poesía contra Bolsonaro

Este poema de Elisa Lucinda (poeta nova, mais xa cun prestixio abondo gañado) recitado por Ana Carolina, rematou converténdose nun himno conta Bolsonaro.

Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar?

Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam

entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, que reservo

duramente para educar os meninos mais pobres que eu,

para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus

pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e

eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança

vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança

vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o

aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus

brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao

conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e

dos justos que os precederam: “Não roubarás”, “Devolva

o lápis do coleguinha”,

” Esse apontador não é seu, minha filhinha”.

Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido

que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca

tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica

ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao

culpado interessará.

Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do

meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear:

mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem!

Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo

o mundo rouba” e eu vou dizer: Não importa, será esse

o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu

irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a

quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.

Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o

escambau.

Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde

o primeiro homem que veio de Portugal”.

Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.

Eu repito, ouviram? IMORTAL!

Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente

quiser, vai dá para mudar o final!

A mesma Elisa Lucinda explica nesta carta como fora o seu poema anterior perversamente utilizado polo bolsonarismo:

“Só de sacanagem vou explicar:
Ao proferir seu voto contra o ex presidente Lula o presidente do TRF4 citou trechos do meu poema que compõe título desse texto. Esclareço e reitero que o poema foi feito contra a corrupção, contra fascistas, contra homofóbicos e contra qualquer abuso de poder ou qualquer uso do dinheiro público em favor de alguns e que vá contra o povo brasileiro. Simples assim. Nunca autorizei o uso desse poema para eleger ou para contribuir para a vitória do novo governo federal que aí está. A imagem da cantora Ana Carolina com o número 17 descaradamente posto sobre sua face, circulou como uma grande fake news fartamente durante a última campanha presidencial nas redes. Quem via e não me conhecia ou não conhecia a Ana poderia pensar que se tratava de uma posição política nossa, alinhada ao pensamento dos que usaram indevidamente a nossa arte. Não confere. Na época, as irregularidades do que ficou conhecido como mensalão, foram punidas e coerentemente, vale ressaltar, o governo petista foi imparcial na investigação das denúncias, tivemos pela primeira vez uma polícia federal independente e autônoma. Este poema quer saber onde está Queiroz, o esquema daquele milhão, o depósito na conta da primeira dama. Este poema interroga se um juiz pode coordenar as peças de uma acusação no caso que vai julgar; meu poema quer saber quem mandou matar Marielle, quem punirá os quebradores da placa. Este poema não elogia torturadores, não quer a volta da ditadura, não avaliza quem pensa AI5. O Só de Sacanagem é um poema de combate e não quer fechar o congresso. Apoiado na constituição e confiante na democracia, a bandeira que esse poema estende não abraça corruptos, milícias, polícia genocida. Não. Digo isso aqui com todas as letras para que não reste dúvidas.

Hoje tudo que pode nos salvar é a Constituição. Eu acredito que é ela que vem dando limites à medidas provisórias descabidas e autoritárias, e nos guia dentro do caminho do desenvolvimento de todos baseado na igualdade.

É inconstitucional, por exemplo, no meu entender, que um cidadão proclame o racismo, ataque seus defensores, sendo essa prática crime. Torna-se portanto duplamente inconstitucional se esse cidadão é nomeado para dirigir uma instituição com fins anti racistas. Um cargo público não pode ferir o povo. Neste momento em que Marielles se multiplicam pelo Brasil, e que nunca fomos tão ouvidos, um acinte a presença de um negro alienado dos princípios e das conquistas contemporâneas que combatem a necro política de Estado que nos assassina de norte a sul. É hora de nos mobilizarmos nacionalmente. Todas as instituições, todos os movimentos negros, todas as associações e organizações não governamentais devem se unir e escancarar para o mundo tal escândalo. Não somos poucos. Respeitem os 54% dessa população brasileira. Negra, tal maioria, se avoluma consciente e não vai legitimar a presença desse senhor na Fundação Palmares. A desastrosa nomeação se deu no mesmo dia, em que resolvo me colocar publicamente como uma vítima intelectual de mais uma fake news deste governo e de seus defensores. Sigo indignada, como alguém que tem a sua arte usada em favor do que execra.

