Laura Liuzzi: a poesía e o hiato especulativo

Laura Liuzzi naceu no 1985, no Rio de Janeiro. Coñézolle tres poemarios:

2010 – Calcanhar (7Letras)

2015 – Desalinho (Cosac & Naify)

2016 – Coisas (7Letras)

Tamén participo una antoloxía de Adrana Calcanhotto É agora como nunca. Antologia incompleta da poesía contemporânea  brasileira (Companhia das Letras , 2017), e forma parte, entón, das voces máis interesantes da poesía brasileira máis nova. E, a verdade é que hai un poderosímo motivo para incluíla neste selecto grupo. Non se trata dunha poeta esteticamente virtuosa ou especialmente inclinada cara ao aspecto formal da poesía. Non. E que conste que o que dicimos non significa que a súa poesía sexa formalmente pobre; nin moito menos; precisamente, un dos posíbeis ángulos desde o que estudar a poesía de Laura Liuzzi que se nos ocorreu…foi xustamente ese…porque parece que a xente se fixa moi pouco nesta dimensión da súa poesía.

Porén, escoller ese posíbel ángulo, sería desatender o principal motivo polo que a poesía de Laura Liuzzi se singulariza, toma identidade propia, se constrúe fronte ao mundo.

 “Existe um hiato inevitável entre o pensamento e a realidade objetiva. E talvez a poesia seja a investigação dessa frincha.”

E velaí, nas súas propias palabras, unha concepción da poesía que eu quero chamar poesía especulativa. Poesía especulativa no sentido que nos fornece a mesma filosofía especulativa como arma para investigar a realidade. Até aí e non máis, porque esta poesía especulativa tamén é unha poesía da experiencia. Sendo desde a experiencia que se deriva a especulación, toda vez que a realidade non deixa de ser un mundo fronte ao cal a estrañeza é a reacción máis común, máis común na poeta, na poeta e na xente, e na xente lectora.

Desde xeito, a poesía de Laura Liuzzi funciona como un espello que nos devolve a realidade, mais unha realidade na que hai cousas que non agardabamos, que non esperábamos. Ábrenos os ollos ao abismo do coñecido que non coñecemos. Dalgunha maneira, a poesía sempre é un abismo.

É neste sentido que eu falo de poesía especulativa, non no máis común nas letras “castelhanas”, onde por poesía especulativa se vén entendendo unha sorte de poesía de ficción científica.

Laura Liuzzi tamén tivo moito eco mediático cando na Festa Literaria Internacional de Paraty, en 2016, cando ridiculizou o presidente interino Michel Temer, deixándoo como un poesta ben ruín, de igual menira que é un político tamén ben ruín. O que fixo Laura foi ler un poema de Temer, sen dicir a autoría, e revleándoa só no renate e no sentido xa dito. O poema de Temer era este:

Por que não paro?
Por que prossigo?
Por que insisto?
Por que lamento?
Por que reclamo?
Por que ajo?
Por que me omito?
Por que desabo?
Por que levanto?
Por que indago?
Por que questiono?
Por que respondo?
Por que este infindável
Por quê? 

A conclusión de Laura Liuzzi, totalmente lóxica. Non é?

Imos coa súa poesía, esta vez non indicamos o seu Facebook, vito que o ten bastante inactivo

(  Na Seleçao Hypennes)

GRAVIDADE

Não são os meus pés na areia
nem a insistência das manhãs
é a interferência da saudade
e um homem sentado na franja da praia
tremelicando
é o silêncio das ilhas fixando o oceano
distraindo essa inevitável vontade de escapar
é o andaime erguido na frente da janela
saída de incêndio ou emergência –
você era o meu ponto de fuga
um anjo disfarçado
meio curinga
com perigo de correnteza
e se eu me arrastar
vou te dizer que sou um transatlântico
inabalável
altiva, com pálpebras pelo meio dos olhos.
Não são os meus pés na rua
eu te garanto que navios não têm pés.
É uma alma de astronauta.

……………………………….

(Na Piauí)

AUTORRETRATO

Como pode água nascer
de pedra
como pode, posso eu
também ter matéria
grave e intransponível
conjugada a esta outra
transparente, irrepresável.

Basta um olhar à fotografia –
o bebê no colo
o papel envelhecido.
Ao mesmo tempo que um avança
somando anos
o outro recua, mais antigo.

Quando as tardes pareciam
maiores
quando o fim do dia
era o fim do dia
quando tatuagens não eram
para sempre.

O tapete da sala era branco
e peludo, parecia um bicho
depois da ração diária.
O sol entrava geométrico
e, espremendo-se entre as grades
desenhava escarpas
onde eu me deitava
junto ao bicho.
Eu fechava os olhos
para ver as cores no escuro.

Só o que morria era inseto.

Sorrir nunca foi fácil.
Cresço com a boca miúda
e ainda não gosto de piadas.

Conservo a interrogação
quando de frente ao espelho:
como pode ser tão diferente
o frontal do perfil?
E me pergunto, desde lá
se todos enxergamos as mesmas coisas
se a língua não é tão só
um mesmo código para coisas distintas
se entre mim e você
não há um abismo sem solução.

O que sei é o que não sei
sobre projetos de futuro.

E mesmo assim escrevo cartas
(funcionam melhor que espelhos)
para meu próprio endereço.
Me respondo como se já tivesse
arquivado toda a memória
e pudesse confortar
confrontar o porvir.

Quando escrevo me passo a limpo
sem riscar as imperfeições.

A infância ainda gravita
em mim. Não só
a minha, mas outras
que vêm com músicas
sub-reptícias, por um atalho
por onde atravessam
com a velocidade
incalculável
do tempo.

Dar nome às coisas:
primeiro passo torto
até que se deseje
as coisas puras
sem auxílio de som —
a rosa única
a pedra que se sabe pedra.
Segundo passo, falho:
inominar.

Nos retratos guardamos nos olhos
o vidro dos olhos do gato
a cama ainda desfeita
a última tempestade
e o escuro do que virá.

[Colher nas mãos o que
das mesmas mãos se extinguiu:
pedra papel tesoura.]

…………………..

SOBRE UM LIVRO

Ler à noite
nesse quarto
à meia voz
metade som
metade sopro –
emprestar vida
ao livro
antes morno
sem rumor
deixá-lo que use
minha voz
me surpreenda
a cada linha
de língua inglesa
até que desalinhe:
ondula, angula-se
dobra a curva
e desaparece.

ARQUITETURA
com o pensamento em Franz
Kafka

Encapsular o inferno
numa tarde sem mais
de Praga. No entanto
era ele quem deslocava
a cidade para a parede
incalculável de seus olhos.

Auscultar o pântano
de sua razão intranquila
até que nenhuma ponte
se arme para nossa passagem.

Inventar entradas falsas
(entrar sem sequer ter saído)
traços pontilhados, estradas.
Procurar praças estações catedrais
como um cão sem faro.
Como um cão fora de si.

Alcançar o fio cego do horizonte
por algum túnel longíquo
incomunicável; abastecer
o teto mais que o chão.

OUTRO

Perdi meu senso de urgência.
Não sei se foi antes ou depois
daquela lambida, seus anticorpos
e o meu corpo no que ia
submergindo, derrubando as traves.

Qual o meu interesse
qual o quê eu não sabia
essa casa está doente
e o tamanho da minha mordida
até que todo o mar congele
não será maior que qualquer estrada.

Aqui dentro não há mais vaga.
Aqui dentro não há mais nenhuma vaga.

Perdi mais objetos que encontrei
e agora a maior parte deles
existe sem os nomes que lhes dei.
Volto à sua língua, sua lambida:
corta, abre, costura e fecha.

ORQUESTRA

Não há cortina
para esconder os músicos
nem mesmo a música
se esconde nos instrumentos.

Está tudo aos olhos da platéia
porque a sinfonia não se pode ver
senão nos gestos do maestro.

À minha frente, antes do primeiro
comando, pode estar o violoncelista
em terno preto, como muitos ouvintes.

Quando se sentam os músicos
cada um em seu tempo afina
seu instrumento e acerta a folha
da primeira sinfonia: confusa algaravia.

Então vem o regente
sob uma saraivada de palmas
com sua vara de condão.

Os músicos ajeitam a coluna
alisam os traços do rosto
e encaram o maestro

que, com dois olhos apenas
cruza com todos que têm nele a mira
buscando a confirmação
de que pode começar.

Tão logo soerga
a batuta e soe
o primeiro acorde
ouve-se, milagrosamente, o silêncio.

VONTADE

Entrar em casa sem que a porta
rangesse, sem que o cachorro
da vizinha farejasse minha vinda
sem que o sofá conservasse as
formas do meu corpo, sem que
eu precisasse tomar aquele copo
de água que toca o azulejo e emite
um som rouco, sem que houvesse
corpo. Entrar em casa como
a música entra nos ouvidos.

PONTEIRO

Não é o tédio da falta
do que fazer. Não é
ansiedade (a noite
não promete nada
além de uma dúzia
de guarda-chuvas).

Não é minha mão
testando o calor
do fogo nem sua
mão tocando meu
seio. Não é o pulso.
Não são as cordas.

São vacas gordas
e preguiçosas
calculando a seca
da maré. É uma
fruta que apodrece
aos olhos de ninguém.

É o êmbolo de uma
cafeteira forçando
passagem. São os
gases flutuando
no espaço. Tem a
forma de um
palmito e despetala.
É agora como nunca.

RETRATO DE SZYMBORSKA

Mesmo com os olhos
semicerrados
nota-se, atrás da nuvem
do cigarro
na leveza dos ombros
e pescoço esguio
na colher que descansa
sobre o pires
na dobra folgada
da manga da camisa
nos livros apoiados
sem pressão
na estante e na estante
quase vazia
atrás de si, ela
moça arguta
que sorve o mundo
como quem sorve
por hábito
o café.

SUCESSÃO

1.
Nota-se a instalação do tédio
no modo como os dedos do pé
se encolhem como minúsculos
animais marinhos à suspeita de
visitas. As almofadas parecem
zangadas e o jornal não tem
modos a essa altura da noite:
se esparrama, não deixa espaço
para o que não é notícia, embora

não haja assunto para preencher
o vazio que a música deixou
ou ao menos sobrepor-se a
o peso dos pequenos rumores
dos corpos na sala: a respiração
que não cabe na boca; os estalos
dos ossos acordando no sofá.
Ninguém parece ouvir lá de fora
as baforadas das ondas na praia
o esforço de gravidade da lua.

2.
Silêncio não é ausência de som.
É uma sintonia dos ruídos tal
que eles não se distinguem uns
dos outros. Se transparência não
é ausência de cor, mas passagem
da luz, silêncio é a passagem do som.

3.
A noite esconde o mar que esconde
os barcos que esconde os marinheiros
mas ninguém tem os olhos fechados.
Todos se espreitam e se ouvem
sem sabê-lo. Os livros aparados
na estante dizem o que dizem
quando estão fechados? Estariam
apenas em silêncio?

Não há palavra que toque a coisa
mas há palavra que a invente.

Atravessar o vazio da sala de meias
pode ser a solução para vencer
a âncora desta noite porque todas
as noites parecem não ter fim
até que venha o sol anunciar
que nada é tão complicado
quanto parecia. O dia sucede.

( En MÁQUINA DE ESCREVER)

DE UMA MANHÃ

A praia sob a bruma
na primeira hora de luz
é um Turner improvável.
Não teria esse véu gris
sobre a baía que desperta
plena de certezas e pulmão
se não se ouvissem os bugios
no coração fundo da mata
a sugar a noite sem o mel
do dia, seca e sólida
arranhando a garganta
ancestral que anuncia
que quer nascer, quer nascer.

…………………………..

(Na 702)

“Coração sobre cama”

“Se de repente acordo

é madrugada

surpreende o coração

descansa sobre os lençóis

exausto

não tenho sede nem sono

e nem mais coração.

Se acordei e é madrugada

era pra ver você

que não está nesta cama.

Enquanto canto bem baixinho

os batimentos desaceleram

lentamente, quase imperceptível

até a voz sumir entre os lençóis.

Esperaremos a manhã

o coração e eu

e os jornais o carteiro as babás

colocarão as coisas no lugar:

o coração no peito

você à distância

os lençóis na lavanderia.”

…………………

(Na UAI)

a propósito de ENTRE DONAS, varias autoras, en Baía.

 10 NARADORAS. CELEBRACIÓN E LOITA.

Título: Entre donas

Autorías: Varias Autoras

Editorial: Baía

Primeiramente imos dar conta de quen son esas “varias autoras” que nos permiten saír do paso sen ter que enumerar unha a unha todas e cada unha delas. Neste caso, as autoras que reuniu Baía neste título son Marilar Aleixandre, Marica Campo, Rosalía Fernández Rial, Inma López Silva, Teresa Moure, Emma Pedreira, María Reimóndez. Eli Ríos, Anxos Sumai e Antía Yañez, ademais de Ana Luísa Bouza Santiago, que é quen asina o epílogo. Estamos, polo tanto diante dun volume que nos presenta un bo número de narradoras, naradoras pertencentes a  promocións ou xeracións diferentes, e que supón unha inmellorábel ocasión para achegarnos á narrativa de muller no panorama da narrativa actual. Tamén se pode dicir que unha inmellorábel ocasión para achegarnos  á narrativa feminista galega actual. E debe. Mesmo falar de diferentes sensibilidades dentro do feminismo narrativo, mais eu non o vou facer. Non o vou facer porque considero este título un volume de celebración: celebración de que actualmente gozamos dunha estupenda narrativa de autoría feminina (as autoras aquí reunidas son as que son e ben puideran ser máis ou outras) e isto quere dicir que a literatura galega das últimas décadas normalizouse achanzando unha carencia que berraba aos ceos; non pretendo ao dicir isto sinalar que sexa unha situación óptima, só que esa situación mudou felizmente para mellor, hoxe a ninguén estraña atopar narradoras, e narradoras ben competentes.

                     A segunda cousa que me chamou a atención é que ningunha das autoras optara polo conto como xénero da narrativa breve. Non é que isto sexa en si moita novidade, xa as últimas décadas do século pasado amosaron o ascenso do relato na narrativa breve, en detrimento do conto. Certamente. Mais como considero o xénero do conto como unha das estratexias narrativas máis esixentes tecnicamente falando, e sempre me satisfaceron moito, non deixo de sentir certa mágoa. Pola contra, nesta mostra de narrativa breve de autoría feminina, un bo número, unha clara maioría de autoras optou polo relato fragmentario. Desde calquera opción xenérica dentro da narrativa breve se pode acadar a excelencia literaria, iso non ten discusión. Mais considero oportuno salientar este feito, particularmente considero moi inetresante esta consideración técnica porque permite dotar á narración de meirande variedade e xoga un papel moi importante no mantemento da tensión narrativa, do suspenso narrativo. Unhas veces o recurso fragmentario é moi visíbel, outras veces está máis integrado no discurso (como é o caso, por sinal, do relato de Marica Campo). En todo caso, é unha opción que adoita dar bos froitos.

                     Evidentemente, sendo tantas narradoras non vou poder escribir sobre cada relato en particular, o tempo no me permite ese luxo, mais hai algunhas particularidades que non quero deixar de comentar. Por exemplo a necesidade non só xa de falar de muller, senón de mulleres. Nótase ben por exemplo no  de Marica Campo, e isto responde á necesidade tamén de rachar estereotipos: a muller, en realidade son moitas mulleres, mesmo dentro da mesma persoa poden convivir disferentes tipos de muller segundo as circuntancias vaian esixindo ser así ou destoutra maneira. Parece obvio. Mais quéroo sinalar porque vén denunciar unha situación inxusta: á muller pedíuslle ( e esta palabra é un eufemismo) que fora de determinadas maneiras e (case) sempre sen consultar a súa opinión porque eran obxecto de dominación por parte dos homes. E isto, polo claro, aínda hai que dicilo en presente. E isto, tamén se aplica á opción sexual que a muller teña, evidentemente.

