Juliana Krapp: entre a poesía roubada e a poesía analítica.

JULIANA KRAPP

En primeiro lugar debo dicir que as noticias que de Juliana Krapp (1980) teño non son moi actuais, na internet non atopei nada máis actual, creo que é de 2014 o máis e algún texto de 2018. En segundo lugar debo tamén dicir que, aínda sendo poeta inédita en libro, Juliana Krapp non pasou despercibida, antes ben os seus poemas foron bastante comentados e mesmo chegou a figurar en antoloxías (por sinal Uma pausa na luta, de Manoel Ricardo de Lima; e tamén está presente en Otra línea de fuego. Quince poetas brasileñas, de Heloísa Buarque de Hollanda), sinal de que o seu non é un nome calquera. En terceiro lugar, e tendo en conta o contexto ou deriva poética actual, quero dicir que, se escollín a Juliana Krapp para divulgar a súa poesía esta semana é porque me parece que a súa poesía constitúe unha aposta novidosa e vangardista nun momento de especial desnortamento. Explícome, nos útimos anos vense comprobando (tanto na Galiza como no Brasil e en máis sitios) unha tendencia a facer pasar por poesía o que en realidade é prosa poética. Desde o meu punto de vista, se toda a novidade ou vangardismo que se pode acarretar consiste en esquecer as limitacións espaciais do verso…pequena novidade e pequeno vangardismo temos aí.

Fronte a isto, a poesía de Juliana Krapp ofrece un vangardismo moito máis poético. Representa unha evolución poética moito máis consistente. Esa evolución consiste en crear un clima lector nos seus poemas. Iso si é algo novo, a creación de clima lector é algo máis propio da prosa, require espazo e tempo para ser creado. Mais Juliana é quen de facelo na poesía. Certamente os seus poemas non son precisamente breves (con algunhas expecepcións que, a pesar de todo, tamén crean clima), certamente, mais o clima creado é plenamente poético e, polo que eu puiden ler, ten moito que ver coa percepción do mundo e coa repercusión que esa percepción provoca na voz poética. Hai aí un mínimo considerábel de estrañamento, mais non chega ao desasosegó fondo e perturbador.

Tamén hai que dicir que Juliana, no que é a poesía brasileira de muller, non é a única en botar man deste recurso. Como fomos vendo nesta serie de artigos dominicais acontece con máis poetas, de aí que debamos tomar esta forma de poesía como un vangardismo moi instalado xa na poesía brasileira. Trátase de substituír o impacto lírico (máis propio da bevidade) pola creación de climas, de tonalidades, que obriguen a quen le a reflexionar. Obviamente os recursos sintácticos son moi empregados neste tipo de poesía, e tamén as solidariedades léxicas (ás veces sorpresivas), e tamén xogos co ritmo expositivo (encabalgamentos, paralelismos etc…). Mais isto é só unha primeira aproximación formal  a este tipo de poesía. A nosa finalidade é a divulgación, aínda que non poidamos obviar certo pouso de teoría crítica na presentación das poetas e a súa obra.

Non sei se a estas alturas a poesía de Juliana foi recollida xa en libro(s). En todo caso debría selo e sería unha estupenda noticia se así for. Non en van o seu poema “Límite” (vostedes poderán lelo na selecta que vén despois) Ricardo Domenck (poeta tamén) escolleuno como un dos mellores do primeiro decenio deste século. Ricardo Domeneck, estimábel poeta e divulgador, (Rocirdra Demencok) chama a este tipo de poesía lírica anlítica, e concordo absolutamente que é unha etiqueta, un rótulo literario moi acorde e ben traído. Lean aquí a súa anáilse da poesía da Juliana.

É necesario engadir que, en palabras da propia Juliana, a súa poesía é puro instinto de roubo, que ela non considera nin ser autora pois sempre recolle a súa poesía do exterior ( do que ve, do que escoita, do que acontece e como son as cousas no seu redor…). Ben, adivíñase aí unha captatio benevolentiae, mesmo unha humildade moi a ter en conta á hora de estudar a situación d@ poeta diante do mundo, que é o que reflicten as súas palabras, toda vez que a súa poesía é comunmente demasiado elaborada como para xurdir nun momento, require moita elaboración, moita elaboración para darlle forma, e iso é traballo poético.

Expliquémonos un pouco máis. Na poesía, o procedemento habitual consiste en partir da análise para transmitirnos algo de forma sintética. O que Jualina fai (lembremos as súa poética) é xustamente ao revés: pártese de unha percepción, algo sintético, para tratar de explicalo ou comunicalo e esa explicación ou comunicación é pura análise.

Desde que comecei esta serie de artigos con Alzira Rufino, atopei que este proceder é bastante común ou xeralizado na poesía brasileira de muller. Tampouco son eu experto coñecedor da poesía brasileira. Vou aprendendo.  Mais nunca vin que se apreciara nel o que ten de novidoso ou vangardista.

Precisamos, xa, Juliana Krapp en libro. Unha edición antolóxica da súa poesía, debidamente analizada no que ten de anovador, paréceme de extraordinaria importancia.

Para quen queira seguila, este é o seu Face.

Recollín a súa poesía fundamentalmente de revistas on-line. Na selecta que vén a continuación procuro indicar a súa procedencia.

(En Canju, 2018)

Bandeira

Você pode recortá-la em tiras longitudinais

forjar fibras

e trançá-las em nós cegos à maneira dos marinheiros

criando cordas a sustentar roldanas

para verter água

dos poços artesianos e açudes onde também bebem

as reses quando não há seca mas

essas mesmas tripas

entrelaçadas podem constituir instrumento

de tortura ou de suicídio então se omita

caso perguntem com muitas delas

é viável fazer um feixe de fios torcidos arrecife

para delimitar os sulcos de lama

onde repousam dejetos de 100 milhões de pessoas

mais ou menos ou então você pode

deixá-la intacta

e insultá-la fazendo respingar sobre o poliéster

muito de seu próprio ego a arte

não necessariamente engajada apenas fluida

imaginação individual um teste

do quão longe é possível chegar

preservando o plexo de artimanhas subjetivas

em contato com o espírito do tempo você pode

enovelar muitas delas e fazer teresas

para o intercâmbio de cigarros e demais itens

de grande necessidade caso esteja na prisão

em algum momento dos próximos anos outra ideia

seria deitar sobre ela em dias ruins

deixar a marca da sua genitália

dedos engordurados o santo sudário uma mensagem

numa garrafa quem sabe um dia

alcance o futuro eles podem

inventar um cadafalso

de design avançado encimá-lo

com as cores do patriotismo nos espetáculos

de suplício talvez testar

novas dobragens para inseri-la

tal um barco em origami no útero das mulheres

fazê-la abrir velas tão logo se aproprie

daquele remoto interior

onde irá sempre lembrar

um souvenir de viagem você pode

usá-la como trama para mordaças

e cabrestos impedindo seus amigos de darem tiros

no próprio pé mas eles podem

sobretudo estirá-la no assoalho

onde fazem as execuções e então logo será a imagem

autêntica de um país pacificado a firmeza o arrojo

da pátria a acolher o imobilismo você pode

usar um estilete sobre base sólida para recortar as estrelas

e pregá-las na blusa à moda do Terceiro Reich

atestando sua impureza com os furos

na malha você pode replicar máscaras

de flandres algo inofensivas até

de certo modo carnavalescas não importa a intenção basta

o aproveitamento máximo dos investimentos o tecido

feito espinha dorsal

duma grande salamandra

que pode ser exaltada num feriado nacional

de adoração ao mérito

daqueles que se esgueiram sinuosos

em nome da família eles podem

usá-la como mortalha

que esconda as escaras os tiros os estiramentos

na pele de quem foi abatido

ainda criança eles podem

estendê-la sobre hectares de terra morta

restituindo verde à cenografia

capturada pelos satélites e tornada verdade

neste novo tempo o tempo

da bandeira

que tremula

sobre nós você sabe

do que estou falando

…………………………………………….

ATRIBUTOS

(en Formas fixas)

Gostaria de ser uma mulher
            que soubesse identificar um brocado
            uma cerzidura um carmesim um
            adorno
            em matelassê

            No comércio
            a palavra aviamentos me lembra
            de que há todo um reino de malícias
            que desconheço
            – penso
            não em ilhós
            mas em aves aquáticas
            artefatos explosivos

            Gostaria
            de poder dizer: vamos desenlaçar
            o cordão do meu quimono vamos
            providenciar castanhas doces
            para o grande banquete
            e nos deitar sob o dossel à espreita
            das comissuras
            que ardem na pele

            Porém
            eu estou atada
            ao mundo da sonolência
            e das cintilações breves
            da louça quebradiça e da mixórdia
            – ao lugar
            das mulheres e bichos
            que se espatifam n’água

………………………………………

(en Diversos afins)

casa

no teto um alçapão
madeirame entrecortado de conduítes
onde o escuro nasce
e os ratos passeiam

a noite exibe as evidências
não há fantasias não haverá mais
reviravoltas possíveis
sobre nossas cabeças sob a cumeeira
….em casa
…….vibra
a clausura dos ratos

não estão em nós
….– vivem além
de nossos crânios
à revelia
dos emaranhados de beleza ou pavor que se enroscam ao sono

entretanto nossas coisas são suas coisas
e delas fazem ninhos
onde se embaralham
e proliferam

sobre nossas cabeças
sem asas sem remédio
respiram conosco
……….guincham
e permanecem

não estão como nós
…..baratinados
porém sua verdade
é nossa verdade – mesmo eles
……..têm um corpo quente
……..a carne magra o esqueleto oblíquo que guarda um único coração
……..exausto ao cair da manhã

mesmo eles
morrem e então fedem
sobre nossas cabeças

quando isso acontece
em alguns domingos
abre-se a portinhola
e a pá retira do escuro um volume flácido
..– a infância estranha
…a falta de sangue

à noite voltamos a mergulhar
juntos
na viscosidade cada um em seu avesso
da casa apartados
pela irmandade impossível

um pai uma mãe tentam ordenar
que torne surdos os ouvidos
que estanque a todo custo
a corrosão da pureza

querem dizer
que há simultaneamente
o alheio que é o do outro
e o alheio que nos é
indiferente
…– ante a opressão das paredes
…..sobre nossas cabeças
…..a alteridade se excita

os ratos passeiam
e vem a época de nos caírem os dentes
estranhos inexplicáveis núcleos sem dor
que precisam ser jogados para o alto
para o teto da casa
como indica
a etiqueta doméstica
e o folclore desta parte do mundo

ainda estão úmidos
mas não parecem
saídos de uma boca
…– talvez de uma fenda ou concha de alguma
…..cavidade morta

serão lançados
à zona secreta onde agora prevalece
o silêncio
após o êxtase desconhecido
……– e para sempre irá nos assombrar a extravagância
……..dessa inútil oferenda

***

tipografia

às vezes
em geral domingo
eu o vejo: coágulo
escuro massa estanque que se instaura
pedra singrando
ao redor da qual o dia vai crescendo
e apodrece

porque no centro da verdade há um viço
e eu olho simplesmente olho impossível não reparar camada
após camada a casca reluz seu calcário arregalado e já não somos mais
eu e você mas sim espessuras
singulares silhuetas de arvoredo passando em velocidade difícil
distinguir as formas por trás do vidro quando somos apenas
duas melodias ou melhor duas
ênfases de melodia como se disséssemos sempre
um píer não é uma margem um píer é o ponto
de ver o estuário de esperar o espalhafato
com que a água ameaça a membrana que é este domingo um posto
de observação onde a ideia de arbítrio extingue os procedimentos
familiares a esta cama e você se torna fantasmagórico com sua espessura tão
diferente da minha já que estou só
com esse coágulo na mão uma substância órfã que aninho enquanto
temo o viço da verdade a mentira que não se insinua apenas passa
em sua marcha secreta um novo ponto agora talvez mais claro
não o coágulo em si só outra fruta
inútil apodrecendo na correnteza

***

Roteiro

O vaivém das galés contracenando com os diques
A emboscada da neve ao redor das vidraças
As nervuras da pedra
que enregelam o olho da atriz
– Essencial mesmo é o cenário
onde tudo acontece
foi o que ele nos disse
antes de partir

Arranje um lugar
para que o salto das feras
fuja aos radares
Para que as escarpas acobertem
a possibilidade do crime
– A cidade, muito ao longe
apenas reluz

Para contar uma história
uma savana
deve parecer um insulto:
arvoredos esparsos
sob o risco constante de incêndio
O incômodo do barro contrastando
com a arruaça da topografia

Uma nevasca
é sempre um bom começo
Por detrás da janela há uma garota
mordiscando o próprio coração
Um bicho dorme, uma tevê
silencia. A paisagem inibe os loops

Ou um lugar conveniente pode ser apenas
massa de negrume condensado
Um buraco no meio da testa
Uma angra escura
onde a sujeira
se enrodilha à superfície
e o herói morre
num tenebroso accidente

………………………………

 Pretexto

o olho da rua é seco, sarcástico
do mesmo gênero das abotoaduras
e toucadores

de tudo resta sempre o seu mistério virgem
a beleza de íris os ares encardidos a córnea
tal qual um diadema espavorido
sobre nossas cabeças

então ele cruzou a pista sem qualquer melancolia
e travou o zíper sobre a pele

publicado na Inimigo Rumor 17


Punção

campanários. isso sim é uma casa
não aqui
onde os objetos sequer conspiram
onde a pele não se reconhece pele
e não se engendra cápsula de outra cápsula
posse de um único mistério
com seu agravo inabalável. uma casa

requer formas como dormideiras
que se recolham à carícia quando todas as carícias
são íntimas é tão surrado reconhecer
nas paredes que a única propriedade possível
é a fuga e mais ainda o sono profundo e
que sobretudo os mais elaborados sinais de chuva
não passam de sentinelas
resfolegando seu passo de partida

esta casa
não é minha: não se alcança daqui o brejo
afetuoso ao fundo de todas as coisas
não se vê o fosso
translúcido extorquindo das frestas
as esquadrias

tampouco há cantigas
emudecedoras
quando as horas se constrangem ao toque
ou ao contato do antebraço
com o repuxo invisível do acrílico

nesta casa
(assim como em todas as outras)
só resiste a ânsia de um veneno
afogado
em seu desleixo por lãs e puxadores
um veneno tão debilitado e circunstante
inabitável
quanto a certeza de que há ainda
no mundo tanto tremor
por tão pouca terra

publicado na Inimigo Rumor 18



av. brasil

o que se salva aqui são apenas
os elementos construtivos:
condutores singelos
traço um para três
cornija

uma secura de mão doente
essa carne nunca sabe
o que é degradado e o que é
desterro
mas impenitentes as platibandas
arregaçam
o que reluz: intempéries
tomadas de assalto
pela ferocidade branca
de um clique

publicado na Poesia Sempre 20
…………………………………………

(Recollidos por Ricardo Domeneck no seu blog Rocirdra Demencock)

a estrutura íntima das horas


Acontece apenas no mar
de concreto protendido à beira
da estrada e apenas quando a estrada
tem algo de fogo
ensurdecedor:

um lagarto, osso
de candura, rompe
a respiração da tarde, penetra
em todas as substâncias — as rochosas
e as celestes, os líquidos escuros e
sua pantomima de espelhos

Enquanto tudo ao seu redor é ênfase
(profusão de tecidos
lancinantes),
o seu avesso
é puro vidro
ardoroso: quer partir
entreabrir-se em sulcos
lentos, desdobráveis

Você, ao volante, não percebe
mas isso tudo é como nós dois,
na Cinelândia, às cinco horas
de uma tarde de verão, com uma
caixa de alfajores e vontade de café, quando
há no ar algo de concha,
estiramento, zona cega: a experiência
do precipício


§

enseada

o ipê é como um ferro ele disse
as unhas pensas
no ardume da anunciação

sobre o rochedo
as têmporas afogueadas e o flagrante
da mandíbula irreparável do fim
da tarde (hóstia
em terracota)

nessa praia
as ondas enevoadas arrebentam o branco
……………………os barcos
desabotoam a precisão das linhas
…………e as ilhotas, desgrenhadas
…………atracam visgos de luz

…….aqui, onde

a barbárie já nasce seca
…………….em seus olhos
…………………….

