol
quero meu espaço mas vocês me cedem um anzol
dizendo que agora tenho uma vara pra pescar
mas não é  igual a sua,  né? É fácil notar

por  séculos convivemos com a escravidão
fomos soltos sem direito a um  pedaço de chão
o reflexo do mal feito é visto hoje nas quebradas
gente preta é a maior parte da classe favelada

os livros que eu li eram da filha da patroa
porque ela dizia que depois de um tempo isso enjoa
e até hoje por eles eu tenho obstinação
os livros na minha casa são  mais que objeto de decoração

por anos me afastei das línguas do  colonizador
achava que  estuda-las me tornaria talvez mais inferior
ignorância minha, achar que o venceria sem ler meu  manual de instrução
mas hoje eu  estudo  seus dialetos e renovo minha munição

cade vez que eu abro a boca eu  ouço o ruído dos chicotes
a impecabilidade da nossa língua foi adquirida nos açoites
pra me fortificar ouço palavras em yoruba
busco saber sobre orixás e patuás

ninguém esconde mais de mim minha própria história
e pode chamar mesmo  me de vitimismo meu plano de vitória
já tou ligando a diáspora daqui com a diáspora de lá
e logo  menos  vocês irão avistar    

uma legião vestida de preto que não abaixa a cabeça
não se contenta  com lei áurea, quer mais é ser realeza
vai devolver com diplomas cada soco e esporro
aqui ninguém mais marca toca e precisar asfixiamos com gorro

não alisarei meu  cabelo para ser aceita
hoje sei que nossa religião não é seita
todos esses mal tratos é uma dívida sem reparação
por isso eu quero cotas e tudo que houver cifrão

sou afilhada bastarda e não quero ser filha da pátria
sou a própria puta por tantas vezes sexualizada
minhas ancestrais tiveram as saias levantas
e daí que surge tanta gente miscigenada

por isso  não  vejo  beleza no processo de miscigenação
e nem quando os brancos exclamam: eu tenho  sangue de negão
essas frases não provam nada e só trazem mais dor
então faz um chá de bom senso e tome um gole por favor

não sou  filha de pardal, muito  menos de mula
não tenho didática  minha ira não cabe em bula
e se pode não ser menos preconceituoso, disfarce
pegue suas falsas verdade e engula

………………………………

se eu me morresse …

o que não mata dá um sooooooooooooooono
o que não mata dá uma dor aguda no estômago
o que não mata dá uns calafrios durante a noite toda
o que não mata dá uns tapas e te traz pra realidade
o que não mata dá sede
o que não mata lembra que você é seca
(e você nunca morreu por só secar)
o que não mata é o insuficiente pra atingir um corpo que já sentiu tanto


bicho ruim não morre
se fere
flagela
espanca
estanca
estanca
volta a espancar
quase estanca


mas porra
num morre


se eu me morresse
morria!
mas não morre
porre
socorre
corre
corre
corre
corre
corre
cansa


cansa…


bicho ruim
só fere
refere
se ferre


bicho ruim
só erra
nem sente que errou
num sente
imagina, bicho sente?


num sente


é calculista
prevê tudo
imagina cada dor que já causou

isso de ser bicho
que  não tem peito
que  faz do  pulmão o seu  amuleto
perde o  ar é mata tudo de asfixia

bicho ruim que de tudo lhe tocou
quando toca, é tocado
deixado de lado

é tipo cachorrinho
que dá carinho
pega ossinho
mas se fizer xixi dentro de casa
acabou!
xô, xô, xô …

se eu  me morresse
eu  mesmo  me matava
mas sou  lacuna
sou  inapropriada
eu  não  me morro
eu  mordo
mas não  morro

porque você não pegou  seu  falo
enfiou até o  talo e disse:
é assim? cê gosta

mas não seu  silêncio é baixinho
e me rasga lentamente
aos pouquinhos

sem perdão
eu  quase morro

mas eu  não sei  morrer
vivo a beira de um desespero
mas não sei morrer

noite passada eu  tentei
eu juro que tentei

mas

o que não mata dá um sooooooooooooooono
o que não mata dá uma dor aguda no estômago
o que não mata dá uns calafrios durante a noite toda
o que não mata dá uns tapas e te traz pra realidade
o que não mata dá sede
o que não mata lembra que você é seca
(e você nunca morreu por só secar)

o que não mata é o insuficiente pra atingir um corpo que já sentiu tanto.

……………………

take care

dias desses vai chegar um e-mail
dizendo oi e tantas outras coisas 
mas tudo em português
porque você gosta é de dominar tudo 
— linguagem e língua —

eu que também sou de possuir 
me vi pressa em um silêncio que não cabia fugas

apenas
baixos sussurros grudados na parede 
de som leve, mas de pesar oco 

suspeito que decodificou meus mapas
com um tempo de quem tinha toda a vida

pra fazer aquilo
enquanto eu reconhecia cada corte seu 
num misto 
de querer fugir 
de querer ficar 
de te querer levar 
de me querer partir 
             nos meios

procuro em imaginações o roxo da pele
o gosto do dorso 
queria descobrir teu código 
mas ao contrário de mim
não é presa fácil —
teu soco é dentro  
tilinta e lateja no pupilar dos olhos

a cada novo toque ficava eu presa a faixas de alta compreensão
— pele de solidão 

você sorriu (mais) depois 
e como se soubesse 
perguntava sempre num deslize 
tudo bem? 

eu ainda não toquei na mala
eu ainda não mexi na prateleira
eu ainda
eu ainda não 

despedi sem fim 



take care 

……………………….

ser eu poesia


noite como outrora nunca vista
as estrelas pareciam querer cair
com desvelo segurei uma delas
entre o polegar e o  indicador
e de modo  brusco, movimentei-a
move-la de lugar, ser eu passagem.

sobre minha cabeça
um mobile feito, pelo cria-dor
e cria-ação que sou me encantei, sorri
de modo  ingênuo exclui o  verbo chorar
anulei o  sofrer sempre presente
restou  alegria, ser eu  feliz.

tirei o chinelo e andei vagarosamente
contemplando o  grandioso e minucioso
todo pouco universo
grão de areia entre meus dedos
me causando leve incomodo
breves cócegas, ser eu leve.

olhos fechados pra ouvir o cochichar do mundo
ficar imóvel para encontrar ondas
e só, só esperar, esperar…
mas carrego por segurança amarguras
sendo assim por zelo, o tal sal em mim, não  tocou
pensei com dor, por ser eu dura.

cheiro forte ainda não provado
disparou  a adentrar pelas narinas
completou o vago que restava
apoderou-se do eu, encheu
nessa noite eu  fui amada
ganhei sentidos, ser eu autor.

me quis pequena e frágil
me desenhei menina afável
apaguei a frigidez, fui ágil
desenhei sonhos palpáveis
não derramei lágrimas por lucidez
e ainda assim lavei  a alma, ser eu  água.

noturna tudo fui
rodeada de sensações
sem gosto, sem cheiro
era cem expectativa
juro, pouco sei  da vida
e o que observo, escrevo
por nascer defeituosa, ser eu poeta.

…………………………..

pequenino

inefável, primeiro pensamento ao céu:

lilás, azul, rosa e com toques amarelados

aurora boreal? não, não era

foi simplesmente deus, querendo me fazer rir às 18 horas.

e no céu de aquarela, luzes e cores que eu jamais criaria

clima quente com vento gelado

fazendo da blusa meia-estação que eu usava a roupa perfeita.

ônibus cheios, porém meu lugar esteve sempre reservado.

nessa noite não ganhei colo da mamãe

ao invés disso cedi a ela o meu.

meu canto desafinado permitiu que eu ouvisse a melhor canção do dia:

o riso dos meninos.

do amor nada além de “oi”,

mas para quem não esperava nada, já bastou.

fotografei o que alcancei, pois mais tarde me pediram provas

mesmo sendo tudo verdade.

é bom que saibam que eu acordei sem sorriso,

mas vou dormir sendo este.

oração: que eu perceba sempre suas cocegas, amém.

sem obstinação em vê-lo, o sentir já me envolve.

hoje, eu senti deus bem pequeno, 

senti deus menino, inocente no desenhar.

que colore sem outra pretensão que não seja o agrado e o riso.

senti deus tão pequeno, que até agora ele permanece preenchendo meu coração.

……………………..

Do lado esquerdo

nas noites em que sua presença é real

e o meu eu se torna nosso

o sonho continua sendo o que é

e a felicidade chega parecendo ser verdade.

nas manhãs em que seu olhar nasce antes do sol

eu adormeço meus sentidos com seu calor

perco a fala, pouco ouço e busco óculos

e acredito poder amar de verdade.

nos dias em que o medo e a solidão aparecem,

eu finjo ter coragem e me escondo atrás de uma postura ereta,

dizeres complexos, exaustivos e enigmáticos

e a correnteza parece não findar no interno.

no dia em que eu conseguir mostrar que ultrapassou o prazer,

que foi além do passatempo, muito mais que satisfação e gozar

e não mais necessite do recíproco, mas do fazer entender,

talvez eu consiga dizer sim ou não.

na ausência do que finjo ser, se o eu aparecer,

a dor chegará preenchendo espaços e não haverá outras dúvidas,

e talvez eu volte a prosseguir enfim, sem pensar no que deixei para trás,

mas visando o que está ao lado para seguir em frente.

…………………….

Pode levar

a poesia leve

leve, leve, leve

leve, leve, leve …

leve consigo estes beijos faciais

quando os quero, boca

as palavras amigas

que já foram sussurros.

aqueles abraços completos

que esmurram meu estomago.

leve, leve, leve

dentro e fundo (psiu).

de que me vale

a folha pálida

que me cativa a escrever?

para que eu quero

canetas transparentes?

nada resolvem,

inquietam-me.

não trazem cura aos males universais

nem aos meus, quiçá.

e assim, eu sigo

com frases perdidas

rascunhos de eu’s, soltos

tolos, tilos e ralos.

tenho todo-mundo bem aqui

tem o mundo-todo, bem.

quero o verbo que conjuga gente

a gente, a gente-todo.

ando e canso  de ouvir:

poetas. quero só poesia

pois tem me doído

ouvir sem ler nos olhos.

anseio versos não recitados

mudas-falas

de poemas na planta do pé.

calem os sentidos

para eu sentir o outro.

ouvir as mesmas notas

mil e mais vezes

e sem escrever, in-ventar.

que o vento leve, leve

mudas folhas e canetas verdes

pra outros, pra longe

enquanto não, escrevo.

…………………………

(en Philos)

eu gosto de brincar que sou deus
fazendo chover nas plantas
da sacada do apartamento
que não cai chuva
com meu borrifador de água
comprado no armarinhos fernando
-que eu ganhei-

regulo a pressão da água
pra formar aquelas gotinhas de garoa leve
e canto perto das folhas
alguma música sobre chover
-acho-
que elas não acreditam na minha encenação
e brotam flores bonitas por piedade

assim como brotam mais dias
nessa quarentena
que já nem sei como se chama
sessentena seria?

eu que continuo morrendo
planto muitos poema
e poucos nascem
alguns natimortos
se inscrevem em editais

nunca
o notebook ficou tanto tempo aberto

enquanto a porta
tem dias que não se abre
nem para descer o lixo
amontoado
no canto da cozinha
versus
pensamentos amontoados
em algum lugar
da cabeça

tanta informação
que parece ser impossível
concluir um poema
-ou qualquer outra coisa-

com o que será que sonham os maus?
talvez nem sonhem
me auto respondo
eu deus onisciente de mim

já é maio
me lembram as flores

e um pequeno medo
me toca os pés
e sobe rapidamente até virar isso:
q u a r e n t a
é composto por quantos dígitos?

ouvir as vozes das minhas mães
foi o que faltou ontem
por isso o titubear da fé no hoje

me agarro ao filho
que se agarra
a tela de proteção
pra ver além
da tela do televisor
eu e ele
nos exercitando
para acreditar

eu deus que sou
pequena
rezo em cada linha poema
pra lembrar a deus
de não se esquecer
de mim

…………………….

(do seu Facebook)

menimelimetros –

os meninos passam liso

pelos becos e vielas

vocês que falam becos e vielas

sabem quantos centímetros cabem em um menino?

sabe de quantos metros ele despenca quando uma bala perdida o encontra?

sabe quantos nãos ele ja perdeu a conta?

quando “ceis” citam quebrada nos seus tcc’s e teses

“ceis” citam as cores das paredes natural tijolo baiano?

“ceis”citam os seis filhos que dormem juntos?

“ceis” citam o geladinho que é bom só por que custa 1,00?

“ceis” citam que quando vocês chegam pra fazer suas pesquisas

seus vidros não se abaixam?

…. num citam, num escutam

só falam, falácia!

é que “ceis” gostam mesmo do gourmet da quebradinha

um sarau, um sambinha, uma coxinha

mas entrar na casa dos menino

que sofrem abuso de dia

não cabe nas suas linhas

suas laudas não comportam os batuques dos peitos laje vista pro córrego

seu corretor corrige a estrutura de madeirite

quando eu me estreito no beco feito pros meninos “p”

de (in)próprio

eu me perco

e peco por não saber nada

por não saber geógrafa

invejo tanto esses menino mapa

percebe, esses menino desfilam moda

havaiana azul e branca e preta número 35 / 40 e todos

que é tamanho exato pro seu pé número 38

esses meninos tudo sem educação

que dão bom dia, abrem até portão

tão tudo fora das grades escolares

tão sem escola

nunca teve reforço

—- de ninguém

mas reforça a força e a tática

do trafico mais um refém

os menino sabem nem escrever

mas marcam os beco tudo

com caquinhos dos tijolo

pcc! prucê vê, vê … vê?

num vê!

esses meninos que num tem nem carinho

são muitas vezes pés no chão

num tem carrinho preso no barbante

pensa que bonito

se fosse peixinho fora d’agua

a desbicar no céu

mas é réu na favela

lhe fizeram pensar alto

voa, voa, voa

aviãzinho

o menino corre, corre, corre

faz seus corres, corres, corres …

podia ser até flecha, adaga, lança

mas é lançado fora

vive sempre pelas margens

na quebrada do menino passa nem ônibus pro centro da capital

isso me parece um sinal

é tipo uma demarcação de até onde ele pode chegar

e os menino malandrão faz toda a lição

acorda cedo e dorme tarde

é chamado de função

queria casa

mas é fundação.

tem prestigio, não tem respeito

é sempre o suspeito de qualquer situação

“ceis” já pararam pra ouvir alguma vez o sonho dos menino?

é tudo coisa de centímetros

um pirulito

um picolé

um pai uma mãe

um chinelo que lhe caiba nos pés

aviso:

quanto mais retinto o menino

mais fácil de ser extinto

seus centímetros

não suportam 9 milímetros

esses meninos

sentem metros.

…………………..