                     Desde o punto de vista puramente técnico hai outra circunstancia que tamén ten que ser salientada porque non é nada frecuente. Refírome ao relato de Emma Pedreira, onde en lugar de presentar unha narradora, son dúas narradoras as que nos van dar conta da trama nun ton desenfadado que tamén singulariza o relato. Con tanta narradora, e de tantas xeracións distintas, e con máis ou menos experiencia tanto narrativa como especialmente na narrativa curta, non todos os relatos teñen a mesma calidade literaria e ás veces nótase que ben quererían dispoñer de máis espazo. Porén, estamos de celebración, Entre donas, xa o dixen, é unha auténtica e oportunísima ocasión para celebrar a narrativa de muller. E non por ser celebración deixa de ser un título eminentemente reivindicativo e denuncador das dificultades que a muller atopa na nosa sociedade para realizarse como tal muller. Unha cousa non quita a outra senón todo o contrario. Tamén é oportuno celebrar a loita, oportuno e necesario. Como di no seu relato Marcia Campo, “non hai que confundir a realidade co desexo dos homes”, e, como di a epiloguita, Ana Luísa Bouza Santiago, “non hai que confundir a literatura coa ollada masculina” como infortunadamente sucedeu durante demasiados séculos. As olladas feminina e feminista non só fican ben patentes, ademais tamén o fan desde un punto de vista universalizante ao valerse de culturas como a irlandesa (Marilar Aleixandre) ou clásica (Marica Campo), por sinal, e este non  é pormenor tampouco a esquecer.

                     Fica por comentar o epílogo. Como teño dito, non son moi  amigo dos prólogos/limiares que pretenden balizar a lectura que se vai facer; a liberdade de quen le debe estar por riba de todo, debe poder ler con toda liberdade. E, neste contexto, epílogos como este son para recibir e poderar con xustiza e alegría, toda vez que axuda a reinterpretar ou redescubrir cousas que na lectura puideron pasar por alto, sempre desde o contraste entre a opinión de quen leu e a información que se achega. Enriquece a lectura.

                     E tampouco quero rematar sen mencionar o relato de Anxos Sumai, toda vez que enfronta un tema, ben pouco presente na nosa narrativa, como é o coidado dos nosos pais e nais cando chega un momento en que xa non se valen por si mesm@s. O relato non só se singulariza polo tema tratado, que é unha realidade dura que moit@s vivimos día a día, alén diso está contado cunha tenrura e sensibilidade que encollen o corazón.

                     Ben. Aquí teñen un volume para celebrar a escrita feminina (e feminista). E que nesa celebración non lles esqueza a denuncia das dificultades para ser muller, para realizarse como muller aínda hoxe en día.

ASDO.: Xosé M. Eyré

Rita Isadora Pessoa: a poesía e a tempestade

Rita Isasora Pessoa nace en Rio de Janeiro, alá polo 1984. Ademais de psicóloga e psicoanalista, tamén traballa como astróloga e taróloga. Tamén se doutorou en Literatura Comparada. Mais agora queremos fixarnos na súa actividade como astróloga porque iso pon o nome de Rita Isadora en contacto co de Júlia de Carvalho Hansen e comparar as dúas poéticas aparécese como unha tentación irresistível. Que nós imos resitir, porque a nosa única finalidade é presentar a poesía de Rita Isadora.

A día de hoxe ten publicado tres poemarios:

-no 2016 – A Vida nos Vulcões (Oito e Meio)

-no  2018 – Mulher sob a Influência do Algoritmo (Cepe)

– no 2020 – Madame Leviatã (Macondo)

Sobre A vida nos Vulcões recomendamos a lectura deste artigo de Gabriela Farrabrás, que o describe con precisón e rapidez.

Mulher sob a influencia do alogoritmo foi vencedor do terceiro premio Cepe de Literatura. Trátase dun estudo poético, un estudo lírico sobre as posibilidades de existencia da muller, e tamén da capacidade da linguaxe para representalas. Necesariamente, salvando as distancias, lémbranos en certa maneira o poemario de Rosalía Fernández Rial Árbores no deserto.

Do seu terceiro libro, moi recente, temos moi pouca información.

Ben, aínda que nun principio o seu primeiro poemario parece levarnos por xeografías exóticas, non é máis que un artifíco para introducir un tipo de pensamento pouco ortodoxo en occidente, e esa é a filosofía oriental. E sempre diremos nun principio porque a poesía de Rita Isadora parce sempre un punto de chegada, unha meta que é inicio (inicio cósmico) sempre a percorrer as interioridades da complexidade que é ser muller. Ou ser mulleres porque á voz poética de Rita Isadora nada do que supón ser muller lle é alleo. Ás veces, a súa poesía é como historias líricas, auténticas historias mediante as cales crear ese clima, esa ambientación interior que xa consideramos como signo da vangarda poética actual. Que, por moito que sexa vangarda tampoco é allea ao mundo literario clásico, e ben se pode dicir que no fondo da súa poesía aniña unha traxedia grega que ás veces a obriga a un xogo de desdobramento para sentirse a si mesma desde a estrañización.

E dese desdobramento, desa estrañización tamén nace a poesía como confidencia,como cofidencia a si propia e como confidencia a quen le a través do suxeito interposto dun eu/você que axuda á introspección.

Si, porque non é suficiente con ollar o mundo ás avesas, senón que se fai necesario virar un /unha mesm@ no aveso…para ter unha visión o máis completa e o máis ampla posíbel. E mesa completude, nesa amplitude, ten moito que ver o universo cultural de que é posuidora, onde entran desde Cortázar a Elliot ou Modigliani, por sinal, e onde tamén hai que contar coa súa formación como astróloga e a amplísima tamén formación humanística que das súas poesías se desprende.

Queremos finalmente que se fixen na concepción de vertixe, de abismo, da que parecen nacer moitos dos seus poemas, poemas que son tempestades interiores, delicadezas salvaxes, avalanchas, precipitacións…E tamén na riqueza formal, ás veces ben comexa, dos seus poemas, onde a concepción do texto como un obxecto no espazo a fai extarordinarimente variada.

Como sempre, deixamos constancia do seu Face por se queren seguila. E tamén o seu blog, onde poderán ler máis poesía súa.

E agora vai a súa poesía.

(En Mulheres que escrevem)

“a casa dos pequenos animais”

para suzana pessoa

você insiste
no clareamento forçado
dos meus cabelos
aparentemente lera um artigo
sobre uma técnica de suavização
de traços a partir da falsificação
de molduras capilares
e de alegrias insuspeitas
às quais sabe que sou alérgica
“é que o preto
enche o teu rosto
de sombras”
você decide ignorar que o preto
é na verdade uma pequena homenagem
que presto
ao corvo invisível
que segue pousado
no meu ombro
há uns bons anos

você pesquisa
sobre as 30.000 espécies
de escaravelhos
há horas você pesquisa sobre o egito antigo
há dias você escuta a cacatua da vizinha
berrar como se estivesse assombrada
você jura ter sido
visitada por um escaravelho dourado
na noite anterior
mas tem dúvidas se o bicho era apenas
um besouro luminoso ou talvez uma barata
geneticamente modificada
o fato é que você não sabe o que fazer
e nós duas sabemos que isso é um perigo
você o isola dentro de um pote de ervilhas
esvaziado há tempos de seu conteúdo
mas segue acordada
a noite inteira
angustiada com seu escaravelho
preso dentro do pote vazio de ervilhas
debatendo-se
na cozinha
o corpo arrendondado
a emitir uma luz sobrenatural
você sabe que é bem possível
que isso seja um sinal
um indício ou uma distinção
uma nobreza inusitada
entre seus colegas artrópodes
menos aristocráticos
mas nada a convence verdadeiramente de que não se trata
de uma barata geneticamente modificada
você teme
e retira o amor do poema
planeja uma corajosa operação de soltura
respira aliviada quando o bicho
compreende exatamente o que tem de fazer
e quando você o deixa livre
ele voa
voa com agilidade
para bem longe
sem hesitar

você se sente finalmente livre
para voltar a pensar nos cupins
que roem a estrutura da casa
do sofá e das portas e armários
a gata presta atenção aos ruídos
inaudíveis aos ouvidos humanos
os ruídos
de uma lenta demolição

você estremece e devolve o amor
de novo ao poema
sente agora uma certa liberdade para pensar
nas pequenas feras
no amor
na casa
na madeira nas paredes
nos ruídos inaudíveis
a todos
os ouvidos
salvo os da gata
cuja atenção se volta
para um murmúrio em particular
fora do seu alcance

“o método doppelgänger”

neste dia há de descobrir
que dentro do teu tórax
habita uma granada fossilizada
com meu nome gravado

a letra que te fez fêmea
mistério veneno
e me privou de teu estatuto de bípede
para inaugurar uma ordem secreta
de concubinato
de circe sereia convite aberto
para colisões contatos

para denunciar enfim em ti
uma voz
capaz de hastear mortos
como bandeiras em riste
para desvendar o gesto feroz
o giro carpado
geometria incansável
da foda
do limite
das cordas

e ainda assim ser capaz de
arrancar furiosa o encanamento
da tua planta hidráulica
[tua superestimada liberdade]
ter na ponta da língua
uma sentença óssea capaz de perfurar a membrana
sustar a anestesia
revelar tua rota fundamental de fuga

sustentar aquilo que rui
mas faz costa
a parte de ti que é pavimento
e se curva em istmo
sintomática em seu mecanismo
de defesa contra a água

na convicção daquilo que se tinge
e ainda assim permanece seco

no que insiste na afirmação
de propriedade
do poema
“esse poema é meu”
mas eu sigo mesmo vagarosa
[na dúvida]
sigo na possibilidade de que
este poema não seja meu

que animal é este?

“a hora da estrela”

esse é para você
morcego noctívago
que não reconhece nem teto nem parede
nem o próprio brilho
seguimos no nosso diadorim off-sertão
modernismo wannabe dos que vieram
diretamente da água
para matar a sede do rio

no fim prosaico da discussão de duas horas
sobre o copo quebrado ou o lixo vazando na cozinha
ou a panela de batata doce que cozinhou demais
você constata que, de nós dois, sim,
você é o mais romântico
e eu digo ‘mas nós somos românticos de formas diferentes’
e você graceja ‘é, de fato, eu sou da tradição
do romantismo inglês e alemão’
[sim, com tua solidão proporcionada pelo bosque
e a vastidão dos espaços naturais abertos,
você, oxóssi-caçador da bílis negra]
mas eu, no caso, segundo você, sou a tragédia!
você me diz, ‘você é a própria grécia’,
[cassandra, antígona e medeia
enfileiradas na cabeça da hidra, mais a fúria do olimpo
com raios de iansã e ingenuidade de macabea]
você diz que sou a origem de todo o romantismo, de todo o cinismo,
da neurose, perversão e da forclusão do nome-do-pai, da mãe […]

e aí, cá para nós, você há de me responder então como faremos
para cumprir a nossa parte, nosso fair share
na tarefa hercúlea de soçobrar
o mito do amor romântico,
essa bitch, essa marca indisputável —
fardo-sísifo da nossa geração pós-yuppie

— se somos nós, meu amor, o próprio mito
se nós somos o amor romântico
o perverso, a amor perdido
[encenado reencontrado]
— o amor com a faca na mão

e a própria sede do rio.

………………………………

(En Ruido manifesto)

das ruínas preliminares

ou

dos papéis individuais no fim do mundo

aquela sou eu esperando a catástrofe

com as mãos seraficamente pousadas

sobre o colo

a verdade é que só preciso

me agarrar violentamente

a um ponto fixo

na disco-voragem

deste sonho

e permanecer submersa

acontece que eu engulo tua indiscrição gulosa

descendo pelas minhas pernas

e devolvo delicadas ossadas

sob o signo da carnificina moderada

(uma forma de canibalismo contemporâneo?)

expostas em seu tutano todas as comissuras dos ossinhos

equilibrados sobre a porcelana

frágil  do meu prato, porque uma coisa que acontece é que

o meu corpo

ele não se quebra

não quebra como se quebra um prato

ou um fêmur

não como se quebra uma linha

no fim de uma frase longa e deselegante

alinhada à esquerda

o que tenho a ser feito

pode até ser chamado de ofício

de linha e agulha

mas eu contenho hemorragias

é o que eu faço

— deveria ter sido médica

mas me coube ser dique

: eu contenho hemorragias

com as mãos

todos os dias

— um ofício que empresto

da pedra

para subjugar o rio

*

eu, olga hepnarová

é verão em praga

e o ano é 1973.

[você,

olga misantropová, com seu figurino de caminhoneira nouvelle vague, suas calças de veludo cotelê e  a jaqueta de couro craquelada, você, anna karina psicopata, ainda que visionária, você ignora o óbvio

: o avesso do amor não é o ódio]

é verão em praga

mas faz ainda muito frio

e o avesso do amor é o coração terminando de bater de encontro ao asfalto, fraturas expostas, intestinos a migrar da cavidade abdominal como uma corda autônoma que sabe exatamente o destino que lhe é devido: o pescoço que espera a quebra

de parágrafo,

o cadafalso que espera

a quebra         do pescoço

com a corda na mão.

[corta para] o caminhão de olga estacionado na calçada;

a fileira corpos estendidos como uma oferenda satânica, mas você não é satânica, olga, você é uma assassina em massa e isso é diferente. satânico é outra coisa. planejar um assassinato simples requer               um engodo fundamental, um paralaxe e você

escolheu ignorar que o avesso do amor

não é o ódio.

é verão em praga

e faz frio;

o avesso do amor

se faz por meio de grandes colapsos,

colisões no concreto, no asfalto,

um embotamento brutalizado,

e você, olga hepnarová,

espera seraficamente

a polícia;

a bolsa no colo,

sentada em seu caminhão

você, a autora dessa carta perturbadora

para as gerações que virão:

“eu, olga hepnarová,

vítima de sua bestialidade,

condeno-os todos à morte.”

*

diário do ano do macaco de fogo

se como celan

  eu tivesse a certeza

de que os poemas estão a caminho

se ao menos eu não tivesse

fundado toda uma mulher

[uma mulher inteira

Garganta glote ancas

       sexo tornozelos]

apenas em torno

de uma palavra infeccionada

se eu não tivesse

as mãos gretadas

 como uma figura mitológica

mal-sucedida

em suas peripécias amorosas

eu poderia sim acreditar

[como se a minha vida

dependesse disso de fato]

 no efeito de luz

na voragem súbita

no obscurecimento

que se segue

e se repete

e se repete

nesse projeto desconjuntado

de revolução

mas é que eu vejo coisas

vejo coisas em ti e neles

constato o que há de cínico — o símio

que mimetiza o desfecho ígneo

e não

eu não sei mesmo manusear o objeto isqueiro

não tenho habilidade

para os grandes gestos incendiários

estou aguardando

 p a c i e n t e m e n t e

a grande água

como alguém que gesta

um filho querido

na cicatriz íntima

de seu próprio útero

mas se aterroriza diante

da perspectiva brutal

do nascimento

de um grito

*

como batizar um ciclone atlântico

para priscilla menezes

você me assegura que

a tarefa de manufaturar a tempestade

deve ser   como

a     atmosferização do poema

como descolar uma palavra da outra

:  seccionar a polpa

da casca

ou como subordinar            a sua paisagem

à escansão     algorítmica      do vento

mas o silêncio dos astros segue

numa linguagem temporária

[ como nomear a passagem de um   a    outro? ]

uma tempestade do tamanho do estado de ohio

você garante:      o ciclone toca o solo

como um ponto de voragem

toca o mapa geológico de alguma página escrita em tempo real acredite

você diz

[qual é mesmo o nome do ponto?]

85% dos furacões se formam a partir dos ventos africanos

você desliga a tevê e promete jamais assistir telejornais novamente

alimenta os peixes

sugere distraidamente

um cronótopo de deserto      um nome

uma mulher

prateada como um arenque finlandês

montada num cavalo

em seu epicentro

— a imagem que te vem

é de um leviatã composto de destroços        e vento

que se move

de um ponto               a outro

[      dar nome a um ciclone é ser

também nomeada por ele, você conclui    ]

você segura com dificuldade

uma lanterna entre os dentes

fixa o olhar sobre horizontes imóveis

para desacelerar a vertigem

como sua mãe ensinou

você não tem certeza

sobre a intenção da tempestade

:      um tropismo de ilha

que não sabe se é continente

ou océano

……………………….