propriedade

como artifícios temos apenas as asperezas
a corpulência cabível em pavios desfigurados
ou os 28 dias necessários
para que se cure
o concreto

carregamos
nas extremidades fissuras
irreparáveis
e, nos olhos,
a cor mirabolante dos abatedouros

mesmo assim

as corredeiras
as sirenes os personagens
estão ao seu dispor

e ainda esse aguaceiro

onde o entreaberto é uma doçura
de tão fundo



§


reta

um carro de praça como uma jaula
água
da qual preciso
para partir. vê-lo — homem
……………………embalsamável —
…….encouraçado pelas grades em flor
faro
na alameda escura
a dizer: aqui jaz
um coração abominável um
álibi amantíssimo
para essas dores
do desejo
……………………partir
…..exige animais vivos (o sangue
…………….secreto
………de uma ave noturna)
enquanto o ar reclama
as singraduras
de uma música
meramente informativa



§


armazéns


seria apenas a ausência impertinente de arredores
ou sua respiração de treva que oscila e foge
por debaixo da porta (a beleza
inteiramente desamparada)? mas este
cais de porto
é, de fato, uma chave.
suas nervuras e estalos
como fábulas
úmidas. (os agentes narrativos são incapazes
de identificar a estiagem
e o sinal dos tempos
nas amuradas). e ainda esta dor
selvagem ancorada às turbinas e granéis
ao maquinário rasgado em itinerários
de vapores e conspirações. a meticulosa
delicadeza da noite entregue
toda ao gesto de içar: originalíssimo
e escravo das circunstâncias.
(neste instante você segura a minha mão
e a põe contra o peito, temendo
a face invisível das embarcações) a água
que cresce como um germe negro ao redor, como
um calafrio inédito um
verbo inédito uma
presença quebradiça.
(mas o que é quebradiço
está morto? ou reverbera apenas
as manchas quentes de sangue no carpete?) você me diz
que sobre toda música incide uma renúncia
e mesmo este apito e enquanto diz
o horizonte reconhecível
assola de frios a linguagem
(é preciso, no entanto, reconhecê-lo em surdina
como se reconhecem nos álcoois
as rajadas de acalanto)



§


poética

o que é ferruginoso nunca será
corrosivo. quantas ideias
podem perturbar
esse lago sem vento? frutas
………….na superfície
em desacato
à delicadeza vamos
embora daqui você disse
….não
ainda há reparos a fazer, ainda
o lobo
que habita o fosso do poema
………………veja:
se contraio os joelhos
contra o coração
crio uma ponte
imprescindível — uma emboscada
para feras de graus variados, por isso
………….insisto
………….o ineditismo só cabe
……………….no factual, este alagadiço
ter em casa um corpo
tão sentimental a ruir
………dificulta amplamente
…..a execução das tarefas
………………respire:
….ar pródigo de terror
………….agora sim
………vamos
deixar escancarada
…….a cena do crime
— sulco escarlate
entre as pedrarias


§


fevereiro


Não seria mais possível o requinte do aço
escovado a tristeza mais ordinária a espessura
de um fôlego o atrito
…..¾ borracha irreversível ¾
…..Mas seria possível que
…..tendendo ao imagético manchado de
…..ruiva contemplação a manhã
ainda crispada de brechas

(uma oratória
imediatamente predisposta
ao rigor dos acontecimentos)

trouxesse as mãos em concha o sal
entredentes e uma vertigem
à qual se pressentisse a lógica desmesurada a tênue
miopia pousada no ombro tal qual uma fera
aspergindo o soro primeiro a fruta infindável a sede
que não tem mais para onde ir

……………………

Limite ( en Inimigo Rumor)


Sebe é um acúmulo de varas entretecidas
cerceando
por vezes sim por vezes não

eu sei
do esforço para persuadir
naturezas terríveis

simultaneamente
à graça dos perímetros
que permanecem estanques

(a dor de coabitar
tanto as frinchas quanto os
confinamentos)

Quando rarefeitos, os movimentos
aguardam mais do que a conclusão, preferem
o desdém e o resguardo
ou mesmo esse estalido
(um arquejo)
embalado
pelo embaraço hipnótico
das pequenas sombras

Somente as ventanias são de fato enamoradas
e apenas nelas alijam-se
as imundícias mais profundas

como somente os ramos
estraçalham-se e engravidam-se
num único carretel de músculos em escombros

(um aparelho de tensões
alimentado pelo ritmo
dos sumidouros)

………………………..

av. Brasil ( en Poesía sempre)

o que se salva aqui são apenas
os elementos construtivos:
condutores singelos
traço um para três
cornija

uma secura de mão doente
essa carne nunca sabe
o que é degradado e o que é
desterro
mas impenitentes as platibandas
arregaçam
o que reluz: intempéries
tomadas de assalto
pela ferocidade branca
de um clique

…………………….

ladeira da glória
Juliana Krapp


ele se erige como um pergaminho
em aliciante embaçamento
fazendo supor
que toda água já nasce escaldante
e, ainda assim, vibra,
a marteladas

hoje acordei
embalada por imperativos. mas foi ele quem inventou
esse cansaço labiríntico

e me trouxe aqui, com
a boca inflamada pela pressa
nos dentes, uma certa apreensão
— não por mordidas, mas por hálitos
categóricos

nele a ossatura se escancara a ponto de romper
com um estrondo a própria voz
e seu olhar apenas lembra
dobradiças, rosetas
cremones
e toda a sorte
de ferragens maliciosas

mas
entre nós estariam encerrados os dilemas
e as alíquotas
caso não houvesse
no trajeto do plano-
elevado que leva a essa igreja
imaculada de tão breve (pavimentos tristes,
vidros urgentes)
um esgotamento
ávido por pontas
desenraizado de cálculos
fortuitamente lançado sobre a baía

…………………………….

in natura


chegou a hora da prestação de contas:
às apalpadelas, de cor, ligeiro
gomo de amianto um tigre
dentro de um quadrado

à discreta contração de lábios não temos
sequer lastro de linguagem sequer
réplica e sua pouca carniça
— ao fundo só o desejo de orquidários
e uma perturbação de pernas

traiçoeira: uma única versão
que não fareje em seu reverso um último
recurso para a assepsia
mortal — rente aos pés a fabriqueta
formula estilhaços de atalhos presa
escandinava os olhos torpes e somente
o veludo cinza adentro do rasgo
do nome — es

…………………………

(en IHU)

Uma voz interior
que dissesse: as amuradas, as inundações
Não sei se a quero ou se ela apenas desliza
rumo às placas tectônicas
não em off, mas
desmesurada

Seu destino
é habitar o fosso
onde o capim cresce e esperneiam
os monstros sinuosos (também deles
é o mundo)

Uma voz interior
e seu coração de lata: última bala
na agulha

…………………………….

Pretexto

o olho da rua é seco, sarcástico

do mesmo gênero das abotoaduras

e toucadores

de tudo resta sempre o seu mistério virgem

a beleza de íris os ares encardidos a córnea

tal qual um diadema espavorido

sobre nossas cabeças

então ele cruzou a pista sem qualquer melancolia

e travou o zíper sobre a pele  

………………………….

Falácia

Você falou que gostava dos nomes que parecem interrompidos
Conrad, Murdoc
Eu disse sic. Não atenda, por favor.
O céu não entende de marte, mas você disse
e marte ficou estranha, um olhinho exasperado
enciclopédico
como o sexo que fizemos depois. De certa forma precoce,
ficou revoando no papel pardo da janela
até encontrar uma fissura — toda vidro, toda alhures

Você falou plâncton, lítio (rocha sedenta)
árduos assassinos de aluguel espreitando nas masmorras
e, num murmúrio: “treliças”
“orquídeas”
arrebite
para que se ache um ponto de fuga, um ósculo rude
boca vulva narinas — orifícios de luxo
espiando de soslaio fluxos
de palavras novas
e líquidos pela metade.
Você falou alcagüete
e adormeceu com a mão um pouco trêmula sobre a minha perna

(recollidos por Antonio miranda)

………………………..

Subúrbio

pedaço de pau réstia

ante o arame farpado

barras de ferro cabo de vassoura

com um preservativo na ponta

o vasinho de poá a tessitura

arandelas iluminando buganvílias cheiro

de esgoto no corredor estreito um remanso

por detrás do portão

sempre um casal

em flagrante ele molha o dedo

nela o chinelo esturricado concreto nu

amiantos e secura gatos

elétricos ninhos

de fiação borracha queimada tanta alvenaria

atiçando o barro de onde viemos alameda

repleta de empecilhos às vezes

abre-se ao langor às vezes

cápsulas

amanhecem entre as folhagens

às vezes carne

do mundo impõe pipas:

coroação e prumo

ardências que irrompem

e proliferam

( este en Uma pausa na luta)

Aquí podedes vela e escoitala recitando (os poemas están recollidos na selecta)

RECUPERAR LITERATURA: NÓS-DENTRO DE  Eduardo Estévez

Tïtulo: Nós-dentro

Autor: Eduardo Estévez

Editorial: Galaxia

Desde hoxe vou ir recupersando títulos cuxa lectura a atención á actualidade me fixo pospoñer, ou simplemente ficaron esquecidos debaixo do monte de novidades que chegaban á miña casa. Este, o do poemario de Eduardo Estévez, é un caso. Sempre me doe cando pasa isto, afánome en ler mais sempre hai títulos que me quedan fóra por estas razóns ou outras.

                     O poemario que hoxe escollín, curiosamente vén moi a conto despois de ler o poemario de Carlos Lema Álbum da cuarta dimensión. Vén moi a conto porque nos dous poemarios se tematiza a visión do exterior (aquí, a “casa” volve estar presente) desde unha introspección que demostra madureza poética e foxe do sentimentalismo vacuo. Poderíanse establecer máis conexións, porén non é o noso obxectivo escribir unha crónica comparativa.

                     O primeiro en que hai que fixarse é no título. Nese guión entre “nós” e “dentro”. Porque resulta moi revelador e útil. Ese guión, ese trazo, non supón confrontación ou oposición. Pola contra, supón unión, moitas veces este é un procedemento primario na composión de palabras novas. Aquí non se chega a tanto, mais é significativo porque nos indica cara unha introspección que  é obxectivo do poemario e da cal, adiantámolo, tamén forma parte o exterior, a realidade exterior que a voz poética “vive” ou “ve” ou “contempla”. E aínda hai outra cousa que non pode pasar por alto. “Nós”. Eduardo Estévez foxe do “eu” poético, tantas veces se ten acusado á poesía de proporcionar visións líricas individuais…Ademais de que resulta moito máis elegante usar o plural, deste xeito o autor consegue que a voz poética se inclúa nunha pluralidade que contradí visións individuais, ademais de ser unha estratexia que tamén inclúe a quen le, de xeito que se poida ver reflectido na discursividade reflexiva do poema. Discursividade reflexiva poética, porque o poemario achega un universo poético no que existe reflexión ademais dunha visión poética ou lírica que, como dixemos, está exenta de sentimentaslismo barato, non de sentimento. E hai que ter en conta que esa reflexión non só se produce na discursividade poética.Tamén desde ela, desde a visón poética, se proporcionan epifanías, os elementos necesario para que quen le reflexione. Algo fundamental. Non é poesía espectáculo. Aliás, disto falando, non cómpre esquecer que a voz poética se desdobra á veces, para desta maneira acadar unha visión perspectivesca dese a cal focalizar mellor o tema; ou xa non só o tema, senón a propia posición da voz poética á hora da introspección, introspección na que é fundamental o “mundo exterior” á propia voz poética. Porque non vivimos no ar, sempre estamos inseridos nun contexto material, natural ou humano. E ese contexto resulta fundamental  á hora de explicar-nos, explicar-nós.

                     O mundo exterior, o mundo de fóra é moitas veces o mundo do cotián doméstico, da casa, ao que tamén chegan ecos da propia rúa – o poemario comeza precisamente referíndose ao “camión do lixo”- que fan parte da nosa vida. E tamén é necesario constatar a presenza dun “ti” acompañante, non se establece necesariamente diálogo con ese “ti”; diálogo, non, aínda que @ “ti” sexa persoa á que se refiren os pensamentos da voz poética. Pois ben, desde o mundo “casa”, extensibel ao mundo do “íntimo” (realidade exterior que forma parte do íntimo, por exemplo: unha visita ao cinema), téntase explicar o mundo, un mundo que tampouco vai ser moi diferente ao que vive quen le, porque as experiencias vividas pola voz poética non son moi disímiles das de quen le. Ás veces, esa contemplación do contexto material leva á conclusión de que “as cousas pasan pouco” e mesmo á contemplación do pasado como “cousa allea” e inclusive a definición fo futuro “como lugar de paso”. Porque todo é “tan efémero” que esa mesma vertixe (palabra fundamental) afecta á fraxilidade da beleza. Precisamente a beleza ( en forma natural, plantas, por sinal; en forma material, a decoración da casa, por sinal; en forma artítica, a poesía, a pintura, as artes…por sinal) é un elemento do que non só non se prescinde senón que concorre no poemario en foma diversa, como xa vimos.

                     Evidentemente, ao xogar cunha realidade fuxidía (porque a realidade sempre é fuxidía) é posíbel que se produzan equívocos, mais tamén é posíbel que a visión poética atope “sutilezas” que sempre serán ben acollidas. A condición da “realidade fuxidía”, efémera, tamén remata ocasinando que a voz poética se sinta paralizada, cousa que fica claro cando as mesmas plantas toman decisións, cousa que non fai a voz poética. E desde esta parálise, que a voz poética se sinta como unha peza dun “puzzle” máis, non debe estrañar; e que esta quietude, a carón da vetixe propia do paso do tempo, leve á “tolemia” tampouco debe estrañar. En realidade, o mundo da estrañización, non é un obxectivo (dado o contexto en que se nos sitúa) mais si un logro poético porque consegue que quen lea vexa as cousas doutra maneira. E por iso resulta impagábel a literatura, e a poesía en particular, porque nos permiten ver a vida con  outros ollos.

                     Especialmente interesantes me pareceron as reflexións/conclusións metapoéticas. Nisto, non se pode esquecer que o poemario remata así:

pero somos simplemente nós

na serenidade de sabernos

a salvo en cada verso

                     Por fin un refuxio seguro que nos salve do “abismo” da vertixe do paso do tempo. Vertixe, por moito que a erosión temporal se manifeste paseniño nas cousas, ás veces producindo unha “tristeza preciosa” moi sintomática. E non quero rematar sen mencionar un dos nomes importantes na poética de Eduardo Estévez e ao cal se refire no poemario como “celso”. Trátase de Celso Fernández Sanmartín, cuxa visión do “mundo” ten influído moito na perspectiva de Eduardo Estévez.

ASDO.: Xosé M. Eyré

(Agora, como sempre para IAP, van dous dos poemas que máis me impactaron)

O pintor sabe

que na cor de cada obxecto

hai multitude de matices

en vez de trazar a fugura

son esas variacións

as que a integran no contorno

as palabras no poema

aparentan privadas desa vaguidade

porque a palabra nomea

define

os tons do poema

quizais estean no encontro casual

ou na sorpresa

……………………………………………

o testo coa hedra

está colgado agora

diante da ventá

e as pólas que penden

ás veces mudan de dirección

e procuran regresar ao alto

as pólas do ficus

medran en horizontal

cando eu esperaba que apuntasen

cara arriba

é o bonito das platas da sala

que toman decisións

crítica de NON FALES O QUE NON DEBES, de Luís Manuel García Mañá

CAENDO NO MUNDO DAS MAFIAS

Título: Non fales o que non debes

Autor: Luís Manuel García Mañá

Editorial: Xerais

Non son moitos os títulos da nosa narativa actual que tematizan as mafias. Quen máis convencidamente o fixo foi Carlos G. Reigosa ( A guerra do tabaco, Narcos…) nunha tentaiva de dotar á novela negra de formato propio e distintivo, iniciativa de Xerais que infortunadamente non prosperou. Por iso, se cadra, a mellor maneira de comezar falando de Non fales o que non debes, a última de Luís Manuel Gracía Mañá, é comentando a súa relación co xénero negro. Moitas veces téñense como materia temática da novela negra “os baixos fondos” da criminalidade. Equivocadamente. Na actualidade son precisamente personaxes e escenarios luxosos os que mellor identifican un mundo delictivo que se volveu sofisticado nas súas formas e moito máis perigoso socialmente falando. Tamén aí houbo certa perda de humanidade/humanismo nas personaxes, pois esta era máis visíbel nas camadas delictuosas baixas do que é nas “altas esfera”. Senón compróbeno nesta novela.