Sobre amor e resistencia

você já viveu um amor impossível hoje?

mais impossível que são paulo?

maior que ela?

maior que a correria e a fuligem cinza que paira aqui.

maior que os cartões de ponto, que marcam entradas e desviam estradas, caminhos.

maior que o congestionamento das marginais que me separa em margens extremas do jardim tranquilidade.

já viveu?

maior que os preços:

* da gasolina que ele usa pra ligar nossos pontos;

* do hot-dog prensado das madrugadas;

* das cervejas dele;

* das coca colas dela..

maior que todas as pontes.

maior que o tempo de entrega do monotrilho.

maior que o tempo de embarque na estação sé no horário de pico.

bem maior que o autoritarismo de quem gere a cidade.

maior que o descaso com as minorias.

maior que o valor da integração do ônibus com o metrô.

muito mais leve que as sacolas que as tias trazem do supermercado.

mais leve que as traves de pvc.

mais leve que as rabiolas que ficam presas no varal.

mais leve que os meninos que são puxados pela orelha.

mais doce que pingo de leite,

que geladinho da esquina,

que risada de criança suja de sorvete.

maior que a truculência da polícia militar,

que o genocídio da população negra,

que o descaso com rafael braga …

ahhhhh isso não. isso é mais que é impossível,

é desumano,

é doído,

é incompreensível,

é improvável,

é inadmissível,

é inaceitável …

:::eu só amo impossível :::

mas ainda assim, ele é bem grande, sabe?

cabe no colchão de solteiro dele,

no sofá da sala da minha mãe,

no filme ruim da netflix

é maior que a primeira crise de ansiedade minha que ele presenciou,

maior que a preocupação dele com a crise de ansiedade,

maior que minha alegria ao descobrir que a voz dele é antídoto.

maior que os sonhos precoces que temos,

maior que o número de pagodes que ele

conhece, maior que o golpe,

maior que a quantidade de poemas ruins e sem sentindo que eu faço.

mais bonito que por do sol na laje deitados em edredom,

que nossa coleção de nomes próprios,

que almoço de domingo,

que o quebradinho do dente dele que só dá pra ver de muito perto,

mais bonito do que o primeiro dia que eu acordei muito perto dele.

nosso amor é amor próprio sem ser propriedade.

é o inevitável absurdo.

é o indizível ( mas eu sou prolixa )

nosso amor é tudo que não cabe em um poema,

é tudo que não cabe nessa cidade,

é tudo que não cabe nessa revolução armada ….

mas eu que vou amadx, eu que revoluciono voo…

eu que sou dadx ao impossível, tento.

nós que somos plural, tentamos

………………………

E para rematar, aquí a poden ver e oír como a grande poeta e grande slamer que é.

crítica de CORAZÓN DE MANTEIGA, de Xavier Queipo, en Galaxia.

 A INACEPTÁBEL  DIFERENZA

Título: Corazón de manteiga

Autor: Xavier Queipo

Editorial: Galaxia

Corazón de manteiga é un título ben bonito, ben lírico e que define estupendamente o protagonista central da novela, Mauro.

                     Xavier Queipo é quizá o autor menos convencional da nosa narrativa actual. Encetar un  novo título de Queipo é aceptar unha aventura lectora que nos vai levar por tramas-temas pouco frecuentados e tamén desde formas moi persoais dentro das posibilidades que ofrece a narrativa…sen pretender un rupturismo forzado senón unicamente ser el mesmo cando escribe consegue textos que sempre teñen un aquel de novidade fronte aos demais xa publicados. Isto acontece porque Xavier Queipo escribe o que el quere escribir e como el o quere escribir, e isto non sempre se dá…as autorías de best-sellers (admitamos a expresión) adoitan escribir pensando no que o lector quere ler e como sorprendelo. Nesta orde de cousas, Xavier Queipo é unha regalía, porque se comporta como verdadeiramente agardamos que se comporte quen escribe, que sexa ela/el mesm@ e que conte o que ten dentro.

                     Nesta ocasión, Xavier Queipo opta por novelar a vida dun ser diferente, Mauro. E é un reto narrativo certamente salientábel, primeiro polo que ten de intimista (a novela trasládanos a o rico mundo interior de Mauro, mesmo incorporando textos escritos polo propio Mauro) e que levará a novela a se converter nunha especie de corrente de conciencia ou fluír de conciencia na cal a interacción con outras personaxes ocupa un segundo plano, constituíndo a novela un exercicio de introspección nos adentros dunha personaxe singular (logo veremos  a razón desa singularidade), nos adentros dun abismo tamén nada convencional (e aquí hai certo parecido co proceder poético, mais esta vez narado). E en segundo luagr porque Queipo narra a vida dun ser diferente aos demais (ten “ausencias”, levita, axiña se sente defraudado pola interacción con outras personaxes, ama a natureza por riba de todo e chega se volver algo semellante a un anacoreta…) sen ter que recorrer a personaxes LGTBI+, por sinal, por sinal xa que seres “diferentes” hai e houbo a moreas, desde o mesmo Cristo a Galileo, sen ir máis lonxe e sen querer entrar nas “personaxes diferentes” que a literatura proporciona, o que nos levaría a unha enumeración longuísima, longuísima aínda que só nos fixaramos nos casos máis particulares ou especiais. Comecen vostedes, se queren, polo mesmo Quixote, e acharán innúmeros casos, algúns dos cales, cando se le a novela, xorden na mente lectora, mais tampouco imos perder tempo en sinalalos. Abonde dicir que, e por sinal outra vez, a narrativa de Cunqueiro está chea de personaxes singulares, diferentes, desde o Merlín ou Simbad á triloxía final. A modo de sinal, só exemplo de seres singulares. Só por sinal, porque o  que Queipo tematiza desde o seu Mauro, é a aceptación social das persoas “diferentes” que viven e se comportan conforme os seus propios valores, sen facer mal a ninguén mais refugando integrarse no que se denomina “sociedade convencional”. E esa é unha grande particularidade da novela de Xavier Queipo, non fica na “espectacularidade” deses seres diferentes e únicos, iso non é máis que unha circunstancia, o que se examina é a aceptación social desa diferenza. Que ten que ver coa estreiteza de miras dunha sociedade baseada na razón e que non é quen de asimilar o que non se axusta aos seus criterios “lóxicos e convencionais”.

                     Se se pensa ben, e a novela convida a unha reflexión fonda sobre os seres “diferentes”, a aceptación ou refugamento do ser humano diferente comeza xa polo racismo ou pola intolerancia relixiosa, de xeito que a proposta narrativo-reflexiva de Xavier Queipo estará sempre de actualidade, por iso e porque constitúe unha crítica da razón que dirixiu e atenazou a Modernidade até hoxe.

                     Para alén da crítica á intolerancia social coas persoas “especiais” ou “diferentes”, a novela tamén presenta unha esculaca no interior desa personaxe tan singular que é Mauro, desde que este é adolescente, comeza a decatarse das súas “peculiaridades”, vaise contando a súa vida e segundo se vai afondando na personalidade de Mauro, este vai tomando distancia co resto da sociedade até pasar a vivir nun refuxio habilitado no parque de Bonaval, de onde é “desafiuzado” para internalo no Psiquiátrico de Conxo e sometido auténticas torturas con tal de facer que recupere o siso, porque consideraban as autoridades médicas que a súa era unha vida “anormal”.

                     A novela está contada cunha salientábel atención aos pormenores, sendo rica en descricións tanto naturais ou exteriores como interiores ou relativas á personalidade evolutiva de Mauro, esa personaxe central configurada co pulso narrativo de quen ten unha vizosa obra e experiencia nas angueiras de contar historias. Non é, nin pretende selo, unha lectura cómoda, mais tampouco aposta polo extremo contrario ou tráxico. Mauro é unha personaxe literaria, diso non hai dúbida. Como tampouco hai dúbida de que represente esas persoas “diferentes” (e as causas da diferenza son moi variadas) nun momento histórico no cal a intolerancia social é promulgada desde púlpitos políticos coa, máis ou menos indisimulada, colaboración (necesaria) de medios de comunicación que, se ben queren lavar a cara asindo o protocolo do “politicamente correcto”, despois non disimulan nada á hora de estigamatizar o que non moe no seu muíño. Nós, @s galeg@s, sabemos moito diso, porque historicamente se nos difamou e nin no século XXI somos tratad@s cun mínimo de decencia.

ASDO.: Xosé M. Eyré

a propósito de NINGUÉN MORREU DE LER POESÍA, de Aldaolado, en Xerais

ALDAOLADO/LADO ALDAO

Título: Ninguén morreu de ler poesía

Autoras: Aldaolado (María Lado & Lucía Aldao)

Editorial: Xerais

Se Aladolado ( María Lado e Lucía Aldao) non existiran…habería que inventalas!

A maioría da xente, sobre todo quen non le poesía, adoita considerar @s poetas como seres ensimesmados, que escriben cousas moi trascendentes para as autorías mais que esa xente non remata por acharlle a substancia que fai eses textos tan trascendentes. Ao meu ver, esa é a opinión maioritaria entre a xente; e se a iso engadimos que se trate de poesía actual, de hoxe e non a clásica, o nivel de despego ou de escepticismo aínda se incrementa. Porén, nada máis lonxe da realidade. Escribir poesía é, primeiro de nada, un reto que a quen o afronta con éxito lle produce unha íntima satisfacción dificilmente comparábel a outral, porque axuda a coñecerse a si mesm@s (as súas limitacións e versatilidades) e dese xeito tamén a quen atopamos no camiño da nosa vida. Ah, mais hoxe é moi doado, non hai que rimar nin contar sílabas! Certo, a poesía liberouse de moitas ataduras, porén iso non a fai máis doada; ao revés: o sentido do ritmo, a dimensión espacial, a forma de salientar os conceptos etc. agora teñen unha aplicación nada doada e (digamos) nova, escribir mala poesía é moi doado, escribir boa poesía é ben complicado e canto máis complicado é o reto maior será a satisfacción se se logra.

                     Até agora falamos de escribir poesía, e poderiamos escribir moito máis, moitísimo, sobre as bondades de ler e escribir poesía. Porén hai unha tarefa moito máis complicada ca escribir poesía: divulgala, achegala á xente, facer que a xente disfrute en espectáculos poéticos. Os artigos dominicais que escribo sobre poesía de muller no Brasil permitíronme coñecer a estratexia dos lambe-lambe: textos poéticos escritos sobre superficies rídas que despois de colocan en lugares estratéxicos por onde pase moita xente, fotográfanse e sóbense ao Instagram e eses textos é posíbel recolocalos noutros lugares polo estilo. Unha estratexia para achegar a poesía á xente. E tamén están o@s Poetas ambulantes, poetas que soben en trassporte público e alí recitan os seus poemas. Isto, achegar a poesía á xente sempre foi o máis complicado de todo. Lonxe quedan xa as tentaivas do Batallón Liteario da Costa da Morte (moi importante porque aí comezou María Lado), por exemplo, ou a anterior demistificación dos Ronseltz. Hoxe fanse festivais, sobre todo, mais non é unha estratexia excesivamente “democrática” porque o público é moi maioritariamente lector (e/ou autor) de poesía.

                     Por iso, se non existiran as Aldaolado habería que inventalas, porque elas fan da poesía un espectáculo asequíbel a calquera público. A música, o desenfado dos textos, o humor ou a mesma expresión corporal ademais dun recitado terribelmente solvente e efectivo…fan dos seus espectáculos poéticos unha experiencia que o público agradece moitísimo porque lle permite estar en contacto coa poesía, emocionarse e botar unhas risas. Pois ben, agora temos a Aldeolado en papel neste Ninguén moreu de ler poesía. Aí entre as dúas cóntannos como foi que xurdiu Aldeolado, obséquinanos con poemas (ás veces inéditos) nun diálogo poético moi estimábel; téñase en conta que as dúas son poetas éditas con anterioridade a este título; sen ben María Lado publicou antes, Lucía Aldao leva desde o 1998 vencellada ao mundo da poesía. Versionean, moi libremente unha canción folk estadounidense (“ Where did you sleep last night?”) ao que segue un texto de María Lado para despois aparecer o primeiro poema conxunto das dúas , “80-90”, ao que seguirá “Se foses un amor” e a canción e poema “O faro”. Mais non remata aí o libro, aínda hai máis, e imprescindíbel. Segue “Atractivas e talentosas” e “Cousas que fago cando ninguén me ve + cousas que fago por amor” para rematar, agora si, cunha proposta dadaísta para que quen le participe tamén da creación poética. A única mágoa é que o libro non o acompañe un DVD con algún dos espectáculos seus. Iso xa sería poñerlle o ramo;  porén, no Youtube pódense ver moitos dos seus espectácilos, por riba con algúns dos textos que figuran nesta antoloxía-presentación en papel. . Polo demais, a esta poesía desenfadada, humorística (mais sempre con contido reflexivo), só se lle pode apoñer que ás veces o desenfado lévaas a recorrer ao castelán como medida de achegamento ao público, innecesariamente na miña opinión.

                     Non, ninguén morreu (nunca) de ler poesía.

                     E a vida, coas Aldaolado é máis divertida e poética

                     Que viva a poesía e que vivan (cerca) Aldaolado!

                     Non saberemos a sorte que temos co Lucía Aldao e María Lado, coas Aldaolado, até que as botemos en falta. Así que, quen non coñeza sos seus espectáculos, que espabilen e len este libro, que desmitifica poesía como “cousa seria” para presentárnola como “cousa divertida.

ASDO.: Xosé M. Eyré

Natália Agra ou o esplendor da poesía

Hai tempo que quería escribir sobre a poesía de Natália Agra. O Brasil conta cunha extensa nómina de mulheres poetas, poetas novas en idade e tamén en irrupción de forte impacto, que permiten dicir que a poesía feminina no Brasil goza dunha extraordinaria saúde, goza dun presente esplendoroso e convídanos a agardar un futuro de grandísimo nivel poético. Ao longo destes artigos de divulgación poética da poesía de muller brasileira, pode comprobarse ben porque en todos estes meses non son poucas as poetas divulgadas (e aínda non rematamos, aínda hai máis). Son consciente de que moitas veces @s poetas vense obrigad@s á autoedición para darse a coñecer, ou ben editan en pequeñas editoras, mais iso non merma o seu interse poético, todo o contrario: indica que aínda hai un intenso labor de divulgación pendente porque se trata de poetas de moita altura.

E o  nome de Natália Agra, no meu parecer, brilla coa luz propia da excelencia poética. Tardei tanto en escribir sobre ela porque quería ofrecer o maior número posíbel de poemas seus. Lamentabelmente non logrei atopar máis, porén esta mostra que despois lerán é suficiente para testar nela a gradísima poeta que é Natália Agra. Para comezar, fíxense nos diálogos que os seus poemas  establecen con otras autorías (non necesariamente recoñecidas como relativas á arte poética), iso indica un proceso de reflexión intenso, previo ou posterior á escrita do poema en cuestión, iso tanto ten; mais  tamén indica que a mesma autora é consciente do valor e altura da súa poesía, pois dedicando a nomes ben coñecidos os seus poemas é ficar na neutralidade do quero e non podo ben intencionado pretencioso mais mediocre; porén non é así, os seus poemas brillan co esplendor que só @ ourive pericios@ sabe imprimir ás súas obras (verbais neste caso) até lograr pezas comprábeis só a si mesmas. E non se trata sempre de persoas ou autorías recoñecidas, tamén hai outros nomes que interpreto pertenecen ao mundo dos seus afectos ou polo menos son xente que coñeceu e a impresionou por algún motivo. Isto que dicimos non singulariza a súa poesía restrinxíndoa a un universo de comuñón particular, íntimo, ocasional e particular. Todo o contrario, singulariza os seus poemas como textos concebidos para o diálogo, diálogo poético, diálogo de ideas, diálogo de afectos, dialogo de impresións…singulariza os seus poemas como textos pensados/creados tanto para os demais como para si mesma.