(Na Escamandro)

Noir

faço votos
para que o talho
[a ferida melódica
no teu discurso]
trespasse o teu gesto
no escuro
e afugente de vez
o mal.

porque nos fulge
um apelo
ao corpo
cósmico
deste universo de avalanches
que nos cobrem
em gloriosa aventura
de facas de cozinha escondidas
às pressas
e comprimidos,
e chuveiros ligados
e tempestades elétricas
acuadas em apartamentos
de dois cômodos, sem rotas
de fuga.
tenho tido soluços, arrepios
na base da espinha dorsal,
na base               da questão.
tenho esperado, com insistência febril
por uma revolução sonar
de            decibéis                     inaudíveis;
tenho implorado      re-pe-ti-da-men-te
por      um romance      policial           noir
e pela existência de norma desmond
compacta
em minha mão
imbuída
de todas
as más intenções.

não tenho certeza se
caibo
nesta pequena vida
que       diviso por entre
a janela da sala,
por entre nesgas de compromissos
heteronormatividades de conduta
e filhos gêmeos – ainda não
nascidos.

ana c.,
não é bem verdade
que virar do avesso é, de fato,
uma experiência
mortal.

porque eu preciso da dúvida
: dessa incerteza corriqueira,
[essa, sim, letal]
sobre a existência de algo
verdadeiro,
sobre a existência de algo
verdadeiro, sobre a existência
de algo verdadeiro
que resista.
sobre a existência que resista
a algo de verdadeiro, eu-preciso-da dúvida
que resista
a algo de verdadeiro
sobre a existência.

§

antimusa

aquela que traz,
nas cartas de baralho,
notícias sobre a vida silenciosa nos vulcões;
a cigana verdadeira das suas repetições seriadas.
com pés de mujique e linhas siamesas
para você, morcego siciliano que gastou sua melhor poesia
com as anteriores: valquírias, rosas, lobas e todas
as meninas prodigiosas, musas indiscutíveis;
sua barba ensopada de sangue, seus sonetos escandinavos,
suas certezas de amor jurado na carne trêmula.

mas eu, eu tenho um passado romeno; um coração eslavo
de proporções gregas, com colunas e templos em ruínas.
partilho minhas agruras conjugais com a moça alta da padaria,
seus dois filhos e casa na baixada, anulada entre tijolos e turnos.

mais ainda, minha alma não é legível,
passível de ser extraída em formato compatível.
paga-se um preço pela serenidade doméstica,
serenamente; um holograma ornamental,
esvaziado e preenchido,
repetido até a exaustão dos nossos membros difusos.

a inconsistência de conteúdo
do amor há que ser forma
e caminho.
uma forquilha aos pés de cabra
onde desdobram barbatanas, justo no lugar que havia
apenas respiração
e um breve entorpecimento noturno
da pele.

§

um casamento romeno

quando penso em você
eu me lembro
do som ininterrupto
de patas e correntes
resvalando sobre
a terra batida
do encantador
de ursos
empoleirado
com seu acordeão
longínquo se afastando
do vilarejo
para retornar no verão
seguinte com o mesmo urso
sempre o mesmo urso
a mesma intenção oculta
a fome do bicho
a dança notável do bicho
impressionante
o mesmo urso

me lembro de quando
anoitecia
e a avó ladrava
para eu sair logo da rua
e voltar
para perto
do        fogo
pois aquela era
a hora
dos morcegos
dos mosquitos
das criaturinhas aladas
que voam suicidas
em direção à luz

eu me lembro claramente
do dia do nosso casamento
os sinos dobrando em dois
eu me dobrando em duas
de dor         de desterro
o som dos pratos quebrados
as moedas voando sobre nós dois
os votos de boa fortuna
dos anciões
em vão

our big fat romanian wedding
um matrimônio italiano à leste
de bucareste

nem a teoria do multiverso
explicaria nossa presença nesta
tragicomédia a lakusturica

mas escrever sobre o amor
é como fundar um país íntimo
deslocado                     à parte
de um domínio continental
operante

escrever sobre o amor
é como violentar um poema
no seu cerne
de crisálida
quase sem pele
ainda sem asas

e partir sem nada
mais à leste
do que antes

porque escrever sobre você
me faz lembrar de coisas
que eu não deveria lembrar
escrever sobre você
é sempre esse problema:
o choque de metalinguagens
o urso, as patas,
o roteiro cinematográfico
desandado, o fogo, o sangue
as asas.

§

primavera autocrata politeísta apocalíptica

deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
e não melancólicas

porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
anacrônicos
apenas os sanguinários

homicidas.

aqui nos movemos
na sombra

e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]

então desliguem
os holofotes
e apreciem
aquilo que cresce e goteja
úmido entre as frestas.

§

sobre o incidente de emagrecer 5kge se tornar uma serpente mítica grega por alguns días

escrevo este poema
neste estado de cetose
química
que nada mais é do que
o termo médico
para quando o corpo
resolve devorar a si próprio
[como a serpente ouroboros
que engole a própria cauda
infinitamente non stop]
depois de um período de privação
de carboidratos
simples
ou complexos
[ou depressão anoréxica]
ou simplesmente
um jejum prolongado

aqui
entre estas doze paredes
e suas incontáveis quinas
arestas ângulos agudos
o b t u s o s
[eu contei todos esses dias]
não há amor
não há sombra
nem carboidratos
é a porra da terra devastada
do eliot

só há esta luz que penetra
tornando tudo nítido demais
as cores primárias demais
essa saturação insuportável
onde estão os fiftyshades de
qualquer maldita cor que seja?
quem diria que a sutileza
se perdia
junto com os carboidratos?
‘um nevoeiro mental’ o médico disse
‘é um dos sintomas
você vai ver’
significa que está funcionando
e em breve
esse peso também irá embora
[mas não]

eu vejo mesmo todos os contornos
não há nada difuso aqui
nem nevoeiro nem sombra
eu vejo todos os contornos
excessivamente
quero rasurá-los

mas        eles se recompõem
quando eu não estou olhando

§

devagar

com o pensamento em Ana C.

troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema
por outro

a pele
por outra

flor

escrita nas imediações
das catástrofes naturais

……………………………………………………….

(En Avenida sul)

mefistófeles para iniciantes

enquanto você está preocupado

com a musculatura do poema

      eu limpei sua ossada

      com os dentes

e povoada de arcos

e colunas        e pilastras

aquieto uma arquitetura clássica

                entre os braços

ensinando demonologia contemporânea

para a caravana medieval aqui do apartamento ao lado

                                       jurando de pés juntos

que o século dezenove nem terminou ainda

enquanto você diz algo sobre fuzis acelerados

sobre não ir-se gentilmente para dentro da noite

              eu me deito quieta nua

sobre a impenetrabilidade fumegante

  deste chão de pedra

             considerando

entrar na madrugada

como se entra num vestido

                 prensado a vácuo

[como se entrar em algo

                      fosse de fato

                           a questão

e não apenas o início cósmico

         de um grande problema]

………

dos vulcões em miniatura

   o poema está sempre na iminência

                    de uma parada perigosa

 enganchando-se à maneira do amor

                    ao fazer eclodir na pele

aquilo que inflama

        aceso

             e que

   com um estampido

                          logo

                   apaga-se

#

fauno

cultivamos ciclones

sazonais como

veleidades que pendem

da boca, as mancuspias

de cortázar:

um compósito bestial

perfeito.

nenhuma translação

escapa

à nossa disco-voragem

[lampedusa]

                        de ilha.

um ouriço albino desloca-se

lentamente

através dos meus dedos

transparentes;

                              [ há ]

um animal sagrado

sentado em lótus

que nasce do rastro

de teus cascos,

um centauro,

atravessa o peito

num salto

[flecha & alvo]

em casamento trágico

e perfeito.

porque você invoca em mim

a paixão mítica,     

ancestralidade da        carne,

que é a gênese cosmogônica

do universo               inteiro,

me desvela arquipélagos urbanos

entre prédios, ruas, entre seixos.

tenho a pele infectada de ti,

doença desconhecida que me

tangencia:

uma cicatriz desenhada

com os dedos.

[você],

você integra

my very own bestiário

contemporâneo

e me ensina pacientemente

duas ou três coisas

                 sobre a pele das ostras

e a minha própria morte.

#

o problema do vermelho nos objetos

I-

sobre o problema

dos objetos

e o teorema das superfícies

sobrepostas com texturas

                       enganosas

: o atrito impede

a cálida aderência

de um volume

sobre um sistema

mecanicamente isolado

do resto do mundo.

esse problema —

o problema fundamental

do mundo —

         é que

teus volumes drapeados

        acumulam-se

[inteiriços e impalpáveis]

sobre os móveis

depois que te vai

e me pego

timidamente voraz

na tarefa

de assomar tua forma

com dedos inábeis,

esculpir tua voz

com fonemas de pele eriçada,

pelo sopro sintático quente

da tua língua materna emudecida,

substituída por equívoco

por grotescos saltos

           de tradução.

II-

presto incontinente

atenção ao vermelho

que ondula nas falsas

       constelações

de luz artificial na parede

       da sala térrea

quando acontece de um carro

       a t r a v e s s a r

a fachada do teu sagrado

    edifício de pastilhas

    [de gosto duvidoso]

— esse jogo de luzes e sombras

a que alguns objetos

                se prestam

quando ninguém mais se importa.

                 e durmo com

o problema dos objetos

e de teu volume drapeado

               sobre as coisas,

o que se acumula à revelia

                      do sonho

                             e da terrível

……………………….

(na Cult)

ANÁTEMA

a partir de “Fala”, de Orides Fontela

Rita Isadora Pessoa

a mulher não deixa seu quarto
a mulher não abandona
sua zona de quarentena
ela olha o céu –
piscina lustrosa de negror
salpicada de pontos de luz
distantes                  em cena –

a mulher observa
o céu
esquadrinhado
por losangos cruéis
através da rede de sua janela
a mulher ela não abandona
a sua zona de quarentena

[         quando alguém olha o céu
ele retribui de volta o olhar
e a intenção de quem observa         ]

(não há piedade nos signos)

não há compaixão nos planetas
nas constelações ou supernovas
a palavra
– essa falsa seta –
é um corpúsculo oco
de pura treva
ela arremessa e ricocheteia
de volta ao discurso de quem tenta
a impostura infame
de um poema metalinguístico
(não                 não há piedade nos signos)

a mulher está sob a influência
de uma quarentena
a palavra arremessa e fracassa
a palavra se curva
vergada
a um mal indefinível

de natureza incurável

…………………………………………………..

(na Oceânica)

“nota sobre a manufatura doméstica de mitos autodestrutíveis”

na nossa pequena fábrica de ruínas

eu pedalo indoors

porque não sei bem o que faço

com tamanha liberdade

tenho um pouco de medo dos grandes espaços                     abertos

por isso os círculos

                   por isso

eu puxo os  aparelhos ergométricos pelos guidões

um suave deslocamento sem [realmente] sair do lugar

puxo a bicicleta pelo guidão riscando o chão da sala

como se segurasse

um touro pelos chifres

~um minotauro ex machina

de uma mitologia recém-criada ~

e finjo assistir um seriado sentada

ou termino um romance russo esfarelando

páginas amarelecidas

        compreendo bem todas as suturas

do mais célebre parricídio da literatura

por isso os círculos

                                           por isso

as tentativas insalubres de figurinos extras

como se estivesse finalmente preparada

para ocupar o papel de protagonista

e esses furos acidentais

seguem perpetrados pelos dedos

ou pela máquina de costura?

por isso

os capilares intradérmicos

perfurando invisíveis

partes ainda por vir

        do meu corpo

e o aprendizado lentíssimo

da pecilotermia

 meus minidemônios meridianos

brotando barbatanas brânquias

                           braços

enquanto fraturo

ossos imaginários

para acolher

em silêncio

    uma nova ordem

                   de feras

 por isso

você sabe

 os círculos

xxx

“escrevo teu nome no grão”

por tudo o que tomba

sem se reerguer sem

sequer lembrar da queda

        pela sombra

que nunca é proporcional

   à luz         

                 pela sombra

que não é proporcional

de maneira alguma

                      à luz

te escrevo o nome

onde se escondem

as montanhas

onde o sinal do celular

    n ã o           pega

nãopega nãopega n-ã-o pe-ga

escrevo ainda

com a tinta

que extraio dos moluscos

que aparecem mortos

pela praia

no inicinho da manhã

pelo esquecimento compulsório

    da

     q

     u

     e

     d

     a

“escrevo o teu nome

   no grão de arroz”

porque saturno retorna

        fora de hora

e a sombra não é proporcional

               ao facho de luz

             que te acompanha

[e é um absurdo que a luz

produza tantos monstros

com tamanha facilidade]

porque há sim pulsação nos vasos

         altamente periculosos

           das minhas pernas

e por tudo aquilo que tomba

                 sem levantar-se:

toma este grão luminoso

 onde te escrevo o nome

   devidamente instalada

             na virada invisível

                                 do rio

xxx

“uma mulher sob influência”

queria escrever um poema sensorial, um sobrevoo rasante, ébrio, erótico,

com palavras que pudessem salvar algo disto aqui, mas o poema ele fracassa.

o poema fracassa justo onde eu preciso ser salva, justo onde eu, como gena,

mabel, como outras, como todas as mulheres que levantam os braços e rodopiam

com ou sem roupa, pelas ruas ou entre paredes, em silêncio ou aos berros,

            justo onde enlouqueço numa sazonalidade que não omito

                                                                                         mas não controlo.

queria escrever um poema que colasse no corpo como um drink açucarado que seca

sobre as pernas no dia seguinte após ter sido derramado numa noitada sem que fosse

sequer percebido. mas o poema fracassa porque esta loucura

porque esta loucura tem o formato de dunas que se movem

lentíssimamente durante a noite, rearranjando uma nova paisagem estática

ainda que movente a cada dia.

                                      o poema ele não se curva

                            ele é tão domesticável quanto uma onça

                                     fumando charutos cubanos.

mas se você superar isto e seguir adiante, o poema te oferece

                                  uma delicadeza selvagem

como a de um gato que brinca monotonamente com um balão de gás

                                                           já meio murcho,

rolando-o pelo chão com as patas e unhas, mordiscando de leve, 

                                                                        sem o destruir.

      queria mesmo que o poema tivesse uma qualidade profética,

                     que inaugurasse um universo paralelo

           mas o poema é bidimensional; ele tem a velocidade

          de gotas descendo espáduas octagenárias, incorrendo

               em cada vinco, hesitando nos profundos sulcos,

                                           ensaiando um desvio

                                       a cada acidente epidérmico

                                             causado pelos anos.

xxx

“teresa”

para aquele que tem mar no início, meio e fim

tenho te escutado

com considerável dificuldade,

como aos balbucios morninhos

que escapam de um gato

      sobressaltado

      durante um pesadelo

— baby, por cierto, ¿sabes?

                     con qué infierno

                      sueñan los gatos?

não me resta outra opção

senão organizar meu tempo:

a) categorizando objetos;

b) esculpindo sisos extraídos;

o fato é que crio pontes de heras

para tuas frágeis elipses

e faço de mim tua vodca

em tempos de crise.

você, tez amadeirada

de contorno impreciso.

você, puro pêndulo

que eu sulco, inteiro

justo naquilo que se arrepende

                a i n d a     n o      a r

                inseguro

                e densamente noctívago.

eu, a primeira lasca

                  — goiva

       de duas pontas

feito lança que arpoa

                   em cheio

                   mas

                   não

                   retorna.

xxx

“dos rumores que se instalam”

     não posso dizer que

  ignoro com seriedade

a consciência do medo

                nas gengivas

e a eletricidade que alimenta

o corpo venoso brutal

da vergonha porcamente

equilibrada nos joelhos.

          como é possível

que a despeito de tudo

         as gentes sejam?

que sejam com pavor,

e dentes caninos a mostra,

                 mas que sejam.

a mim, é impossível

deslizar com graça

por essa existência

de pequenos naufrágios

de impossibilidades rotundas

de quebra-mares.

ouço um fino assovio

              que assegura

o cativeiro de muitas feras

nos porões deste navio

        e sei dos rumores

instalados, pesando sobre

grossas cordas e velas içadas:

o coração batendo vivo

no fundo desta caixa.