                     Porque si, estamos a falar dunha novela negra ao modo actual. Luís Manuel García Mañá retrata na súa novela as mafias internacionais (contrabando de droga, contrabando de armas, especulación urbanística, lavado de divisas) e como estas extorsionan membros relevantes da sociedade utilizando métodos nos cales as vítimas descoñecen que poden ser precisamente iso, vítimas de extorsión. Tal, é o que acontece en Non fales o que non debes, onde un maxistrado é convidado a un xantar de sete estralos na compaña dun concelleiro e dúas misteriosas personaxes, presentadas como amigos do concelleiro, coas que o fotografarán despois do xantar e dos correspondentes “dixestivos” e copas. Evidentemente, o perigo de extorsión, de chantaxe, está aí, cando se desvelen as actividades dun dos “amigos” do concelleiro. Mais o rol principal do maxistrado na novela é outro.

                     O maxistrado en cuestión suicídase. E é desde a súa cualidade de ser incorpóreo que ten unha liberdade total para contarnos a súa historia particular e o entramado mafioso en que se ve envolto. Igual que fixera Castelao en Un ollo de vidro (citado na mesma novela, cousa que convén lembrar), o maxistrado vainos ir contando, iso si, aquí non existe ningún afán satírico, non hai ironía, non hai humor. En principio, el é un dos narradores, despois convertirase en único. O outro é un narador en terceira persoa omnisciente que conta como un xornalista ( que publica baixo o pesudo “Vagalume”) dá en investigar o tamén suicidio do concelleiro antes mentado e vai xuntando cabos para descubrir o entramado mafioso que está detrás.

                     Aquí, nesta personaxe de “Vagalume”, cómpre deterse un intre. “Vagalume” é un xornalista insubornábel, libre, que leva unha vida de falsa bohemia. Falsa bohemia porque non resulta difícil asimilar o seu modo de vida á bohemia, porén, o que fai é reflectir o modo de vida dos xornalistas nos nosos días, dos xornalistas que non se deixan comprar polo capital e malviven malpagados, cousa que si fan os medios de comunicación e que condiciona absolutamente para que estes medios só conten “ a verdade que lle interesa ao capital”. Hai aquí un enforntamento entre ricos (as mafias, os políticos) e pobres (o xornalista) que non debe pasar por alto, e, no cal enfrontamento é o pobre xornalista quen se identifica coa noción do “ben” mentres os mafiosos e políticos son o “o mal”.

                     Xa dixemos que chega un momento onde o maxistrado se erixe en único e omniscinte (na súa calidade incorpórea) narrador. E como tal ten que dar conta de como esas mafias, aliadas con políticos, tamén “traballan” a corrupción urbanística mediante e recualificación de terreos rústicos a urbanizábeis. Neste momento, cando o relato se move nos parámetros económicos, a trama perde un chisco de intensidade, vólvese menos concreta. Polo demais, esta novela, que estaba chamada a ser unha das estrelas da primavera pasada, as circunstancias sociais que estamos vivindo pola covid-19 fan que sexa, sen dúbida, unha das estrelas novelísticas deste outono e deste Nadal.

                     Luís Manuel García Mañá consegue unha aliaxe entre novela realista e novela negra que funciona ben. Ollo que dixemos “novela realista”, porque non cabe dúbida de que tramas con este tipo de corrupcións e extrosións son ben reais, tanto que xa pouco nos inmutamos cando nos chega a noticia. Por iso, novelas como esta son imprescindíbeis á hora de cocienciar á sociedade da gravidade deste tipo de actos.

ASDO.: Xosé M. Eyré

Maíra Mendes Galvão: a ollada das mil formas da poesía.

Maíra Mendes Galvão (1981, Brasília) é nome que esta semana escollín para divulgar a súa poesía. Traballa facendo traducións e vive creando poesía. Como para case tod@ poetas, a poesía é para elas/eles un acto esporádico mais. Como tod@s vive de outra actividade. Neste caso a tradución, e é significativo. É significativo porque, tanto na profesión (tradutora) como na vocación (poeta) traballa con palabras. Non sei se na súa profesión interfire/interferiu alguna vez a experiencia poética, mais si podo dicir que na súa vocación poética a palabra ten un lugar absolutamente central.

Maíra Mendes Galvão, polo que sei, leva publicado a plaquette nove poemas de mau gosto (2018, xa o título chama para unha lectura indispensábel), o poemario jamanta na testa (2019) e deixou poemas seus en moitas revistas ( ruído manifestocasuloescamandroparêntesesgazeta de poesia inéditaasymptote, entre outras), participou tamén na antoloxía Uma alegría estilhaçada (organizada por Gustavo Silveira Ribeiro).

Non é moita produción, mais si a suficiente para certificar a súa calidade como poeta.

Coida moito a forma sonora da palabra poética (formou dúo performance con Jeanne Callegari). E a poesía para ela é unha revelación. E como tal revelación pode chegar en calquera momento. Revelación, a isto antes chamábaselle inspiración ou o alento da musa, mais é preferíbel a palabra revelación, é mais xusta, máis reveladora, máis exacta e significante.

E traballa tamén con moita intensidade e fortuna a forma poética, a forma das palabras no poema, a forma dos versos, a forma dos poemas. O cal, unido a un espírito curioso e a unha ollada que se manifesta tanto para dentro (introspección) com para fóra (extrospección), sente, repara e áchase inquerida pola realidade, e a unha humildade (que eu moito estimo porque di moito da persoa) que leva a poñer por diante a obra antes que o propio currículo ( comproben na súa páxina web; existe, e completo, mais só no remate e non moi explícito. Anecdótico?, non creo. Casual?, pode ser mais non deixa de ser significativo).

O resultado é unha poesía moi traballada na forma, unha poesía formalmente moi variada (como poderán comprobar na selecta que virá despois) que tanto se expresa na distancia longa como no poema curto (acho aí certa concomitancia co concretismo) e que tanto acolle temáticas trascendentes como outras que parecen relativas ao mundo do obvio, da realidade máis insubstancial , mais que ela consegue facer interesante e mesmo excepcional (e ácholle aí certo parecido coa mellor Clarice Lispector).

Mais a poesía comeza pola palabra, e Maíra traballa fondamente con ela, crea palabras novas, neoloxismos, xoga con contrastes, coa solidariedade léxica (que pode ser sorpesiva), escribe en varias linguas, dá entrada a vocabulario foráneo e otras veces pouco frecuente na linguaxe poética…Procura a dimensión exacta da palabra no verso (filosofía concretista, acho eu), do verso no poema…E pode observarse aí certo espírito lúdico. Haino, sen dúbida, é a parte lúdica da poesía. Mais a poesía é moito máis que iso, iso só é un instrumento á hora de crear, e crear coidando non repetirse ou repetirse o mínimo imprescindíbel. E iso é audacia. Maíra é unha poeta moi audaz, moi audaz.

Tendo en conta isto e que a discursividade poética ás veces parece tamén festiva, desenfadada, podemos chegar á conclusión de que o espírito lúdico o é en exceso. Nada máis lonxe da realidade. Pola contra independientemente do tema é unha poeta que sabe volver interesante calquera tema que trate, que sabe procurar moi ben a epifanía que a todo poema debe acompañar.

Sen dúbida, unha das voces máis interesantes e persoais da actual poesía bresileira. Sen dúbida, un nome moi a ter en conta no futuro das letras brasileiras e (compróbeno na súa web) tamén escribe ben en prosa.

Maíra Mendes Galvão, téñano en conta sempre.

Quizá pareza que non ten que ver coa poesía, referímonos á gastronomía, que tanto ama, mais eu estou convencido de que non é así.

Como sempre, aquí deixo o seu Facebook , no que sempre atoparán cousas interesantes.

A seguir, a selecta da súa poesía. No remate, ligazóns para poder escoitala.

scintilla animae

não ter a gravidade de duas patacas

que atingem o piso e tilintam

ter a gravidade sim de um crânio

plumbum,! ponderoso gongo

cujo grau de dureza veio do

crescimento endógeno do tempo

entremeando-se dobras sobre dobras

nos regos e axilas das curvas

dos 2 polos que mal sabem de suas

encruzilhadas nomeadas teimosamente

como relações de acesso

entrepostos de mundos possíveis

cancros de teoremas que são

agonia dialogia tritonia

ou broma rastelada de fulcro

do castelo da arcada de sonho

diaconisas em santidade forjada

bigorna sobre meu coro

enquanto imagem dobrada

como desdobrar os urros

de um desejo esquecido

dos pinotes avizinhados

selo grande, revém têmpera

alma grossa de ossatura

dos ritmos sincopados

disto que se diz fêmea

está tudo demasiado opaco

está tudo finalmente

finalmente enganado

*

misnOmer

my O

wn O

spooling out

of my O

wn control

presti

digitate

O it seems

so

at the edge

the hinge

so fallow

but NO

aint no

thing mo

tutored and

tailored and

trained than

this tumored O

way

way

too

moored on my own

mired and unknown

stessosessononésucesso

tisminetho

myomine

outinside

spoolingmine

*

ersatzspielerin

teimo em não acender a luz, encalhada

sem saber se quem – eu ou o mundo

é suplente de algo primevo

se o que existe é a tensão ou

degrau de recursividade.

o violento da memória é a retenção do vazio.

penso em palavras multiportantes, como não me escapa fazer:

merimnologia, ou: considerar é arder.

mermeridade, ou: ansiar é condenar-se.

metameridade, ou: a parte pelo todo.

palavras me procuram, procuram a nós

porque as salvamos de um desígnio adjunto

nos lançamos aos fins da tensão.

me vejo merócrina, exocito

e a elas entrego

qual impostora estertorada

o grau primeiro das coisas.

*

saponificação/permanência

“we met with a fat concretion where the nitre of the earth

and the salt and lixivious liquor of the body had coagulated large lumps of fat

into the consistence of the hardest castile-soap: whereof part remaineth with us”

(sir thomas browne, in hydriotaphia, urn burial, 1658)

o ar que o insufla o ser humano carrega a doença congênita de sua condição.

o cadáver sem oxigenação antes identificado com o indivíduo se transforma em artefato (de fatura involuntária).

como operar transfiguração voluntária da condição crônica extracorpórea de ser humano (em vida)?

eis uma taxonomia especulativa de solução mítica de criação por esgotamento

precedida do teorema estabelecido negativamente <o ser n-humano não é carismático>

derivado de axioma hipotético da condição do ser humano em termos de contiguidade:

o ser satânico: ser humano in extremis, liberto em quase tudo, todavia assintótico

o ser bestial: sub-humano, porém espelho das vergonhas do humano

o ser celestial: supra-humano, carne de espuma e soberba, tem sobrevida mercurial e não resiste ao exame

o ser monstruoso: realização de desejo de reorganização de partes humanas, fruto do tédio (e nada mais humano)

o ser para-humano: definido enquanto duplo acessório

o ser mais-do-que-humano: é a premissa derivada da conclusão

o ser não-humano: sua preparação se faz na tábua de corte e não no crisol

quod non erat demonstrandum: algo permanece, ainda que escorregadio.

…………………………………

…………………………………………………

o que as mulheres fazem aos domingos?

as mulheres
como nós
ocultas
aos domingos

vadiam

o quanto podem
a qualquer hora

e sozinhas

conjuram demônios

se despem das peles

furam bonecos

viram sirenas

arpejam

arrastam móveis

afiam facas

desaparelham-se

criam olhos no rabo.

as mulheres
ocultas
aos domingos
como nós

têm um duplo
que sorri

e conversa

e cozinha

e afaga

e se esquece

enquanto
a outra

bebe
sôfrega
da fonte
da imortalidade.

………………………………..

resumo do figo

segundo me apareceu um francisco, em des-língua:

um figo, ao se mover, cada vez mais se encarna.
o moto permite, assim, ao figo, que se materialize quanto mais é lavrado.
o moto engoliu a flor querendo ser figo.

nem mimosa nem mimese, re-sumada, posta em movimento, ressuscita, a-sumo.
recorpórea e des-frutada, em passos recursivos, des-comida, re-saboreada.

assim a metapalavra figo, conforme des-disse francisco.

[um poema ecfrástico para ponge]

……………………………………………..

acuidade vulnácula

fibromiasma no lugar de leito
a cabeça de penas e lacunas
um aperto nas conas – a de nervo e a de sangue
– melindroso fez visita
impromptuosa
lancina ancora cona-píncara
e retorna, anacruz.

…………………………….

a jazida da minha cabeça

na terra cinábrica
ou descorada de sonho
me vi órbitas afora
já morta:
cabeça autodecepada.

os cabelos entremeando a superfície
desenhavam o solo como lava,
a jaca ainda tenra,
glaucas bilas opalescentes;
eu via, olhava fixo, sabia
ser a legomena assassina
a executora da degola
a híbris desvairando arremedada
em cálculos e amolações.

e, examinando, tentava engenhar
o escape e como acordar
com aquele agora eterno
metal na língua
lingote grosso

apuro rômbico e
todavia embuçado
nas meias-tintas da vigília.

viva e morta adejam:
hagia-hetaira-daemonia
aristi cthonia-megara

§

the dream is always the same

pelo olhar sensível de gael, anita foi registrada
ao sorver seu remédio urbano, uma panaceia
de talos nutridos em gosma atmosférica
da dedigrisa pauliceia desvairada

simulacro bem efeito e postado
ante o brilho de coreografado reboliço
de dedos glissantes e stacattos
o par ex-sedento caiu na trombada

no que a chôcha vontade degringolava
e se quase cantava batalha gorada
gael cuidava de martelar o pino
na prenda rosa-médio cada vez mais baça

anita lhe dizia, sem fogo nas bilas vagas
que uma diezira tremenda lhe acometia
ao superlotar-se a polpa sanga
de estandartes fincados em várzea

gael, já morto no banhado
– o coco esbagaçado –
queixou-se de cafubira baita
e baliu: não sei de nada!!!

REPORT THIS AD

§

astsu

de membro inferior lançando o início
palavra primícia deposta do centro

estação da ressonância – seme
fórmula como criança de forma feita

invocação propínqua ao silogismo
carrega a letra para os sentidos

estação da abundância – ceva
conservação de posição recíproca

K-metonímico (árvore da senciência)
de frutos necessários e cômodos, mas alheios

octanagem de operação corrente
ka se investe de pluma e cilício

eu tinha bá nos dias da turgência
e mucura na soleira da língua

hapi, autóctone prelado, envia-me cá
nos dias da branca tinta

écfrase-homenagem ao “ka” de khlebníkov traduzido e comentado por aurora bernardini

§

tempos bicudos

lip
lab
lang
langue
linguagem
láparo
long
lab
lip

bo
bo
boca
balal
bela
ba
ba

sim
safa
sofia
safadita
sofis
safo
sim

§

quem, além de f.?

não adivinhar as linhas mas entrar no contratempo da cabeça de f.
esperar por f. e não perceber a mosca que pousa no lábio
pensar na morte, beliscar os seios e f. não constar
escalar a híbris de escalar o complexo de f.
e cair da cabeça de f. sem ver o cume
na mão aberta de f. se tornar míope
no antebraço de f. ser projétil
nem pelo nariz enquadrar f.
sugar a meia-frase de f.
esconder de f.
as outras
letras
de
f.

§

estio

o senicídio de mara lago e milly ciano

atesto par
canhestro
coaxial batráquio
polemodáctilo
duo de nada
em co-couraça
violácea
co-emergente
(canibal antiantropofágico)
em festa
refestela-se
penistilência
paira no ar

pós chisteculação
orocorporal
desbarranco
a drupa engelhada
reverto par atesto
ex-patifes
munha no calhau

pano de boca
babau

……………………………..

belletriz transfigurada

eu vou nascer feliz numa cidade futura

eu sei atravessar as fronteiras das coisas

mário cesariny de vasconcelos in o jovem mágico

vou surgir pulsando

das curvas do teu pescoço

e hoje quebro teu osso

é hoje que te dou pernada

não de pinça

de balestrada

pra te emborcar as bolas

pois é agora

que abro também tua jaca

e desdobro uma por uma

as tuas ideias plissadas

hoje eu vou te concutir

e depois ainda passo um arado

na tua roça de cicatriz

vou te deixar terraplano

desengelhar teu bornal

te martelar o bife dos quartos

despilorar a mucosa crispada

pois toma-te-lhe, ó fona

tralhoto gorado

vou te desconcavar os písceos

é hoje que quebro teu osso.

(antoloxía simultáneos pulando)

…………………………………….