E logo vén a pericia poética que nos obsequia en cada poema. Nada hai que estea de mais e nada hai que falte. Utiliza recursos tan difíciles de usar ben como o adxectivo; o adxectivo ben usado é unha marabilla imprescindíbel; o adxectivo mal empregado é unha palabra absolutamente prescindíbel. E dimensiona os seus poemas no espazo de xeito que obriguen á relectura ou reflexión fonda. Nos seus poemas, cada verso é en si unha unidade de beleza, traballado e esculpido con amor e pericia até lograr unha perfección única.

Natália Agra, 33 anos, tamén é editora (Corsário-Satã e tradutora. Mora en São Paulo e publicou no 2017 De repente a chuva (Corsário-Satã) e tamén Fotogramas (o silencio possível) (Megamíni, 7 Letras, 2019), tamen probou na literatura infantil (Os balões de Nise, 2019) e é editora da revista ( con Fabiano Calixto, sen compañeiro vital e tamén poeta, Rodrigo Lobo Damasceno e Tiago Guilherme Pinheiro) Meteöro. O seu último libro é Noite de São joão (2020) e organiza con Maíra Mendes Galvão a versión paulista de Poetas de Dois Mundos.

Esta é a súa poesía.

A gozar!

(En Ruído Manifesto)

Noite de São João

Para Emanuella Helena, que se foi cedo demais (in memoriam)

Yesterday the sky was you

And I still feel the same

Billy Corgan

permanecemos aqui

anestesiados de imenso

frio nesta noite de São João

regressamos pela manhã

lareira ainda quente

aquecida pelo canto da cotovia

muito de nós dois

pelos cantos fechados da casa

o quarto vazio e seus brinquedos

enquanto você esteve aqui

ocupou com pequenas palavras

as borboletas

*

Pavana para minha irmã morta

assim vives em mim, irmã, singela

pulsas em mim como a visão mais bela

entre rosas sepultas e queridas.

Orides Fontela

definimos nossos caminhos em silêncio

(passo a passo)

no caleidoscópio

tropeçamos

no orvalho veloz da tua ausência

contemplamos

cresceram sobre ela quatro pétalas

*

Alejandra Pizarnik

teu nome, impossível primavera

canta furioso

com uma só pétala

a música que toca a pele úmida,

ausência

repousa nas mãos das nuvens

teu corpo

sobre a água

apenas teu nome

emana

flores

flora

cornucópia

*

Augúrios

Para W. B. Yeats

o mundo não está mais em bom estado

cada um enterra o que é seu

cada morte escolhida

oculta o restante

nem as prateadas maçãs da lua

ou as douradas maçãs do sol

sobrevivem ao mistério inquietante

o mistério no pouso do corvo

a floresta desesperada de sangue

a flauta, onde, na densa fumaça,

flutuam seus ossos

no acaso longo da vida

nada pode impedir

o perigo do agora

mesmo que tudo,

de algum modo,

tenha um espectro trágico

calo os tempos difíceis

com a mesma nuvem

que resiste à violência

*

O sétimo selo

lá está a morte

reconheço seus ossos

……………………………………….

(En Ruído manifesto)

O mistério do pavão

Para Kurt Cobain

um misterioso pavão

)                               cauda aberta em borboleta                       (

num movimento de bailarina

avança sem grande esforço pela colina

num colorido e vagaroso sui

dio

*

O trem

Para Torquato Neto

às três da madrugada

penso que o trem se esqueceu

de mim

mão gelada

louca disparada

– seria esse o meu fim?

*

Poema do infinito

Para Fabiano

tâmaras maduras em teus quadris

corpo em flor de anis

escapa vivo num torso místico:

todo o profano

Aruanda é aqui

nesta cama

o tempo, naquele instante

um tear

vislumbrando no outro a própria estranheza

(carne e cios duros)

castelã com unhas de gatos

costas arranhadas

hímen e rins como animais em asas

falena volteia erguido libertino

não coma a borboleta

(veneno e lua lambem a mesma boca)

sinédoque doce Shiva

num toque de chuva

abraça vísceras sem palavras

por último, lâmina-lança

bruta serpente calada

(Aruanda, nossa eternidade)

éter, clarim

todos os sentidos

chama

e chuva

*

Nos teus olhos todas as fases da lua

Para Letícia

1.

o planeta vermelho que de perto

é um balão voando

na altura dos meus cílios postiços

em atrito dá efeito

de borboleta na balada já cansada

torres transparentes de tequila

torres vermelhas de vinho tinto

e lá no fundo você

extraindo da moldura a carne pura

na manhã seguinte

o olhar fechado

o corpo em ressaca

a memória uma torre de vidro

neste mar de valsas-ondas

2.

a maçã e sua anorexia à mostra

estranho exemplo

a boca preenchida de carne

os olhos gotejam no balde

a liberdade melancólica da lua

sempre só

num silêncio-móbile

que Patti Smith canta:

você seria uma asa no céu azul

em sua escuridão

finally we are no one

pergunto-me se isso não seria o fim do horizonte

o espaço e suas maçãs tão vermelhas

saturnos

giram

                                   e

giram

it was beautiful!

it was beautiful!

…………………………..

(En Poesia primata)

SILÊNCIO

a casa estava tão vazia que dava para ouvir
o tique-taque de três relógios diferentes



FOTOGRAFIA INVISÍVEL


Para Inês Dias


ouço um
barulho que
vem de
dentro da
porta que
toma o
corredor como
se florisse
o velho
prédio fantasma

um piano
lá longe

bendito o
oculto que
faz do
céu a
respiração forte
das harpias

a música,
                      curva que
                                            não vejo

refletida nos corpúsculos

…………………………………..

(Na antoloxía Uma alegría estilhaçada)

Almost blue

Para o Roberto

divido com ele o café melancólico

polly jean diria que ele está exposto como uma estrada aberta

leva o mundo com o voo no peito

respira fundo todo o espetáculo do silêncio

quando tratamos da vida moderna

chegamos à conclusão de que o futuro

este fracasso de gerações

não merece mais o nosso cuidado

mas concordamos que os jovens são tão bonitos

em sua harmonia alienada em volta da piscina

juntos, evitamos decifrar os suicidas

e deixamos o livro sempre aberto no precipício

ele também fechou os olhos do seu pai

e observa gringos cabeludos e sorridentes no

trapézio da tragédia

cantando zombie

se eu pudesse descrevê-lo em uma imagem

o desenharia à mesa, às 8h da manhã

enquanto todos embaixo de 32 andares

correm atrasados

ele está sentado, com seu suéter de outono

ouvindo o barulho que só o café faz na xícara

como poemas que se evaporam antes de chegar ao último verso,

ele está ali, a sós, fumando em paz o seu cigarro

…………………………..

(no Pensador)

In the mood for love

I

como hei de dizer poesia?
o toque fino nas costas
do desenho abstrato
nasce uma orquídea nos dedos

II

os gatos nos distraem
se distraem
até que pegam no sono por nós quatro

III

eu gosto é de ficar aqui
com você
e os últimos desejos
namorados das estrelas

IV

a alegria nem sempre alegra
é aí que nos abraçamos e aumentamos o volume pela casa
já é tarde, no outro dia
você diz que meu sorriso desnuda o seu

V

decoramos a casa
com os nossos beijos
e muita bagunça na cama

VI

você me deu a sua máquina de poemas
eu te mostrei o meu maior segredo
você se esconde dentro de mim

VII

na rua
espalho a multidão
deixo você passar
e parar quando quiser

caso queira, vejo contigo as vitrinas mudarem de estação
aliás, vemos a chuva, a rua molhada, a luz da noite derramar na chuva a luz da lua
fazemos a chuva parar
e voltamos pra casa

VIII

do olho mágico
te vejo sair
e te espero voltar

IX

o que me deixa mais feliz?

o fim da noite
quando no teu peito
sinto o teu coração bater
e respondo, noite bem!

X

estamos no segundo inverno
aquietando a chuva
na rosa mais vermelha do coração

crítica de GRANITO, de Álex Alonso, en Xerais

UNHA MALA HORADA

Título: Granito

Autor: Álex Alonso

Editorial: Xerais

Para comezar, situémonos. Granito, de Álex Alonso, gañou ex aequo con O paraíso dos inocentes (Antón Riveiro Coello, Galaxia, del escribimos a semana pasada) o último Premio Torrente Ballester. Resulta curioso como nas dúas edicións, de editoras distintas, se fai referencia a ese carácter ex aequo mais nunca se nomea nin o outro autor nin o outro título.

                     O primeiro que individualiza esta novela, non é ningún valor literario en concreto (despois volveremos sobre iso) senón os usos lingüísticos que nos diálogos se fan. Nos diálogos, non na narración, que na narración, tanto ten que sexa en terceira persoa (omnisciente cando quere) como en primeira persoa, a linguaxe utilizada correspóndese coa normativa oficial ou padrón do galego. Do resto, nos diálogos, úsase desde un galego popular (con gheada e seseo cando é pertinente, ademais de interferencias castelás tanto no vocabulario como na fraseooxía), tamén hai algo de castrapo e moito castelán, o castelán que se fala en Vigo, tamén con algunhas interferencias do galego, de aí o do castrapo. Está ben querer refectir a realidade lingüística (de hai case trinta anos, a trama transcorre a comezos dos anos 90), mais iso, en si, non desloca o texto de ser unha testemuña lingüística; só adquire valor literario cando eses usos lingüísticos serven para caracterizar as personaxes, por sinal e nin aínda así a literatura galega se escribe en castelán (ou estaremos en regresión?). Relativo a isto, hai que dicir que non sempre se consegue (alén de patentar a diglosia social), ás veces en Louredo e Vila (dúas personaxes centrais dunha novela moi coral) si  apreciamos que os seus diálogos os axudan a  caracterizar minimamente (sobre todo, xa adiantada a novela, e no inicio moito menos), mais, sobre todo, hai outras personaxes (Paloma, María, o mesmo empresario Daniel Vence…) nas que iso non sucede nunca e teñen que ser caracterizadas polo narrador principal. Repetimos, isto ten máis valor como documento lingüístico testemuñando a realidade lingüística dos comezos dos 90, que como texto literario…onde nin a presencia do castelán para marcamento da diglosia é precisamente novidade ningunha, como tampouco o son nin a gheada nin o seseo, por máis que tampouco sexan precisamente habituais nas nosas letras. Tamén hai que dicir que, neste ambiente, unha personaxe, Pablo, un adolescente, toma a decisión de abandonar o castelán e comezar a  utilizar o galego en calquera situación O mesmo que esta novela tamén testemuña as dificultades que a lingua galega atopaba/atopa (porque non mudou nada a cousa) á hora de furar e facerse notar na prensa escrita tradicionalmente castelanófila (Faro de Vigo) ou como a Xunta de Galicia marxinaba publicaións en galego unicamente (A Nosa Terra) en favor doutras que só o utilizaban/utilizan esporádicamente.

                     Ben, fóra diso, con moito máis valor lingüístico ca literario, é cando temos que comezar a falar da novela como produto plenamente literario. Na presentación editorial, e no propio texto, menciónase A sangue frío, de Truman Capote como un referente inxecusábel da novela de non ficción, xa que esta nace dunha moi fonda investigación a cerca duns asasinatos acaecidos en Kansas. Tamén se di que, fronte á non ficción, Álex Alonso aposta pola ficción, mais, iso si, tamén unha ficción fondamente documentada que, neste caso, se refire a outro crime múltiple ocorrido en Nigrán (e outro en Gandía) a comezos dos 90. Neste particular ten especial interese a confrontación de ideas sobre o que o xornalismo debe ser, se unha crónica que simplemente transmita os acontecementos tal e como pasaron… ou utras crónicas máis literarias e menos apegadas ao dato concreto que transmiten mellor o ambiente humano e a mentalidade criminal ao facer uso de recursos máis literarios que xornalísticos. Como tamén ten interese todo o relativo ao realismo sucio que daquela aínda estaba bastante de actualidade.

                     Con estes presupostos (o crime múltiple) e tendo como personaxes centrais (desta novela coral) a un ex-policía expulsado do corpo e que trapichea e malvive como pode case sempre abeirado a ambientes marxiais, e a un policía que se extralimita constantemente e que tampouco ten escrúpulos á hora de valerse do seu cargo (subinspector) para extorsionar ou traficar con droga…as bases estaban sentadas solidamente para asistirmos  a unha novela negra onde estiveran presentes a corrupción policial, os baixos fondos da delincuencia e mesmo o que atinxe ao xornalismo e ás altas esferas do poder económico. Sería unha novela negra ben completa. E hai veces en que esta se beirea, en que  a novela se sitúa moi cerca dela; porén non vai por aí o interese autorial, que ten máis que ver, que ten todo que ver coa novela realista. E, nisto, neste interese realista (que xa se podía albiscar desde os usos linguïticos) hai algunhas cousas que non rematan por convencernos. Como é o caso de que un alumno de 1º BUP teña como lectura o Tic-Tac de Suso de Toro; non sei se habería docentes que programaran esta lectura, mais en todo caso é  unha irresponsabilidade porque a esa idade dificilmente se pode comprender ben a obra de Suso de Toro, moito máis se temos en conta que moitísimos alumnos chegan a esa altura con case ningún libro lido enteiro en galego. Logo menciónanse outras lecturas máis pertinentes, porén hai aínda outra cousa que tampoco fica nada clara: cando reparten os cartos Louredo e Vila, a Louredo correpóndelle 11 millóns de pesetas e 9 a Vila…mais eses 9 onvértense en 8 un pouco despois sen que atoparamos explicación convincente. Ou unha fita de casette que se converte en CD… E tamén, cando se fala do Comandante Marcos…en realidade, que nós saibamos, sempre se intitulou “Subcomandante”…

                     Alén diso tamén hai usos lingüísticos do narrador principal que non son alá moi acaídos. Tal é o caso de ancas de ra, cando as ancas son sobre todo as equinas e as da da ra son zancas. Ou o uso de resío en lugar de orballo, que tampouco é moi acaído toda vez que “resío” ten outros significados diferentes. Digo isto a sabendas de que, como mínimo, o dicionario en liña da RAG permite ese uso de resío (e está vivo na fala), non así o de anca. Acontece outro tanto con quefacer, onde outros sinónimos (angueira, labor, ocupación, tarefa..) son menos sospeitosos de tradución do castelán e si bastante máis “enxebres”…

                     En canto ao valor literario da novela, hai que dicir que o narrador principal vai desempeñando seu labor narrativo con máis eficacia e meirande pericia na segunda parte parte de novela, unha novela de longo alento. Nesa segunda parte é de salientar xustamente iso, un comportamento narratatorial moito máis convencido, con mellor uso da fraseoloxía e moitísimo máis eficaz. E dicimos que é de salientar porque o interese que a trama crea en quen le, non é precisamente un punto forte da novela. Non hai dosificación da información coma nunha novela policial ou negra. Non pode habelo, porque a resolución da novela prodúcese cando aos dous protagonistas centrais (chamémoslles así) sucumben ao que popularmente se coñece como “unha mala horada” e perpretan o crime que porá fin á trama, ou case, porque a novela non remata aí

ASDO.: Xosé M. Eyré.