xxx

“supernova”

              tenho contido

             entre os dedos

             uma resolução

cabisbaixa ante o sono

eis que tenho evitado

meus próprios olhos

em reflexos

vidros polidos

cobrindo espelhos

como se faz após uma morte

                    ou na iminência

               de  tempestade

                 de raios

      palavras setas

  galáxias em colapso

em templos esvaziados 

                  panteões

em abandono dorsal

um desterro nuclear

é preciso sobretudo saudar

        a colossal quantidade

        de massa

   concentrada

em um minúsculo ponto

                    no universo –

nada escapa

à tua força gravitacional

           nem mesmo a luz

nem o início

      o sentido de todo amor 

            e do mundo inteiro

nem os artistas e os estetas

     os anjos com trombetas

isso tudo indica

que sofremos de

qualidades extintas    aladas

estrelas em último    estágio

                         de evolução

é bem verdade que

                nêutrons

[tuas palavras agônicas]

não nos                  salvarão

pois        deste sistema binário

                      fechado fecundo

em órbitas    circulares

não se sai com graça

nem de graça

          perceba

   há um preço

 se  uma força

         aplicada

  a uma massa

  de um corpo

em        r e p o u s o

    é  d e r i v a

tudo há de ser

  impermanência

    :  m a r

 do início

 ao   f i m

[ do  fim  ao

   i  n  í c i o ]

    dos tempos

xxx

“nota sobre um inferno astral em quase dezembro”

ou

“prove que não sou um robô”

hoje falo por mim,

                 eu

                 [gargalhadas]

que suo gotas constrangidas

ao ouvir minha própria voz

                        ao telefone

    como a de um estranho

falo por tudo aquilo que fala

por intermédio de um vermelho

        terroso violento atroz

                  como em

modigliani, como no abstracionismo russo

                                          que mata poetas

                                em linhas geométricas

e por todos

aqueles que golpeiam os telhados

como gatos revolucionários

                         por toda e qualquer

                       sensação existencial

[na fronteira anatômico-imaginária

entre boca do estômago e pulmões]

por todo sentimento filosófico-existencial

de terreno baldio

inviolável

selvagem como um poodle abandonado

                                                no parque

                         como uma abelha rainha

                         presa    por um barbante

inauguro hoje com a ponta dos pés

             essa hospedagem ambígua

   na casa número doze do zodíaco

onde é preciso prestar contas

                à esfinge moderna

                          com senhas

              de letras e números

            e enigmas insolúveis

   “prove que você não é um robô”

            [   ] não sou um robô

prove

que

não

sou

um

robô

xxx 

oxóssi-caçador”

tua queimadura de sol

invoca a existência

de um metabolismo secreto

pois, quando gotas do tamanho

              de gatos siameses

                                    pendem

pelos teus cílios compridíssimos,

teu corpo inaugura

          essa dança de exílio

:    porque o amor é a causa de tudo

            que       levanta       v o o

                    e       pousa    sem      memória.

 a hora do chumbo

                          é nossa

pois        há algo

de profundamente tocante

    no teu desespero ígneo,

no torpor vaporoso que tomba

     de   nosso limbo doméstico;

                há algo de bárbaro

no desalento único, tão teu,

na sombra de dois corpos

                       consonantes

e por isso mesmo aterrorizados,

                    prodígio do fulgor

de carne, dentes, pele

                                  e pelos.

nosso

caso é antigo, oxóssi caçador –

      flecha disparada na mata cerrada.

note a rosa dos ventos

esculpida no teu peito e aceite

                                 o que há

:  uma constelação nossa reservada

     há séculos, por anos-luz

                        [siga as setas, siga a água]

……………….

(en Uma pausa na luta)

…………………..

(Na Escamandro)

“em caso de emergência estes demônios serão despejados nos jardins do palácio”

este é para os desavisados que
não atinam para a natureza incontidamente dupla do amor,
para os que acreditam na força centrípeta de algumas estrelas
ou creem ainda que isto se trata de um poema.
eu faço das suas palavras as minhas;
[com delicadeza atroz
faço dos seus gestos
……………..os meus]
isto é um aviso
a vocês, os incautos; este aqui é mesmo para vocês,
os angelicalmente
desavisados, os que não sabem o que os espera, os desacordados.
os que aguardam algum tipo de salvação, sob o signo de pisces,
em caso de emergência,
quebre o vidro.
mas não atravesse ainda os estilhaços.
atente para o que desperta ao lado, para o que acende
convoluto
quando o botão é finalmente acionado.

não atravesse ainda os estilhaços,
preste atenção ao ruído surdo,
ao que causa susto
ao pássaro,

à compressão de sua caixa torácica,
ao sopro que eventualmente há de se tornar
uma cardiopatia, um descompasso.

esse enegrecimento do céu
não é do tipo que se liquefaz
e isso não se vê todos os dias,
não é mesmo
eu vejo consolidar-se
como cal que assenta no chão após
a última demão de tinta
o princípio secreto de ruína
e ele não se vai.

se for o caso de emergência,
favor quebrar o vidro,

mas não atravesse
ainda
os estilhaços.

obs: em caso de eventos extraordinários, este poema deverá ser destruído.

§

madame leviatã

você sintoniza uma estação de rádio
……………………………sem dificuldade
nas próteses metálicas
dos seus dentes míticos
[você]
com seus inúmeros filhos
………………doados ao circo
atravessa um punhado de séculos
………………montada no lombo
…………….de um cavalo sem nome

[you see I’ve been through the desert
………………on a horse with no name]

………………………………testa os efeitos do galvanismo de hobbes
…………………………….num cadáver fresco
………………………você, a czarina da festa
com sua predileção por animais noturnos
………………………………..por choques elétricos
sempre uma pequena catástrofe express
…………………………….para chamar de sua
…………………………….é o que dizem: velhos hábitos — velho testamento

[…………………….in the desert
you can’t remember your name]

…………………….você se impacienta
com as elipses
com a interferência radiofônica
— a supremacia musical superestimada
…………………….da década de 70 —
e corrompe propositalmente
…………………….…………………….a letra

after nine days I let the horse run free
‘cause the desert had turned to sea

the ocean is the desert and the desert is the ocean
[a perfect disguise above]

você supervisiona diligente:
a sobrevivência das línguas mortas
a fabricação seriada de nebulosas
e também a nova edição unabridged do livro de jó
………………..a queda de sodoma & gomorra
a queda da casa de alguém chamado usher

— a visão da cordilheira devastada…… a comove
…………….por um breve momento
o cavalo o galope…… a música incessante dessa estação

………………………………………..e também o rebatimento da luz
……………………….numa outra superfície metálica

[after three days in the desert sun,
I was looking at a river bed
and the story it told of a river that flowed
and it is now dead]

…….aplaude secretamente
o colapso da beleza formal
……………..o objeto no breu
a permanência do deserto
e confirma
a consistência
do relacionamento lésbico
que venho cultivando
distraída
……….com essa jovem senhora
…………………..gótica
de óculos escuros & longas luvas
……………………….de veludo
……………….que
, parada diante de mim
, estende um cartão de visita
…………………..onde
sem elipses ou……. hurt feelings
lê-se:

[ codinome
morte

……………….

Na Mallamargens

crítica de BENVIDOS Á CIDADE, de Xurxo Sierra Veloso, en Galaxia

MOVEMENTO DE LIBERACIÓN ANIMAL

Título: Benvidos á cidade

Autor: Xuxo Sierra Veloso

Editorial. Galaxia

Non son frecuentes senón excepción os discursos ecoloxistas na narrativa galega. E cando afortunadamente aparecen, é común que o fagan da man de distopías. Porén, no caso que  nos ocupa, a última novela de Xurxo Sierra Veloso, non se trata en si dunta novela das que se entenden como ecoloxistas, senón que a trama presentada, o Movemento de Liberación Animal, só pode entenderse como unha parte do ecoloxismo. Unha parte fundamental, tamén hai que dicilo. O cal individualiza, singulariza enormemente a novela de Xurxo Sierra Veloso porque, se os discursos ecoloxistas non son precisamente a norma, esta novela “animalista” é rarísima avis no panorma das nosas letras contemporáneas. E nada de distopías, é unha ficción absolutamente realista.

                     E velaí teñen xa sinalada a trama desta Benvidos á cidade. Dun xeito moi xeral. E aínda que pode abondar para decicir mercar a novela, cremos necesario explicitala un chisco máis, só un chisco máis. Un grupo de persoas concienciadas a cerca do indignante trato que se lles dá a algúns animais dos cales despois se van utilizar as peles, decide intervir e liberar os animais encacerados nunha granxa de visóns, que, como sabemos son uns dos máis escravizados para esta finalidade -permítasenos a exprsión “escravizados”, porque, realmente, é a máis xusta que se nos ocorre. Evidentemente, a acción de liberar os visóns, que por outra banda foran inoculados cunha substacia que os volvía máis feroces, ten consecuencias, tanto para quen os libera como para cidade próxima a onde se dirixen os visóns. E agora si, non diremos máis, porque precisamente a novela consiste niso, nas consecuencias que a liberacións dos visóns ten para sociedade/cidade.

                     Cousa que cómpre salientar, porque en lugar dunha novela de tese, Xurxo Sierra Veloso construíu unha trama a partir da cal quen le reflexione e chegue a conclusións propias relativas ao tema central. E iso é de agradecer moito. En todo caso, o título, Benvidos á cidade, refírese claramente aos visóns de xeito que non é neceario máis nada para que a postura do autor sexa evidente.

                     A novela achéganos un discurso “de narrador”; un discurso de narrador omnisciente que funciona como unha cámara de cinema que nos vai ensinando o que esa liberación animal supón para un considerábel número de persoas, de persoas de diferentes status social, de diferentes idades e de diferentes condicións laborais. Tanto que mesmo os diálogos aparecen integrados no discurso do narrador. E resulta eficiente esta estratexia, porque o narrador é dilixente. Tamén é certo que se trata dunha novela moi coral, con moitas personaxes, e, aínda que en principio poida parecer que iso supón unha pexa para seguir o acontecer desas personaxes, hai que dicir que a eficiencia do narrador se ocupa con pericia de que iso non aconteza. O cal nos leva a comentar outro dos aspectos salientábeis da novela, que é a configuración das personaxes, que tamén depende do narrador porque é desde el que se manifestan. Non sendo unha novela de moita paxinación (158 páxinas) e non habendo, polo tanto, moito espazo para esa configuración, esa limitación  non empece a rica configuración dunhas personaxes tan variadas e en tanto número. No que si interfire é na recreación de diferentes ambientes, aí si se nota o pouco tempo e o pouco espazo de que dispón o  narrador. Porén, isto non é ningún defecto, non fala mal nin do narrador nin da novela. Simplemente se trata dunha escolla narratatorial doadamente comprensíbel: na sociedade estamos todos, e indiferentemente do ambiente en que nos movamos, a todos nos afectan as consecuencias.

                     As consecuencias que ten o capitalismo feroz que leva a inocular subatancias perigosas nos animais para obter meirande rendemento económico – coma se non abondara o réxime carcerario, egaiolados cantos máis mellor e en menor espazo! E as consecuencias que ten para sociedade a liberación duns animais que non son precisamente mansos, por moito que a súa beleza e corpo reducido conviden a tratalos con mimos e agarimo, pois por detrás do seu aspecto aniña unha ferocidade tan perigosa como insospeitada.

                      E do capitalismo feroz falando, non pode pasar desapercibida a meción, no texto, de Jeremy Bentham e de Jonh Stuart Mill, máximos expoñentes do utilitarismo (que na granxa de visóns e na súa dopaxe está representado) fronte Konrad Lorenz, zoológo alemán e grande estudoso do comportamento animal (aínda que Lady Constance, unha das personaxes, dubide que lectura escoller).

                     Agora, despois da lectura, son vostedes quen ten a palabra.

ASDO.: Xosé M. Eyré

crítica de OS INCURÁBEIS, de Antonio Tizón, en Xerais.

 NOVELA ENTRE O POLICIAL E O NEGRO

Título: Os incurábeis  

Autor: Antonio Tizón

Editorial: Xerais

A situación de saída da trama desta novela é ben curiosa: hai que resolover o asasinato dunha prostituta sexaxenaria que aínda exercía e da cal os cleintes estaban fondamente namorados. E digo que é curiosa porque nas nosas letras non lembro un caso semellante. Mais non podo dicir que sexa orixinal, porque esa mesma proposta xa a fixo Andrea Camilleri en Gli arancini di Montalbano (1999), que é un libro de contos negros, e un deles presenta a mesma proposta de Arturo Tizón. Non só é a mesma proposta, entre a forma de actuar de Montalbano e a de Xosé Sánchez Pereiro tamén existe un paralelismo bastante evidente. E cando esta situción se lle presenta ao crítico, tentado está de escribir unha crónica libresca comparativa, que para algo está a Literatura Comparada.

                     Mais non, non o vou facer. Non quero comparar un mestre da novela negra como Camilleri con outro autor que con este título é a terceira vez que se manifesta. Din que as comparacións poden ser odiosas; e, agora, do que se trata unicamente é de dar conta da novela de Antonio Tizón, sen máis. Por moito que nos estrañe que entre os moitos autores de novela negra citados na novela non apareza o de Camilleri, pois a estas alturas son moit@s e tampouco se pode citar a tod@s. Mais se lera a Camilleri igual escribía outra cousa…

                     Ben, digamos a súa vez que esta é unha novela coruñesa. Visto o algareo que se ten producido coa “novela negra viguesa” (cando non sempre son novelas negras), resulta oportuno que n´A Coruña tamén poidan falar de “novela negra coruñesa”. Deixémolo así, de inicio, porque por moito que se reivindique como novela negra esta de Antonio Tizón, para min a súa “negritude” nin está clara nin ao mellor resulta eticamente oportuna.

                     En canto a esta novela que quere ser negra, ten como protagonista central un inspector de Policía que é un home con moitos vicios e de honradez cuestionábel xa que el mesmo se confesa corrupto. Un dos acertos da novela radica precisamente aí, en que quen non se estableza até que punto é honrado o proceder do inspector, até que extemo é ético, alén das dúbidas sobre a efectividade da xustiza, sobre cal é a mellor maneira de facer xustiza: a convencional ou a que trascende os límites legais vixentes ou convencionais. E rematará a novela e a pregunta ficará no ar, como é lóxico.

                     E, dentro d´A Coruña, ten especial protagonismo o barrio d´Os Castros. E concretamente unha rúa en especial, a rúa dos sete bares Será aí precisamente onde se mergulle Xosé Sánchez Pereiro para tratar de esclarecer a morte da prostituta sexaxenaria. Falando cos hostaleiros, conversando cos parroquianos, xogando aos naipes con eles…sempre coa esperanza de que este ou aquel o poña sobre algunha pista do crime. Mais, a tentativa de escribir novela negra leva a que a  parte policial sexa inoperativa. Arturo Tizón trata de describir os ambientes en que se moven os parroquianos dos distintos establementos, incluído o prostíbulo, e tamén de configurar as diferentes personaxes que son os parroquinanos. Mais esas diferenzas nunca se trasladan desde a lingua, de xeito que o ambiente fica máis descrito que creado. Algunha personaxe hai que sae mellor parada, caso de Iván, por sinal que si é moi recoñecíbel desde a lingua que emprega.

                     Neste mergullamento aparecen xa o mundo dos enfermos mentais e tamén o sibaritismo gastronómico do inspector. Sendo precisamente a transición entre estes momentos o aspecto mellor logrado da novela. Non precisamente nesa orde, porque primeiro é o sibaritismo do inspector o que parece adonarse dun discurso policial que non avanza. Un sibaritismo que, outra volta coa lingua deixa que desexar cando se fala de “racións de bacallau” en lugar de “postas”, que vén sendo o termo tradicional e habitual aínda que o dicionario en liña da RAG nin o contemple. Volvo dicilo, o dicionario en liña da RAG só serve para cuestións ortográficas ou consultas menores, de pouca dificultade. Ou que o arranxen, ou que o retiren xa, porque resulta tremendamente prexudicial nun momento no que se escribe maioritariamente en computadores e neles se acode aos dicionarios.

                     Tampouco é o único caso de uso lingüístico pouco afortunado, cando se lle “veludo”

ao pelo non cremos precisamente que isto se deba á suavidade do pelo…

                     O sibaritismo deixará paso a algo moi pouco tratado na narrativa galega, como é o caso dos enfermos mentais. Porén, as gravacións desde as cales se manifestan, que si son moi efectivas, non deixan de ser unha pasaxe relativamente curta, desaproveitada, porque eses enfermos mentais só aí se comportan como auténticos enfermos, no resto sabemos que están enfermos mais o seu comportamento, aínda que nalgún caso sexa curioso, non pasan da excentricidade ou de consecuencias do moito vicio.