Cristalografia

no crisol, cristalogia que intento acumular
é o avistado que se embrenha e transforma
nas cristas e crenelagens, grisol.
o zênite se espraia e, de gris, tinge
de vez, o todo pré-maduro,
sustentando o suspenso sem fim,
adiando a mundos, afora de resolução,
tateando em letras o vocovocífero
do verde de lastro e pedra.
dos limites das sombras e
de seu deslocamento, vejo,
em quase glaceada órbita,
toda a petrologia
e ignitude
em seus recônditos de cumes geminados,
pretenso planalto,
por isso vivente.
aceito, assim,
a topologia,
que, de rompante, iterativa me acompanha
e reconheço essa face das faces,
cresta em toda volta,
com intenção de ser infinda
crostalogia,
fundante assombração.

…………………………………………

(Despacho)

não existe nome vazio; se é vazio, não é nome.
a valência gera discurso, o que não se pode provar que é derivação.
a condição de verdade está não no nome mas no mundo real;
e, no mundo real, nome é artefato.
da ano(ni)mia, no entanto, não sai mundo
(real ou irreal) e nem a própria condição de verdade.
embala-nos ou embalsama-nos, portanto,
a madre nossa,
a paquidérmica
indexicabilidade.

…………………………….

cogito aversoado e sem poesia

exercitar o silêncio

não é calar

é ouvir sem atropelo.

bradam “sejamos mais racionais”

mas

qualquer razão que parte do empírico

jamais será QED perfeito.

e este mundo dos fatos:

  • fatos da práxis
  • fatos da psique
  • fatos das tripas

por mais atentamente que se lhe observe

nele um observador ainda é um só

observador.

não vejo muita coisa

menos racional

de que confluí-los:

um vai prevalecer

o de maior gravidade

assim cultuado

por tão pouco

por sua pelagem

pelos imponentes bagos

e por ser treinado para morder duro

alinhavar suas arengas e retóricas

com presunção de razoabilidade.

mas não é pra se acanhar.

se quiser, fale, articule, mas ouça.

se quiser mesmo derivar

a lógica de fatos,

come and see:

o axioma mais perfeito

para engatar arrazoado

será, para funcionar,

imperfeito:

algo qualquer que admita

que não se fala

com integridade

dos fatos

com a razão puramente.

………………………………………………..

Aquí poden escoitar poemas na voz da mesma Maíra.

especulación a redor do ÁLBUM DA CUARTA DIMENSIÓN, de Carlos Lema

Título: Album da cuarta dimensión

Autor: Carlos Lema

Editorial: Chan da Pólvora

Esta non vai ser unha crítica ao uso, como as que veño facendo, aínda que ultimamente non sigo unha estratexia definida cando se trata de poesía.

Así que, en realidade, esta é a crónica dunha lectura.

HOMENAXE CASA´

O poemario comeza con oito poemas escritos como homenaxe a Marta e Berta Paula González de Lema Malvar, e un a Xosé Monteagudo, a Xan Atanes (in memoriam), a Inma Otero e a Susana Roca (in memoriam). Desde o meu punto de vista é moi significativo que Carlos Lema sitúe precisamente no inicio estes poemas. Moitas veces van no remate, ou ciscados polo poemario, mais aquí están no inicio. E estes poemas teñen que ver co mundo dos afectos, dos afectos fondos, esa certidume. Certidume, palabra, concepto que vai ser moi importante no poemario, moito máis se vai ligada aos afectos, outra palabra importante, vital, porque a certidume dos afectos é o máis importante a que podemos aspirar nesta vida. E precisamente sobre o estado en que a vida nos deixou despois de tantos anos de vida/loita, vaise poetar neste libro de poesía madura, de poesía da madurez.

                     É a casa, o útero, o lugar de saída, o amparo nas adversidades e inclemencias, o refuxio, a seguranza, o descanso, a intimidade, mais tamén

A casa vira inútil                            ,

inzada de feblezas,

incomprendida pola intelixencia (9)

                     tamén a casa é lugar que produce ou no que se produce o  desasosego íntimo. E ímonos introducindo no clima que predominará no poemario.

                     Mais volvamos á casa, que xa aparece no primeiro poema e recunca despois porque é un concepto clave ao longo do poemario. Aínda que desasosegue, que enlode o ánimo, que vexamos como lugar onde repousan refugallos de pasado ou

 resquicios do inútil  (10)

as vedrañas deturpacións do vivido (15)

aqueles corpúsculos

dun nada vivente (17)

                     A casa tamén é lugar onde se reflicte a descomposición, sinal e testemuño do paso to tempo. Importante isto, porque nos sitúa outra volta: se o útero, o amparo nas adversidades e inclemencias, o refuxio, a seguranza…está así…de que maneira poderá senirse a voz poética? Hai que ler o poemario desde este punto de partida, un poemario que nestes poemas en homenaxe deixa algúns dos mellores textos do libro, ou máis sentidos. Sentidos. Deteñámonos tamén nesta palabra, importante, o sentir, o sentimento, iso que nos move e move o mundo. Porque o que imos ler despois abala entre a reflexión e o sentimento, fusinándoos na cuarta dimensión.

                     A cuarta dimensión: o poema.

                     A cuarta dimensión: o poema, a casa da palabra

                     A cuarta dimensión: o poema, a casa da palabra, o resultado do tempo.

                     O resultado do tempo. Velaí o tempo mensurábel, Chronos. Velaí o tempo como eternidade, Aión. Velaí o tempo como ocasión, Kairós

                     Esta é a cuarta dimensión. O poema. A palabra.

                     Esta é unha primeira conxectura, mais incompleta. De momento dixarémolo aí, despois contianurémola, porque, claro, quen non se preguntas cales son as outras tres dimensións? Posibilidades hai como herba nun prado.

ÁLBUM  do ÁLBUM DA CUARTA DIMENSIÓN

                     Se o poemario é un “álbum”, ese conxunto de poemas estruturado en tres partes (da primeira vimos de escribir), a nosa lectura tamén a concebimos como outro “álbum”, neste caso un “álbum” que contén aqueles versos, aquelas ideas, aquelas estrofas que nos mereceron destaque e fiarán a nosa lectura.

Ese monstro

chamado artista (30)

                     Velaí os dous prieiros versos do álbum, a certificar que o poemario non se pode ler sen ter en conta A montuosidade moderna, o último traballo da Carlos Lema e onde se chega á conclusión aquí explicitada, onde @ artista/creador(ra) é considerado como monstro debido á capacidade para alterar/modificar a percepción do real, do mundo. Non se perda de vista isto, mais non se esqueza que estamos na cuarta dimensión. A poesía.

as historias inacabadas

ou experiecias

táctiles da memoria   (33)

                     Seguimos na casa, sempre teremos esa sensación de poemario construído no medio da decadencia (que o paso do tempo fai inexorábel).

                     Alto. Un momento. Poesía. Decadencia. Como para deternos un chisco e meditar. Un aviso?

                     onde se escenifican as “historias inacabas”. Historias, o pasado materializado (na decadencia) é un mundo de historias. (Na decadencia), o que queda, o que aínda sobrevive, esas “experiencias táctiles da MEMORIA”. Salientamos a palabra memoria, explicitamente é a primeira vez que aparece, mais estará presente ao longo de todo o poemario

Nada desiste do vivido  (35)

                     porque é imposíbel. É imposíbel entender o ser humano se non ten memoria. Sexa esta un proceso interno afectivo-reflexivo propio, ou veña desencadeada pola contemplación (da decadencia) do externo.

O mito do abismo (36)

                     Á voz poética, nestas condicións, parece que lle é propia ou natural sentirse perdida. O sentimento de perda, de confusión, de non saber ou non ter seguranza de que camiño tomar. E esa sensación parécese á do “mito do abismo” porque non deixa de producir medo, temor. A vida é un constante fluír, e non sempre estamos preparados para saber que vén a continuación igual ca no abismo non albiscamos o fondo. Porén, non esquezamos, é un “mito”

A difícil iluminación do apagado,

do que arde sen luz mais alumea  (36)

                     porque en realidade sempre temos aí o testemuño, a memoria materializada no que queda, iso “que arde sen luz mais alumea”

A cousa concreta dun apalparse sen voz (37)

                     e no que nos recoñecemos ou recoñecemos parte do noso pasado, parte de nós, parte de nós que apela ao recoñecemento táctil, esoutra maneira de recoñer sen ter que mirar, sen ter que oír, porque

¿Como se aprende a mirar

se o íntimo inunda sempre

as acuosas cristaleiras do mundo? (40)

                     nunca estamos libres da emoción. Igual que non podemos entendernos sen memoria, tampouco podemos imaxinarnos desprivistos de emoción. Emoción, esa resposta (ás veces mediata e pouco reflexiva) ao mundo de fóra. Mais é precisamente esa mesma emoción a que cega a nosa visión, as bágoas non deixan ver con clareza.

                     O peomario imos vendo que camiña entre a reflexión e a emoción, emparelladas, de mans dadas. Iso confírmanolo a seguinte estrofa

Esclarecer o mundo, desdebuxalo

con palabras, incita  a unha especie

de tortura da alma, un excitante

tumulto violento, a rebelión

dos pobres espíritos, a derradeira

mostra de orixinalidade (41)

                     na que aparecen conceptos de absoluto interese. A saber. “Esclarecer o mundo”, misión tanto do poeta como do filósofo como de calquera persoa de a pé. Mais aquí “as palabras desdebuxan ese mundo”. É vella xa, sen saírmos da poesía contemporánea (porque se pode facer en moitísima amplitude), a idea da imposibilidade da palabra para transmitir, pois entre as súas limitacións e o amplo espectro de sentimentalidade (ou reflevidade) que o mundo provoca…non se pode facer raro que a voz  poética sinta a situación como unha “tortura”. (Tamén paga a pena deternos un chisco, iso non é nada novo, mais, que lembremos, é a primeira vez quea palabra tortura sae á escena deste teatro-monólogo-corrente conciencia). É unha situación violenta que vén dada pola rebelión “dos pobres espíritos”. A mesma realidade que, aínda que deformada polo paso do tempo, teima en estar aí, teima en impoñernos a súa persencia e a súa historia, “a derradeira mostra de orixinalidade”. Raro que alguén a estas alturas fale de orixinalidade. Mais é certo, o paso do tempo produce efectos distintos en cousas/materia igual ou semellante, materia igual ou semellante que se nega a desaparecer, que resiste.

As horas non existen, frústrase o pasado.

Non hai follas chocas, o pulso xa non arrinca a vida (43)

                     Volvemos. É un dicir. A voz poética e ese sentimento de perda no tempo, de desorientación, de confusión, de desasosego.

o límite da finitude obtusa da razón (46)

                     Tanto desde a óptica sentimental como desde a óptica racional. Un mundo racional que se ve insuficiente para explicar a situación porque a razón ten finitude. Importante. A razón non é unha posibilidade infinita. E volvemos ao poema, á poesía. Porqeu quizá a poesía é a única posibilidade

a busca íntima dun the end ( 46)

                     de atoparmos un fial, un remate, porque sentimos a necesidade moi adentro de deixar cousas atrás, finalizadas, e proseguir o camiño. O camiño

Cando procuras iridiscencias, ou lapas

para dar luz ao horizonte, asubías

coas mans nos petos

a última canción triste (48)

                     no que procuremos avanzar. Alto. Outro concepto importante. Avanzar. A voz poética rebélase. Sexa como for, avanzar é imprescindíbel ou tamén nós seremos fantasmas, espíritos, no cadro escénico.

Monstros e guerreiros debrúzanse

nunha selva inicua ocultando

os ladridos podres do tempo   (53)

Monstros e guerreiros. Xa sabemos quen son os monstros. De aí partimos. Agora eses monstros asimílanse aos “guerreiros” nesta loita contra o tempo, contra “os ladridos podres do tempo”. Xa mentamos a rebelión, é iportante agora este concepto de “guerra”, porque tampouco é moi común.

Non buscamos incluír o inaudito

na absurda substancia das conversas (55)

                     Necsidade de atopar un remate ás cousas. Rebelión. Guerra. Avanzar. O inaudito. O que realmente é novo. A absurda substancia das conversas que precisamente negan todo o anterior, que se repoducen na súa inutilidade, na súa esterilidade.

 (…) Inhabil para apagar

as eivas todas da vida queimadas nun incendio (56)

                     Necesidade atopar un remate as cousas, mais consciente da súa imposibilidade. E o desasosego, outra volta o desosego.

respondía inesperadamente

mediante estratexias de estilo (57).

                     Non deixa de ser curioso, o monstro, o creador, a el, poco lle serven as estratexias de estilo, as estratexias formais. Porén, esoutro monstro, o tempo, si  se manifesta mediante estratexias de estilo, a erosión nunca repite dous resultados idénticos malia ser sempre erosión.

A desesperación do artista perante

a grandeza das ruínas antigas.

A notación musical de caricias e lamentos (59)

                     Deica agora chameille desasosego. A voz poética vai máis adiante, e di  “desesperación” e recoñece a grandeza das cousas que resistiron a erosión. Aparece un elemento fundamental, a música, como plataforma desde a que recoñecer tanto as cousas positivas como as negativas   

(…) A comunidade é a coartada

de quen cobre miserias con lamentacións .

Liberdade do suxeito, non liberdade das nacións. (61)

                     Se alguén pensaba que a voz poética se expresaba nun lirismo limitador, velaí ten a resposta  no lirismo combatente, no eu que non é quen de disociarse da política, porque, queirámolo ou non, todos somos seres políticos e debemos ser conscientes

Abandonei hai tempo a idea dunha vida sen tormentas (63)

                      porque que non podemos fuxir, eludir a batalla é unha irresponsabilidade ademais dun xeito bastante trapalleiro, infantil e estúpido de mentirnos a nós mesmos

                     E, nesta loita

As palabras proceden

da infancia, non teñen

articulación (…) 

                     Ben, rematou o “Album da cuarta dimensión” como a segunda parte deste poemario co mesmo título. É hora de recapitular, de concluír. Vexamos.

                     -A casa, referente imprescindíbel, o amparo contra as adversidades e inclemencias, o fogar, tamén o lugar onde se contempla o  paso to tempo

                     -que pon a proba a memoria e nos produce desasosego pois somos incapaces de evitar o berro silencioso do seu testemuño, igual que nos sentimos incapaces de continuar a(s) historia(s) que a súa presencia nos conta

                     -e de aí esa sensación de “abismo”, ese temor a non ver  fondo, o final. Teño a impresión de que máis que “abismo” é un labirinto, tampoco vemos o final non hai ·”the end”, mais si as marxes que nos rodean, a memoria

                     -unha memoria que provoca en nós emocións. Mais as emocións cégannos máis que  nos axudan na necesidade de esclarecer o mundo, na necesidade de sabermos que superficie pisamos,

                     -evidentemente, nestas, o desasoesgo que sentimos, que experimentamos, resulta tan lóxico como a inutilidade da razón para nos auxiliar. Punto.

                     -A conclusión,  a única verdade se cadra, é a necesidade da rebelión e ter presente que non se trata dunha batalla/guerra que poidamos gañar mediante estratexias de estilo, só con formalidades. Porque vivir é un compromiso, tamén político, mais é un compromiso que comeza con nós mesmos, por nós mesmos

                     Volvamos á cuarta dimensión. A palabra. O poema. Lembran? Estamos en condicións de engadir A MEMORIA. A Kronos, Aión e Kairós …fica por engadir Titánide, a deusda da memoria, e que como tal comprende o pasado ( a onde estende), o presente (desde onde se exercita) e  é onde se inicia o futuro.

                     Mais é un volover relativo, porque todavía queda

O INAUDITO, O SECRETO

                     Iso que descoñecemos, porque o noso coñecemento é finito, vén determinado pola xeografía, polo tempo, pola clase social e por máis varábeis entre as que entran as políticas e  as características propias de cada persoa á hora de conformar o mundo de coñecementos que lles é propio, e con el o mundo do inaudito, é dicir, o descoñecido, o que nos permanece secreto.

                     E se pensan que entre ·”inaudito” e ·”secreto” se establece algún tipo de tautoloxía porque sempre o inaudito antes nos foi segredo, descoñecido…pois van errados.

                     Non é unha parte do poemario longa, extensa. E comeza apelando aos “soños”e “esperanzas”

e aquel mozo que agardaba pola lúa

ou a canícula dos cínicos (69)

                     Soños e esperanza. Onde queda a razón? Se cadra a razón vén despois, de momento achámonos nos desencadeantes.