Jennyfer Nascimento: poesía periférica e da indignación

Todo o mundo coñece a poesía como unha forma de beleza materializada con palabras. Mais, se a beleza fica niso, en só beleza non pasa de algo anecdótico sen maior trascendencia. Quere isto dicir que, se na poesía non hai ética, de pouco serve. Cando a poesía nace da conmoción e conmove a quen le, entón é cando a poesía é arte verdadeiramente, cando é útil. Cando nun país como o Brasil @ poeta olla o racismo existente na sociedade, o desprezo polo “negro” ou “preto”, olla e cala…máis que poeta é un/unha covarde ou colaboracionista que se esconde detrás das mil máscaras do silencio. Cando @ poeta ve e comproba a minusvaloración da muller, os abusos de que é obxecto a muller…@poeta é unha/un covarde colaboracionista que se esconde detrás das mil máscaras do silencio.

Desde aquí, desde este lado do Atántico, eu non teño dúbidas nin do racismo nin do machismo no Brasil. É máis: nomes como o de Conceição Evaristo ou Miriam Alves tiveron que denunciar racismo mesmo na Paraty, a festa da poesía máis célebre no Brasil, o que é ben grave e ben sintomático do branqueamento da sociedade brasileira na tentativa de eliminar a cultura negra. Neste sentido teño cada vez mási certo que no Brasil habería que falar de culturas máis que de cultura. Se mesmo quixeron branquear o mesmísimo Machado de Assis!

Neste contexto, o nome de Jennyfer Nascimento é todo un exemplo de loita. De loita contra o racismo, de afirmación nos valores da negritude. De loita contra o machismo, de afirmación nos valores da muller. De  loita e reivindicación. Son consciente de que na poesía de Jennyfer hai máis temas, son moi consciente diso, mais quero tematizar a loita contra o racismo e  loita contra o machismo como temas preferentes e bandeira da poesía de Jennyfer Nascimento. Porque me parece o máis xusto e eu non quero esconderme detrás das mil máscaras do silencio. E porque cada vez vexo máis claro que na Galiza, os galegofalantes!, temos a mesma loita que no Brasil existe contra o racismo, a mesma loita contra a minusvalorización interesada. E o mesmo se pode, e o mesmo de debe dicir no relativo ao machismo.

De Jennyfer Nascimento só coñezo Terra fértil (Editora Mijba ,2014. O Mijba é un colectivo de mulheres negras fundado por Elizandra Souza), e as súa colaboración na antoloxía Pretextos das mulheres negras (2013). É nativa de Paulista (Pernambuco), naceu en 1984 e, segundo ela mesma dixo, a súa poesía nace do hip-hop, do rap e dos saraus. E a súa poesía tamén se identifica coa poesía ou literatura periférica. Non só porque as autoras desta literatura moren na periféria de São Paulo, senón tamén, en palabras de Sérgio Vaz, porque: “ que nasce em espaços violentos, do racismo, da precariedade da saúde e da educação, da orfandade, de uma condição social desprivilegiada.

A de Jennyfer Nascimento, en resumidas contas, é unha poética da periferia (imposíbel non lembrar a excelente e favelaria novela, romance en portugués, de Iolanda Zúñiga así tiulada: Periferia, Ediciósn Xerais, 2010), da periferia e da indignación.

Sendo só un título, hai que dicir que é un poemario ben extenso.

Sendo só un título, é suficiente para considerar a Jennifer Nascimento como unha das voces máis potentes da poesía brasileira actual, non só da poesía negra.

Se até agora falamos sobre todo de ética poética, isto non quere dicir que formalmente a súa poesía non teña moito mérito. Porque o ten. Só con ler os poemas que presentaremos na selecta habitual é fácil comprobalo.

Antes de rematar esta presentación, non quero deixar de indicar outro tema común entre a poesía negra de muller (especialmente) feminista…e a poesía/literatura galega feminsta: o corpo. A necesidade de reificar o propio corpo, a necsidade de resignicar o propio corpo da muller lonxe da concepción masculina.

Non deixen de visitra o seu Facebook porque nel hai moita poesía (na selecta hai un poema que de alí provén) e é unha boa maneira de estar informad@s da loita contra o machismo e racismo.

E, agora, disfruten e indígnense!

(En Blogueiras negras)

ANTÍTESE

Pediram um corpo escultural
Eu não tinha.

Quiseram uma mulher ignorante
eu já tinha lido o suficiente pra me proteger.

Sugeriram que não opinasse em assuntos de homem
Eu nunca consenti em calar.

Disseram que eu fosse esposa
Eu não quis casar.

Discursaram que as mulheres são frágeis
Eu não tive tempo de exercitar fragilidades.

Orientaram que não freqüentasse bares
Eu não pude negar as esquinas.

Quiseram controlar meu jeito de vestir e falar
Eu não vi sentido em deixar de seguir minhas vontades.

Apostaram que eu teria um subemprego
Eu vislumbrei ir mais distante.

Transaram comigo e depois fingiram não me conhecer
Eu aprendi a ignorar os imbecis.

Disseram que eu não amamentasse para o peito não cair
Eu amamentei até cair.

Submeteram meu corpo e meu psicológico à violência
Eu me juntei a outras como eu para superar.

Compraram vaidades para que eu me adequasse
Eu envaideci aprendendo palavras de ordem na luta.

Exigiram fidelidade e submissão
Eu rompi por amor próprio.

Cagaram mil e uma regras de conduta
Eu mandei pra puta que pariu
E sorri, feliz.

DESENSINAMENTOS

Estão a moldar nossos pensamentos,

A roubar nossa autoestima.

Nos ensinaram um andar cabisbaixo.

Corpos curvados encaram o chão

Como se olhar o céu ou o front

Não fosse algo permitido para negras

Lavadeiras, cozinheiras, professoras,

Balconistas, cabeleireiras e universitárias

Como nós.

Nos ensinaram que somos feias.

As capas de revistas não nos querem.

Os garotos nas escolas não nos querem.

Os cargos executivos não nos querem.

Os maridos não nos querem.

Reparem bem no que dizem.

Está tudo assim desproporcional,

Grande demais ou escuro demais.

Pelo menos ajeitem esses cabelos.

Ensinaram a moldar nossos corpos,

A tirar nossa expressividade.

Nos ensinaram coreografias pré-moldadas,

Em que o balanço e a espontaneidade não cabem,

E assim, pouco a pouco deixamos de dançar.

Somos corpos reprimidos que pairam

Por medo de errar a coreografia,

De errar a medida, de errar…

Corpos doentes.

Corpos endurecidos.

Corpos infelizes.

Estão a moldar nossos sentimentos,

A negligenciar nosso sentir.

Nos ensinaram a ser fortes.

Aguentar o sol forte queimando na cara

Ao carregar a lata d´água na cabeça,

A aceitar humilhação da patroa,

A parir sem gritar ou gemer,

A criar os filhos sozinhas.

A esconder o choro de solidão,

A não pedir ajuda a ninguém,

A esquecer de si mesma.

Nos ensinaram a calar.

A não dizer o que sentimos, nem o que pensamos.

As coisas são como são e ponto. Tá entendido?!

Na prática ninguém costuma mesmo

Dar ouvidos a uma mulher, a uma negra.

Que diferença faz o que você disser?

Quantas vezes adiantou falar?

Eles sempre dirão

“Você só fica bonitinha assim, calada”

Aprender a calar antes que te calem.

(…)

Então um dia

Outras mulheres negras

Das mesmas fileiras que nós

Nos ensinaram que tudo que tínhamos aprendido

Era uma grande farsa.

Foi quando aprendemos a lutar.

…………………………………..

(En Literafro)

Douglas, Amarildo e Claudia

DOUGLAS poderia estar em um cursinho pré-vestibular gratuito
Já que a escola não o preparou para as universidades públicas
E, quem sabe, com dedicação e esforço no ano que vem seria ele
O próximo aluno negro a entrar em Geografia na UNESP
De mudança para Presidente Prudente
Levando na bagagem os sonhos colhidos na Zona Norte.
Não deu tempo.

Só conseguiu balbuciar:
Por que o senhor atirou em mim?

AMARILDO poderia estar contando historias para seus filhos
Que nem só de dourado vive o pescador e que há peixes grandes
Nesse mar imenso desse tal de Rio de Janeiro, fevereiro e março…
E quem sabe estivesse de emprego novo, salário digno
Sem hipocrisia de um patrão pagar R$300 ao mês para um pai de 6 filhos.
Mas naquele dia era pra ser só divertimento
Ver o jogo do Vasco X Flamengo.
Nunca mais voltou
O desaparecido.

Do morro aos quatro cantos do mundo:
Onde está o Amarildo?

CLAUDIA poderia estar preparando um bolo com cobertura de chocolate
Para o aniversário de sua sobrinha mais nova.
Quem sabe naquele domingo estivesse ouvindo
Paulinho da Viola ou Jorge Bem para se distrair
Sem parar no peso dos serviços gerais
Que desde a escravidão pesa para
Pessoas de sua cor.
Mas não, foi apenas comprar o pão.
De troco, a carne exposta ao chão.

Deu no jornal, virou notícia.
Mas ninguém se comove
Quando gente preta morre
Pelas mãos da polícia
Ninguém.

Isto não é um poema.

                                                                                    (Terra fértil, p. 108)

Dor amor

O primeiro homem negro que amei
Não sabia que era negro
Mas a polícia sabia bem.
Tirando os beijos trocados na porta da escola
Demonstração de afeto, coisa rara.
Revolta era o sentimento mais comum
A maneira de dividir a dor
De dividir a cor.

O segundo homem negro que amei
Foi doce, amoroso e companheiro
Tínhamos o hip-hop como pano de fundo
Dançamos, vivemos à rua, o mundo!
Não fosse o ciúme: amor = prisão.
Numa crise me chamou de vagabunda
Me empurrou do escadão.
Chorou arrependido, mas não deu
Não deu mais para o amor.

O terceiro homem negro que amei
Faceiro, moleque de terreiro
Por seu encanto caí no samba de roda.
A roda rodou, gira girou.
Tivemos um filho, negro menino.
As dificuldades da convivência
Transformaram o sonho de amor
Em traições, mentiras e abandono.
Quando sentiu me perder foi tarde
Era ele quem tinha se perdido

O quarto homem negro que amei
Já havia amado muitas mulheres
Mas nunca se deparado com um negro amor.
Eu o amei com gosto de liberdade
Um jeito que ele nunca entendeu.
Este, se me amou foi em segredo
Na ferocidade do sexo
Encoberto por lençóis floridos
Em agudos gemidos.

O quinto homem negro que amei
Era poeta, sensibilidade aflorada.
Seus crespos emaranhados aos meus
Duraram uma primavera, assistida da janela.
Um dia o poeta, quis por bem fazer discurso:
“Mulheres negras são difíceis, cheias de complexo”
Era a moça branca com quem ia se casar
Sugeriu que eu fosse sua amante.
Chorei muito, não de amor.

Todos os homens que amei são negros.

Não me julgue o coração
Eu só quero amar.
Apenas.

                              (Terra fértil, p. 46)

Raízes

Chão de terra
Terra preta
Preta é a tua pele.
Olhares dispersos
Olhares cruzados
Sonhos roubados

Chão de terra
Terra preta
Quebraram-se as correntes.
Nunca houve correntes
A vontade era tanta
Não conseguiu conter.

Chão de terra
Terra preta
Amanhece.
Exalam cheiros íntimos,
Pelas fretas contrastam os tons
Quero denegrir.

Chão de terra
Terra Preta
Fértil.

Cresce uma raiz grossa
Brota um desejo único
Sentir seu gosto negro

Chão de terra
Terra preta
Uma descendência inteira
Na tua pele garras, marcas
Um território livre
Sob dominação.

Chão de terra
Terra preta
Temperatura não cessa.
Mudança de estado
De sólido pra líquido.
Escorre a seiva.

Chão de terra
Terra preta
Arada.
Negrecis
Negrume
Negredo.

Nosso segredo.

               (Terra fértil, p. 24)

Samba jazz

Ele gosta de jazz
Frequenta cafés e lugares cult.
Já leu Morin, Bourdieu e Oswald
Fã de Glauber como Deus e o Diabo.

A Terra em Transa, transe.

De tão existencialista
Divagava horas sobre
O tal sentido da vida.

Ela não.
Só queria saber de viver.

Criada no samba
No ruído da cuíca.
Frequentava bares, biroscas, botequins.
Além das receitas dos remédios de sua mãe
Gostava de ler muros e olhos de pessoas.

Fã mesmo
Só de histórias
De Dona Biu benzedeira
Sua bisavó.

Ele, nascido e criado em SP.
Império acinzentado e sem amor
Até que se prove o contrário.

Ela, nascida e criada em SP.
Na multidão de dez milhões
Aprendeu a se aquecer.

Havia rumores de que o mundo fosse acabar.

Ele dotado de “razão” que era
Não deu a mínima.
Rumou para o centro da cidade
Para ver os Expressionistas.

Ela apressou-se
Queria se arrumar, estar bonita.
Era tempo de festejar
Um possível recomeço.

Aconteceu do salto fino de menina do samba
Trombar na camisa desbotada do cara do jazz
Na General Jardim
Assim.

Ela primeiro leu seus olhos
E no muro a escrita:
-Mais amor, por favor!

Ela não teve o que teorizar.
Diante dela sentiu-se parte
Do Cinema Novo.

Nasceu ali o samba jazz.

Agora o mundo já podia se acabar
Ou não.

                                         (Terra fértil, p. 14) 

Identidade

Cansei de ser uma foto 3×4
Acompanhada por uma sequência de dígitos.

Cansei de ser número
No RG, CPF, Título de Eleitor
Passaporte, Carteira de Trabalho.
A burocracia nunca me enxerga como gente.

 
Eles não sabem da cor azul
Que fui a Bahia e vi Dona Canô na festa de Reis
Que choro quando leio a Cor PúrpuraNem que passo as tardes ouvindo Benito de Paula.

Cansei de ser número
Engrossando as estatísticas
De mãe solteira sem superior completo
De mulher negra que sofreu violência doméstica
Que agora sou parte dos 56% de classe C
Segundo a revista Exame.
Vexame.