                     Chegados a esta altura, tamén chegamos ao momento en que a psiquitra Helena Salcedo (esta si é unha personaxe ben configurada, a mellor da novela) e o inspector debaten a cerca de se os enfermos mentais incurábeis (de aí o título) tamén son susceptíbeis de eutanasia ou non. Cuestión espiñenta (non espiñosa, e por algo o dicimos) que dá para moito pensar e contrastar opinións. E tamén hai que dicir que a postura de Helena Salcedo se achega pergigosamente aos principios nazis de depuración da sociedade eliminado as persoas enfermas, as que incurábeis, as que xa non teñen solución. Na miña opinión, quen lea novela terá que dicidir se eses principios  nazis sonos memos que pon en práctica Helena Salgado ou non.

                     E, se damos a boavinda a unha novela que por fin se ocupa dos enfermos mentais, cómpre preguntarse se contexto da novela negra é o máis xusto e ético con eles. Aínda que, por outro lado, os enfermos mentais aquí só son vítimas…

                     A novela de Arturo Tizón preséntase como negra. E existe unha corente crítica que sitúa a novela policial como subxénero da negra. E existe unha total confusión entre o que é novela negra e novela policial, pasando a novela policial a ser considerada como negra. Porén nin son o mesmo nin debería existir confusión ningunha. A novela policial ten como finalidade esclarecer un delito, e a novela negra ten como finalidade presentar o mundo do delito, do crime, sen ánimo de chegar a establecer culpabilidades e precisamente cuestionando até que extremo hai culpabilidade ou esta se produce polo condicionamento social. E esta diferenza trasládase tamén desde a lingua, mentres na novela policial a linguaxe é a convencional…na novela negra a linguaxe é a propia dos ambientes en que se producen os delitos. Así as cousas, a novela de Antonio Tizón, partindo de presupostos policiais quere ser negra mais só en parte o consegue, e tamén, a parte pilicial tampouco se resolve como sería de agardar.

                     Cando comezamos a lectura preguntámonos se podería ser Antonio Tizón o noso Camilleri, dados os paralelismos existentes entre o proceder de  Montalbano e de Xosé Sánchez Pereiro. E a pregunta fica no ar.

ASDO.: Xosé M. Eyré

Bruna Mitrano: a poesía-bomba a estoupar nas conciencias dunha sociedade adormecida.

Como di Danielle Magalhães, “a política non está á altura da poesía”

Nunca o estivo. Mais convén lembrar, é necesario lembrar…

Resta saber a que altura está a política vedadeiramente, aínda que podemos imaxinalo. Tanto ten deste lado do Atlántico como no Brasil, a política é a arte de tratar resolver cousas cando a sociedade xa comezou a facelo. ( Ou a promover negocio privado con cartos públicos). de É a niña opinión. Por iso, e porque nunca no Brasil houbo tantas mulheres poetas, e dunha calidade máis que notábel, quizá algún día a política repare e comece a propiciar que as mulheres poetas teñan un moito mellor acceso á publicación dos seus textos, porque na actualidade o recurso á autoedición, mesmo o recurso a crear editoras para poder publicar, é excesivamente habitual mesmo con poetas dunha calidade máis que notábel, como afirmamos. Non digamos xa no mundo negro, onde a poesía falada, cantada, representada trata de evitar estas dificultades así, e chegar ao publico de maneira masiva -non é o ideal, porque a poesía oral permite moi pouco a reflexión.

E entre estas mulleres poetas, o máis común é a poesía denuncia. Denuncia, unha palabra que, polo que teño lido, non se escribe moitas veces. No caso particular de Bruna Mitrano, a súa denuncia é constante, como comprobarán na selecta que virá a seguir. Na súa poesía hai un fondo de angustia vital que non se expresa nas reducidas marxes da palabra ou das situacións angustiosas, agoniantes. Estoupa, rebélase, é unha poesía en constante estado de guerra, de confrontación contra esa idea machista de que a muller é un pedazo de carne para o seu gozo. E é tamén un grito visibilizador da muller e a súa problemática vital. Observen como en certos poemas existe unha proximidade clara á crónica. É como se a poesía de Bruna Mitrano fora a poesía negra da situación da muller, botando man do xénero negro (narrativa) e aplicándoo comparativamente á poesía.

Bruna Mitrano (1985) naceu e mora na periferia de Rio de Janeiro. A poesía de Bruna Mitrano é pois, unha poesía favelada, que é maís que unha poesía da favelada, porque é  unha poética da brutalidade que sofre a muller. Porque desde a favela, desde a periféria, tamén se pode alcanzar a universalidade. E ten máis valor, na niña opinión, porque as circunstancias non son as máis propicias para a poesía. Bruna leu o primeiro libro de poesía aos 17 anos, por sinal…

Xa no 2010 estivo entre @s vencedores do OFF-FLIP. Que non é pouca cousa.

No 2016 deu á luz o poemario Não, na Editora Patuá. E non é un poemario calquera, non é un poemario de iniciación. Hai aí, nos seus poemas unha exquisita perfección formal. Observen, por sinal, que con bastante frecuencia os seus poemas admiten dúas lecturas: a lectura normal, de arriba a abaixo; e a lectura inversa, de abaixo para arriba. Sen que por iso se perda contido denunciador ou se modifique o contexto en que se emite a denuncia. Iso é cousa que acontece moi poucas veces no mundo da poesía, é é sinal dunha exquisita perfección formal. Se se quer, mesmo se pode falar de formalismo do século XXI.

Não é un campo minado de poesía-bomba a estoupar nas conciencias dunha sociedade que non sabe valorizar xustamente a muller como persoa con todos os dereitos que como human@s debemos ter.

Resta dicir que Bruna tamén traballa no campo do deseño, polo que os seus poemas ás veces establecen un diálogo moi a ter  en conta, coa súa poesía.

Para quen queira seguila, este é o  seu Facebook https.

Como lle  lin precisamente no Face: “não acredito na fé de quem nunca passou fome.”

Pois, para non perder nada da vida, non acrediten na fe de quen nunca le poesía.

Como sempre, non recollemos as prosas poéticas, son outro xénero.

E agora, aí vai a selecta:

( En Poesía primata)

na estrada de terra
da cidade vazia
a criança preta empunha um pedaço de pau.
ela está nua e vê-se um corpo tão prematuro
quanto ruínas.
a boca intumescida da criança preta gutura
morte ao rei!
e na aridez inalcançável dos pés descalços
resiste
a criança tão criança e velha,
sozinha e livre –
o sino da igreja abandonada toca todo dia na hora errada.

( En Ruído manifesto)

houvesse a negativa

a rouquidão da mãe

seu dorso

os pelos revolvidos

aqueles dedos talvez

mas duas ou três historinhas mixurucas

e o oitavo branco esquimó.

gelo na língua: a cara lisa, lagrimando brasa, em riso esquizo cacarejento estala, essa dor do cão!

*

amarra pendura deixa pingar

que a terra seca apaga a última gota –

a galinha me olha de um olho só

ciclope de ladinho frango assado papai e mamãe

e o açougueiro gargalha

se sacode todo mole

tem larva na carne fresca e

não tem graça nesse lugar.

*

a impertinência da cura.

arrancaram meus caninos,

tenho as gengivas suturadas à mostra.

de medo: tormenta

[mãos de pólvora afagando o fogo]

………………

 
tem espinhos na língua.
o encontro é quando lambe o racho da minha sola.
até que o primeiro lapso nos levante às pressas –
ensacamos entulhos com sutilezas de rancor.
nada que despossuímos sobrevive ao que gestamos.
é nesse escuro lúcido que soldamos as carnes?
sim, estaremos sempre sozinhos –
guardo nossos segredos com muitas mãos,
seu sangue seco nas minhas coxas.

(En Mulheres que escrevem)

lembra quando eu subi na janela
fiquei de pé e chovia
eu quis que você tivesse medo
e me pegasse por trás como fazem os policiais com os suicidas da golden gate
mas você fez o santo de rabo de olho
a boca caiu o cabelo cobriu a testa
eu não entendo eu quis entender
o pau duro na minha bunda criança o que era aquilo
os pelos grossos e o hálito pesado do trabalho sujo
agora é a fila do mercado e o celular despertando
a parte que escapa
à rotina:
café com leite arroz tipo 1 sexo com o vizinho
segredos cimentados nas calçadas dos subúrbios –
o homem ainda estava com o rosto deitado nas minhas pernas
feto de pele velha ossos largos pelos brancos
quando eu disse eu não mais darei nomes aos meus filhos
e eles não mais serão escravos.

…………………

( En Poemargens)

* * *

gestação infinita

o filho podre a filha cerca viva

meu útero arregaçado expelindo medo em sangue

porque é meu horror que gero –

sei me ferir.

* * *

tem espinhos na língua.

o encontro é quando lambe o racho da minha sola.

até que o primeiro lapso nos levante às pressas –

ensacamos entulhos com sutilezas de rancor.

nada que despossuímos sobrevive ao que gestamos.

é nesse escuro lúcido que soldamos as carnes?

sim, estaremos sempre sozinhos –

guardo nossos segredos com muitas mãos,

seu sangue seco nas minhas coxas.

* * *

eu deitada em desmanche e você de pé, distante, cabeça cur-

vada triplicando o queixo, um embaço e eu não reconhe-

ceria, não fossem as pernas abertas, os pés roçando meu

quadril, seu pau ao centro tomando proporções desmesura-

das, um pau maior que o corpo, maior que eu, que sangro e

sangro muito, e meu sangue é vivo porque é sangue de quem

se aborta, é sangue de quem implodiu e é arrancada a fór-

ceps, eu que por precaução não desvio os olhos do seu pau,

um deus que impele a ser tocado com terror mas, se não me

 restam mãos, olho, você se masturba com ódio de si, eu que-

ro fechar os olhos pra não amar o seu ódio de si, consegue

enxergar meu asco agora? sua cara de domingo cozinhando

arroz integral, se eu dissesse que existir tem sido insuportá-

vel, me mataria? você diz que foram minhas somente mi-

nhas alucinações, mas já não acredito na verdade do seu cor-

po e por isso não deixo de te olhar com olhos enormes, apa-

vorados, olhos que não posso fechar, olhões você disse tão

 grandes, menores que esse medo que arrebenta a carne em

 gritos, gritos que não chegarão até você, de pé, distante, co-

mo um deus ou tormenta.

* * *

gargalhou outra vez sem motivo.

tivesse língua,

lamberia o bico da 38 spl carregada,

pra deixá-la ainda mais aguda,

a noite.

ela,

morreria já a essa hora?

danço.

……………………….

( Na Gueto)

*com Nick Drake

toda noite deus puxa meu cabelo
única parte não imersa
até arrancar a pele do rosto

não tenho mais espelhos

please give me a second face
a voz engasgada de nick

toda noite ouço a louca fugiu
e agarrou desconhecidos dizendo
olha minha garganta está fechada
e meus dentes foram colados

eu que não tenho mais dentes
como a minha avó
chupando ossos de galinha

please play me your second game

toda noite a menina grita o pai
lambeu o lóbulo da minha orelha

e a mãe lembra que é preciso
esquecer que a louca que o pai que
a mãe nunca lembrou
de acordar a menina pra escola

please tell me your second name

toda noite vem o homem
vestido de branco e
conto a ele do pintor
que disse não gosto de aquarela
é impossível domar a água

que foi o pintor com quem vivi
que foi o pintor que me bateu
num hotelzinho na angélica

please give me a second grace

toda noite vem o homem
vestido de branco e
digo a ele
é impossível domar a água

I just sit on the ground in your way

o homem vestido de branco
anota a minha doença num papel.

………………………..

(En A bacana)

​quando você chega à idade
que te permite entrar
em novos cômodos
que te permite entrar
no banheiro com banheira por exemplo
descobre que as paredes da casa
da patroa não são tão brancas
quanto você acreditava
quando brincava com medo
de sujar as quinas
ou a bancada de mármore –
você pensava é uma grande pedra preciosa
quem dera eu tivesse um pedaço
de tudo que eu posso tocar
com a mão lavada
 
quando você chega à idade
que te permite
embora o corpo inexperiente
o braço fraco ainda
estender o edredom com peso de dois
do patrão com peso de três
ou mais suores
descobre marcas quase invisíveis
como manchas de iogurte
que nem a máquina de lavar
nem a mão grossa da sua mãe
conseguiram apagar
 
quando você chega à idade
de recolher as toalhas usadas
vê o encardido nas pontas
e percebe
esfregando as toalhas
(parecem de pelúcia)
no rosto
(parece de criança)
que sua mãe está velha
pra satisfazer os desejos dos donos
da casa e que logo será você
a satisfazer os donos
da casa que dizem é também sua
mas que você nunca conheceu inteira
nem nunca subiu na cadeira
brincando de a mestra mandou
coroada de raízes do quintal –
a cadeira, o chão, as paredes, os cômodos todos
sujos de terra.
 
*

sentei perto dos urubus
o homem que passava disse
eu tenho nojo de você
expliquei a ele que os urubus
procuram na carcaça
as partes moles e quentes
ele deu as costas xingando
e sacudindo as mãos
olhei pros urubus
eles também me olharam
complacentes com aqueles
olhos sem branco
o homem o seu corpo inquieto 
era como o animal que 
esperneia antes de morrer
sabíamos no entanto que ele
não morreria que ele estava
mais vivo que nós que não 
temos mãos nem pedras 
nas mãos pra atirar em quem 
nos causa repulsa apenas 
alguma intuição de encontrar 
partes moles e quentes.
 
*
 
a câmera em close na velha
a pele rachada do rosto em contraste
com a pele mole dos braços
 
do vestido se vê os ossos do peito
os seios dois sacos vazios
pendendo sobre a barriga
 
a câmera abre
vê-se um repórter com camisa de botão
de cor tão clara como sua pele tão clara
 
o repórter parece um erro
na casa de taipa
 
a velha mexe a sopa com uma colher de pau
é sopa de quê
de papel
 
close nos olhos de espanto
do repórter que já sabia a resposta
 
por que a senhora está cozinhando papel
porque não tenho comida
mas por que a senhora está cozinhando PAPEL
o repórter repete
pra causar nos telespectadores
aquele nó na garganta
 
porque tenho filhos e netos
diz a velha esticando o pescoço
onde guarda uma garganta
aparentemente sem nó 
aparentemente sem constrangimento
de dizer a própria fome
 
a câmera passeia pela casa
panelas e canecas empilhadas
um instrumental triste
e o narrador dizendo que três semanas depois
a velha morreu
 
 
 
andei de um lado pro outro
o que foi garota
não pode acabar assim
não é um filme é a vida real
 
e na vida real
eu tinha seis anos
eu não conhecia o gosto do papel
 
por que o repórter não deu comida pra velha
porque ele não tinha comida com ele
por que não voltou pra dar comida
porque ele mora longe
por que não mandou pelo correio
porque não se manda comida pelo correio
por que ele não pegou comida na casa longe dele
                                                                                         e voltou pra dar pra velha
ora porque ele tem mais o que fazer
então por que ele foi na casa dela

se ele tem mais o que fazer
 
close no rosto passivo da minha mãe
é assim a vida é assim
 
mas ela morreu
todo mundo morre
não quero morrer com esse engasgo
que engasgo
não sei deve ser o papel
 
 
na escola passei a brincar de comidinha
socava folhas de caderno na panela de plástico
 
tá cozinhando o quê
perguntou a colega chata
papel
dã tô perguntando o que você tá cozinhando
                                                                                 de mentirinha
papel
                    eu tô brincando de verdade
 
ela virou os olhos
e saiu cantando
uma música alegre
eu bati nela
 
close na cara de espanto da diretora
ela diz não esperava isso de você
            tão boa aluna tão quieta
            por quê
 
porque ela estava alegre
e qual o problema de estar alegre
o problema é que o narrador disse que a velha morreu de desnutrição
                                                                                                             mas eu acho que ela morreu foi de fome
 
close na cara de todos
um por vez segurando
o riso de deboche
tão boa aluna tão quieta mas doida coitada
                                                                   igual a mãe.

…………………….

( Na Escamandro)

houvesse a negativa
a rouquidão da mãe
seu dorso
os pelos revolvidos
aqueles dedos talvez
mas duas ou três historinhas mixurucas
e o oitavo branco esquimó.

gelo na língua: a cara lisa, lagrimando brasa, em riso esquizo cacarejento estala, essa dor do cão!

§

o garoto corre de chinelo,
depósito de ânsias apreendidas ou
ainda a convulsão de quem nada tem.
olhos graves lama-mangue
na cara preta salpicada de farelo de biscoito.
o garoto tão pequeno já sabe andar de ônibus –
livrai-nos do mal, mãe, dá conta santificada de seus filhos
e o bebê carrega sobre a barriga redonda como se nunca tivesse saído –
sozinho:
um homem construiu sua casa com as próprias mãos.
demoliram a casa e ergueram um muro.