                     Que poden estar/vivir precisamente na casa aínda que esta se vexa comesta, inundada, modificada pola natureza imparábel

Non hai nada presente, só o ecoar lento

ou líquidos sons de espectros (71)

                     Sempre existe a posibilidade de que o pasado nos fale a través do máis inaudito, inaudito por inagardado, logo veremos o significado real desta palabra.

Deterse dentro

mentres alguén quere pintar o ceo

coma se colorease un ruído

unido á percepción táctil

da parede de cal,

coma naquel instante morto

de cando o día iniciado.

(…)

Alguén debe pensar nun coloso

esnaquizado polo vento. (73)

                     Nova referencia ás artes. A sinestesia como posibilidade. E non esquezamos que, esteamos onde esteamos, sempre estamos pola permanente erosión do  tempo, porque é imparábel, na “casa” ou fóra. Este panorama, evidentemente produce unha alianza, unha sinerxia entre “sentimentos” e “memoria”

Volvemos á potencia do inútil (75)

                     porque en realidade iso é algo dalgunha maneira agardábel e o que importa é precisamente o inagardado, o inaudito, que pode chegar a nós por calquera vía,

                     Non hai escolas para aprender a materializarse (77)

                     Mais chegue por onde chegar esa conclusión “inaudita” ou inagardada, existe unha condición indispensábel:

                     Nunca se fale dela. (77)

                     Velaí o verdadeiro siginificado de “inaudito”. O inaudito  é inaudito porque nunca se falou, e polo tanto nunca se puido  oír, e polo tanto é in-audito.

                     Volvemos ás fronteiras da palabra, a dificultade para que a palabra transmita, algo ben característico da poesía actual. Que tamén un problema filosófico, o problema da maneira en que coñecemos o mundo, porque aínda que estea sempre aí a posibilidade de acceder ao inagardado, todo o resto que coñecemos asenta no pasado, nas reliquias, nas ruínas, na erosión porque todo coñecemento ao desprenderse doutro erosiónao. Somos fillos da erosión, en canto ao coñecemento se refire.

Eis un poemario actual a reflectir unha das problemáticas máis fondas, persistentes e decisivas da poesía, da filosofía e da vida de calquera: a maneira de coñecermos o mundo desde o que ficou del. Un poemario emotivo (non podemos nin debemos ficar “neutros” á vista do que o pasado nos deixou, nin tampouco deixarnos posuír polo espello deformante da melancolía extrema, que ben se nos advertiu) e reflexivo (desde o que nos deixa interpretar a inscrición na materia, nos restos da materia), audaz na forma de presentar esa aliaxe nada sinxela de transmitir aínda que pareza que sempre se fixo así, que esa é a materia da poesía.

A poesía. Neste caso, o lugar de encontro dos tempos, do desasosego, da reflexión e tamén da esperanza inaudita. In-audita. Non digades nada, mais actuade…

………………………………………………………………

Velaquí un dos poemas máis do meu agrado (para IAP)

GUINNEVERE

A Susana Roca, in memoriam

Aquí, nos últimos,
nas raíces opacas da miseria,
onde os altos sensos do costume
esquecen as lápidas perdidas

                              as inscricións

violetas das tumbas levantadas
detrás dos ollos dos viventes

Mentres contemplas como
se esmiúza o rosario das mentes

                               señora, coma ti

en burbullas de cristal intonso,
inútiles trastornos da beleza caída
en catacumbas onde as voces
se perciben como figuras

                                   lumínicas soidades

reverberacións duns astros
idos duran sen momentos

Mentres encirras testamentarías
que desoen as delicias da sombra

señora, coma ti

en miniaturas de cabelo mourazulado
recollido das feridas do tempo,
extasiada nas lambidas auscultacións
de cenobio s ateigados

con orantes percutidos

onde penetran sons sen densidade, aletargadas
rás azuis, ondas na tona apagada da auga.

Mentres na escuridade branda
debuxas misterios esgotados

señora, coma ti

en fragas sónicas con arames de herba
a facerlles a roza da santidade,

ti deitada na tatuaxe invisible do ser
alí no material pousado

a carón da gran serpe verde

que se estrica desde o aniversario cero
ata os anos definitivos do que non tarda

Mentres palpas coa lingua alucinacións
lexibles nos azulexos da alma

amiga, coma ti

A poesía é HELENA ZÉLIC cargada de futuro e loita.

Helena Zélic é outra autora moi nova ( São Paulo, 1995), mais que, desde os mesmos inicios se presenta como un poeta de moita calidade. E non só iso. Porque non se trata só de escribir ben, de atopar estratexias formais belas, ou novidosas ou que merezan destaque. Alén diso hai que ter mensaxe, saber abrir os ollos de quen te está lendo. E é iso precisamente o que mellor distingue a Helena Zélic ( poderán comprobalo na selección de poemas que no remate figurará, como sempre). E é iso tamén, o que necesitamos que sexa a poesía. Non se trata de ninguna función docente. Trátase de que nos incomode, que nos pregunte, que nos abra os ollos, que non nos deixe ser espectadores pasivos, que nos amose posíbeis camiños de loita, que nos anime a non ser conformistas, que nos mova a ser rebeldes e a non abandonar nunca a loita, que nos anime a crearmos continuamente novas loitas porque queremos un mundo mellor. Esa é a poesía verdadeiramente útil, a que paga a pena.

Helena Zélic é poeta desde tan nova, e é tan boa poeta desde tan nova, e é poeta tan concienciada socialmente, políticamente (por suposto), crítica e loitadora, que se fai  imprescindíbel. Xa dixen que despois poderán ler unha selección de poemas seus, o meu propósito é divulgar poesía brasileira de muller, mais non quixera que quen lea isto ficara satisfeit@ co lido, non, o nome de Helena Zélic é un nome a  seguir no futuro con moita atención. O futuro sempre é necesario. E que sexa un futuro mellor que o presente, é imprescindíbel.

Quero salientar tamén que a poesía de Helena Zélic non son palabras bonitas e combatentes no ar. Pode dicirse que a súa é unha poesía experiencial, non é novidoso dicilo mais si é importante lembrar que a súa poesía nace da actualidade que autora vive, desa actualidade e das necesidades que a Helena acha que den ser atendidas. Por sinal, a loita feiminista, a loita das mulleres por seren ( que xa vai sendo hora!) recoñecidas en pé de igualdade co sexo oposto. Por algo foi participante activa da Marcha Mundial das Mulleres. Por algo é unha convencida militante feminista, convencida e activa. Por algo a poesía de Helena é un constante desafío á moral (patriarcal, consumista, conservadora, burguesa e inmobilista) imperante. Ou o racismo, ou…

Politicamente tamén é consciente, militante activa dunha poesía anticapitalista, dunha poesía denuciadora e defensora das clases sociais máis humildes, menos favorecidas. A este tipo de poesía ténselle chamado “poesía socialista”, por veces. Iso é o de menos, o nome. O importante é que sendo así, socialmente preocupada, consciente e loitadora…tamén é unha poesía fondamente humana. Fondamente humana pola súa loita feminista e tamén pola súa loita cívica.

Revolución. Terremoto. Unha subversión que poña as cousas onde realmente deben estar, como realmente deben ser, non como nos foi imposto por unha historia contada polos homes, polos homes ricos e poderosos e brancos.

En canto á súa obra, no 2016 publica Constelações (Patuá) e no  2018 Durante um terremoto (Patuá) e tamén das plaquettes 3255 km (Nosotros, 2019) e Caixa preta (2019, Primata), alén de participar en revistas e antoloxías. Velaquí a mínima información bibliográfica que demos atopado desta extraordinaria poeta, graduada en Letras e moi consciente da súa latinoamericanidade, totalmente emancipada da metrópoloe portugiesa, que tamén viviu en Chile e coa que comparto tamén o  interese no pobo chilota, na súa cultura e na discriminación que padece.

Ben, como nestas presentación non queremos demorar moito, que o importante é a divulgación da súa poesía, é hora de dar noticia da súa páxina web , tamén do seu blog cando tiña 21 anos, ou do Facebook onde seguila.

Recomendo moito a lectura deste artigo sobre Constelações.

Recomendo moito a lectura deste artigo sobre Durante un terremoto.

Recomendo moito, tamén, a lectura de Capitolina, revista que non se entendería sen ela.

No amor, na loita política, sempre a poesía, sempre Helena.

Van os seus poemas:

OUÇO COM ATENÇÃO QUANDO POETAS FALAM

algo importante pode

estar prestes a sair

da boca de poetas

ouço com atenção

mesmo quando poetas chegam

quase lá mesmo quando fingem

entregar o ouro

bruto

ouço

algo importante está na ponta

da língua que poetas estendem

para a gente agarrar ou lamber

com atenção

quando algo importante está no centro

da terra e da gente que é vivo

i ching magma espírito matéria

poetas traduzem pela meta/

de propósito

algo importante será revelado

pela câmera analógica de poetas

quando a luz avançando o sinal vermelho

poetas são carteiros

do único envelope

extraviado aquele

quando todas as versões

são possíveis

quando

poetas lavarem a roupa

suja do mundo encontrarão

no bolso da calça um bilhete

ilegível e por isso vão lê-lo

em voz alta

poetas falam

por isso sempre que posso

ouço com atenção

poetas falam

ouço com atenção até quando

sua voz é a minha

tomada de empréstimo

seguindo o dedo

que segue a linha

*

PROCEDIMENTO

a poesia é uma cirurgia

às vezes corpo aberto

às vezes câmera oculta

a poesia é uma cirurgia e eu gosto

de sobreviver

*

SIGNOS EM ROTAÇÃO

o poema é

tempo arquetípico

linguagem em tensão

silêncio e não-significação

poesia e, além disso, outras coisas

um ato inexplicável exceto por si mesmo

retorno da palavra à sua primeira natureza

irredutível à palavra e, não obstante, só a palavra o exprime

uma unidade que só consegue constituir-se pela plena fusão dos contrários

sua necessária dependência da palavra tanto como sua luta por transcendê-la

uma experiência em que a nossa condição, ela mesma, revela-se ou manifesta-se

mediação entre uma experiência original e um conjunto de atos e experiências posteriores

o verso é

unidade indivisível  e compacta

……………………………………………..

dimensões

e se todos esses dias
toda a angústia, toda a treva
todos esses sonhos
todos os abraços
toda guerra e invasão
mais as terras dos quilombos
as festas e as decapitações históricas
o grande amor de nossas vidas
a revolução bolivariana
o nosso medo do escuro
os reflexos das poças d’água
o barulho dos bules ferventes
as certezas que escondemos
forem o sonho estranho
de uma cachorra velha
que se mexe, de olhos fechados,
na soleira de um mundo
por completo desconhecido?


cassandra

como um país que não se esquece de seus mortos e seus vivos
como um povo que resguarda a língua anterior às fronteiras
porque são eles mesmos a língua,
a língua é eles
como tua capacidade de amar novas pessoas
e reconhecer cheiros antigos
e querê-los, porque assim respira mais.

como a dura revolta de nossos ossos,
como as multidões que se levantam,
tu tem direito à tua história.


bem-vinda

em uma casa desconhecida
é preciso observar os movimentos das coisas:

o gás se vem da rua ou botijão
as árduas relações entre tomadas e eletrodomésticos
botões de liga e desliga
a política da limpeza
se toda sujeira é política.
as cores das chaves, as trancas trocadas
encaixar, tirar e encaixar de novo
na busca do que é espontâneo.
entrar na casa como se sempre fosse.
sair como quem volta ao pôr do sol.

conhecer as gavetas, os tacos soltos
os insetos que invadem o verão
a hora da caminhonete de frutas
o dia do lixo para fora
a vizinha, e a outra, e a outra.
as vizinhas são sempre muitas.

compreender a linguagem do cão
quando pede, quando avisa,
quando, cão, espanta os gatos do telhado.
aí descobres que há gatos no telhado
e os barulhos deixam de assustar.

em uma casa desconhecida
tudo o que se move é sinal
conversa intermediada
entre objetos e combinados.
em uma casa desconhecida
é preciso chegar manso
e apoderar-se.

( Se quren escoitalo, na voz Naju Gomes, aquí teñen a ligazón. )


aula de poesia

na aula de poesia líamos gabriela
desalojada estrangeira, e dor,
disseram que eu era a melhor
para traduzir a palavra saudade.
todos me olhavam curiosos
e as bocas faziam curvas
na sinuosa formação das sílabas.

– a saudade é um imprevisto
que se alarga pelo continente,
poderia dizer
e mostrar tuas fotografias.
sinto falta do calor
mas vejo miragens.
o que veio primeiro, a palavra
ou o mundo?
questionaria ao país sem nome
já sabendo sua resposta. –

mas, desatenta, não soube falar.
pega no flagra trocava contigo
como cartas a doris dana, loucura
além da contagem dos dias
mensagens secretas,
minúsculos furtos.


setembro

os desenhos dos filhos pequenos
tinham sem exceção uma paisagem
sol amarelo e carros de polícia
triângulos em fila, cordilheira
um horizonte fechado
as crianças de 73 olhavam o mundo
e o mundo era esse
naqueles tempos
quando os papais
de repente
foram todos embora

(Se queren escoitalo na voz de Ive Rebelo, fágano aquí.)


procedimento básico

durante um temblor
imite os nativos, eles disseram.
se correrem, corra.
se pararem, pare.
se seguirem, siga.

se for preciso, você pode
segurar no braço
de uma desconhecida
porque você não é daqui
você não entende, mas eles sim
olha para a desconhecida com cara de medo
o que você sente é medo
conta os segundos
e ouve o barulho da terra
morrendo, não, crescendo
para onde eu não sei
depois você abre os olhos
como um recém-nascido você abre
e olha as paredes das casas
elas estão intactas
dessa vez, juro, estão.

(Se querren escoitalo na  voz da propia Helena, velaí a ligazón )

……………………………………..

um narrador que grita

nunca, nesta vida ou nas próximas
poderei escrever como uma poeta portuguesa.
posso imitar os versos grandiosos
de uma poeta portuguesa
posso copiar os sentimentos precisos
de uma poeta portuguesa
posso falsificar documentos
como faz a decadência das fronteiras
sem pátria e sem trabalho
duas casas e nenhuma.

posso dizer que sou
e assim chegar ao limite
convencer alguns católicos
não-praticantes do ofício da fé
andar nas ruas como uma poeta portuguesa
erguer talheres como uma poeta portuguesa
falar dos mares e do amor infinito e súbito
como o faria uma poeta portuguesa;
como se sozinha o detivesse
no centro do corpo
contra os monstros marítimos.

posso fingir que compreendo e que me espanto;
posso escrever como uma subdesenvolvida
a fingir que conhece a solidão do hemisfério norte
e os cânones das bibliotecas
que nomeiam ruas, escolas e tentativas.

posso esculpir um pássaro e narrar seu voo
como se voasse.
como se existisse para tal fim.
posso contar as pérolas
dos pecados da ave maria
(em segredo sepulcral).
mas nunca, sob hipótese alguma,
poderei escrever como uma poeta portuguesa.

são outros os meus heróis.


inolvidable

perguntou
o que é mulher
apenas para destrinchar respostas
depois perguntou o que é o fogo
brincava
mas não sabia exatamente
se da combustão vinha o calor
ou vice-versa

se vinha das pernas o toque
ou o toque nas pernas

duas mulheres sussurram
sílabas mais altas do que deviam
tudo é mais
do que devia
menos o silêncio

duas mulheres atracadas
no topo do mundo
visíveis a olho nu
às vizinhas comedidas
às senhoras que passeiam
com seus cães também idosos
em passos lentos
a dança sincrônica
dos passos dos cachorros
duas mulheres uivam
ao mesmo tempo
no topo do mundo
na grande janela
no meio da rua
e em cima dela
uma e a outra.

tenho medo de deixar esta imagem sumir
pelos dias
repito-a na fronte dos olhos
a luz cabisbaixa
dos postes da prefeitura
a formar meias luzes
seu rosto e o meu
as mãos
espalhadas
tenho medo de que suma na memória
a dobra da perna
repito-a
até que encontre
a palavra exata
e sua tradução
em mil línguas
e a minha
e a sua.