As estatísticas não sabem, por isso não divulgam
Ando triste, confusa e ruim da memória.

E no posto de saúde.
Onde sou apenas mais um número no SUS
Não tem psicológicos para sequer uma consulta.
Desconfio que psicológicos devam atender
Apenas números inteiros e não os fracionados como eu.

Preocupa-me
No futuro, tudo ficará mais simples
Seremos como um código de barras
É só passar no leitor e pronto!
Teremos até preço
(a depender da inflação)
Um número com cifrão.

 Lamento aos burocratas
Aos analisas organizacionais
Aos pesquisadores e estatísticos
Enquanto houver brilho nos olhos
Não posso, nem quero ser só um número.

                                                 (Terra fértil, p. 18) 

Rio – São Paulo

Os bancos da rodoviária
Ficam mais cenográficos
Pelas duas de manhã.
Em um completo vazio poético
Habitam ali os que já passaram
E aqueles que ainda não chegaram.

Eis que já é hora de voltar.

As ruas da Lapa tão atraentes
Com seus arcos, suas gentes
Periga fingir que saudade não sete
Mas sente…
E como sente!

O bar da cachaça
Onde a gente se perde e se acha
Se engraça e se enlaça
Até que a noite se desfaça.

O ônibus aponta na plataforma.
A rodoviária é uma plantação de sonhos
Onde alguns voltam sem fazer a colheita.

É que já não queria mais voltar.

Havia um amor de retorno
Que não lhe quis assim faceira, namoradeira.
De vê-la olhando nos olhos de outras mulheres
Só faltou morrer.
Por olhar nos olhos de outros homens
Não quis saber.
Que pena!

Lembrando do desprezo
Resolveu ficar
O ano novo a começar.
Subindo as escadas pra Santa Tereza
Curar as mágoas bebendo cerveja.

Mas um dia eu volto
Te explico tudo
E se você não entender
Tudo bem, meu bem.

Só vim pra te dize que
O Rio de Janeiro continua lindo.

                                         (Terra fértil, p. 84) 

Reféns da metrópole

Não me espere
Devo chegar atrasada
Como tantas outras vezes.

Este que insiste em me acordar
Finge controlar o tempo
Mas não passa de um objeto amorfo
Ponteiros em busca de uma identidade.

O sol adentra a janela
Vivaz como nunca
Impondo obrigações a alguns
Criando possibilidades para outros.

Buzinas, sirenes, faróis
Compõem a poética da manhã
Nada mais que remeta
Ao baixo meretrício da noite passada.

Tijolo com tijolo, cimento e tráfego
Chico Buarque deve ter passado
Na contramão aqui por São Paulo.

Eu que a esta hora
Sou moradora do silêncio
Ando pela casa falando com os olhos
Improvisando vontades pra seguir.

Não me espere
Devo chegar atrasada
Mais uma vez.

Fico a olhar as pessoas no trem
Fones de ouvido e mudez
Por que não cantam?
Por que não cantam?!
Deve ser porque não escutam
Bezerra da Silva
Deve ser…

Fico a olhar as pessoas nas ruas
Também devem estar atrasadas
Apostam corrida com seres imaginários
Que diariamente as acompanham.

Desce do trem.
Sobe as escadas.
Sinal vermelho.
Atravessa fora da faixa.
Corre até o ponto de ônibus.
Motorista passa direto.

Não há sorriso.

O relógio finge controlar o tempo.
Na cidade, cada um finge controlar a si mesmo.

                                                   (Terra fértil, p. 42)

Carne de mulher

Nua em frente ao espelho
Me olho
Me observo
Me vejo
E me sinto mulher.

Nas ruas é bem diferente.
Mesmo vestida
Me olham
Me observam
Me vee
Como pedaço de carne.

Quanto vale ou é por quilo?
Carne de primeira, de segunda
Carne de mulher?
Carne de vaca?
Seria eu uma vaca?

Cadê a mulher que eu era quando saí de casa?

Não! Não aceito! Me recuso!
Eu não sou a carne mais barata do mercado.
A carne mais barata do mercado não é a mulher negra!

                                                                 (Terra fértil, p. 54)

Prefiro a guerra

Telefone toca.
Sinto a navalha na carne
E o sangue esguichando.
Rapidamente os rumos mudam.

Rua de cima
Rua de baixo
É a porta direita do carro que se abre
Sem pausas e sem sorriso.

Aquela boca morta.
A mesma que te beija
É a boca que te corta.
É a fala que sai da boca
Que de fato me apavora.

Abro o portão
Subo as escadas.
Fogo morto
Tropecei na realidade.

A navalha era afiada
O sangue vai demorar a estancar.

O que você está esperando
O próximo episódio?
A próxima tragédia?

Se o amor é isso
Uma hemorragia interna
Eu prefiro a guerra. 

                   (Terra fértil, p. 118)

Menina bonita sem laço de fita

Laço de fita?
Nunca botou no cabelo
Diz que é feio, não combina.

Menina, só quer ser bonita.

Do nariz já não gosta
Da boca tem vergonha.
Toda semana o ritual.
Acorda cedo, lava o cabelo
Separa mecha por mecha
Começa a chapinha.
Às vezes o couro arde, queima.
Ela já não liga.

Gosto assim
Quando passa na rua e alguém diz:
– Psiu, ô morena, ô moreninha!

Menina, só quer ser bonita.

Queria que os garotos
A olhassem na escola
Mas dia após dia
Ela parece invisível.

Ainda não percebeu
Ao alisar seus cabelos
Alisa também seus crespos sonhos
Os deixando sem brilho
Sem forma definida.

Sexta-feira não abre mão
Vestir de branco é tradição
Sua vó lhe ensinou assim
Vivendo a ancestralidade
Essa não pode negar.

Ah menina…
Te vendo assim
Reconheço no seu presente
Pedaços do meu passado.

Menina bonita, sem laço nem fita
Tenho certeza
Eu ainda vou te ver brilhar
E seu cabelo crespo reinar.

Futura Rainha Nagô.

                           (Terra fértil, p. 76)

……………………………

(En Blogueiras feministas)

Despedida’

É madrugada
Reviro de um lado pro outro
Eu sei bem o que me tira o sono.

Ouço vozes,
Num programa de TV
Gal e Caetano cantam
“Recanto Escuro”.

As evidências denunciam
Esse grampo colorido na penteadeira
Não parece em nada com os meus.

O leite estragado na geladeira
Previa o gosto da despedida.

A inevitável conversa acontece
Com justificativas vãs que toda mulher
Já deve ter ouvido centenas de vezes:
“Eu não queria que fosse desse jeito”
“Desculpa, se eu te magoei”
“Não fica assim, vai ficar tudo bem”
“Uma hora vai passar”.

Eu odeio frases feitas.
Disfarço aquela inevitável vontade de chorar
Por raiva, desprazer e ironia.

Até parece que o amor não deu.

Engraçado, você é cheio de manias.
Parece que é só no fim
Que nos damos conta de algumas coisas.
Senta sempre do mesmo lado do sofá
Só usa camisetas de cor clara e
Nunca esquece de apagar as luzes.

Eu vou sentir saudades
Das conversas filosóficas
Das discussões ideológicas
Das músicas bregas que você ouvia
E até do que eu mais reclamava
De levantar e fazer o café pra você.

Eu já tinha até escolhido
O seu presente de Natal.
Um livro do Galeano
E uma camiseta de Ogum pintada à mão
Que encomendei num ateliê em Olinda.

Eu vou e deixo pra trás
As incertezas das minhas poesias
Que sempre quiseram te devorar.

O começo se parece com o fim.

Quando nos olhamos e
Não nos reconhecemos.
Da porta pra dentro
Da porta pra fora.

Jenyffer Nascimento. Terra Fértil (Coletivo Mjiba, 2014).

……………………..

(do seu Facebook)

Procuro uma passagem de trem

Em que a viagem seja duradoura

Que eu possa olhar demoradamente pela janela

E pouco a pouco, possa ir colocando a cabeça no lugar

Encaixando o quebra-cabeça do cotidiano

Das vontades não realizadas

Entre sim e nãos vividos,

Sentimentalidades que moram debaixo do tapete

Somada a abraços, silêncios e desesperos

Da minha vontade de ser mais

E não saber como.

Nessa toada

Vou esperar o ritmo do tempo

Até que possa fazer parada em alguma estação

E nesse momento encontrar meus despropósitos

Para serem companheiros momentâneos

Dessa imensidão que é ser

Dessa passagem que é estar

Quem sabe assim consiga bebericar

Da sabedoria apreendida pelo olhar

Do céu empoeirado de estrelas

Em que minha Vênus ou Saturno

Pronunciarão brados desse caminhar

De volta ao trem

Atenta ao rangido dos trilhos

E a lembrança do velho maquinista

Eu possa dormir de olhos abertos

Em um delírio semitranquilo

De cores fluorescentes.

Nesta hora,

Darei conta que uma mulher

Sentou-se ao meu lado

– chapéu, pele escura, olhar firme.

Existe algo entre nós

Que palavras atrapalhariam

Se fossem anunciadas

Sinto o ecoar de notas musicais

Ausentes de ondas sonoras

Estamos unidas por um senso de direção

Como se juntas soubéssemos exatamente pra onde ir

Não há calendários, relógios

Tampouco datas de aniversário

A serem lembradas, comemoradas

As bússolas já não apontam para o norte

E o centro gravitacional deslocou-se

Conforme o discernimento

(ou a falta de)

De cada um

Próxima parada:

Estação Incertezas

Por aqui, ainda vou me demorar.

(2016 )

crítica de O PARAÍSO DOS INOCENTES. de Antón Riveiro Coello, en Galaxia.

 NA PROCURA DO CORAZÓN EN CIRCUNSTANCIAS EXTREMAS

Título: O paraíso dos inocentes

Autor: Antón Riveiro Coello

Editorial: Galaxia

Existe o paraíso para os inocentes? Cal é? Onde está?

Pois si, a resposta é afirmativa. Mais non lles vou dicir eu cal é nin onde está. Para iso terán que ler esta nova novela, Pemio Torrente Ballester 2019, de Antón Riveiro Coello, un dos autores máis fiábeis na relación calidade estética-calidade da trama da nosa literatura, e tamén, por iso, un dos que conta cun público lector máis grande e fiel. Así que, coma sempre, non se sentirán defraudad@s, todo o contrario.E disfrutarán lendo a novela, por moito que o tema é dunha dureza que encolle os corazóns e nos retorce as entendedeiras até límites que dependerán da sensibilidade e capacidade de reacción humana/humanitaria de quen lea, mais que en todo caso nunca será pequena.

                     Porque a trama da novela é dura, coma unha pedrada nos miolos e na freba sensíbel. Sitúanos en tres escenarios: dous barrios de Alepo (cidade Siria que moito ten saído nos noticieiros) pertencentes a dúas faccións enfrontadas, unha onde viven rebeldes ao réxime instaurado, e outra onde viven o partidarios do réxime, despois aínda hai unha terceira localización que ten Bruxelas como centro (e o tristemente coñecido barrio de Moleebek en particular) onde trerá lugar o atetantado de Zaventern, mais que se vai espallando até chegar á propia Galiza. Por circunstancias que non lles vou desvelar, Amira e Isam, que viven neses dous barrios, veranse na obriga de fuxir de Siria cara a Europa. Unha Europa onde Alicia acha indicios que fan temer pola vida do seu mozo. Ben, sirvan estas indicacións como presentación dunha trama que nos fará viaxar dende a crúa realidade dunha guerra que se amosa nos cascallos a que está reducida Alepo, e no corazón esnaquizado dos que sobreviven a esta barbarie e que, dunha maneira ou doutra (cadaquén á súa maneira) procuran razóns para crer na vida, para crer que na vida aínda poden atopar un chisco de acougo, unha mínima felicidade para quen viu como lle morrían veciños, amigos, pais, nais, fillos, irmáns…

                     Cómpre aquí deterse un chisco. Despois do dito a ninguén sorprenderá se dicimos que Antón Riveiro Coello nesta novela realiza unha procura do sentimento de humanidade ou humanitario en circunstancias extemas, como a guerra. Ben, poden variar eses escenarios, porque son diferentes en cada novela; e poden variar as personaxes, que tamén son diferentes e con diferente configuración, e tamén poden variar as tramas dun discurso a outro e, de feito, fano, evidentemente. Porén o que resulta claro é que en cada novela de Antón Riveiro Coello existe, como denomindor común, unha procura do humanismo a través desas diferentes personaxes, tramas, escenarios ou discursos. E, nesta nova novela, esa procura resulta absolutamente diáfana, tanto nas personaxes da zona rebelde coma nas da zona partidaria do réxime e mesmo nunha Europa que ve con máis indiferencia que repuganacia as imaxes da destruída Alepo no televisor. Unha Europa que só se estremecerá cos atentados, primeiro en Francia e despois en Bruxelas (Zaventern), e nin así, na nosa opinión, pasa dunha emocionada repulsa que para nada interfire no día a día da xente.

                     Con este panorama temático, se lles digo que van disfrutar, e moito da lectura, poderán pensar que é contraditorio. Como se vai disfrutar da barbarie? Pois si, nomeadamente na primeira metade da novela, e para @s que nos fixamos nos pormenores técnicos da escrita direilles que Antón Riveiro Coello dá un máster no que é unha das cousas máis difíciles da narrativa; o uso do adxectivo. Grandes nomes da literatura universal teñen advertido contra o uso do adxectivo, para non os cansar cunha longa listaxe direilles simplemente que Borges é un deles. Pois ben, o uso que Antón Riveiro Coello fai do adxectivo abraia pola súa pertinencia e por unha meticulosa escolla (raiana ás veces no uso poético) de cada caso en particular. Revela isto, quizá, unha maneira, unha estratexia do porpio autor á hora de se enfrontar á narración dun escenario, físico e humano, onde a destrución esburacou a vida e os corazóns das persoas tanto como os mísiles, bombas ou disparos escascallaron a cidade. Poñerse a escribir sobre esta realidade non é precisamente pracenteiro. Porque quen escribe non é nunca alleo ao que escribe. Escribir unha novela supón unha convivencia íntima coas personaxes e trama que se está escribindo. Por iso, en quen primeiro percute o mundo que se describe, o que ás personaxes lles acontece, é xustamente en quen escribe, no escritor, neste caso. Porén, esta loita contra o desgarro interior que provoca o que se está escribindo, obsequia a quen le cun discurso tecnicamente moi logrado onde o uso do adxectivo nos prepara para tensionar o noso mundo afectivo, tensionar o  noso mundo afectivo porque, se a situación de partida é dura, moi dura, tan dura como só pode ser unha guerra, esta aínda se fará máis esgazadora segundo vaiamos vivindo coas personaxes os  avatares que lles depara a fuxida de Siria cara a Europa. Aí é mesmo onde o humanismo, o sentimento humanitari das paersonaxes se pon máis a proba, sendo quizá o único recurso para agarrarse á vida.