§

quando ela fechou as pernas
a cigarra estourou de gritar
vinha de dentro
um silêncio que não se quisesse ver
um cabelo bruto
uma coisa boa macassá
quero me enfiar nele
naquele silêncio –
um bicho se olha pro outro enquanto come, é sobrevivência
não é competição.

§

a impertinência da cura.
arrancaram meus caninos,
tenho as gengivas suturadas à mostra.
de medo: tormenta

[mãos de pólvora afagando o fogo]

§

ela pediu pra eu não enlouquecer
parei de tomar os remédios pra tentar ser gente
mas uma chuva forte caiu
era janeiro
e me escorreguei
perdi o senso
disseram
é temporário
os tremores noturnos
a matriz de uma ânsia descabida
os rostos na janela
todas as noites
os rostos que catequizam as janelas
nas casas sem muro
não há o que se ver que não sobrecarregue a carne
o corpo ainda sente
curva-se ao inevitável
tomba no meio da rua e conclui
não se dá as costas pra morte
há sempre um diagnóstico
preto no branco
vou morrer de tempo ou
vou fazer o quê?
re:___________________.

§

tem espinhos na língua.
o encontro é quando lambe o racho da minha sola.
até que o primeiro lapso nos levante às pressas –
ensacamos entulhos com sutilezas de rancor.
nada que despossuímos sobrevive ao que gestamos.
é nesse escuro lúcido que soldamos as carnes?
sim, estaremos sempre sozinhos –
guardo nossos segredos com muitas mãos,
seu sangue seco nas minhas coxas.

§

rasgava a camisa com os dentes
a raiva desnudada de pavor
e se deixava à beira –
como adestrar a mão convulsa?
o mijo morno entre as cobertas era como peitos grandes pietá
aninhava-se no turbilhão do que era
reconhecia
seu corpo
erguendo à boca a própria armadilha
e lembrava das frutas que nasceram podres
as que nasceriam pra sempre.

§

choque
uns passos
segundo plano
acho que vi um milagre!
acho que vi!
as mãos estavam vazias
quando o homem louco
aos berros no meio da rua
esclareceu
o último gole
a raiva ainda alinhada –
é difícil, ele disse,
morrer.

………………….

(Na Gueto)

Imprecacão

que a chuva poupe as telhas pobres
e mais nada.

*

dois pra lá

gargalhou outra vez sem motivo.
tivesse língua,
lamberia o bico da 38 spl carregada,
pra deixá-la ainda mais aguda,
a noite.
ela,
morreria já a essa hora?
danço.

*

hoje fez dia mas ela disse
será de morte cada hora canta
a música perdida na infância
coloca o rosto entre meus peitos
de mãe preta e sente o cheiro
da casa que nos roubaram.

*

nasci com dentes podres
coisa de família
minha avó ficou banguela aos 26
os tios todos têm dentadura
criança diziam tão bonita mas assim
não vai arrumar namorado
eu não queria arrumar namorado
arrumei nove ossos quebrados
ossos fracos coisa de família
disseram bruna você parece que pode
partir ao meio a qualquer momento
eu quebrei muitas vezes
mas ninguém quis ver
que não quero namorados
e que meu mau hábito de
não escovar os dentes é por
que nunca paro de comer
porque o que sinto não é fome
é o sentimento da fome que talvez seja
coisa de família nunca entendi
o que é essa coisa de família.

*

o garoto corre de chinelo,
depósito de ânsias apreendidas ou
ainda a convulsão de quem nada tem.
olhos graves lama-mangue
na cara preta salpicada de farelo de biscoito.
o garoto tão pequeno já sabe andar de ônibus —
livrai-nos do mal, mãe, dá conta santificada de seus filhos
e o bebê carrega sobre a barriga redonda como se nunca tivesse saído —
sozinho:
um homem construiu sua casa com as próprias mãos.
demoliram a casa e ergueram um muro.

……………….

( En Anarquivoo)

quando eu era criança
o meu pai esfregava o pau
na minha bunda
e depois chorava
ele sempre chorava
pedindo desculpas
quando eu era criança
o meu pai cuidava de mim
me ensinava a ler
a andar de bicicleta
porque a minha mãe
estava muito ocupada
sendo deprimida
o meu pai nunca deprimia
mesmo cansado do bife
trabalhar dezoito horas
como motorista de ônibus
chamava bife
o meu pai toda noite
ia no meu quarto
e dizia te amo filha
lambendo a minha orelha
uma vez mordeu
tão forte que sangrou
ele chorou e pediu desculpas
eu disse não dói pai não fica triste
e o meu pai chorou mais
depois que eu disse não chora
eu não entendi
eu não entendo
por que estou quebrando
linhas se isso não é um poema
é uma denúncia inútil
agora que o meu pai é velho
e não cuida mais de mim.

………………….

(Na Folha de São Paulo)

I

na infância o sacolejo do ônibus
me dava enjoo
minha mãe me batia se eu vomitava
na roupa nova custou os olhos da cara

aprende garota
pra te valorizarem
é preciso estar bem-vestida

mais tarde manchas na camisa
e um objeto de remorso

você lembra com que idade
deixou de enjoar nas viagens?

você lembra com que idade
deixou de ter pra onde voltar?

gostava que ela ainda estivesse
me esperando no pé da escada

agora é o menino que suja
as roupas que puxa do varal
e resmunga quando cai
a camisa úmida na cara

agora sou eu que finjo
saber o que estou fazendo
enfiada num vestido velho
ralhando com o menino
toda tarde
o mesmo enjoo

e gostava que ela soubesse
que ainda pulo o último degrau
inclinando o corpo pra frente.

[Rosa cresceu num barraco de madeira sem banheiro. Aos onze anos, apanhou da tia por confundir o bidê com a privada. Rosa ou Rosângela Araujo Antonio é a minha mãe.]

…………………

II

a minha avó roubava leite
pra dar aos filhos
porque seus peitos empedraram
porque a sequidão é a sina
das mulheres da família
a minha avó roubava leite
por culpa
pela maternidade
que seu corpo descumpria
a minha avó até bem velha
dizia olha a minha língua
não tem saliva
por isso não consigo engolir
e eu via
o rosto da minha avó empedrar
a boca seca
a sua a dos filhos
punição pelos peitos vazios
a vida da minha avó}
esvaindo
e na boca do poço rosto
de pedra
uma voz fraca
vinda do mais fundo
onde uma mulher pode ser
mas nunca em excesso
– nunca o excesso
pra quem foi mãe
aos treze anos em 1934 –
líquida:
vai roubar leite minha neta
seus filhos vão chorar um dia.

[Todo fim de tarde, após pendurar as roupas dos cabos da Vila Militar no varal, Adelina enchia d’água o tanque de cimento. Adelina de Araujo Antonio foi/é a minha avó e o seu tanque foi a minha primeira banheira.]

III

não conheci o meu avô
dizem que ele foi morto de porrada pelos vizinhos
quando ameaçou matar a minha avó e os sete filhos

não conheci o meu pai 1
o que engravidou a minha mãe duas vezes
e abandonou a minha mãe duas vezes

conheci o meu pai 2
o que me deu sobrenome e me amou tanto
que fez coisas que um pai não devia fazer

não conheci nenhum homem
que tenha me conhecido

que tenha conhecido
a minha mania de reproduzir com o dedo no ar
as linhas do teto

que tenha conhecido
a história dos meus nove ossos quebrados

ou de quando consegui voltar
antes de anoitecer
pra pensão de moças
depois de me perder no bambuzal
com uma amiga que eu queria
que fosse mais que amiga

não conheci nenhum homem
que tenha conhecido
os sons do meu sono pesado
porque não durmo pesado
perto de estranhos

teve uma época até
sempre alerta e com a mão
direita na faca
debaixo do travesseiro

depois que um homem
na ilusão de me conhecer
fez do meu corpo o seu território
em guerra.

[Abortei espontaneamente numa tarde de verão de 2016. Eu ainda sangrava quando V. se aproximou, puxou a alça do meu vestido e apertou o meu seio esquerdo. Depois, levantou a parte de baixo. Cheguei a ver quando ele começou a se masturbar. Em seguida, apaguei. Acordei sozinha, sangrando e com esperma na barriga. V. me ligou pedindo desculpas.]

……………………….

 (En Oceânica)
 

ela pediu pra eu não enlouquecer

parei de tomar os remédios pra tentar ser gente

mas uma chuva forte caiu

era janeiro

e me escorreguei

perdi o senso

disseram

é temporário

os tremores noturnos

a matriz de uma ânsia descabida

os rostos na janela

todas as noites

os rostos que catequizam as janelas

nas casas sem muro

não há o que se ver que não sobrecarregue a carne

o corpo ainda sente

curva-se ao inevitável

tomba no meio da rua e conclui

não se dá as costas pra morte

há sempre um diagnóstico

preto no branco  

vou morrer de tempo ou

vou fazer o quê?

re:___________________.
   

xxx


o homem abocanhava
a pele elástica de frango atirada
à calçada.
comia por todas as necessidades,
acocorado em sua miséria.
com os dedos empapados,
gargalhava e puxava o cabelo,
no transe de ser ignorado.

sem virar a cabeça

me pergunta a hora

de ir eu não sei a hora

de ir eu nunca sei

como me curo de mim

mas sabe Iolanda

velha louca bruxa

nasceu mirrada e virou deus

queriam fosse vermelha

era preta e quem diria

no sino do trovão escalava o tempo

e gritava de ir bem

ir bem ir bem ir bem

quando a areia deitava na palha

chão de terra batida tirava sandália

e dançava Iolanda

que os urubus sobrevoavam

a caspa pisa da mulher abru

pta quem diria Iolanda era deus.

xxx

rasgava a camisa com os dentes

a raiva desnudada de pavor

e se deixava à beira –

como adestrar a mão convulsa?

o mijo morno entre as cobertas era como peitos grandes pietá

aninhava-se no turbilhão do que era

reconhecia

seu corpo

erguendo à boca a própria armadilha

e lembrava das frutas que nasceram podres

as que nasceriam pra sempre. 

ainda falava em reparação

o nariz bicando a asa de frango frita

boca e mãos luzindo engorduradas –

meu bem, seu amor é patético ao meio dia.

e a cara amarela desde a manhã

se havia

um grito vinha da cozinha

geladeira velha

bebo água e a voz grave do vizinho me treme

outro copo quebrado

varro mal

esqueço e

ah esse calor terrível

deito no chão –

você acha que vai chover?

xxx

choque

uns passos

segundo plano

acho que vi um milagre!

acho que vi!

as mãos estavam vazias

quando o homem louco

aos berros no meio da rua

esclareceu

o último gole

a raiva ainda alinhada –

é difícil, ele disse,

morrer.

já não alcançava seu sono
lembrava de quando podiam ser tristes juntos.
soubesse a hora de ir, calaria
e encolheria o corpo raquítico sob a coberta embolorada.
por outro extremo, lacunava-se em palavras rasas,
entregue, farta, extasiada –
que não pesasse ser pó, havendo mãos. 

xxx


a cabeça de lado, o pelo na língua, os roxos na pele. aqueles homens apaixonados pelas coisas erradas, pelas pessoas erradas. estive muito tempo dentro dos dias, e não olhar pra trás era o mesmo que pedir não me deixa ir. mas há beleza no hálito doente, nas vicissitudes dos corpos, no rasgo imprevisto na carne, e não tão só, quando a espera é o grito.

xxx

puta que pari um bicho morto

risco indócil na coxa

barulho oco dos coágulos esbofeteando a água da privada

estilhaços imagens

o enquadramento impreciso

aparar as arestas até triturar os ossos do rosto

as unhas perfuram lentas a boca grande calada

é preciso fugir pelas beiradas

sem alarde

o ruído dos dedos esfregando a barba

os olhos inarticulados nos pesadelos diurnos

as luzes fragmentadas nas paredes exaustas de tantas

falas –

era quando fingíamos ser livres

e em silêncio cada um olhava pra si

desconjunturando a barbárie desses tempos

inaudíveis.

………………..

(En Mallamargens)

Na mesma revista con Ricardo Escudeiro.

crítica de CAMIÑO NEGRO, de Ramón Area, en Positivas

NAS BEIRAS DO NEGRO

Título: Camiño negro

Autor: Ramón Area

Editorial: Positivas

Non é frecuente que unha novela beiree tantos xéneros sen instalarse definitvamente nun deles. Por iso esta Camiño negro de Ramón Area resulta unha novela singular, todo un desafío narrativo. Polo mesmo prezo e no mesmo discurso poderán vostedes atopar novela relixiosa (Santiago o Maior, Prisciliano e a Catedral de Santiago forman unha parte moi considerábel deste título), unha novela social (a Reconversión Naval tamén é integrante imprescindíbel), unha novela policial (hai un delito que aclarar, e gardas civís postos a facelo), unha novela negra (o mundo do marxinal e da delincuencia non coñece status social e vai tanto desde as esferas do luxo e dos negocios, até delincuentes de baixa catadura e mesmo se interna dentro do “corpo” da Garda Civil) e mesmo ten tamén algo de novela de formación (pois percorre un amplo abano de tempo e dá conta de como un grupo de catro amigos mozos pasa de seren axitadores sindicais a dedicarse a outros oficios -tamén máis ou menos en contacto coa trama de novela negra.

                     E, por suposto, trátasde dunha novela moi coral, con moitas personaxes e, aínda que as hai centrais como Lucía (a moza Garda Civil), Santiago o Maior ( e sos seus problemas de memoria, despois de tanto tempo alí sepultado) e Cazale (confidente da Garda Civil, ex-profesor de debuxo e falsificador de documentos), o certo é que son moitas máis as que poboan a paisaxe humana desta novela. E, se ben, as personaxes están ben configuradas e poderían ser un motivo atraente para unha posíbel lectura, tamén hai que ter en conta o lado negativo: hai tantas personaxes e beirénase tantos xéneros que non sempre se logra envolver a quen le nas diferentes atmosferas propias de cada xénero; aínda así, as conversas de Lucía con Santiago o Maior, merecen ser especialmente salientadas tanto pola profusa decumentación a cerca do priscilaismo, como polo contraste de carácteres entres ambas personaxes, e pola atomsfera (precisamente) reflexiva sobre a relixón; e outro tanto cabe dicir de Fernández, un garda ciivl en horas moi baixas, que é unha das personaxes máis logradas e perfectamente recoñecíbel nos seus diálogos.

                     Tamén se podería argumentar que, de decidirse por un xénero en concreto puidera ser que os outros ficaran máis destendidos do desexábel. E que, na realidade que vivimos todos os días, todas estas arestas forman parte do mesmo prisma vital, máis ou menos anódino e convencional, que vivimos.

                     Porén, que xa levamos un anaco escribindo, vai sendo hora de que deamos noticia da situación de saída da trama, para que vostedes se poidan ubicar mellor. O conflito central da trama é o roubo (“á antiga usanza”) duns documentos (moi antigos) do Arquivo Nacional. Non se precisa que documentos son en particular e encárgase o caso a Lucía, unha moza garada civil, para que, poñéndose en contacto con Cazale (o xubilado profesor de debuxo, cofidente e falsificador) dea cos cupábeis e retorne os documentos. E todo isto ten que ver co Camiño de Santiago, de aí o título. Ben, esa é situación de onde parte todo, e, aínda que se beirean moitos xéneros e a trama é complexa, débese recoñecer que a solución final da trama está moi ben argallada, resulta lóxica, tan lóxica como é a vida real e a restra de consecuencias que se desencadean nela porque sempre é mellor axudar aos poderosos, que son os que máis teñen que perder mentres que a xente a pé xa é outra cousa. E non diremos máis nada da trama, debe ser abondo para quen, a partir do contido, se decida por esta lectura ou non.

                     En canto á lingua, alén de algún castelanismo léxico, o peor é o uso reiterado do pronome persoal de obxecto indirecto (lle) en casos en que se debería usar o de obxecto directo (o,a). Polo demais, aquí teñen unha novela que toca abondos temas e xéneros como para resultar unha lectura suxestiva. Iso si, xa o dixemos de incio. Malia que o título (Camiño negro) parece indicar cara a un xénero concreto, a súa característica principal é breirear moitos, como arriba dixemos.