3.255 km

um par de noites pensando qual
a dedicatória inesgotável
para cada um dos livros
escritos por outras pessoas
que te enviarei por correio
já cobertos de grifos
quando tudo o que pudermos
ao invés das leituras em voz alta
e das ideias ditas
nos mesmos milissegundos
for a tradução bilíngue
o descompasso de fusos horários
e o medo assustador
de nos tornarmos outras pessoas
de códigos indecifráveis
como os olhos das estátuas.

talvez tente escrever manso
para que não se preocupe comigo
talvez algo de monstruoso apareça
no verso branco da capa
junto a fotos de paisagens e nudez.
o mundo que se agiganta.
es que te extraño, tortillera.

quando não puder me contar
das rodas gigantes que habitam seus sonhos
três segundos após acordar
talvez pensemos que sonhamos menos

livros se perdem em caixas
de mudanças, carretos,
casas que reduzem de tamanho.

ainda assim estarei ali
em meia dúzia de palavras
arrebatadoras talvez ansiosas
ao lado de sua cama
(eu só queria habitar seus lençóis)

com amor,
helena

………………………………………………………………..

SOBRE QUANDO MONTAMOS SIBILOS

certas palavras fazem
barulhos bonitos
quando faladas
fissura
rastro
malefício
baluarte
frissom
casulo
tijolo
socialismo

ainda que pouco saibamos
dos reais significados
para tanto significante
fonema após fonema
mesclados, mordidos em busca
nos mapas da boca humana:

dentes, palato, garganta
é toda vontade de dizer.

…………………………………………

POEMA DA DIALÉTICA

que a eternidade dos homens e mulheres é a mudança.
hoje estamos amanhã não.
às vezes a amo mais; às vezes.
é que não passo fome.
como acordar no dia seguinte
a um golpe de estado?
se o sol é o mesmo, ardente
se as rotas dos carros mantém seus traçados
no mapeamento da cidade
se não vemos diferença
entre os abacateiros de ontem e hoje
a terra seca, a água seca, os caminhões
mas quando um cobrador de ônibus
já meio careca
declama ao mundo de viajantes
esse partido não está lá por nós
é gira catracas para os moleques
nós a humanidade lembramos:
estamos vivos

a mão de quem mexe as terra não são as mesmas:
cada dia um novo reforço
para os mesmos calos

………………………………………..

em uma casa desconhecida
é preciso observar os movimentos das coisas:

o gás se vem da rua ou botijão
as árduas relações entre tomadas e eletrodomésticos
botões de liga e desliga
a política da limpeza
se toda sujeira é política.
as cores das chaves, as trancas trocadas
encaixar, tirar e encaixar de novo
na busca do que é espontâneo.
entrar na casa como se sempre fosse.
sair como quem volta ao pôr do sol.

conhecer as gavetas, os tacos soltos
os insetos que invadem o verão
a hora da caminhonete de frutas
o dia do lixo para fora
a vizinha, e a outra, e a outra.
as vizinhas são sempre muitas.

compreender a linguagem do cão
quando pede, quando avisa,
quando, cão, espanta os gatos do telhado.
aí descobres que há gatos no telhado
e os barulhos deixam de assustar.

em uma casa desconhecida
tudo o que se move é sinal
conversa intermediada
entre objetos e combinados.
em uma casa desconhecida
é preciso chegar manso
e apoderar-se.

…………………………………..

EM NOME DA ORDEM

amor
é coisa de mulherzinha
mas também a solidão
coisa de mulherzinha feia e/ou carente
bem como as lágrimas, a dança, os backing vocals:
todos coisas de mulherzinhas,
várias delas.

a poesia
é coisa de mulherzinha
os livros de receita
o preparo do almoço
a louça suja
todas as etapas são
coisas de mulherzinhas
e somente delas.

a mistura do vermelho e do branco
que estampa objetos diversos
e roupas de bonecas
é coisa de mulherzinha.
a ponta dos dedos,
o manuseio,
a agulha e a linha,
são meticulosamente coisas
de mulherzinha.

o medo é coisa de mulherzinha
o trauma é coisa de mulherzinha
e as dores
e as ervas.

tudo indica que não nos cabe
a palavra plena e primeira.

tampouco os superlativos:
expressamente proibidos
em nome da ordem.

………………………………..

faz tempo
um poema que expresse
amor
só o amor, sem tempos duros
sem pratos quebrados na parede
e a angústia das lâmpadas

pensei
que estivesse o corpo intacto
que já não sentisse nada mas
o amor, esse escafandro
escancarado
crescendo as plantas marinhas

a gente deu as mãos
pensei de brincadeira
não consigo escrever esses versos
sem pensar em seu rosto
e seus cabelos
alguma coisa aconteceu
no meu organismo
não consigo imaginar alguém
que leia este poema
e não veja nele
o seu rosto e seus cabelos
meu rosto
meus cabelos.

Os exilios de Xabier Cordal

Título: Resistencia da auga

Autor: Xabier Cordal

Editorial: Chan da Pólvora

O que vou escribir a continuación son reflexións que nacen en min despois de ler o último  poemario de Xabier Cordal. Aviso isto porque non é unha crítica ao uso dun poemario, nin sequera un artigo “a propósito de”, ou “sobre” que algunhas veces fago. Non, é unha reflexión máis fonda, ou, mellor dito, máis ampla cá simple referencia ao libro de Xabier. Certamente, das seis partes en que se presenta o libro, a segunda titúlase precisamente así: “ Exilio”. Iso lévame a pensar xa non na escrita como refuxio, que tantas veces se ten dito, senón como exilio, cousa fundamental; pasamos do “acubillo” da poesía, a un sentimento de morar intelectualmente fóra da comunidade propia. Por agora manteremos esa denominación: comunidade propia. E iso fala de soidade, entendemos; de soidade e tamén de incomprensión ou mala recepción das mensaxes que como poeta (e poeta consciente política, social e lingüisticamente, moi importante) emite/emitiu. E ten que ver, naturalmente, coa “soidade do heroe sen guerra” de que tratamos en artigos anteriores. Resulta obvio que a expresión lírica se vén tendo como expresión da sentimentalidade ou pensamento individual, na maioría dos casos. Mais iso non é aplicábel a Xabier Cordal desde que participara no colectivo Ronseltz co lembrado Unicornio de cenouras que cabalgas os sábados. Existe unha clara vontade de intervención social que nace satiricamente do descontento ou refugamento dunha realidade que non consideran aceptábel, unha forma de rebeldía. Por iso este “exilio” nos parece grave, grave denuncia, se se quixer, lírica, non en van o poemario iníciase de xeito lúdico, non tan satírico (sen deixar se selo), reflexivo e demostrador da situación d@ poeta diante do público lector/receptor.

                     Ese é o primeiro “exilio” que nos vén á cabeza. Porén hai máis. Por sinal, o exilio lingüístico. A actual situación de desvalimento da lingua galega, combatida por quen a tiña que defender, relegada a un segundo plano fronte ao castelán “imperator” e vendo como o inglés lle come espazos…Non nos cabe dúbida de que de que ese é  outro “exilio”, un exilio dentro da propia comunidade, dentro do propio país. Non nos cabe dúbida diso e si debemos deternos na gravidade da denuncia de Xabier Cordal. Experimentar este sentimento dentro do propio país é dunha gravidade e dureza abraiantes, que nos deberían mover á reflexión e, por suposto, á rebelión. Non sente o poeta ser voceiro dunha sociedade que camiña ás cegas, preocupada unicamente polos bens consumistas da inmediatez. Vivir é sinxelo cos ollos pechados, que dicían os Beatles. Non o sente o poeta, non se sente parte desa sociedade. Porén, con isto, ese mesmo poeta retoma a función de voceiro da sociedade pois somos moit@s @s que nos sentimos así. A poesía, outra volta, avisando. Cómpre moi ben seleccionar a quen se lle fai caso, e a poesía non mente.

                     En todo caso, o poeta non escibe no ar. Mais como se o fixera, para o caso sente como as súas mensaxes se esborrallan cunha mínima ventada ou simplemente na soidade do ceo inmenso.

                     Da necesidade de acubillo que to@s sentimos, esgállase tamén, por sinal (outra volta), o regreso á infancia, xa non como “paraíso perdido” (ese tópico) senón como retorno a unha idade máis sincera, onde os afectos son fundamentais (e seguirano sendo) e a inocencia e alegría (case sempre) presidían os días. E que conste que, por moi tópico que se queira considerar, non deixa de ser certo. Mais, xa adultos, desa sentimentalidade tamén nos debemos sentir exiliados, non é posíbel revivila máis que como lembranza e as lembranzas precisamente está aí para facernos conscientes do que xa non temos.

                     Mais os afectos mudan co tempo, son outros, son diferentes, e tamén deles se pode sentir excluída a voz poética, excluída, exiliada. “escribes para ser amado / é o principio do exilio” (25)

                     Si. Vivir é sinxelo cos ollos pechados. Unha imposibilidade para cert@s poetas a quen lles resulta imposíbel non reparar no acontecer social ao seu redor, ou no acontecer político, porque iso non só forma parte da súa sentimentalidade senón tamén da elaboración reflexiva. Exilio, outra volta exilio, esa soidade. E, neste contexto cómpre retornar ao título “resistencia da auga”. Alguén pode considerala unha resitencia pasiva, pois a auga amóldade, adopta a forma de calquera recipiente sen deixar de ser ela mesma, a mesma auga. Unha maneira de resistir. Mais a pinga de auga, a humilde pinga de auga, coa súa insistencia é quen de furar superficies ben duras, de furalas ou de transformalas, oxidalas, refacelas destríndoas. Por iso, se alguén considerar desmotivador ou pesimista o poemario, que volva oa seu mesmo título, ao iniício .

                     Que é un poemario de cicatrices, de feridas ? Si. En cada poema. E cada poema, como cada cicatriz, formalmente, mesmo conceptualmente, adopta diversas formas, o que lle confire ao poemario unha riqueza formal moi a ter en conta e moi en consonancia co título, con esa auga que tamén adopta a forma que se precisar.

                     Mais, para reamatar, negámonos a considerar que o exilio é a derrota. Non son sinónimos. En certos casos o exilio é permanente, así o manda a caducidade da vida, mais aínda desde o exilio a mensaxe pode ser inmortal. Pode. É, sinxelamente porque a poesía é inmortal, e máis a boa poesía, a poesía consciente, a poesía que non é “espectáculo”,  para usar unha expresión do porpio Xabier Cordal, ese poeta irrepetíbel.

ASDO.: Xosé M. Eyré 

(Ben, unha vez escrito este textom parécem moi acaído rematar con este poema de Helena Zelic, de quen trataremos máis demoradamente o vindeiro domingo:

 

OUÇO COM ATENÇÃO QUANDO POETAS FALAM

algo importante pode

estar prestes a sair

da boca de poetas

ouço com atenção

mesmo quando poetas chegam

quase lá mesmo quando fingem

entregar o ouro

bruto

ouço

algo importante está na ponta

da língua que poetas estendem

para a gente agarrar ou lamber

com atenção

quando algo importante está no centro

da terra e da gente que é vivo

i ching magma espírito matéria

poetas traduzem pela meta/

de propósito

algo importante será revelado

pela câmera analógica de poetas

quando a luz avançando o sinal vermelho

poetas são carteiros

do único envelope

extraviado aquele

quando todas as versões

são possíveis

quando

poetas lavarem a roupa

suja do mundo encontrarão

no bolso da calça um bilhete

ilegível e por isso vão lê-lo

em voz alta

poetas falam

por isso sempre que posso

ouço com atenção

poetas falam

ouço com atenção até quando

sua voz é a minha

tomada de empréstimo

seguindo o dedo

que segue a linha

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

crítica de ENTRECONTAR, de Iolanda Aldrei.

A MATERIA DA VIDA

Título: Entrecontar

Autora: Iolanda Aldrei

Editorial: Através

Non hai pregunta máis trascendente que esta: de que está feita, cal é materia que compón a vida? Porque a vida ha de ser algo máis que estar de pé, desprazarse e ir mercar ou traballar para satisfacer necesidades básicas ou perder o tempo en lecer inútil (máis consumo a conformar conciencias do pracer inmediato inmediatamente perecedeiro). Pois ben, a esta pregunta responde Iolanda Aldrei neste Entrecontar, a súa última publicación. E responde a esta pregunta sen formulala, que é o máis interesante, e que é o máis intelixente sinxelamente porque a xente non está habituada a formularse ou atender preguntas tan trascendentes e de fondas implicacións. Mais, ás boas lectora e lectores, ha de lles resultar apaixonante e atraente, ben seguro.

                     Describir a estrutura desta nova achega de Iolanda Aldrei non resulta difícil. Trátase dun libro de narrativa no que se vai “entrecontando” do seguinte xeito. Primeiro aparecen os “Contornos”, entre narrativos e reflexivos, que operan como unha presentación ou  primeira aproximación ao que ha de vir. E o que vén son diferentes voces, non imos desvelar o seu contido, simplemente indicar que “contornos” e “vozes” chegan momentos en que se imbrican moito máis do que en principio parecía que ía acontecer. A todo isto cómpre engadir que, nunhas palabras preliminares, Iolanda Aldrei sinala a vida (a vida e as persoas) como un labirinto, e no labirinto son os contornos, as marxes, a única posibilidade de guía de que dispoñemos. Estes “contornos” tamén resultan imprescindíbeis porque van seguidos dunha pluraridade de voces que non atenden nin responden a ningún eixo ou ancoraxe temporal nin espacial.

                     Ben, isto de que non responden a ningún eixo ou ancoraxe espazo-temporal, temos que aclaralo. É certo que esas voces proceden de diferentes tempos cronolóxicos e mesmo espaciais. Mais non de todo. Non se temos en conta que o espazo e tempo, no noso interior, na nosa mente e sobre todo no noso corazón, se amalgaman de tal xeito que só existe un plano espazo-temporal no que se manifestan, porque se manifestan “cando queren” (nós non sempre temos a capacidade de chamalos, de apelalos; e cando o facemos dá igual). Falamos de lembranzas, de emocións, de lendas, de realidades que foron, inclusive de posibilidades de futuro. En fin, falamos da materia que en realidade conforma a vida. Porque sen esta materia vital, o existir non pasa dun tempo baleiro e intrascendente no que non existen diferenzas substanciais entre as diferentes personalidades que somos, só unha uniformidade que varía de indumentaria ou “forma material”.

                     Tamén hai que indicar que Iolanda Aldrei non concibe o eixo espazo-temporal como unha encrucillada de liñas nun plano. Senón como unha espiral. Novidade importante. Porque ao ser así, as voces poden case tocarse, ou polo menos sentirse próximas xa que, a fin de contas, a vida é o mesmo labirinto e nós, os habitantes do labirinto somos máis que realidades ou formas materiais. E é nese “ser máis” onde radica a materia da vida, o que nos move por dentro e o que conforma as nosas personalidades, como dixemos, lendas, emocións, percpecións, soños…

                     Lendas, emocións, percepcións, contos, soños…parecen e son lugar axeitado no cal tamén se manifeste a poesía. E así é. Hai poesía, hai lirismo nestes relatos de Iolanda Aldrei, unha poesía que, sen abusar da súa presencia, chega moi dentro; resulta imposíbel ler os relatos sen experimentar a necesidade de “ensoñación” que se produce tamén cando lemos poesía, unha epifanía moi semellante. E, á vez tampouco se pode esquecer a compoñente humanística nos relatos de Iolada Aldrei, nos  relatos na mesma concepción que os materializa.

                     Por certo, se alguén acha algunha similitude entre o que vimos de escribir e o mundo literario de Álvaro Cunqueiro, que saiba que non é casualidade, do cal nos congratulamos, e que saiba tamén que o escritor de Mondoñedo é unha das personaxes destes relatos.

ASDO.: Xosé M. Eyré                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

Natasha Félix. A poesía, o corpo, a pólvora e as magnolias

NATASHA FÉLIX: o corpo, a pólvora e  as magnólias

(Cando comecei esta serie de artigos divulgativos da poesía de muller brasileira, fíxeno coa convicción de que eran necesarios porque a poesía, a literatuta, brasileira é unha grande decoñecida na Galiza, fóra de tres ou catro persoas que sempre estiveron interesadas na lusofonía. E parecíame inxusto, por usarmos linguas irmás, porque a literatura, e poesía, brasileira do século XX ten unha calidade enorme, do mellor internacionalmente falando, outro día desenvolverei este argumento, e porque estou farto de que escritoras e escritores galegos se fixen especialmente no mundo anglófono e europeo cando o século pasado demostrou que, primordialmente, as novidades literarias máis interesantes chegan preferentemente da América non anglófona. De xeito que estes artigos pretendían reparar unha inxustiza á vez que me permitían/permiten ir tomando contacto coa poesía máis actual. A niña sorpresa foi que estes artigos tamén tiveron impacto no Brasil, o que me emociona especialmente.