(Un alto. Lembro a cantidade de tempo, anos, que me levou a lectura de A morte de Virxilio de Herman Broch. Está terribelmente ben escrito, mais a súa lectura púñame tan triste que non me quedaba outra que adiar a lectura. Riveiro Coello ocupouse de que iso aquí non aconteza, e forma, a estética narrativa, con ese uso do artigo tan esmerado, teñen a culpa. Iso provoca que se goce cunha lectura con trama tan dura como é esta)

                     Volvemos.O fondo realismo desta novela non só denuncia a barbarie da guerra. Unha barbarie sobre a que non se proxecta un narrador neutral. Non, non se pode ser nunca neutral ante a barbarie, sempre hai quen é o primeiro culpábel, o principal culpábel. E claro que se toma partido. Mais non é esa a finalidade da denuncia, senón, como xa dixemos, procurar as frebas máis humanas que sobreviven en xentes que teñen a súa vida rota pola guerra. Cómpre engadir tamén que neste fondo realismo denunciador non quedan atrás as mafias que se lucran da necesidade de fuxir duns seres atrapados na barabarie da guerra. Si, mesmo nesas circunstancias onde a solidariedade cos infortunados debería primar sobre claquera outra cousas, inclusive nesas atroces circunstancias hai quen aproveita para encher o peto. Enriquecerse coa desgraza allea! Si, a tal extremo de deshumanidade se pode chegar, e de feito, se chega…

                     Paralelamente a estas denuncias dos horreres da guerra e das mafias que se lucran coa desgraza allea, vaise desenvolvendo outra subtrama que ten máis que ver coa novela de misterio (chamémoslle así) e que nos achegará esa solidariedade tan necesaria que proporciona un remate que sorprende a quen le, sorprende, obriga a pensar e desvela onde está e cal é o paraíso dos inocentes. E, para completar, esa procura do humanismo, sinalaremos que esta non se esgota coas personaxes que foxen da guerra, senón que se complementa nas personaxes “europeas.”

                     Quen unha boa novela para ler de inmediato ou obsequiar nas vindeiras festas? O paraíso dos inocentes

ASDO: Xosé M. Eyré

Júlia de Carvalho Hansen: a poesía como arma telúrica

Razóns polas que me intersa a poesía de Júlia de Carvaho Hansen (São Paulo, 1984) hai moitas. Vou exponer a continuación as principais para que se entenda mellor a súa producción lírica.

De primeiras e antes de nada, é necesario indicar que Júlia é filla do crítico literario João Adolfo Hansen, isto proporcionoulle medrar entre libros e historias que lle relataba o seu pai. A precocidade da súa vocación literaria ou poética, non é de estrañar.

Luciana di Leone ten dito que Júlia leva no nome xa unha referencia á natureza (Carvalho) e considéraa un vínculo cósmico coa natureza. Partindo de aí nace o título destas palabras de presentación, pois en verdade Júlia concibe a poesía/literatura como unha forma de vida, que nace por veces tentando escoitar os outros, mais tamén desde a dupla necesidade de encher de vida as palabras ao tempo que as vacía de contido. Pode parecer contraditorio, mais non o é. Quero mencionar este feito porque na poesía galega actual tamén se manifesta con frecuencia a preocupación pola infeficacia da palabra á hora de transmitir o que @ poeta quere dicir. No medio dunha dialéctica entre as concepcións de Herberto Helder e Drummond de Andrade (utilizar as palabras como medio de ocupar e ao tempo perder significado) relativa á reificación da palabra (no senso do alemán Verdinglichung), o que propón Júlia ten conexión coa preocupación d@s poetas galegos e mesmo se pode ver aí unha tese a propósito de.

Se Júlia concibe o libro como algo vivo, algo con vida, de aí chégase á súa concepción como obxecto de combate. Entendo que con isto non se refire ao libro como arma política, aínda que a propia Júlia é moi contraria ao lessez passer cando ve unha inxustiza na vida, porén a súa visión da combatividade política vai máis alá, e nesta entrevista déixao claro: “Entendo-o político nesse sentido, numa espécie de resistência à fragmentação dos discursos, à desconexão”. Desde aquí resulta fácil entender que ela, a poeta, se sinta como unha especie de intérprete entre o ser humano e o seu acontecer vital ( o día a día ) e o universo cósmico. E agora é momento de indicar que Júlia é astróloga, cousa que condiciona absolutamente a súa visión/concepción da vida. Alén diso, o libro como obxecto de combate é particularmente visíbel en Seiva veneno ou futo (2016, Chão da Feira), quizá o seu título máis completo literariamente falando, ou máis rico (na niña opinión) pois chega  establecer sinerxias entre os poemas, conferíndolle así unha unidade semántica moi rica e, ademais, creando un clima lector que veño  defendendo como unha das características da poesía de avangarda na actualidade (en si, isto é algo con presencia poesía case desde os inicios desta, mais con esta intención e forza é algo novo) como é a creación dun clima lector. Neste sentido, o libro de Júlia, é un paradigma da avangarda poética.

Volvendo á natureza, e morando ela en cidade, poderán vostedes comprobar na selecta que virá despois, nos seus poemas é moi frecuente que esta se manifeste, que estea alí, sexa flora ou fauna, domésticas  -e entendendo por domésticas tamén a flora, as árbores ou flores etc. “domesticadas” para ornato das cidades.

Non sei que coñecementos terán vostedes de astroloxía. Os meus son limitados. E partipipo da crenza de que o mundo da astroloxía tende a fixar as cousas/acontecementos con bastante exactitude. Porén iso non impide que Júlia de Carvalho tamén comprenda a liberdade co caos. Esas dúas palabras van xuntas: liberdade e caos. É máis frecuente asimilar caos con abismo, ou mesmo con labirinto. Por iso, asociala con liberdade é algo a salientar e ter en conta. Tendo en conta isto, non é de estrañar que Jülia se sinta, xa vimos, como “unha intérprete”, entendo “intérprete” tanto no relativo á súa actividade astolóxica (onde é intérprete entre os humanos e o mundo da astroloxía, un mundo tan antiguo, unha forma de comunicación tan antiga como a mesma poesía) como na súa actividade poética, onde ela é intérprete entre a vida, a astroloxía e os lectores ou seres humanos.

Outro punto que tampouco pode esquecer é concepción do poema como éxtase. Aquí, interésalle tanto sentila como provocala. Para iso é preciso entender a súa poesía de forma plena, pois non só consta da parte visual en que materializa no libro, senón que integra tamén o aspecto fónico. É dicir, a súa non é unha poesía que se consuma só coa lectura, é preciso que esa lectura tamén se faga en voz alta, saboreando cada palabra, cada sílaba, cada fonema.

Do mesmo xeito a súa poesía é unha poesía en diálogo con otras. Isto sempre é así, para quen le, o que é lido entra en diálogo con otras lecturas súas. Porén é importante saber con quen ela máis sente en diálogo a súa poesía. E son: Ruben da Cunha Rocha, Bruna Beber, Leonardo Froés, Edra Poud e Herberto Helder. E entre as autorías que ela sente máis próximas, ou como fontes da súa poesía podemos atopar: Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst, Herberto Helder, Raduan Nassar, Leonardo Fróes, Clarice Lispector, Machado de Assis, Oswald de Andrade, Mario Cesariny, Ruy Belo, Angélica Freitas ( e Manuel), Celan, Machado ( de Assis), Elliot, Cotázar, Pessoa, Herberto Hélder, MG LLansol, Artaud ou Luiza Neto Jorge.

Polo momento teño coñecmento destas obras súas: Cantos de estima (2009 en edición da autora, 2015 en Douda Correia), O túnel e o acordeom ( Lisboa,2013), Alforria blues ou Poemas do destino do mar ( 2013), e o antes comentado Seiva veneno ou fruto (2016). Os dous últimos na editora Chão da Feira, onde participa do labor editorial con outras tres escritoras. E Romã (2019, Chão da Feira), na selecta poderán ler unha previa deste libro.

Xa para ir rematando esta presentación, recomendó moito a lectura do seu blog, porque hai aí moita poesía (algún poemas da selecta de aí proceden) e esta é unha poesía máis directa, entendo, menos intermediada por preocupación formais.

Para quen queira seguila no Facebook.

E, sen máis, a disfrutar da poesía de Júlia de Carvalho Hansen, unha poeta en contínua evolución que, con cada título mellora os anteriores.

A previa de Romã

( na Pixé)

FOGO CRUZADO

​Queria escrever com ódio o teu desaparecimento
erguer fúrias e avanços como fazem
a lava, os tsunamis e os delirantes.
No entanto mandei outro e-mail
falando do vermelho dos pássaros do Índico
como no jazz o drible da constância é a própria duração
de umas gotas de chuva na nuca
região fadada à incorporação de entidades
às tensões musculares, aos arrepios
à necessidade da cabeça se curvar
coisas talvez que te lembrem na vida
do que gostas — é tudo movimento
e é importante que tu não desapareças de vez.
Ter um anzol, um ponto de regresso, farol
esquecer que, no fundo, os suicidas têm sempre razão.
Quando você foi visto há 150 quilômetros de casa
rumo à Moldávia, Botswana, Brasil
ou qualquer um desses lugares que só existem nas aventuras
dos teus livros lidos desde menino
percorrendo a eletricidade do teu corpo
— disseram os que te viram — cacos de vidro
arames retorcidos no lugar das ideias
uma grande incapacidade de ser insensível
somada ao egoísmo que todos temos.
Que tornou argamassa o horizonte?
Antolhos é o nome do acessório de tapar a visão
dos animais a carregar fardos maiores do que eles.
Ou qualquer coisa assim na tua face
os 150 corpos mutilados
mortos estampados nas capas dos jornais
eu espero que você não tenha visto
no longo caminho pra longe de si
as notícias dos últimos dias.
  

 FERRUGEM

​Em muitos dos dias que são quaisquer
água com gás às vezes me lembra você
embora o girar que despressuriza a garrafinha
tenha levado o seu nome embora da minha boca
 
numa lenta dissipação como derretem
os teus sopros no ouvido de outro alguém
ou o assobio que não sai dos teus lábios
quando a noite chega e você não tem ninguém.
 
Chocolates guelras e serpentes eu beijei
a tua língua tinha às vezes gosto de papel
como a praia da enseada às vezes o horizonte
é nítido e fica azul como o dia de amanhã.
 
Foram anos assoprando o esquecimento — eu escrevia
mas às vezes alguém esquece de amarrar os sapatos
tropeçando em cada esquina, curva
onde você não estava.
 
Aposto as vezes que você acorda com os trovões
te fazem cerrar as pálpebras como os gatos
saltaram no momento em que a luz oscilou
a boca do porvir se abriu
 
por dentro de mim com seu hálito
de garganta, o seu bafo de sol
oxidou meu coração
brilhou.
 

 EXÍLIO

Já estive tão certa de mim.
Hoje me levanto vertiginosa como uma fibra de trigo
como um girassol plantado ao acaso um catavento
o meu pensamento roda com o passar do tempo
em que ficamos sem nos ver.
 
No tempo em que ficamos sem nos ver
perdi alguns amigos — voltei a cozinhar.
Mas houve um dia em que eu fiquei tão triste
pra você ter ideia meu celular corrigia saudável por saudade
e eu me comovia com o passarinho encolhido atrás de uma flor
e a flor mesmo através do vento mexida e revigorada.
Uma coisa estúpida de tão pequena.
 
Como eu. Fiquei tão triste que a boca me caiu da boca
depois tão amarga a boca passou dias a desencalacrar
um ou dois nomes de dentro de mim já
seria o suficiente uma ou duas ausências
mas em pouco menos de um mês perdi
57 milhões de habitantes a boca da noite caiu
era uma dentadura quem diria uma dentadura.
A constituição não sabe se há de aguentar este corpo.
 
Ficou tudo tão triste que saí pra tomar sorvete.
Fiquei com medo de contar isto pra mais alguém
tão nublado o tempo, podem me apontar: há contradição
entre se estar tão triste e sair pra tomar sorvete
uma problematização sobre a qual este poema passou raspando.
Agora vou mergulhar como um parafuso.
 
Isto desde o começo é só pra contar que na esquina em que nos despedimos
alvoroço e delírio um casal tão mais jovem que eu mais jovem que você então
nem se fala o quanto se beijavam com a língua da ênfase
tentei invejá-los — mas não consegui, o meu espírito foi sequestrado
pela alegria do chocolate na minha língua, eu não sei o que é gianduia
você certamente saberia me dizer mas não diria exatamente
não sei se por insegurança ou charme quem sabe piscaria lentamente
os olhos e se afastaria — eles não.
Eles foram embora abraçados.

PLURAL

​Não, não vá pensar na falta de propósito da vida esta noite
sua ambição seria delinear um abismo
pois modéstia você não encontra nem quando vai ao fundo
nem vá saltar as incertezas num punhado de fumo
a marejar os horizontes, os sentimentos e as calcinhas
e as meias trocadas de gaveta com elas
tudo um pouco mais bagunçado do que deveria
em nenhum canto desta casa há fogo
talvez encontre nos fósforos que você roubou dum restaurante
de peixe fresco e trouxe da Califórnia um sentido
talvez observar na faísca a dilatação da fenda
acendesse a capacidade de se iluminar
pelo sabor do vento que foi o primeiro toque
toque que a vida fez no seu rosto lembrança
quando seu corpo era só o luto
de alguém que em ti morreu
talvez este alguém vivificado pelo vento
talvez o acúmulo de nuvens da cor da cidade no céu
talvez você seja capaz de juntar um girassol a dura noite
tornar proibido que pessoas com menos de 25 anos possam alguma vez ser tristes
porque isto te faz sofrer
e no fundo é uma ambição ser simples
num gesto mágico
estou tão apaixonada pela densidade de cada coisa
que quero atravessá-las todas com os meus lábios
mas não quero que você traga nenhum peso para dentro
nisso
nem o cansaço nem o medo mas traga um pouco de rigor
a beleza das plantas carregando gestos de saúde
e o fato de que você não consegue ver ninguém
como um mestre
porque estamos todos perdidos mesmo
de nós dois, dos dias
talvez você possa acolher o instante
e tornar-se frágil
faz parte dessa sabedoria
assim como você aprendeu nos livros
a ouvir o que você sente
os órgãos também estão cheios de saúde
como os seus amigos que respiram todos os dias
todos os dias têm tantos gestos de saúde
que não acreditariam em você falando tanto
consigo mesma na segunda pessoa
e tão multiplicadas as vezes no plural.

…………………………

(na Sibila)

O futuro? Tem orelhas,
mas é surdo. E é manco.
Se arrasta, sem espanto
mais alheio do que lúcido
com o nosso despreparo.

Se fosse um deus amava o humano mas, como não existe,
o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
de cronogramas, nem de antecipações.

Tem firmeza de flor. E é
invisível, reconhecido
por seus efeitos de brisa,
furacão. Nunca adiado.
Não tem nada a ensinar
no entanto é um mestre
dizem os esgrimistas,
os observadores de saltos,
os gatos também
aprendem certos truques com ele.