ASDO.: Xosé M. Eyré

Luz Ribeiro: muller e negra, o sangue que ferve…

O seu nome é Luciana Ribeiro, mais faise chamar Luz Ribeiro. Luz Ribeiro é muller multifacética, se vostedes consultan a Wikipedia acharana descrita como poeta e pedagoga. Se vostedes len o seu FaceboooK atoparán que alñi se define como artista. Abriu os ollos por primeira vez en São Paulo, no ano 1988. E fíxose consciente de que é muller e  de que é negra, e que por tanto sofre unha dupla exclusión, que é marxinada por ser negra e por ser muller. E non aturou, non consentiu. Ela rebelouse. Ela rebélase continuamente. A xente rebelde sempre ten a niña admiración. Sen rebeldía non hai progreso. Por outra parte excluír da sociedade, marxinar da sociedade unha importantísima parte da poboación porque é muller constitúe unha grandísima bobagem, unha auténtica parvada ou parvoíce só propia de seres incultos ou que detentan un complexo de superioridade que como persoas os reducen á mínima expresión. No entanto, eles teñen o poder. Hai que loitar. Excluír da sociedade, marxinar unha persoa por ser negra é tamén unha auténtica bobagem, unha auténtica parvada…crer que a cor da pel determina a intelixencia da xente é de seres estúpidos, estupidamentre estúpidos. No entanto eles teñen o poder. Hai que loitar. Hai que rebelarse.

Cando isto sucede expresado na túa propia lingua…desde este lado Atlántico non son capaz de imaxinar totalmente o que a persoa debe sentir.

E se por riba naces nunha periféria dunha grande cidade…

Por algures teño lido que ás veces ela, Luz Ribeiro, non se sente poeta. Resulta lóxico se a lingua que falas te vai integrar na tradición que ensina nas escolas quen precisamente te marxina. Mais tamén é certo que ela é artista, pois tamén é actriz.

Entendo que cando es muller, muller e negra, no Brasil tes que loitar con todo o teu corpo, por que o corpo é a pel, e a voz, a palabra, o instrumento. Non é de estrañar entón que Luz Ribeiro se especialice na poesía falada (Slam), e que sexa unha extraordinaria slamer toda vez que tamén é actriz. Non é de estrañar que ela faga parte de colectivos poéticos como Poetas ambulantes, do Slam do 13 ou colectivo de artista contra o racismo Legítima defensa. E tampoco é de estrañar que o primeiro título publicado sexa Eterno contínuo (Selo do Burro, 2013). E tampoco é de estrañar que o segundo título (estanca e espanca) tamén faga referencia á inxustiza de permanecer estancad@s nunha tradición que afoga, ese peso que estanca, que enxordece, e a necesidade de axotar esa tradición, de reconstruíla precisamente a partir das voces silenciadas, tan arteiramente silenciadas. Por iso a súa poesía é poesía que é sangue que ferve.

A arte como liberación.

A poesía como voz rebelde.

O cotián, a vida do día a a día como materia artística, literaria. Porque a loita, a rebeldía, a necesidade de liberación non son cousa puntual de un día ou de un libro. É un presente contínuo que nos fai sentir estancados e é preciso espancar esa inmobilidade/invisibilidade que nos retén prisioneir@s.

Da súa poesía tense salientado a súa versatilidade poética Ben, iso quere dicir que Luz Ribeiro é unha poeta técnicamente rica, experiente e moi competente. Poderán comprobalo na selecta que a continuación presentamos. Desde a poesía rimada á poesía como obxecto visual no texto.

Si. Mais o que a min me importa é a rebeldía, a loita contra a marxinación por ser muller e por ser negra.

Desde este lado do Atántico, un brinde solidario con todas elas, as mulleres bravas como Luz Ribeiro!

Non deixen de visitar o seu Facebook, antes sinalado, porque aí hai moita poesía

Sobre a muller negra, racismo e poesía, recomendo moito ler este traballo de Renata Dorneles Lima no que se explica ben o  movimiento de movilización das persoas merxinadas, periféricas, encarnado nas voces paulistas de Luz Ribeiro, Lizandra Souza e Mel Duarte.

Imos coa súa poesía.

(En Margens)

……………………

(do seu blog)

dos dias de coléra

hoje eu resolvi abrir o peito
e enxergar o quanto que cabe aqui dentro
foram mais de 20 anos tentado me esconder
buscando uma resposta que me fizesse ver

entregando para tantos o que só cabe a mim
um coração sofrido que pra toda dor consente  um sim
e ao findar de cada experiência
sente mais os hematomas do que a própria consciência

preta blindada dos pés a cabeça
fria por necessidade, não por natureza
busco nutri meu  ori pra achar uma fortaleza
e ainda que fraca que  haja luz e aqueça

minha pele negra também busca um lugar ao sol
quero meu espaço mas vocês me cedem um anzol
dizendo que agora tenho uma vara pra pescar
mas não é  igual a sua,  né? É fácil notar

por  séculos convivemos com a escravidão
fomos soltos sem direito a um  pedaço de chão
o reflexo do mal feito é visto hoje nas quebradas
gente preta é a maior parte da classe favelada

os livros que eu li eram da filha da patroa
porque ela dizia que depois de um tempo isso enjoa
e até hoje por eles eu tenho obstinação
os livros na minha casa são  mais que objeto de decoração

por anos me afastei das línguas do  colonizador
achava que  estuda-las me tornaria talvez mais inferior
ignorância minha, achar que o venceria sem ler meu  manual de instrução
mas hoje eu  estudo  seus dialetos e renovo minha munição

cade vez que eu abro a boca eu  ouço o ruído dos chicotes
a impecabilidade da nossa língua foi adquirida nos açoites
pra me fortificar ouço palavras em yoruba
busco saber sobre orixás e patuás

ninguém esconde mais de mim minha própria história
e pode chamar mesmo  me de vitimismo meu plano de vitória
já tou ligando a diáspora daqui com a diáspora de lá
e logo  menos  vocês irão avistar    

uma legião vestida de preto que não abaixa a cabeça
não se contenta  com lei áurea, quer mais é ser realeza
vai devolver com diplomas cada soco e esporro
aqui ninguém mais marca toca e precisar asfixiamos com gorro

não alisarei meu  cabelo para ser aceita
hoje sei que nossa religião não é seita
todos esses mal tratos é uma dívida sem reparação
por isso eu quero cotas e tudo que houver cifrão

sou afilhada bastarda e não quero ser filha da pátria
sou a própria puta por tantas vezes sexualizada
minhas ancestrais tiveram as saias levantas
e daí que surge tanta gente miscigenada

por isso  não  vejo  beleza no processo de miscigenação
e nem quando os brancos exclamam: eu tenho  sangue de negão
essas frases não provam nada e só trazem mais dor
então faz um chá de bom senso e tome um gole por favor

não sou  filha de pardal, muito  menos de mula
não tenho didática  minha ira não cabe em bula
e se pode não ser menos preconceituoso, disfarce
pegue suas falsas verdade e engula

………………………………

se eu me morresse …

o que não mata dá um sooooooooooooooono
o que não mata dá uma dor aguda no estômago
o que não mata dá uns calafrios durante a noite toda
o que não mata dá uns tapas e te traz pra realidade
o que não mata dá sede
o que não mata lembra que você é seca
(e você nunca morreu por só secar)
o que não mata é o insuficiente pra atingir um corpo que já sentiu tanto


bicho ruim não morre
se fere
flagela
espanca
estanca
estanca
volta a espancar
quase estanca


mas porra
num morre


se eu me morresse
morria!
mas não morre
porre
socorre
corre
corre
corre
corre
corre
cansa


cansa…


bicho ruim
só fere
refere
se ferre


bicho ruim
só erra
nem sente que errou
num sente
imagina, bicho sente?


num sente


é calculista
prevê tudo
imagina cada dor que já causou

isso de ser bicho
que  não tem peito
que  faz do  pulmão o seu  amuleto
perde o  ar é mata tudo de asfixia

bicho ruim que de tudo lhe tocou
quando toca, é tocado
deixado de lado

é tipo cachorrinho
que dá carinho
pega ossinho
mas se fizer xixi dentro de casa
acabou!
xô, xô, xô …

se eu  me morresse
eu  mesmo  me matava
mas sou  lacuna
sou  inapropriada
eu  não  me morro
eu  mordo
mas não  morro

porque você não pegou  seu  falo
enfiou até o  talo e disse:
é assim? cê gosta

mas não seu  silêncio é baixinho
e me rasga lentamente
aos pouquinhos

sem perdão
eu  quase morro

mas eu  não sei  morrer
vivo a beira de um desespero
mas não sei morrer

noite passada eu  tentei
eu juro que tentei

mas

o que não mata dá um sooooooooooooooono
o que não mata dá uma dor aguda no estômago
o que não mata dá uns calafrios durante a noite toda
o que não mata dá uns tapas e te traz pra realidade
o que não mata dá sede
o que não mata lembra que você é seca
(e você nunca morreu por só secar)

o que não mata é o insuficiente pra atingir um corpo que já sentiu tanto.

……………………

take care

dias desses vai chegar um e-mail
dizendo oi e tantas outras coisas 
mas tudo em português
porque você gosta é de dominar tudo 
— linguagem e língua —

eu que também sou de possuir 
me vi pressa em um silêncio que não cabia fugas

apenas
baixos sussurros grudados na parede 
de som leve, mas de pesar oco 

suspeito que decodificou meus mapas
com um tempo de quem tinha toda a vida

pra fazer aquilo
enquanto eu reconhecia cada corte seu 
num misto 
de querer fugir 
de querer ficar 
de te querer levar 
de me querer partir 
             nos meios

procuro em imaginações o roxo da pele
o gosto do dorso 
queria descobrir teu código 
mas ao contrário de mim
não é presa fácil —
teu soco é dentro  
tilinta e lateja no pupilar dos olhos

a cada novo toque ficava eu presa a faixas de alta compreensão
— pele de solidão 

você sorriu (mais) depois 
e como se soubesse 
perguntava sempre num deslize 
tudo bem? 

eu ainda não toquei na mala
eu ainda não mexi na prateleira
eu ainda
eu ainda não 

despedi sem fim 



take care 

……………………….

ser eu poesia


noite como outrora nunca vista
as estrelas pareciam querer cair
com desvelo segurei uma delas
entre o polegar e o  indicador
e de modo  brusco, movimentei-a
move-la de lugar, ser eu passagem.

sobre minha cabeça
um mobile feito, pelo cria-dor
e cria-ação que sou me encantei, sorri
de modo  ingênuo exclui o  verbo chorar
anulei o  sofrer sempre presente
restou  alegria, ser eu  feliz.

tirei o chinelo e andei vagarosamente
contemplando o  grandioso e minucioso
todo pouco universo
grão de areia entre meus dedos
me causando leve incomodo
breves cócegas, ser eu leve.

olhos fechados pra ouvir o cochichar do mundo
ficar imóvel para encontrar ondas
e só, só esperar, esperar…
mas carrego por segurança amarguras
sendo assim por zelo, o tal sal em mim, não  tocou
pensei com dor, por ser eu dura.

cheiro forte ainda não provado
disparou  a adentrar pelas narinas
completou o vago que restava
apoderou-se do eu, encheu
nessa noite eu  fui amada
ganhei sentidos, ser eu autor.

me quis pequena e frágil
me desenhei menina afável
apaguei a frigidez, fui ágil
desenhei sonhos palpáveis
não derramei lágrimas por lucidez
e ainda assim lavei  a alma, ser eu  água.

noturna tudo fui
rodeada de sensações
sem gosto, sem cheiro
era cem expectativa
juro, pouco sei  da vida
e o que observo, escrevo
por nascer defeituosa, ser eu poeta.

…………………………..

pequenino

inefável, primeiro pensamento ao céu:

lilás, azul, rosa e com toques amarelados

aurora boreal? não, não era

foi simplesmente deus, querendo me fazer rir às 18 horas.

e no céu de aquarela, luzes e cores que eu jamais criaria

clima quente com vento gelado

fazendo da blusa meia-estação que eu usava a roupa perfeita.

ônibus cheios, porém meu lugar esteve sempre reservado.

nessa noite não ganhei colo da mamãe

ao invés disso cedi a ela o meu.

meu canto desafinado permitiu que eu ouvisse a melhor canção do dia:

o riso dos meninos.

do amor nada além de “oi”,

mas para quem não esperava nada, já bastou.

fotografei o que alcancei, pois mais tarde me pediram provas

mesmo sendo tudo verdade.

é bom que saibam que eu acordei sem sorriso,

mas vou dormir sendo este.

oração: que eu perceba sempre suas cocegas, amém.

sem obstinação em vê-lo, o sentir já me envolve.

hoje, eu senti deus bem pequeno, 

senti deus menino, inocente no desenhar.

que colore sem outra pretensão que não seja o agrado e o riso.

senti deus tão pequeno, que até agora ele permanece preenchendo meu coração.

……………………..

Do lado esquerdo

nas noites em que sua presença é real

e o meu eu se torna nosso

o sonho continua sendo o que é

e a felicidade chega parecendo ser verdade.

nas manhãs em que seu olhar nasce antes do sol

eu adormeço meus sentidos com seu calor

perco a fala, pouco ouço e busco óculos

e acredito poder amar de verdade.

nos dias em que o medo e a solidão aparecem,

eu finjo ter coragem e me escondo atrás de uma postura ereta,

dizeres complexos, exaustivos e enigmáticos

e a correnteza parece não findar no interno.

no dia em que eu conseguir mostrar que ultrapassou o prazer,

que foi além do passatempo, muito mais que satisfação e gozar

e não mais necessite do recíproco, mas do fazer entender,

talvez eu consiga dizer sim ou não.

na ausência do que finjo ser, se o eu aparecer,

a dor chegará preenchendo espaços e não haverá outras dúvidas,

e talvez eu volte a prosseguir enfim, sem pensar no que deixei para trás,

mas visando o que está ao lado para seguir em frente.

…………………….

Pode levar

a poesia leve

leve, leve, leve

leve, leve, leve …

leve consigo estes beijos faciais

quando os quero, boca

as palavras amigas

que já foram sussurros.

aqueles abraços completos

que esmurram meu estomago.

leve, leve, leve

dentro e fundo (psiu).

de que me vale

a folha pálida

que me cativa a escrever?

para que eu quero

canetas transparentes?

nada resolvem,

inquietam-me.

não trazem cura aos males universais

nem aos meus, quiçá.

e assim, eu sigo

com frases perdidas

rascunhos de eu’s, soltos

tolos, tilos e ralos.

tenho todo-mundo bem aqui

tem o mundo-todo, bem.

quero o verbo que conjuga gente

a gente, a gente-todo.

ando e canso  de ouvir:

poetas. quero só poesia

pois tem me doído

ouvir sem ler nos olhos.

anseio versos não recitados

mudas-falas

de poemas na planta do pé.

calem os sentidos

para eu sentir o outro.

ouvir as mesmas notas

mil e mais vezes

e sem escrever, in-ventar.

que o vento leve, leve

mudas folhas e canetas verdes

pra outros, pra longe

enquanto não, escrevo.

…………………………

(en Philos)

eu gosto de brincar que sou deus
fazendo chover nas plantas
da sacada do apartamento
que não cai chuva
com meu borrifador de água
comprado no armarinhos fernando
-que eu ganhei-

regulo a pressão da água
pra formar aquelas gotinhas de garoa leve
e canto perto das folhas
alguma música sobre chover
-acho-
que elas não acreditam na minha encenação
e brotam flores bonitas por piedade

assim como brotam mais dias
nessa quarentena
que já nem sei como se chama
sessentena seria?

eu que continuo morrendo
planto muitos poema
e poucos nascem
alguns natimortos
se inscrevem em editais

nunca
o notebook ficou tanto tempo aberto

enquanto a porta
tem dias que não se abre
nem para descer o lixo
amontoado
no canto da cozinha
versus
pensamentos amontoados
em algum lugar
da cabeça

tanta informação
que parece ser impossível
concluir um poema
-ou qualquer outra coisa-

com o que será que sonham os maus?
talvez nem sonhem
me auto respondo
eu deus onisciente de mim

já é maio
me lembram as flores

e um pequeno medo
me toca os pés
e sobe rapidamente até virar isso:
q u a r e n t a
é composto por quantos dígitos?

ouvir as vozes das minhas mães
foi o que faltou ontem
por isso o titubear da fé no hoje

me agarro ao filho
que se agarra
a tela de proteção
pra ver além
da tela do televisor
eu e ele
nos exercitando
para acreditar

eu deus que sou
pequena
rezo em cada linha poema
pra lembrar a deus
de não se esquecer
de mim

…………………….