Cada artigo nace dunha minuciosa escolla entre o que nos ofrece internet. Tanta lectura fíxome consciente de que a poesía brasileira de muller ten un nivel moi alto. Observo diferenzas entre a poesía de muller negra e a poesía de muller branca, outro día falarei diso, hoxe xa é suficiente para introducción)

Nestas, o nome de Natasha Félix e a súa poesía foron elixidas, primeiro pola calidade da escrita poética, despois por ser unha voz das novísimas, naceu en 1996 na cidade de Santos e hoxe mora no São Paulo. Natasha apendeu a escribir ensinada pola súa avoa materna, precisamente ver como o seu nome tomaba forma no papel en branco marabillouna. Este dato é moi importante, na niña opinión, porque eu non concibo a poesía de Natasha se non é como extensión manifesta do seu corpo, da súa propia personalidade, personalidade preocupada e atenta a todo o que a rodea denunciando inxustizas. Inxustizas hai moitas no mundo, e hai que denucialas, ser espectadores pasivos e inútiles é unha triste forma de morrer en vida. Inxustizas hai moitas no mundo, e hai moitas, moitas máis, se es muller. E hai moitas, moitas máis se es muller negra ( e no Brasil ) “vivir é perigoso”, que diría Adília Lopes, se es consciente do que iso significa, evidentemente.

Os comezo de Natasha na escrita poética foron, como cabe agardar, publicando os seus traballos en revistas en papel ou dixitais, estratexia que que non abandonará, que deu lugar, por sinal, ás “Consideracões sobre a higiene íntima”, que despois se poderá ler e escoitar. Ela naceu en 1996 (Santos, SP) e desde moi  nova foi deixando por aquí e por alá mostras da súa calidade literaria. No 2016 lanzou un cine (fanzine, na Galiza) que tamén se pode consultar en internet:  anemoníavulcánica . E tamén j. nao é un nome (2017, selo Manga, 2017) O seu primeiro poemario édito é Use o Alicate Agora (2018, Macondo) e tivo unha considerábel boa acollida, teño entendido que vai pola terceira reimpresión/edición, levando xa anos radicada en São Paulo. No 2019 lanzou 9 poemas (traducións ao español na Arxentina, tamén foi traducida a máis linguas). Tamén participou na antoloxóa Nossos poemas conjuram e gritam ( 2019, Quelônio)  organizada por Lubi Prates (dela e da súa poesía xa demos noticia), acompañada de Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro, Jarid Arraes, Lívia Natália, Neide Almeida e Nina Rizzi. (de Evaristo e Jarid tamén nos ocupamos na Ferradura II). Tamén participa en 69 poemas e algums ensáios (2020, organizado por Raquel Menezes), unha oportunidade para que as mulheres se manifesten sobre o tema do erotismo, mesmo da pornografía, do sexo (tan importante no poemario de Natasha)…lonxe da misoxínia, do sexismo, das actitudes e pensamentos que penaliza as xentes tansfóbicas e e tamén unha loita contra os homofóbicos… do sexo e do erotismo que o capitalismo imperante nos transmite decote. Mais a primeira antoloxía en que figura, é de 2014, Movimento, que nós saibamos.

Use o Alicate Agora é un poemário que non foxe da polémica, que mesmo a procura, se temos en conta que o tema central é a procura do pracer, no que ten moito que ver, evidentemente, o corpo. Incomodar, palabra clave, é obxectivo da súa poesía. Porque de aí, do incomodo, nace a re-acción, que vén sendo ben parecido á “revolución” que os nosos tempos precisan. Unha revolución que só pode ser feminista, sen dúbida. Natasha é consciente de que escribe para minorías como é consciente do valor da palabra, da palabra corpórea (outra volta o corpo) que se manifesta cando poema se di en voz alta. Por iso, para chegar e entender ben a súa poesía, é necesario vela (tamén executa performances) e escoitala. Manifesta unha relación coa música (comezando polo hip-hop) primordial (e na que non afondaremos, porque o principal é divulgar a súa poesía).

Escollín para titular este artigo, parte dun título fundamental de Mëndez Ferrín ( Con pólvora e magnólias) porque acho que define moi ben a poesía de Natasha Félix. Ela ten dito: “Escrevo por muitos motivos. Um deles é pra me vingar. É disso que eu tiro coragem. Eu me nomeio, enfrento as palavras e com elas fico. As que eu escolho.”. Os seus versos son pólvora incendiaria, os seus poemas son incendios que nos ocupan a mente e se transmiten ao corpo. E transmítense mediante as magnolias, mediante a beleza verbal e poética desde a que se manifestan.

Velaquí o seu Facebook. Alí atoparán máis poesía, traducións e unha maneira moi acaída de coñecer a Natasha.

Para rematar, algunhas autorías moi presentes na poesía e na vida de Natasha. A listaxe non é exhaustiva, mais si bastante ilustradora: Stela do Patrocínio, Hilda Hist, May Ayim. Olga Savary, Drummond de Andrade, Pedro Lamebel, Angélica Freitas, Audre Lorde, Anne Sexton, Adília Lopes, ou Adélia Prado…

Restábame dicir que Natasha é tamén poeta-persoa moi interesada nas raíces africanas negras.

A seguir unha xeitosa mostra da poesía de Natasha, unha das voces póeticas máis interesantes e prometedoras do Brasil actual. Logo da (modesta) “antoloxía”, non perdan ocasión de vela e escoitala na ligazón que deixaremos

O amante sai de férias

red light em amsterdã
quatro corpos na vitrine
inofensivos

não ilustram a avenida
mas o reflexo mínimo
nas pupilas de quem passa
desviando

pego em flagrante
na solidão
o volume na calça jeans
não é um convite.

você pode pensar em
quanto dinheiro ainda tem no banco,
em jogos de azar
na eterna punheta dos 13 anos.

já em mim
você não consegue
é inviável
pensar em mim agora.


meus peitos nos teus peitos
laura assumidamente
esparramada em mim
essa visão
da tribo inteira queimando
panos e as espinhas dos peixes
as crianças e cumbucas –
&
o fogo é o fogo.


Trinta e três

se colocasse a pedra de ágata
na goela do porco
antes ele gritaria
como não pude gritar.


com a cabeça pousada
nas pernas da avó
a saia de brocado
pinica a orelha
esquerda.

cantarola salmos e vai à caça
distraída.

o pente-fino é azul.
as varizes na panturrilha dela também.
os dias e a toalha de mesa.

o pente-fino
atravessa meus cabelos de diaba
as crianças dizem diaba
eu nunca digo.

um pouco amansados
(não o suficiente)
com álcool e cravos
nada
enquanto a avó ajeita os óculos,
procura bichos em mim.

a mesma que estoura as lêndeas
as unhas imensas.

como se vingasse
suspeito
o que não caberia na casa.

………………………………….

na praça may ayim

pensando em audre lord e em marielle

porque temos medo cerramos as próprias

mãos porque temos medo arrancamos

os molares porque temos medo

martelamos os joelhos porque

temos medo botamos fogo nos nossos

cabelos porque temos medo atiramos os

ossinhos do tornozelo no canal porque

temos medo os dedos quebrados são justos

porque temos medo cortamos línguas

unhas orelhas, o caminho.

tiramos raspas de pele dos cotovelos

testamos a faca na jugular

plantamos uma granada debaixo da cama enfiamos

a arma do crime no queixo

porque temos medo.

cortamos a energia desligamos os resistores

porque temos medo o sol se deita

amanhã e depois porque temos medo

temos ferramentas  temos o que cerrar arrancar

martelar temos o que incendiar o que jogar

fora o que cortar porque temos medo

sabemos cuspir enganar trair porque temos medo

porque temos medo

dormimos tranquilas.

porque temos medo

somos também muito elegantes muito obrigada.

*

estira bem os braços só então amputa o que rodeia

*

ao homem que se levanta comigo

para l.

espero que as unhas cresçam

só depois solicitações, juras,

os números.

enquanto, isso.

qualquer justificativa.

espero que você não.

por favor.

mantenha a respiração acontecendo

beije sua mãe na testa, peça a benção a ela.

não olha a polícia nos olhos

se for preciso, esconda-se bem.

*

.


logo farei 22 anos.
me recuso a ir embora antes.
até lá enterrarei um filho. isso não será triste.

não vou embora sem cruzar a fronteira
enterrar esse filho
profundamente
não ser triste.

a faca\o amor

 daqui já é possível ouvir

pouco antes de atravessar o mar de alborão

buscando o marrocos seu cheiro no marrocos

deixar as cinzas em rabat

é o plano.

foda-se.

manter a faca amolada os pés prontos para correr

quando os militares.

daí você lambe a ponta

deixa a lâmina te conhecer.

……………………………………………………………….

craquelada 

tenho habitado muitos riscos.
o baiacu inchado na garganta insiste em
me competir o ar. como trepar em montevidéu 
e acordar no jaguaré: genealogia do deslocamento –
me abstenho de maiores explicações.  
li piva como quem toma chá de camomila com canela
assim descobri que o erro é um bacanal lotado de ex
marido. não dá pra ler piva antes do dejejum de uma
segunda-feira do mesmo jeito que não dá pra esperar
o baiacu sair da garganta por vontade divina. tenho 
ficado muito quieta & 
no silêncio a evidência me expõe: 
a memória das sereias do tejo, essa eu invejo; das
prostitutas da Mongólia tenho os mesmos dentes
vermelhos. não sei onde guardei as fotos da
ultima ida ao mercadão de são paulo. onde deixei
o molho de chave, onde foi parar aquele gozo na páscoa de 98, 
o jornal pra embalar os cacos de vidro, não sei onde. o 
baiacu espinha minha glote, me impede a distância. 
mesmo assim eu e o que restou das minhas
lembranças tombadas – nebulosas e uruguaias
como você – 
no ringue,
lutando contra o peixe, eu. 

………………………………………..

carta aberta aos homens de passagem

você com certeza vai
você com certeza vai lembrar de mim
quando topar com a salamandra azul 
no orquidário vai com certeza 
você vai com certeza
lembrar de mim.
do anel que foi parar no ralo 
cheio de cabelo e porra, 
você vai lembrar
dos filhos que não fez em mim
eu te disse 
era sério quando
o elevador quebrou no oitavo andar eu te disse
aquele era o nosso momento de glória
eu te disse 
pra botar no formol e você não entendeu
na hora mas acho que agora olhando a 
salamandra azul vai sacar 
eu chego sabendo que vou embora.
você vai lembrar 
a gente
com vinte anos sem vergonha na cara
nem pra comprar um cortador de unha
imediatista 
eu arrancava os excessos com os dentes.
tinha dez reais pra catuaba e um baseado no bolso
eu arrancava os excessos com os dentes. 
você vai lembrar disso
de hoje pra trinta anos isso vai ser uma lenda
você vai lembrar de mim
com certeza vai
encostar a testa no box no segundo banho
do dia 
enquanto tua mulher tira os
pentelhos da virilha e lê sobre o golpe na turquia
e eu vou estar 
em qualquer lugar longe da casa
que nunca tivemos.

………………………………………

possuir o impossível é afundar uma pedra na cara sorrindo 

a cona exposta sob o sol das sete e meia. 
acusam-me pederasta, acusam-me mulher da 
vida, acusam-me comunista. acuso-me 
trilho sem sequer uma partida. 
não levo em conta os desastres ferroviários do ultimo ano – estive
ocupada, muito ocupada. catava conchas distorcidas, nenhuma
concha intacta numa praia deserta do litoral norte.
até os suicidas estão de greve nessa manhã de domingo: não
avançam/ por isso não/ me tocam a coragem esponjosa. 
retaliada mas ainda assim a cona exposta sob o sol das sete e meia 
não me comove o sexo inflado dos homens de boa fé, não me ilustram
o corpo./ os russos / vestem nike nos pés / tiram férias em praga /
bebem corote e dizem o
séc. xxi não é pra todos. 
estive com hilda hilst me lambendo a virilha, estive sim
cansada e abortada dos filhos que
não vingaram. com a cona translucida, cinética, à espera. 

………………………………

EXERCÍCIOS



horas antes do voo 315, poltrona reclinável,
o céu colombiano.
j. arranca meus dedos fora um a um.
na cozinha, sequer pensávamos em despedidas.
j. pega o alicate digo pega o alicate agora na gaveta
isso é uma solução prática.
ele arranca meus dedos fora um a um
não sem antes lixar passar base nas unhas
remover cutículas, beijar as cabeças.
j. reúne meus dedos em conserva tampa em
segurança me confia o pote transparente antes do embarque.
não o levo ao aeroporto sou
uma mulher contemporânea.

…………………………………..

AS AGULHAS

andos com agulhas nos bolsos
porque tenho medo de esquecer coisas em lugares.
coisas importantes, coisas
que não me lembro porque
tava ocupada demais esquecendo.
me uno às agulhas
sou amiga delas.

……………………………………….

esse tumulto debaixo do vestido.

chego perto

a atrofia dos dedos

na culpa cristã

já não existo aqui —

desse ponto adiante

sou daniel aos leões

dentro

um coração de gueixa
fechado em si
recolhe os próprios cacos
ritual

impenetrável

não se deixa ver.

não movo uma peça

você parado no outro extremo

do quarto,

conto os dedos das mãos mais uma vez

para ter certeza.

conto sobre o poeta

enterrado no deserto do namibe

para ter certeza.

vigio a porta da frente

na espera do bote, os felinos.

aqui não tem tempo.

areia no sexo

suja

completamente suja
mais imunda a cada banho
o que fazer
agora

não explicam.

corpo não é despejo


diga corpo não é despejo
meu corpo não é teu aterro.
não sirvo pra ser tua menina.
o que eu quero é a orgia na romaria sacra
chupar sorvete no mercadinho
dizer Luanda
sem medo do homem que me come.
o que eu quero é esquecer
o dia em que rezei gritado
me explica por favor me explicase não apenas essas alternativas
a) a sina de ser desabitada.
b) simular o beijo, o suor, a afronta.
c) grifar só as vírgulas nas tragédias gregas.
me explica por favor me explicase sou eu quem liquida o corpo ou
é ele quem me trucida.

quem sabe

se não tivesse chegado perto demais
teriam passado em branco
as ogivas nucleares

instaladas pela redondeza &

não faria parte do vocabulário
o risco
nem a velha urgência em dizer
tenho tanto medo. n.

falariam sobre o menino
naquele dia enquanto ele

escancarava o peito no arpoador
como se velasse o sonho
aberto ao sol do meio-dia
sem cuidado algum

quem sabe
se não tivesse chegado de repente
a cidade não teria sumido
como sumiu sem aviso
saberiam endereços e pontos turísticos

não haveria o cego a luz o desejo agora
muito menos o tropeço no perigo
ainda teriam o menino
colado à vista
longa a fuga se faria nele.

………………………………..

antítese

o hospício instalado em cada céu da boca
posicionado na atmosfera ruge onde
renunciar salivas torrenciais
é mais desespero do que charme
[isso não é simples]
achar Homero um saco
aparenta não ser coisa de poeta.
por outro lado
gatos manchados e óculos vintage
fazem mais sentido.
munida de um alligator’s smile
havaianas pretas e um azulejo português
atrasando as costas nuas
caço num silêncio microscópico.
a musa que me habita é preguiçosa
o suficiente
pra não me lascar da própria voz
lazarenta, pomba-gira de ressaca
ela, toldo de circo recém sabido pelo fogo
se contorce se intercepta num quadro do schiele.
debaixo da minha axila esquerda a musa
pede abrigo tomada pelo êxito é anônima
sua cara suas cordas vocais seu pescoço
seu nirvana: navalha que é fenda e descanso.
quando quero olho em riste
com duas facas entre as mãos
recebo o poema de mim mesma
transviado, leproso, sanguinário:
lapso. desejável encosto.

………………………..

………………………………….

experimento número um

1. resposta ao piazza VIII de roberto piva

eu aprendi com hilda
& anaïs nin os meus
toques de inferno.

2. arrastão

me chega como quem pretende
apaziguar o rinoceronte sempre
à espreita debaixo do mesmo peito
esse meu peito lilás de gatuna
transviada, vulcânica Jocasta.
me despe sem desconfiar ser catatônica
a resposta do chifre dependurado mesmo
sobre o terremoto turco escala sete.

me retiro, cúmplice dos tramites que
a armadilha por si só ratifica.
farewell, mon amour – já está em tempo.
tratei de fechar as comportas
antigos amantes permanecem
deitados sobre o mesmo dia
[invariavelmente]
você se debate sobre o chifre vítreo,
esgarçado desespero sem idade,
arquiteta geometrias impossíveis e
com requeijão e cream cracker
engana sua fome de mim.