Mas não estou só. Sei que quem me lê, quem consome a minha arte, quem frequenta meu teatro, quem me vê nas telas, nas entrevistas, nos atos públicos, não tem dúvida que estou com o povo brasileiro. No entanto, há os mais ingênuos, os que não se detém a refletir, os que seguem enganados achando que o “Governo Bolsonaro vai dar um jeito nesse país”, e é para esses que também escrevo. Pra mim não são maus. Só ainda não entenderam, perdidos entre as versões mais loucas, que incluiram um delírio chamado “mamadeira de piroca”, coisa que até numa ficção teria dificuldade de credibilidade.

Quando se tem um governo que não se incomoda com o sofrimento e o homicídio de sua população jovem pobre, que não se comove com seus velhos, que tira direitos, aposentadorias e cidadanias, que ataca os defensores das matas e das populações ribeirinhas com o Saúde e alegria e vários guardiões, não se importa com a alta taxa de desemprego, que não reconhece a metástase do racismo apodrecendo o nosso corpo social, que desfaz do nordestino construtor destas metrópoles todas, que faz declarações homofóbicas e desfila atitudes que autorizam tais crimes, não se pode esperar que venha paz dessa gestão. Como viria? Eu pergunto. Como haverá paz com o aprofundamento da desigualdade? Que matemática nos convencerá?

Nos trabalhos que fazemos, nós da Casa Poema, junto à OIT e os Ministérios Públicos do país dentro da socioeducação, fica tão claro que a condenação só bate no lombo de quem sempre apanhou. Nas cadeias, nos morros, nos hospitais públicos, como se fosse um “blackout” só se vê a maioria negra. E isso não é coincidência. Nada por acaso. A maioria dos santos católicos é branca e chegaram ao cúmulo de embranquecer as imagens dos orixás. Não há limite? As 7 crianças mortas nas comunidades cariocas dentro de um governo que toda hora fala em nome de deus e da família são todas pobres e negras. Seria coincidência? Nenhuma delas tem sobrenome importante e por isso não virou um escândalo seu extermínio. Então os que postulam e aprontam em nome de Deus enfiaram em que parte o “Vinde à mim as criancinhas…” Ninguém percebeu que, com o aumento da desigualdade, não haverá proteção de nenhuma parte? O Deus citado está sabendo disso? Fake news com a palavra de Deus????!

É surreal que eu esteja escrevendo essas linhas. É absurdo que o ministro do tribunal regional federal cite meus versos se arriscando a cometer tamanho equívoco uma vez que está em todas as minhas redes exposto o meu pensamento comprometido com o bem estarte contra a imensa desigualdade que oprime e maltrata o povo brasileiro. A citação do meu poema é um mico. Sou aquela que puxou a campanha #votecomumlivro no professor Haddad, sou aquela que se sente envergonhada a cada declaração dos representantes desse governo no cenário internacional. Sou aquela que acha Lula inocente e o melhor presidente até agora nesta terra só de elites no poder. Sou aquela que empresta sua voz todo o dia contra o feminicídio, contra o machismo tóxico, contra o racismo, em favor da diversidade. Citar-me erroneamente expõe a ignorância do citador, é verdade, mas também faz uma bagunça na cabeça de quem tem dificuldade de ler esta doida realidade virtual, lugar em que a mentira se mimetiza em verdade e, o faz com tamanha desfaçatez, a ponto de relativizar o fato de haver ou não verdade naquela mentira vestida de verdade. É grave.