(do seu Facebook)

menimelimetros –

os meninos passam liso

pelos becos e vielas

vocês que falam becos e vielas

sabem quantos centímetros cabem em um menino?

sabe de quantos metros ele despenca quando uma bala perdida o encontra?

sabe quantos nãos ele ja perdeu a conta?

quando “ceis” citam quebrada nos seus tcc’s e teses

“ceis” citam as cores das paredes natural tijolo baiano?

“ceis”citam os seis filhos que dormem juntos?

“ceis” citam o geladinho que é bom só por que custa 1,00?

“ceis” citam que quando vocês chegam pra fazer suas pesquisas

seus vidros não se abaixam?

…. num citam, num escutam

só falam, falácia!

é que “ceis” gostam mesmo do gourmet da quebradinha

um sarau, um sambinha, uma coxinha

mas entrar na casa dos menino

que sofrem abuso de dia

não cabe nas suas linhas

suas laudas não comportam os batuques dos peitos laje vista pro córrego

seu corretor corrige a estrutura de madeirite

quando eu me estreito no beco feito pros meninos “p”

de (in)próprio

eu me perco

e peco por não saber nada

por não saber geógrafa

invejo tanto esses menino mapa

percebe, esses menino desfilam moda

havaiana azul e branca e preta número 35 / 40 e todos

que é tamanho exato pro seu pé número 38

esses meninos tudo sem educação

que dão bom dia, abrem até portão

tão tudo fora das grades escolares

tão sem escola

nunca teve reforço

—- de ninguém

mas reforça a força e a tática

do trafico mais um refém

os menino sabem nem escrever

mas marcam os beco tudo

com caquinhos dos tijolo

pcc! prucê vê, vê … vê?

num vê!

esses meninos que num tem nem carinho

são muitas vezes pés no chão

num tem carrinho preso no barbante

pensa que bonito

se fosse peixinho fora d’agua

a desbicar no céu

mas é réu na favela

lhe fizeram pensar alto

voa, voa, voa

aviãzinho

o menino corre, corre, corre

faz seus corres, corres, corres …

podia ser até flecha, adaga, lança

mas é lançado fora

vive sempre pelas margens

na quebrada do menino passa nem ônibus pro centro da capital

isso me parece um sinal

é tipo uma demarcação de até onde ele pode chegar

e os menino malandrão faz toda a lição

acorda cedo e dorme tarde

é chamado de função

queria casa

mas é fundação.

tem prestigio, não tem respeito

é sempre o suspeito de qualquer situação

“ceis” já pararam pra ouvir alguma vez o sonho dos menino?

é tudo coisa de centímetros

um pirulito

um picolé

um pai uma mãe

um chinelo que lhe caiba nos pés

aviso:

quanto mais retinto o menino

mais fácil de ser extinto

seus centímetros

não suportam 9 milímetros

esses meninos

sentem metros.

…………………..

Sobre amor e resistencia

você já viveu um amor impossível hoje?

mais impossível que são paulo?

maior que ela?

maior que a correria e a fuligem cinza que paira aqui.

maior que os cartões de ponto, que marcam entradas e desviam estradas, caminhos.

maior que o congestionamento das marginais que me separa em margens extremas do jardim tranquilidade.

já viveu?

maior que os preços:

* da gasolina que ele usa pra ligar nossos pontos;

* do hot-dog prensado das madrugadas;

* das cervejas dele;

* das coca colas dela..

maior que todas as pontes.

maior que o tempo de entrega do monotrilho.

maior que o tempo de embarque na estação sé no horário de pico.

bem maior que o autoritarismo de quem gere a cidade.

maior que o descaso com as minorias.

maior que o valor da integração do ônibus com o metrô.

muito mais leve que as sacolas que as tias trazem do supermercado.

mais leve que as traves de pvc.

mais leve que as rabiolas que ficam presas no varal.

mais leve que os meninos que são puxados pela orelha.

mais doce que pingo de leite,

que geladinho da esquina,

que risada de criança suja de sorvete.

maior que a truculência da polícia militar,

que o genocídio da população negra,

que o descaso com rafael braga …

ahhhhh isso não. isso é mais que é impossível,

é desumano,

é doído,

é incompreensível,

é improvável,

é inadmissível,

é inaceitável …

:::eu só amo impossível :::

mas ainda assim, ele é bem grande, sabe?

cabe no colchão de solteiro dele,

no sofá da sala da minha mãe,

no filme ruim da netflix

é maior que a primeira crise de ansiedade minha que ele presenciou,

maior que a preocupação dele com a crise de ansiedade,

maior que minha alegria ao descobrir que a voz dele é antídoto.

maior que os sonhos precoces que temos,

maior que o número de pagodes que ele

conhece, maior que o golpe,

maior que a quantidade de poemas ruins e sem sentindo que eu faço.

mais bonito que por do sol na laje deitados em edredom,

que nossa coleção de nomes próprios,

que almoço de domingo,

que o quebradinho do dente dele que só dá pra ver de muito perto,

mais bonito do que o primeiro dia que eu acordei muito perto dele.

nosso amor é amor próprio sem ser propriedade.

é o inevitável absurdo.

é o indizível ( mas eu sou prolixa )

nosso amor é tudo que não cabe em um poema,

é tudo que não cabe nessa cidade,

é tudo que não cabe nessa revolução armada ….

mas eu que vou amadx, eu que revoluciono voo…

eu que sou dadx ao impossível, tento.

nós que somos plural, tentamos

………………………

E para rematar, aquí a poden ver e oír como a grande poeta e grande slamer que é.

crítica de CORAZÓN DE MANTEIGA, de Xavier Queipo, en Galaxia.

 A INACEPTÁBEL  DIFERENZA

Título: Corazón de manteiga

Autor: Xavier Queipo

Editorial: Galaxia

Corazón de manteiga é un título ben bonito, ben lírico e que define estupendamente o protagonista central da novela, Mauro.

                     Xavier Queipo é quizá o autor menos convencional da nosa narrativa actual. Encetar un  novo título de Queipo é aceptar unha aventura lectora que nos vai levar por tramas-temas pouco frecuentados e tamén desde formas moi persoais dentro das posibilidades que ofrece a narrativa…sen pretender un rupturismo forzado senón unicamente ser el mesmo cando escribe consegue textos que sempre teñen un aquel de novidade fronte aos demais xa publicados. Isto acontece porque Xavier Queipo escribe o que el quere escribir e como el o quere escribir, e isto non sempre se dá…as autorías de best-sellers (admitamos a expresión) adoitan escribir pensando no que o lector quere ler e como sorprendelo. Nesta orde de cousas, Xavier Queipo é unha regalía, porque se comporta como verdadeiramente agardamos que se comporte quen escribe, que sexa ela/el mesm@ e que conte o que ten dentro.

                     Nesta ocasión, Xavier Queipo opta por novelar a vida dun ser diferente, Mauro. E é un reto narrativo certamente salientábel, primeiro polo que ten de intimista (a novela trasládanos a o rico mundo interior de Mauro, mesmo incorporando textos escritos polo propio Mauro) e que levará a novela a se converter nunha especie de corrente de conciencia ou fluír de conciencia na cal a interacción con outras personaxes ocupa un segundo plano, constituíndo a novela un exercicio de introspección nos adentros dunha personaxe singular (logo veremos  a razón desa singularidade), nos adentros dun abismo tamén nada convencional (e aquí hai certo parecido co proceder poético, mais esta vez narado). E en segundo luagr porque Queipo narra a vida dun ser diferente aos demais (ten “ausencias”, levita, axiña se sente defraudado pola interacción con outras personaxes, ama a natureza por riba de todo e chega se volver algo semellante a un anacoreta…) sen ter que recorrer a personaxes LGTBI+, por sinal, por sinal xa que seres “diferentes” hai e houbo a moreas, desde o mesmo Cristo a Galileo, sen ir máis lonxe e sen querer entrar nas “personaxes diferentes” que a literatura proporciona, o que nos levaría a unha enumeración longuísima, longuísima aínda que só nos fixaramos nos casos máis particulares ou especiais. Comecen vostedes, se queren, polo mesmo Quixote, e acharán innúmeros casos, algúns dos cales, cando se le a novela, xorden na mente lectora, mais tampouco imos perder tempo en sinalalos. Abonde dicir que, e por sinal outra vez, a narrativa de Cunqueiro está chea de personaxes singulares, diferentes, desde o Merlín ou Simbad á triloxía final. A modo de sinal, só exemplo de seres singulares. Só por sinal, porque o  que Queipo tematiza desde o seu Mauro, é a aceptación social das persoas “diferentes” que viven e se comportan conforme os seus propios valores, sen facer mal a ninguén mais refugando integrarse no que se denomina “sociedade convencional”. E esa é unha grande particularidade da novela de Xavier Queipo, non fica na “espectacularidade” deses seres diferentes e únicos, iso non é máis que unha circunstancia, o que se examina é a aceptación social desa diferenza. Que ten que ver coa estreiteza de miras dunha sociedade baseada na razón e que non é quen de asimilar o que non se axusta aos seus criterios “lóxicos e convencionais”.

                     Se se pensa ben, e a novela convida a unha reflexión fonda sobre os seres “diferentes”, a aceptación ou refugamento do ser humano diferente comeza xa polo racismo ou pola intolerancia relixiosa, de xeito que a proposta narrativo-reflexiva de Xavier Queipo estará sempre de actualidade, por iso e porque constitúe unha crítica da razón que dirixiu e atenazou a Modernidade até hoxe.

                     Para alén da crítica á intolerancia social coas persoas “especiais” ou “diferentes”, a novela tamén presenta unha esculaca no interior desa personaxe tan singular que é Mauro, desde que este é adolescente, comeza a decatarse das súas “peculiaridades”, vaise contando a súa vida e segundo se vai afondando na personalidade de Mauro, este vai tomando distancia co resto da sociedade até pasar a vivir nun refuxio habilitado no parque de Bonaval, de onde é “desafiuzado” para internalo no Psiquiátrico de Conxo e sometido auténticas torturas con tal de facer que recupere o siso, porque consideraban as autoridades médicas que a súa era unha vida “anormal”.

                     A novela está contada cunha salientábel atención aos pormenores, sendo rica en descricións tanto naturais ou exteriores como interiores ou relativas á personalidade evolutiva de Mauro, esa personaxe central configurada co pulso narrativo de quen ten unha vizosa obra e experiencia nas angueiras de contar historias. Non é, nin pretende selo, unha lectura cómoda, mais tampouco aposta polo extremo contrario ou tráxico. Mauro é unha personaxe literaria, diso non hai dúbida. Como tampouco hai dúbida de que represente esas persoas “diferentes” (e as causas da diferenza son moi variadas) nun momento histórico no cal a intolerancia social é promulgada desde púlpitos políticos coa, máis ou menos indisimulada, colaboración (necesaria) de medios de comunicación que, se ben queren lavar a cara asindo o protocolo do “politicamente correcto”, despois non disimulan nada á hora de estigamatizar o que non moe no seu muíño. Nós, @s galeg@s, sabemos moito diso, porque historicamente se nos difamou e nin no século XXI somos tratad@s cun mínimo de decencia.

ASDO.: Xosé M. Eyré

a propósito de NINGUÉN MORREU DE LER POESÍA, de Aldaolado, en Xerais

ALDAOLADO/LADO ALDAO

Título: Ninguén morreu de ler poesía

Autoras: Aldaolado (María Lado & Lucía Aldao)

Editorial: Xerais

Se Aladolado ( María Lado e Lucía Aldao) non existiran…habería que inventalas!

A maioría da xente, sobre todo quen non le poesía, adoita considerar @s poetas como seres ensimesmados, que escriben cousas moi trascendentes para as autorías mais que esa xente non remata por acharlle a substancia que fai eses textos tan trascendentes. Ao meu ver, esa é a opinión maioritaria entre a xente; e se a iso engadimos que se trate de poesía actual, de hoxe e non a clásica, o nivel de despego ou de escepticismo aínda se incrementa. Porén, nada máis lonxe da realidade. Escribir poesía é, primeiro de nada, un reto que a quen o afronta con éxito lle produce unha íntima satisfacción dificilmente comparábel a outral, porque axuda a coñecerse a si mesm@s (as súas limitacións e versatilidades) e dese xeito tamén a quen atopamos no camiño da nosa vida. Ah, mais hoxe é moi doado, non hai que rimar nin contar sílabas! Certo, a poesía liberouse de moitas ataduras, porén iso non a fai máis doada; ao revés: o sentido do ritmo, a dimensión espacial, a forma de salientar os conceptos etc. agora teñen unha aplicación nada doada e (digamos) nova, escribir mala poesía é moi doado, escribir boa poesía é ben complicado e canto máis complicado é o reto maior será a satisfacción se se logra.

                     Até agora falamos de escribir poesía, e poderiamos escribir moito máis, moitísimo, sobre as bondades de ler e escribir poesía. Porén hai unha tarefa moito máis complicada ca escribir poesía: divulgala, achegala á xente, facer que a xente disfrute en espectáculos poéticos. Os artigos dominicais que escribo sobre poesía de muller no Brasil permitíronme coñecer a estratexia dos lambe-lambe: textos poéticos escritos sobre superficies rídas que despois de colocan en lugares estratéxicos por onde pase moita xente, fotográfanse e sóbense ao Instagram e eses textos é posíbel recolocalos noutros lugares polo estilo. Unha estratexia para achegar a poesía á xente. E tamén están o@s Poetas ambulantes, poetas que soben en trassporte público e alí recitan os seus poemas. Isto, achegar a poesía á xente sempre foi o máis complicado de todo. Lonxe quedan xa as tentaivas do Batallón Liteario da Costa da Morte (moi importante porque aí comezou María Lado), por exemplo, ou a anterior demistificación dos Ronseltz. Hoxe fanse festivais, sobre todo, mais non é unha estratexia excesivamente “democrática” porque o público é moi maioritariamente lector (e/ou autor) de poesía.

                     Por iso, se non existiran as Aldaolado habería que inventalas, porque elas fan da poesía un espectáculo asequíbel a calquera público. A música, o desenfado dos textos, o humor ou a mesma expresión corporal ademais dun recitado terribelmente solvente e efectivo…fan dos seus espectáculos poéticos unha experiencia que o público agradece moitísimo porque lle permite estar en contacto coa poesía, emocionarse e botar unhas risas. Pois ben, agora temos a Aldeolado en papel neste Ninguén moreu de ler poesía. Aí entre as dúas cóntannos como foi que xurdiu Aldeolado, obséquinanos con poemas (ás veces inéditos) nun diálogo poético moi estimábel; téñase en conta que as dúas son poetas éditas con anterioridade a este título; sen ben María Lado publicou antes, Lucía Aldao leva desde o 1998 vencellada ao mundo da poesía. Versionean, moi libremente unha canción folk estadounidense (“ Where did you sleep last night?”) ao que segue un texto de María Lado para despois aparecer o primeiro poema conxunto das dúas , “80-90”, ao que seguirá “Se foses un amor” e a canción e poema “O faro”. Mais non remata aí o libro, aínda hai máis, e imprescindíbel. Segue “Atractivas e talentosas” e “Cousas que fago cando ninguén me ve + cousas que fago por amor” para rematar, agora si, cunha proposta dadaísta para que quen le participe tamén da creación poética. A única mágoa é que o libro non o acompañe un DVD con algún dos espectáculos seus. Iso xa sería poñerlle o ramo;  porén, no Youtube pódense ver moitos dos seus espectácilos, por riba con algúns dos textos que figuran nesta antoloxía-presentación en papel. . Polo demais, a esta poesía desenfadada, humorística (mais sempre con contido reflexivo), só se lle pode apoñer que ás veces o desenfado lévaas a recorrer ao castelán como medida de achegamento ao público, innecesariamente na miña opinión.

                     Non, ninguén morreu (nunca) de ler poesía.

                     E a vida, coas Aldaolado é máis divertida e poética

                     Que viva a poesía e que vivan (cerca) Aldaolado!

                     Non saberemos a sorte que temos co Lucía Aldao e María Lado, coas Aldaolado, até que as botemos en falta. Así que, quen non coñeza sos seus espectáculos, que espabilen e len este libro, que desmitifica poesía como “cousa seria” para presentárnola como “cousa divertida.

ASDO.: Xosé M. Eyré