………………………………….

mantra

ninguém pode escrever como hilda hilst

o desejo segue sendo faca de dois gumes
com falta de amolador que preste.

quero que quando você pense
numa freira de joelhos roxos
no umbigo malcheiroso de deus
naquela couve num dente dianteiro ou
nos aplausos depois duma peça do brecht
na verdade você só passe a entender
que a parte desconhecida
do que resta dos setenta por cento de água
que a gente leva entre os ossos
é obscenidade e flagelo.

bukowski não cai bem usando saias:
para de insistir no erro.
minha voz pode ser baixa mas os
pulsos permanecem firmes
e ditam as leis do novo mundo
onde teu sexo é minha revolução,
meu apelo.

tem carga que corpo nenhum sustenta
ninguém deve escrever como hilda hilst.

…………………………………..

o diafragma trabalha pesado
nesse lance de sustentação.
ninguém mais diz gramofone
ninguém mais ouve jovem pan.
existem palavras frágeis & alguns
homens também (mas isso eles
botam em segredo, em
metástase.
um cara me fez gozar três vezes
enquanto calava a própria
boca
com um pano seco.
eu sonhei ontem o taco de sinuca
parecia viável arquitetura plausível
bem posicionado no rabo dum ex
namorado.
mas isso foi um sonho ontem eu
acordei aliviada. é verdade.
como se o diafragma não
precisasse mais trabalhar
no lugar do meu clitóris
blasfêmia absoluta
dizem
algumas palavras resistem
fraturam vias
respiratórias mas
em azul se embalsam
e vêm à tona como num
pico de heroína
ao solstício de inverno
em pleno carnaval na bahía

…………………………………………….

não fomos assim tão perigosas.

olhávamos a escadaria
muito preparadas
de cócoras diante do bote
punhos contra os ladrilhos do chão.

as vistas ofegavam.
mesmo depois de furtadas as
caras de felina
lembra

rompemos madrugadas e louças chinesas
é verdade.

tínhamos 20 anos e o mundo era nosso.
o salto era nosso.
o que não agarramos de imediato e o que víamos mesmo distante
era nosso.

as coisas que invadem a boca
até hoje
aos domingos santos.

calculamos cada detalhe
a fim de implodir a estrutura do edifício
com cuidado e eficiência
de quem entende o que veio
e o que está por vir.

confeccionamos bombas no parque central
os olhos por pouco infantis
inofensivas
como quem monta legos sem pretensão de muito
mas pensando um império nas mãos.

não vigiávamos os movimentos da cidade,

senão o ritmo das nossas panturrilhas
enquanto corríamos ou chutávamos ou nos imobilizavam
tudo dependia do ângulo de inclinação
dos objetos violados.

e de novo
muito preparadas
nos colocamos à prova de tudo que viria desabando pelos degraus.

assim mesmo
não fomos tão perigosas
como nos imaginávamos.

……………………………………………….

quatro poemas para o sr. hercovich

1.
cerrei o dedo indicador e embrulhei em papel celofane.
o sr. hercovich receberia o pacote em 3 dias úteis.
foi o que o carteiro me confiou
enquanto eu alisava o membro fantasma
com carinho calculado.


2.
sonhei que regia a orquestra sinfônica do estado de são paulo
na platéia pessoa alguma notava a ausência que eu dispunha
tão perto das mãos, aplaudiam e assobiavam
BRAVO,
BRAVO
!

na cena o sr. Hercovich
sentado na penúltima fileira esperava
a mão esquerda enfaixada.


3.
penso
ceci n’est pas um dedo
mas o nariz coça e eu esqueço.
passei a ter alguma dificuldade em amarrar os sapatos

(comprei chinelos, larguei o cigarro)

mamãe dizia
nessa vida tudo dá-se jeito
ao passo que eu duvidava.


4.
não duvido.
meu silêncio mais dócil reservei aos homens
que aqui sentaram, beberam, fumaram, foderam,
e levantaram-se comigo bem ao lado.
fui bonequinha russa
menina bem portada
abria-lhes o cu e a cona
beijava as pálpebras, ninava.
entre o protocolo e a porta dos fundos.
de novo meu silêncio mais dócil,
ria às piadas, limpava os vidros da sala.
eles amavam e partiam, amavam e partiam.
mas sou eu quem fico, então ficava.
tinha 5 dedos em cada mão
mais nada.

………………………………

A ESTRUTURA

1

o comprimento de uma cigarra varia entre 6 e 15 cm
……equivalente ao tamanho de uma lâmpada ou de um copo americano.

em algumas áreas do Brasil ela é chamada de gafanhoto
o que não significa que seja o mesmo inseto
o que não significa que não possa ser o mesmo inseto
……….ou outra coisa
como uma lâmpada ou um copo americano.
………………………………………………..[dependendo do ângulo de observação.

no sudeste asiático esse desarranjo não existe
mesmo se tratando de um local com gafanhotos e cigarras.

mas isso não implica a ocorrência de outros tipos de desarranjo
…..entre os animais.

também não é raro a cigarra chocar-se contra os baobás
em parte porque não é uma lâmpada ou um copo americano

em parte porque voa mal
mesmo com seus dois pares de asas
bem articulados.

2

o observador w nota uma cigarra e nomeia gafanhoto
o observador x nota uma cigarra e nomeia cigarra
o observador y nota uma cigarra e nomeia a fuga
o observador j olha uma cigarra e nomeia outro bicho

3

quando eu falo estou esperando o sol
voltar de novo ao sol mesmo que estou me referindo

quando eu falo estou esperando a casa
voltar de novo à casa mesma que estou me referindo
quando eu falo estou esperando o termômetro
voltar de novo ao termômetro mesmo que estou me referindo
quando eu falo você estou esperando incendiar
de novo o corpo mesmo que estou me referindo
quando eu falo você estou esperando recupar
de novo na mesma perda a queimadura de amanhã.

4

o observador j não é observador.
não como esperam que seja.
isso não é um poema
não como esperam que seja.
o tempo permanece estável durante a tarde
apesar das nuvens.

5

a gengiva sensível reclama a dificuldade em
mastigar determinados resíduos.

lembrete: o que não é estrutura é sedimento;
as pessoas precisam se agarrar em objetos fixos
………………………não há mal nenhum nisso
sobrevivência pede uma casa
………………………eu não tenho uma casa
sobrevivência pede     quite suas dívidas
………………………eu não quito minhas dívidas
sobrevivência pede pernas
………………………eu não tenho pernas

j. me olha demorado e me nomeia cigarra
enquanto simulamos o suor da linha do equador
ele me permite gritar
um pouco

6

j. me pede
……faz um filho comigo

pobre j.
……para isso você tem que cantar.
antes de mais nada você tem que cantar &
eu tenho que recuperar o que há entre a casa e as pernas.
o comprimento das asas e dos nomes.

…………………………..

esquina

dias perdidos nos bolsos.

alguém conta sobre o passeio de bicicleta
pelas ruas de buenos aires,

como se o país não desmoronasse
sem pedidos de desculpa anexados a planilhas.

pés velozes e elegantes
debaixo da noite.

alguém dança em um cubículo
do outro lado da fronteira.
..& pensa em um amor sem ruptura
enquanto olha para os lados

o quadril se move em silêncio
diante das batidas nas caixas de som.

aniquilados antes mesmo de terem sido.

cada um num canto da cidade
engalfinhados em seu próprio idioma.

os dois bolariam planos
como salvar-se do inimigo –
fiéis ao que não tocam.
perfeitamente fiéis.

enquanto desengorduram panelas de teflon
segurando firme nos sonhos
entre o detergente e os dedos enrugados
….calos brotam como pássaros.

*

o abalo dos joelhos,
ossatura da construção,
entre o sétimo e o nono andar
não existe nada
além do anúncio breve de uma escada
nenhuma parede.
você escolhe não pensar
no país deixado atrás de si
moribundos e felizes eles
longos
os que se fecham ao vazio
pulso que tomba.
você escolhe mordiscar as cutículas
não regar as plantas ou
desengordurar panelas
no entanto,
olhar o guindaste
o que está por ser erguido,
o que pressupõe a queda-livre
de outra coisa dentro dele mesmo –
não.
isso você não pode ver.

*

na cozinha ruídos de louça
estardalhaço de vidros
agora nenhum barulho
porque no quarto
acorda mal humorado
e é preciso que se faça silêncio
mas isso não termina bem
como nunca terminam
as coisas escondidas
muito quietos sim
os segredos se comportando feito bicho preso pela pata
se debatendo
em azul no escuro

…………………………….

CONTÁGIO

o corpo sujo é barrado no ___
mercadinho municipal na farmácia no
enterro do sobrinho na missa do galo na
reunião de moradores do bairro. no hospício o
corpo sujo é bem vindo. o meu corpo
sujo é hospício
enquanto no banho lugar de onde
saio cada vez mais imunda
porca sem rabo preso azul no entanto
a língua suja de mulher suja não se aguenta
tem nome de urubu quando fala urubu
tem nome de tesão quando fala tesão
tem nome de socorro quando fala
é suja também imunda muito a língua
quando ousa o sistema linguístico

deixa água de lastro por ele inteiro
o sistema contaminado pelo chorume
o sistema linguístico agora extraviado
do cômodo bem instalado onde habita e o
corpo sujo ainda treme e vacila os joelhos
como um fungo uma doença como
árvore de joão bolão o corpo desavisado
permanece assim mesmo
incomodando, atraso ao contrário.

…………………………………………..

Dous  poemas de 2014

Clandestina

Morrem mais quatro na favela do Jacarezinho
um fazedor de pães
uma professora sem magistrado
uma criança mirando pro alto
um cachorro desavisado
Se perguntarem, foi confronto e pronto.
Metonímia crua de um todo mais que largo.
contra fatos não há retratos
há maltrato, desamparo, caco
pingo de bala no chão, silêncio na multidão
(sem um pio, eles ouvirão)
Uma flor nasce no cantinho
entre um beco e um suspiro
Drummond bem que avisou:
tenho apenas duas mãos.

Anestesia

Dois corpos nus no divã
Nus suados
suados e exasperados
Exaltados
Eufóricos
Descontrolados

Preenche-se a vasilha
que antes, vazia, não se distinguia
diante da multidão
de vasilhas tão secas
tão ”só vasilhas”

Mas já no lençol amassado
voa sutiã, bermuda, camisa
voa alma
voa o tempo
tempo tanto que já nem se sabe
o que o tempo de fato é

Fica a inconstância
fica o desapego do mundo
O aconchego da pele
Os sussurros cantados
A valsa do desejo mútuo

Fica a anestesia da vida.

…………………………….

De 2019

Clandestina

Morrem mais quatro na favela do Jacarezinho
um fazedor de pães
uma professora sem magistrado
uma criança mirando pro alto
um cachorro desavisado
Se perguntarem, foi confronto e pronto.
Metonímia crua de um todo mais que largo.
contra fatos não há retratos
há maltrato, desamparo, caco
pingo de bala no chão, silêncio na multidão
(sem um pio, eles ouvirão)
Uma flor nasce no cantinho
entre um beco e um suspiro
Drummond bem que avisou:
tenho apenas duas mãos.

Anestesia

Dois corpos nus no divã
Nus suados
suados e exasperados
Exaltados
Eufóricos
Descontrolados

Preenche-se a vasilha
que antes, vazia, não se distinguia
diante da multidão
de vasilhas tão secas
tão ”só vasilhas”

Mas já no lençol amassado
voa sutiã, bermuda, camisa
voa alma
voa o tempo
tempo tanto que já nem se sabe
o que o tempo de fato é

Fica a inconstância
fica o desapego do mundo
O aconchego da pele
Os sussurros cantados
A valsa do desejo mútuo

Fica a anestesia da vida.

…………………………

Considerações sobre a Higiene Íntima

nunca conheci quem tivesse cabeça limpa
aliás os poucos que conheci
e talvez tivessem cabeça limpa
prestavam menos do que suspeitavam

sempre preferi aqueles cheios de bichos
escândalos baldeando de orelha a orelha

quem quebra copos
quem sabe o erro
toma para si o erro
segura escova gargareja
não cospe

testemunha perfeita do crime perfeito
quem sabe o erro assim
me inspira muita confiança mesmo

(reconhecer quem não tem cabeça limpa
alimentá-los, ser boa para eles)

olhei o tapete do banheiro sem medo dessa vez
todo um ecossistema lá
quem acreditaria?

ácaros mofo manchas de vinho
os meus joelhos nele
lembra?

os cotovelos no vaso sanitário a sua
língua entre as bandas da minha bunda
a gente ria feito duas cabras
era feriado ou algo assim
você atrasado pra uma festa ou algo assim
o azulejo português ou algo assim
quem acreditaria?
o fim do mundo ali vivendo entre
animaizinhos minúsculos lembretes
manchas impossíveis
lá bem ali

ácaro, mofo, manchas de vinho
eu nunca conheci quem tivesse cabeça limpa (x2)

eu saio do banheiro cada vez mais suja
cada vez mais suja (x4)

penso que esquecer é fácil, então eu esqueço.

ácaro, mofo, manchas de vinho
os meus joelhos nele
azulejos, o vazo sanitário, a sua língua
ácaro, mofo, eu nunca conheci
eu nunca conheci quem tivesse cabeça limpa
ácaro, mofo, manchas de vinho

olha, você pode até ser um homem piedoso
só eu não sou piedosa.

……………………………..

E, agora, a súa poesía, na súa voz, emanado do seu corpo, nestas ligazóns.

Considerações sobre higiene íntima

apneia

desossa

trama

surtir, surtida, surto…

Onte Xurxo Souto reclamaba unha actualización do dicionario da RAG nas páxinas de Nós Diario.

Hoxe, Marta Dacosta faise eco desa urxente necesidade e recunca no tema.

Hoxe tamén, Carlos Garrido escribe tamén en Nós Diario sobre surto e a invención de gromo, para utilizar no lugar de brote. Ben, a min gromo sempre me pareceu unha pura tradución de brote. Unha mala tradución porque está fóra de lugar. Segundo Carlos Garrido, Manuel González seica foi quen inventou o invento e deu dúas razóns para iso. 1) que surto non se documenta nos falares galegos nin nas obras neles baseadas. Sendo surto un neoloxismo, esa afirmación non se ten de pé. E 2) en segundo lugar bota man de xurdir, como resultado popular de surgire (así o entendín eu).

Pois ben, nestas eu teño que dicir que SURTIR existe na fala como verbo co significado de saír ao encontro de alguén. Usábao a miña avoa, úsao miña nai e úsoo eu. Á vez tamén existe na fala o participio usado como substantivo: SURTIDA. Dálle unha surtida a teu pai, que vén da chousa, por sinal ( xa vou cansando do “exemplo”).

Partindo disto, e se necesitamos crear un neoloxismo, O LÓXICO é acudir a surtir, sen necesidade de traducir o castelán brote. Alén de que surto xa existe en portugués coa acepción a que nos estamos referindo…

Ah, vaia, mais (óllese que eu sempre trato de evitar pero) é que no dicionario da RAG, polo menos no dicionario en liña, nin aparece surtir nin tampouco surtida… Curiosamente si aparece no Estraviz como sortir

Porque, como temos denunciado ben veces, o dicionario en liña da RAG só é útil para cuestións ortográficas, para pouco máis serve alén de comprobar algún significado de palabra descoñecida. Poucas, porque é moi limitado. Polo que eu sei contén a redor dun terzo só do dicionario completo da RAG. É urxente amplialo, revisalo, actualizalo…porque se imos e miramos cuestións gramaticais (por exemplo verbais) xa a mesma nomenclatura avisa dunha desactualización abraiante, mesmo vergoñenta a estas alturas, e absolutamente desaconsellábel, por sinal, no eido do ensino…

E o peor é que hai moit@s alumn@s que botan man del por ser unha ferramenta que está moi a man é é de doado uso. E tamén moit@s escritoras e escritores. Non é de estrañar o empobrecemento léxico, o dicionario en liña da RAG contribúe grandemente. Por non falar do mantemento da nomenclatura castelanizante das formas verbais…

Por certo, e xa par acabar. Antes falei de surgire como étimo de xurdir. Pois ben, surtir ten etimoloxía en sortire, que eu saiba.

Cómpre dicilo máis ALTO?