E se ama os despreparados
lhe sabem tanto os que fazem
quanto os que esperam.
Os otimistas valem mais
valem quanto?
Cem bifurcações,
sucessivas gerações
de bem aventurados
que topam em pedras,
cicatrizam e correm
bem alimentados
com fome de mais
alimento.

São seus sinais
os imprevistos, os cavalos
os pontos cardeais
os cinco sentidos
e os setes buracos da cabeça.

* * *

Estou sempre a espera de ver.
Vou na frutaria de olhos muito abertos
vez em quando meus ombros se fecham
quando muito chama a ver. Temem o fogo
que se alastra entre estalos nas estruturas.

Preciso dissolver um pouco dos vigiantes olhos
para encontrar todos os olhares que tenho por onde.
É assim que vejo também a confusão.
A confusão tem algumas coisas para me ensinar.
Essa pouca relação é a nossa.
Meu esteio é claro quando estou pisando
meu chão diamantado de dentes
de cada animal que comi para me tornar
humana. E assim poder dizer.

Mas eu sei
sou tão pontual
nasci para esperar
os deuses não.
Dia desses
ganharei outra velocidade.
Serei planta.
E hei de continuar
iluminada
pela água.

* * *

É preciso recriar o acontecer. Dispor
de lãs para o inverno
ouvidos para as mensagens
e peles para marcar os sinais
com a ponta do dedo em brasa.
É preciso saber
as regras dos jogos
como extrair os venenos
e que palavras abrem portas
nas orações que ainda não foram compostas.

É preciso retomar a saída da cidade
alimentar os estrangeiros chegados na madrugada
e que depois de terem os pés lavados
acenderam suas fogueiras.
Fornecemos mais do que gravetos e faíscas em gel
mas também papel para que ardessem
ou escrevessem as técnicas de suas civilizações
nas quais o vento tem outros significados
pois as asas de seus deuses batem desde o oeste
e por aqui todos sabem que os deuses vem da América do Sul.

Os estrangeiros às vezes têm ideias estúpidas
mas não vamos protegê-los de si mesmos
preciso é retirá-los de perto da falésia
para que não caiam nem decidam partir.
É preciso dar a eles a agricultura
pois são o ventre deste país
embora não saibam trazer a chuva
pelo menos respeitam as pragas
e evitam as devastações.

É preciso aquecer os músculos e hidratar a garganta
dar escudos duros e afiar as lanças dos que combatem
protegendo as pedras que dão água.
É preciso não salvar os mortos
mas limpar as ruínas de suas guerras
sem arrancar as ervas daninhas.
É preciso fornecer plantas para a sombra
e luzes no lugar dos olhos
daqueles que perderam a cabeça.
É preciso acolher os feridos
e deitar sal e cinzas
nos seus ferimentos.
É preciso acalmá-los.
E acalmá-los é dar guarida ao breu em que estão.

……………………………..

( na Folha de São Paulo)

( na Escamandro)

Posso te esperar a tarde inteira
atravessar você — o precipício
ou te chamar de Canyon
e colocar uns pássaros voando nele.

Posso te mostrar a parte de dentro
das coisas, da carne — posso me rechear
inteira de cuidados, lanças e perfumes
e desmontar à tarde todas as coisas.

Posso inventar-nos um desfecho
te chamar de ilha, charco, travessia
esquecer eu não posso — posso
dizer que eu irei me lembrar.

Posso perguntar pelo tempo
e assim conversaremos sobre o breu
normativo & inconstitucional desses dias
e de como não seremos derrotados.

Um pelo outro, talvez, não.

§

AMANSAR

Amansar a ideia de vê-lo
é o tecido dos meus dias
e eu me recubro totalmente

com este selo — esta companhia
podemos nos amar na distância
transcender o espírito largo

é o fosso que nos separa
e contigo estou — sempre — a um passo
do abismo escuto o eco dum graveto

quebrando lá embaixo o clique
pros meus ouvidos tão abertos é tão nítido
quanto o teu desejo de ficar comigo.

§

ROSAS

O amor me esquartejou em seis
continentes incapazes de se conter
o modo que eu morri
foi tão de repente

confesso fui eu que puxei seus dentes
antes e durante o entardecer tem rosas
nítidas e supérfluas sobre a mesa
purificando o meu espírito trôpego

foi-me dado um candeeiro um circo
ateando um chicote no lombo do acidente
eu me antecipo cada vez que vejo um poço
teu vitalício laço de fita nó de corda meu amor

a tua língua vale o que vale
teu ricochete, teus meandros
medos, usuras, os prevenidos
armários das famílias

abertos pelo caos nos guiamos
olhos mais longos que os de Lúcifer
moram nas suas coxas
quando me anteveem

marfim, colchão mole
água na boca
no tronco um portão
noite luz.

§

PARDAIS

Acordei com dois pardais dentro do quarto
se debatiam procurando o que não fosse vidro
radical em ser transparente e firme

eu causava sustos ao me aproximar
abri a janela
é o certo a se fazer com o que não se deixa tocar

no quintal caracóis imensos disputam
os restos de mamão que deitei aos passarinhos
bem cedo enquanto pedia beleza

suplicava por favor eu quero escutar
não é a primeira vez que numa ilha
meus ouvidos entopem

meu bisavô sofria do mesmo
não sei se ele escrevia, se visitava as ilhas
se perdeu como se perdem na terra

os homens têm tal mística com o mar
ser instável na sua regularidade
marulho salsugem saudade

entre as palavras que eu sei lembrar.

§

POÇA D’ÁGUA

Olhando bem pra dentro de você
o quanto você é difícil se espraia
dos seus olhos profundos ao buraco negro
seu íntimo me é tão completamente interditado

às vezes eu me pergunto
se aqueles que conheci antes de ti
não estavam a antecipar a estreia
que foi conhecê-lo naquele entreposto da vida

eu já tinha me estrepado o bastante
pra não pular em qualquer poça d’água
achando que era um abismo
eu naquela época andava numa distância

suficientemente segura dos abismos
tanto que já tinha inclusive esquecido
a capacidade do amor nos levar
aos precipícios, as precipitações ativarem

os respeitos, os conflitos, os desmedidos
impróprios imperfeitos instáveis
improváveis e no entanto sempre
perspicazes pertinentes acasos & motivos

de estarmos para sempre forever and ever
juntos de uma maneira jovem
nosso amor adolescente
se curva numa cambalhota

e nos remonta todos os dias
como quem sela o ânimo
e monta o vivo no invisível
atrela sua espora

como quem voltou a andar
a dizer e a concordar
em todos os tempos
o substantivo cavalo.

§

CÍLIOS

Entre nós a dimensão que importa
é o tamanho dos teus cílios
e como eles se curvam
conforme você ri ou se preocupa

eu estudo tanto cada gesto — cada passo
consulto tudo que eu posso
vejo sinais em tanto — colho indícios
contudo espero o instante

em que algo ou tudo pode sair do lugar
alguém quebrar os dois tornozelos
perder o timing do spaghetti
e o macarrão ficar molenga

ou uma abelha zunindo no cabelo
fascinada pelo açúcar no café
num acesso de vertigem
todo eu é ruidoso

porque eu vivo
e você também
e o que é vivo
se descontrola.

…………………………………….

(no Vodcabarta blogspot.com)

Como um relógio cuco quando apita a hora
a língua – que é todo um investimento –
está capitalizada em um lugar nenhum.
Dinheiro? Que me deem mais do que é preciso
e que assim eu fique bem.
É o credo dos tempos, não disse?
E haja quem puder renegar o deus
dizer três vezes que não necessita, ir viver entre os pauzinhos
de uma cabana ou amassar o próprio pão – respeito-os todos.
A roda dentada não para de morder, entretanto não tenho paraíso
fiscal para fugir. É toda vez isso: a conta no negativo
e mais e mais e mais. Em retribuição escarro em mim
a dívida do mérito, vácuo que rege a fé em todos os supermercados,
estacionamentos, eleições de municípios e se camufla
em latifúndios de uma gente sem esperança, só com resultados
mortes de índios, helicópteros empilhados num hangar.
Vez ou outra é só uma imensidão de queda
vez ou outra é só um hemisfério inteiro
que padece de fome, de frio, e morre.



Saberem-se errados, turvos, iludidos, desmascarados

não faz de vocês pessoas melhores ou mais reais.
A infelicidade, a tormenta, o vício, as fezes
não fazem de vocês pessoas melhores ou mais reais.
As desculpas, as explicações, quaisquer intenções
não fazem de vocês pessoas. Fazem de vocês, vocês
estarem errados, turvos, iludidos, desmascarados
infelizes, atormentados, viciados, cagões
desculpados, explicados, intencionais
vivos. E não sozinhos.
Mas quem não sabe de nada disso
Mas quem sabendo de tudo isso
confunde-se ao ponto de se achar
achado, melhor e vivo
está sozinho. E, bem,
nem os mortos
estão sozinhos.

………………………………………..

(na RaiMundo)

Perdi a cruz e o cavalo que me atrelavam o pescoço
havia os guardado no bolso
mas, de caminho próprio
como tudo o que existe,
meu protetores prateados desapareceram
para ir viver, eu sei, numa outra espécie
de lodo, rascunho, ou pé de armário
cheios de pó, tragados sejam
pela escuridão.

……………………………………………..

(na Um Conto)

(na Gueto)

………………………………………….

(  máis da Escamandro)

Milênios seja! pela via
da massagem, da poesia ou da faxina,
através da fumaça, do tabaco
& da bruta flor do querer
cantofalamos
nos sonhos pisando
na lâmina e descansando
na lama dos pensamentos
meditados, dos atos
percebidos ou atormentados
pela dança da presença
com uma criança ter contato
por palavra, respiração e pele
abrir o botão de uma rosa
com os dedos
é como aceitar os dons
mágicos afinando
as cordas vocais
dos analistas
de geometrias
da família
lavando os armários com água
forte irrompe rochas, cadeados
feito logins abrindo, rompendo
rolando cascalhos e léguas!
subindo escadarias e montanhas
de empecilhos, aos solavancos
na estrada abaixo
do esquecimento e do desgaste
que a reza dos gramáticos encerra
o inconsciente se move
O tempo todo.

§

Da palavra sair
habitar outros mundos
a espinha dorsal do peixe
lamber até limar os dígitos.
Dar os tímpanos
ao vibrar dos grilos
reconhecer a chegada do trovão
no deslocar do sangue
e ao anteceder terremotos
subir! No alto da árvore
e cair com o rabo
enovelando um galho
se dependurar na abobada celeste
soprar o rumo dos pólos
e das marés que vem dos pólos.
Não conhecer despedida
viagem ou remorso,
código, símbolo ou faca.
Nunca alterar a rota do fogo.
Ser seiva, veneno. Ou fruto.

§

Minha vida foi parar em outra galáxia
e eu escrevo para resgatá-la.
Mas entre mim e a vida
havia quem acreditasse
que as coisas que pensa
pensa por si próprio.

Seria um obstáculo.
Não falasse eu que ninguém pensa
por si próprio
não tinha que me fazer explicar
com minhas calças vermelhas
meu casaco monogramado
R. de ressentimento
esburacando a minha língua.

É a explicação a origem
do buraco negro
em que estamos.
No buraco negro
deslizam as paredes
se as tentamos agarrar
quando chegamos nisso
que não há.

Como chegamos lá?
Ao morrer. Você morre
e sua matéria
fica na terra, certo?
Ou se dissipa no fogo
a matéria do teu corpo.
Aquilo em ti que te anima
o cão da tua respiração
a faca que são teus olhos,
teus cabelos, teus corvos
aquilo que morde a tua dentição
e vibra fibra músculo enfim
a tua alma mesmo
e tudo aquilo que é invisível em você
é tragado (invisivelmente)
para o buraco negro.
As cáries, os pergaminhos egípcios,
as colheres que você entortou abrindo latas,
não. Isso definha na terra.
Sete palmos.

§

Estou sempre a espera de ver a pulsação
vou na frutaria de olhos muito abertos
vez em quando meus ombros se fecham
quando muito chama a ver. Temem o fogo
que se alastra entre estalos nas estruturas.

Preciso dissolver um pouco dos vigiantes olhos
para encontrar todos os olhares que tenho por onde.
É assim que vejo também a confusão.
A confusão tem algumas coisas para me ensinar.
Essa pouca relação é a nossa.
Meu esteio é claro quando estou pisando
meu chão diamantado de dentes
de cada animal que comi para me tornar
humana. E assim poder dizer.

Mas eu sei
sou tão pontual
nasci para esperar
os deuses não.
Dia desses
ganharei outra velocidade.
Serei planta.
E hei de continuar
iluminada
pela água.

…………………….

(En Alforriablues, o seu blog)

afundar
ir um pouco mais
centrar um foco
fui me colocar no canal
o canal era forte demais
agora vai com o lamaçal sem sem fundo sem fim eu penso
não quero estar assim quando ele vier quando ele vier estarei por cima do poço
tapando ele lá embaixo sufocado de tanto sentir vontade de abrir a tampa o meu carinho
vai dizer em forma de escárnio
não recusou o éden? então toma o iceberg
e no fundo dizer as coisas assim é voltar a menina de 20 anos que escrevia em blogues
numa forma encarecida de conseguir dizer alguma coisa mesmo que a cifrasse tanto
não por verso ou ritmo mas pelo segredo pela necessidade de tornar de levar pela sombra
de empurrar
qualquer coisa de não dito por cima duma camada de açúcar chocolate cianureto e naftalina

……………………………….

os seios da face

descoberto o rumor dos dias
sim eu cheguei demorou
mas posso sentir
o outono nos ossos
o vento estampa
os seios da minha face


sólido é o vento que leva as coisas embora

nesta época dos 28 dias
a minha pélvis é o epicentro do mundo
eu sinto todos os meus músculos
no esforço de subir a rua
os pulmões expandem
tanto que eu tusso

sólido é o vento que leva as coisas embora

metade desse ano já passou
rostos amarelados
fria luz de mercúrio
as roupas são todas cinzas, marrom
o cinza se espraia no vento
e afia a face das pessoas
que vem na rua
que vem na minha direção

sólido é o vento que leva as coisas embora

você sumiu tanto
em cada rosto
que cruza comigo
há uma face cinza
que tem o seu rosto.

……………………..

na tua grande face

descoberto o rumor dos dias sim
eu cheguei demorou mas
posso sentir o outono
nos ossos dos seios da minha face
o vento estampa

nesta época dos 28 dias 
a minha pélvis é o epicentro do mundo
eu sinto todos os meus músculos
no esforço de subir a rua
os pulmões expandem
tanto que eu tusso

rostos amarelados
fria luz de mercúrio
as roupas são todas cinzas, marrom
o cinza se espraia
pinta cada uma das faces das pessoas
que vem na rua
que vem na minha direção

você sumiu tanto
que cada rosto
que cruza comigo
do outro lado da rua
é cinza
e tem o seu rosto.

……………………….