Meu poema Só de Sacanagem sempre servirá à liberdade de pensamento, e jamais assinará embaixo qualquer forma de abuso ou de opressão. Mesmo tendo usado sem a minha permissão, sem autorização de imagem e voz de Ana Carolina que o gravou, o poema sobrevive firme e parece até uma sacanagem que seus usurpadores não o tenham compreendido. Parece uma piada. Provocaria risos se não fosse trágico. Talvez não se tenha percebido logo. Talvez os desavisados de plantão, na pressa de embaralhar as narrativas se atropelaram a tal ponto em usá-lo como exemplo que nem se aperceberam, e nem se sentiram atingidos pelas palavras.

Está explicado então. Meu poema concordar com tais atrocidades não pode parecer o normal.

Escrevo porque sei que ‘se a gente quiser, vai dar pra mudar o final’.

A seguir un poema, escrito por Bábara Victória para o 8M, tamén ilustra ben a loita que a muller debe afrontar baixo a bota do bolsonarismo.

Mulher
Do latim
“Não devo ser obrigada a nada”

Trabalho
Fora
Em casa
E a toda hora
Necessária
Carrego comigo
O “BASTA!
NÃO QUERO
SER ASSEDIADA!”

Assobio
Buzinadas
E só olhar
MATA!
Mulher
Trans
Cis
Pobre
Negra
Morre
Morre
Morre

Nesse sistema
Cheio de faceta
Não quero parabéns
Nem dedicatórias
Quero o direito
Sobre meu corpo
Minha vida!

Não quero romantismo
Cavalheirismo
E sim! O fim do machismo!
Quero não morrer
Quando a máquina apita
Acelera
E meu braço fica
E sangra
Amputa
E me dilacera

Quero não sangrar
Não ser esquartejada
Mutilada
E queimada
Só por ser uma mulher
Livre dos padrões
Da tua escala

Não quero o tiro
Na volta de casa
A faca apontada
E ser obrigada
A abrir as pernas
Minha roupa rasgada
E ser estuprada

Não quero luz no útero
Quero poder escolher
O que coloco no mundo
E se quero
E se posso
E se não
Poder dizer não
Sem morrer no escuro

8 de março
Não é só poético
É fogo
É mão esquerda pro alto
É longe do abraço
E perto do suspiro
Daquele minuto
60 segundos

De olhar nos olhos
De cada mulher
E o que for dito
Ser compreendido
Por nos que somos oprimidas
E que pulsamos
Resistimos
Lutamos
E Gritamos
A todos os pulmões

Vem quente
Estamos fervendo!
Não vou só chamar o Rex
Vou organizar
As Minas
Monas e
Manos

Pra detonar o seu privilégio
Que o Vaticano
Os tio de branco
Os bolsonada
Seguram a todo custo

Não tem revolução
Presta atenção
Não tem revolução
Se as mulheres
Que resistem
Não estiverem a frente
Lutando para serem
Quem são!

O ato meu caro
É muito além de um desabafo!

(É só o percurso do estrago)

Tamén este poema de Fernando Mendes ten o seu lugar:

Bestas soltas
Outorgarão
Leis absurdas

Sobre o pão
Ou o vinho

Não falando
As imbecis
Refutando
Opção que vir
Vacinando

E tão tolas
Anunciam
Divulgando
O seu fugiró

Óscar Barros escribiu isto:

O Lula era uma esperança,
Mas não soube aproveitar a hora,
Com o dinheiro ele festança,
E o povo fez o seu bota fora.

O Lula não é gente boa,
Seu eleitor tem a mente fraca,
Não vote mais nessa pessoa;
O Lula tá preso! seu babaca!

Botou as mãos na coisa alheia,
Não respeitou as eleições,
Terminou a sua vida na cadeia
E machucou muitos corações.

Por isso ele merece uma taca,
Tem que pagar por ser ladrão.
Lula tá preso!babaca!
Vão cortar-lhe mais um dedo da mão.