(En Douda Correia)

caderno de viagem

Do alto a terra é tão extensa

que assim só conhecia o mar

se à noite fico bem quieta

meu ouvido é uma concha

na qual se ouve o rugido.

Acordei aqui

os pés enfiados

a espera da tua chegada por terra, fumo

até partir do corpo

em heterônimos escrever

como o mar que avança

depois de muito retroceder

duas ondas juntando a água que veio de tras

………………………………………..

(na Enfermaria 6)

…………………………

(En Desenhares)

Eu era criança e tinha medo
da curva da escada
eu tinha medo
da jabuticabeira não.
Mas quanto medo tenho do barão.
Eu, que só conheço um lado
e do outro desvio,
via os caminhos
desmanchando juntos.
Tinha medo de vulto
passava correndo
na curva da escada.
Onde o poder encontra
aquele que o transtorna?
Onde estão os olhos do escuro?
Hoje vulto não sei
se pega às vezes
se respira
se são suas as lufadas
sombras sem ossos
a janela que trinca batendo
se escolhem o momento de acabar
ou se a morte é só um raspão
na órbita de um planeta
um pó, um vento.
Olho muito não.

…………………………..

(En Modo de usar & co.)

§


POEMAS DE JÚLIA DE CARVALHO HANSEN

[Temes a noite onde os nomes…]


Temes a noite onde os nomes não se registram nos radares
e as palavras como joelhos afastados pela mão de outro
são caixas-pretas boiando no mais marinho dos oceanos.

Um avião cruza os ares em direção a um batizado.
É o seu eco que cola as sílabas umas as outras
rejuntes de significado, amálgamas do esquecimento.

Se só pensas em assentar as mais corretas, maneiras
de permanecer, feito cal, espalhado pelas espáduas
trêmulo cimentado teu coração, um canteiro de plantio
para as alfaces – soníferas e insípidas – do cotidiano.
De ti, só poderei aceitar atrelar-me, como um mexilhão.

Agora sou na tua rocha. E de mim se aproxima outro,
que os passageiros não alcançarão. Age antes de querer
com todos os olhos de quem nunca tinha tocado bivalves
sem enciclopédia ou Discovery Channel
feito um miúdo se maravilha, ama as pérolas,
sabe bem mastigá-las com os dentes até parti-las.

Como eu, um dia, também contigo, tentei.

(publicado originalmente, junto de vários outros inéditos, no terceiro número impresso da Modo de Usar & Co.)


§


Poemas completamente inéditos:

poemas do destino do mar

Acordei em Lisboa com o barulho de abrirem
um lençol molhado no céu
e tentavam arrastar as colinas para o rio.
Ao meu lado desenhavas
as linhas de um mar apavorado
mas grande demais para fugir.

Guardo junto a outros. Tudo o que me importa.
Há uma caixa ali, do lado esquerdo de quem está comigo,
onde estão aos quantos instantes iguais
gravados nas milhares de fotografias
digitais pelos turistas no mundo agora
e eu. Tão madura, tão rude, inconstante
cinqüenta mil doçuras que te apavoram
cinqüenta mais cinqüenta mil e duas paisagens com uma pessoa em frente
ícone, um totem do igual
queimado pelo vermelho do sol.

Ou que quer dizer isso?
Esse lugar que desaparece com uma chuva-fria
os quatro dias dados aos combatentes do entretenimento
seus pés que incham, desacostumados a andar e
clicam. Para a tia que ainda existe, uma empregada atenta
tua mão distraidamente na varanda da minha mão.
Como o vento grava em uma roupa
um alvo é só um vulto. Que quer dizer isso?
Um beijo dado
mais tarde.


§


O céu que nos prometa um ano bêbado
sem por enquantos
um ano que diz ENTÃO MOSTRA
e sacode feito leitoa as tetas que caem
são nuvens
de uma chuva dramática e sem aprendizagem.
Eterno ser sem se apropriar
da impossibilidade de organizarmos
em formas calmas, permanentes, necessárias
tanto você como também eu
ou nós podemos pular e estaremos no alto
através dele, este céu que nos promete
Sou eu o messias e anuncio
mais uma rodada de anos
bêbados.


§


Enquanto ele fala sobre um furacão e a força repentina que é nascer eu
ouço. Ao seu lado o tempo, penso, passa em mim
como uma poça de água parada
por onde atravessou um caminhão.

Não sei pra onde
dizem vão
essas placas abandonadas
nem porque elas ficam assim
penduradas.

Ninguém salva a ninguém de si mesmo
brinca de farol, no máximo
neon das estrelas do coração.

Ele abre a janela e sorri como o vento mostra os dentes do cavalo dado.
Não olha assim, amor,
depende tanto tudo, não esquece.


§


Seja lábio, lanterna
adivinha o meu nome
no céu, homem.

Treme não. O astro
é barbárie, insolação
rosto sem face. Mas

o mar quando escreve
é um coração
que não tivesse centro.

Que fosse capaz
o mar de te deixar
mesmo se, não deixava.

Vingava os olhos
de tanto ver mexer
pra te morder

a onda que abraça
a galáxia ri
muito branca.

crítica de SÓ UN HOME BO, de Raúl Dans, en Positivas.

 A NATUREZA HUMANA E A BONDADE

Título: Só un home bo

Autor: Raúl Dans

Editorial: Poistivas

Ter nas mans un  novo título teatral de Raúl Dans, é ter nas mans unha obra lirterara que vai prender na atención lectora desdea primeira liña até que cae o pano e remata a peza. Síntoo moito pol@s que non len teatro, porque a lectura de teatro é das máis agradecidas que hai, é, sen dúbida, a máis agradecida por iso de que tamén é a que ten maior capacidade para sorprender. Aliás, o nome de Raúl Dans non é calquera dentro da literatura galega, senón o dun dos dramaturgos máis importantes na historia da nosa dramaturxia. Non é pouco dicir, e , ademais, sería moi inxusto non recoñecelo. E para quen pense que a lectura de teatro é un sucedáneo da obra teatral, que para ser representada foi concibida, tamén hai que dicirlle que é verdade, para ser representada é escrita mais a lectura permite ter nas nosas mans un texto que podemos manipular e, en virtude disto, fixarnos en cousas que igual na representación (na que o seu decorrer non permite demoras, que tamén é unha das súas virtudes) non nos era tan doado recoñecer. Téñoo dito moitas veces e non vou deixar de dicilo. Engadindo, para máis, que, que o lector de teatro neófito ou quen só vai ao teatro de cando envez, son precisamente aqueles que mellor experimentarán as vantaxes de ler teatro.

                     Vénseme á cabeza neste instante expoñer unha comparativa entre a novela e o teatro á hora de crear ambientes dramáticos (por sinal, que pode ser calquera outro xénero). Mais non é o momento, que temos que escribir sobre a última de Raúl Dans, Só un home bo, II Premio Laudamuco, e que vén acompañar a redición de Unha corrente salvaxe (outro título seu imprescindíbel) por parte de Laiovento. Neste caso preséntanos unha trama con catro personaxes en escea: Manuel, e a súa filla Iris (tamén hai outra filla á que se alude), Vidal (48 anos, máis novo que Manuel) e Richi (un mozo de 30 anos). E estas catro personaxes sonlle suficientes para crear un clima dramático onde as personaxes deixan ver parte de quen son, da súa personalidade, que vai incrementando as doses de dramatismo deica ficar nun remate moi próximo á traxedia ou plenamente tráxico (e isto lémbrame moito a Unha corrente salvaxe), segundo a lectura que se sexa capaz de proxectar. En 65 páxinas, Raúl Dans proponnos un paseo reflexivo por temas (ou subtemas) de moita actualidade, tales como a natureza do mal (que será central na trama, só hai que mirar o título), a necesidade dunhas normas mínimas de convivencia, os valores failiares, o aborto, as seitas ou o tráfico de mulleres e unha revisión da mitoloxía clásica grega (no centro, Edipo rei, mais xa desde os os inicios se nos convida a pensar nos deuses, que é unha pista para chegar a onde se chega)…entre outros, porque hai máis e son centrais nesta obra de teatro, porén simplemente mentalos pode desvelar máis do devido sobre a trama, contentarémonos con dicir, por sinal, que a corrupción tamén está presente, e non só en ambientes que teñan que ver coa xustiza senón tamén nos valores familiares.

                     De todas esas propostas tematico-reflexivas, a corrupción e a revisión de Edipo rei resultan fundamentais na trama teatral que se nos convida a ler. En realidade, Edipo rei, ten unha importancia fundamental na trama, mais tamén se reflexiona sobre Platón e Aristóteles en palabras de Manuel, que é profesor de latín e grego.

                     En si, a trama vaise conducindo con mestría, con moita mestría, sobre os temas antes mentados, até se converter no que semella unha trama de corrupción, porén a dimensión exacta desa corrupción só se desvelará no remate, que nos devolve ao título e á natureza do mal no ser humano na procura dese home bo, a natureza do mal e tamén a que extremo pode chegar a maldade humana á hora de “aproveitarse” dos máis desvalidos entre @s human@s, e xa digo que non quero dar máis pistas para non develar máis do devido o remate da obra. Deste xeito Raúl Dans explora unha vez máis os recunchos máis negros do ser humano, eses que se agochan tras unha faciana de persoa normal, convencional, mesmo de persoa con (en principio) bos sentimentos. Con mestría, coa mestría de sempre, crea un ambiente dramático ao ir amosando parte da personalidade das personaxes, de maneira que se manteña o suspenso creado de inicio e se vaia ampliando a medida que lemos, deica rematar nunha traxedia desas que se agochan todos días na sociedade que vivimos, e que cando saen á luz nos sorprendemos de a que extremso pode chegar a maldade humana. Nisto, en tensionar o drama deica que remata en traxedia, Raúl Dans é un auténtico mestre e aquí vólveo demostrar.

                     E síntoo moito por quen non lea teatro, están perdendo un dos xéneros literarios máis amenos e que mellores reultados dá. Que tomen nota, e aquí teñen unha estupenda peza teatral desde a que comezar.

ASDO.: Xosé M. Eyré

crítica de LARA E SABELA, de Ignacio Vidal Portabales, en Xerais

A NOVELA DE SABELA

Título: Lara e Sabela

Autor: Ignacio Vidal Portablaes

Editorial: Xerais

 Ben, comecemos polo primeiro. Na convocatoria especifícase claramente que os textos han ter unha extensión mínima de 50 páxinas e unha extensión máxima de 100 (2500 caracteres por páxina, espazamento 1,5 entre liñas). Porque estamos falando do Lueiro Rey na XXVI edición (2019). Esta novela, a gañadora do certame, ten 175 páxinas, con 29 liñas por páxina. Aínda que o espazamento esixido é dos mínimos e non se especifica o tipo de letra, aquí algo pasa. E pasa que as bases da convocatoria non son suficientemente claras para que o resultado sexa unha novela breve. Iso no caso de que esta novela coubera no espazo esixido na convocatoria. Porque, unha novela breve de 175 páxinas parece unha broma. Con 175 páxinas estamos diante dunha novela, diante dunha auténtica novela. Aquí algo pasa, xa dicimos, e non é bo. Tamén cabe sinalar, entendendo que a novela non se axusta ao que é unha novela breve, a magnanimidade do xurado se non cumpre as bases. E tamén a ousadía de presentarse a un premio de novela breve a sabendas de que non se cumpren as bases. Repito, non se especifica o tipo de letra, o espazamento é dos mínimos. Se o contido da novela cabe nesas esixencias, está claro que hai que modificar as bases. (Contrasta esta novela breve de 175 páxinas, coas pouco máis de 100 do Carrusel de Berta Dávila, considerada unha novela)

                     Dito isto, quedará ben claro que nunca imos falar de novela breve senón de novela. Pois nesta novela de Vidal Portabales preséntase unha trama de inicio pouco habitual en autorías masculinas. A trama da novela cóntaa unha personaxe en primeira persoa, Sabela, galerista lesbiana e namorada de Lara, unha das artistas que expoñen na súa galería. Non é frecuente o lesbinaismo en autorías masculinas, e este proceso de “conquista amorosa” que Sabela pretende exercer sobre Lara constitúe a columna vertebral da novela. Novela que, de inicio, tamén apunta outras implicacións na trama que crean unha esperanza lectora ben alta, como para non abandonar a lectura. Polo que a nós repecta parécenos bastante ben configurada a personaxe de Sabela, a narradora. Non así a de Lara, que se manifesta nas palabras de Sabela, autora implícita da novela. Evidentmente o xuízo das lectoras (e no xurado só había unha muller) debe ser máis autorizado có noso, porén, a impresión que temos despois de ler a novela é esa: hai unha personaxe ben caracterizada, Sabela, e outra, Lara, da que non podemos dicir o mesmo aínda que co pasar das páxinas se vaia manifestando máis, estas manifestacións fican lonxe de ser suficientes como para configurar unha personaxe tan complexa como é a de Lara. E isto é así xustamente porque a estratexia narrativa da trama baséase en descubrir precisamente a realidade dunha Lara, que non é lesbiana, que vén de padecer a morte da súa parella (un home), momento que a Sabela lle parece procipicio para inicar o “proceso de conquista” da súa muller desexadada: Lara. En principio esta é a situación de saída e desenvolvemento da trama. Despois, no remate, decatarémonos de que a trama se soluciona establecendo a verdadeira relación de Lara coa súa parella, o defunto Valentín, mentres que o desenlace do “proceso de conquista” inciado por Sabela non se resolve máis que epifanicamente na mente de quen le, que pode considerar solucionado favorabelmente ese proceso mais tampouco é que sexa un remate claro senón un remate aberto.

                     Evidentemente hai máis personaxes e o humor tinxe as páxinas da novela a partir precisamente delas. Como é, por sinal, o caso da “Alumadas”, unha curiosa seita. Ou a relación existente entre o avogado e a superiora da Marcelinas donas do convento onde viven alugadas as “Alumadas”, que tamén se resolve con humor e mesmo debe dar unha idea do que vai suceder no fío principal da trama, claro que quen le, no momento, iso non o sabe nin o sospeita. E aí estamos no mellor da novela, porque, unha vez lida, convida claramente á reflexión sobre o contido da trama e as relacións existentes entre as personaxes. Despois de lida, fica a insatisfacción pola pobre configuración de Lara, mais tamén o regusto de repensar esas relacións entre as personaxes, onde, como dixemos, non falta o humor.

(Ben, o que acaban de ler está escito en Times New Roman, de 11 puntos e espazamento 1,15.Ocupa, excluíndo título e encabezado, 42 liñas, 708 palabras, 4241 caracteres con marxe esquerdo de case 3, e dereito de 2. Unha folla word e 2 liñas da seguinte. En Agency FB, e coas anteriores características ocupa menos de 1 folla, en Bodoni MT Condensed aínda é menor, igual ca en Microsoft Himalaya… e poderíase seguir procurando….Esta explicación vén a conto de que é posíbel “adaptar” o espazo dun texto segundoesixencias… e como ninguén vai contar os caracteres…)

ASDO.: Xosé M. Eyré