O Brasil brilha com o Bolsonaro
E o Lula escondido na sombra
E o Capitão deixou bem claro,
Daqui pra frente: é tiro,porrada e bomba.

Tamén este de Affonso Romano de Sant´Anna, anterior (1980, nos estertores do exime militar) ao bolsonarismo foi tido como himno contra o pérfido:

A Implosão da Mentira

Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Fragmento 2

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial?mente,
mente partidária?mente,
mente incivil?mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
—diária/mente.

Fragmento 3

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.

Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.

Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro
implosiva.

Arnaldo Antunes, artista ben contrastado, é autor deste longo desabafo:

IstoNãoÉUmPoema

isto não é um poema

desabafo
que não pude não
fazer e não pude fazer
de outra forma
que não fosse
assim
fatiando as frases
no espaço
aqui
hoje
eu vi
aterrorizado
um artista assassinado
Moa do Catendê,
mestre de capoeira,
autor do Badauê —
por conta de uma divergência política num bar
da Bahia
depois corri o dedo
sobre a tela e
vi e ouvi
arrepiado
Luiz Melodia
(também negro e compositor,
também com o cabelo rastafari,
como a vítima do post anterior)
cantando
“no coração do Brasil”
e repetindo muitas vezes
esse refrão
“no coração
do Brasil”
“no coração do Brasil”
que tento sentir
pulsar ainda
entre a luz de Luiz
e a treva
desse buraco vazio
que não pulsa mais no peito
de Moa do Catendê
e “não existe amor em SP”
ou “no coração do Brasil”
fraturado
nesses dias
brutos
de coturnos
chucros
a chutar a cara
de quem
ama
arte
cultura educacão
liberdade de expressão
diversidade
cidadania
solidariedade
democracia
mas não se dá
a mínima
o que importa é se subiu
a bolsa
caiu
o dólar
se todos vão prosseguir
seguindo
docilmente para o abismo
nessa insanidade coletiva
em que o Brasil nega
qualquer Brasil
possível
cega
qualquer futuro possível
e o ódio
o horror e o
ódio
e nada que se diga faz sentido
mais
para quê
expor na cara desses caras
a palavra explícita
(gravada em vídeo e repetida, repetida, repetida)
do seu “mito”
dizendo
“eu apoio a tortura”
“eu defendo a ditadura”
“eu vou fechar o congresso”
“não servem nem para procriar”
“não te estrupro porque você não merece”
“a gente vai varrer esses vagabundos daqui”
“o erro foi torturar e não matar”
“viadinho tem que apanhar”
etc etc etc etc etc
e tudo mais
que repete incansavelmente
há anos
ante câmeras e microfones
para quê mostrar de novo
e de novo
o mesmo nojo
se é justamente
por isso
que o idolatram?
e sempre haverá
os que vêm disfarçar
dizendo:
“estamos entre dois extremos”
“sim, mas veja a Venezuela”
“é para acabar com a corrupção”
“nós queremos segurança”
ou
“não é bem assim…”
enquanto constatamos cada vez mais
que sim,
é assim
mesmo, é assim
que é
mas
como li por aí:
“como explicar a lei Rouanet para quem
ainda não assimilou a lei Áurea?”
ou: como explicar a lei da gravidade
para quem ainda crê
que a terra é plana?
e querem defender sua ignorância com dentes
e garras
querem
matar atirar vingar
a quem?
em nome de quem?
(pátria, família, propriedade, segurança?)
se nessa seara não há direitos
nem respeito
ensino ou dignidade
só horror e
ódio, ódio
e horror
as palavras perdem a clareza
os valores perdem o valor
a vida perde o valor
Marielle
remorta remorrida rematada
por sua placa
rompida rasgada desonrada
pelas mãos truculentas de
brutamontes prepotentes
com suas camisetas estampadas
com a face do coiso
que redemonstra sua monstruosidade
quando vende
em seus próprios comícios
camisetas de outro
ultra-monstro
ustra

aquele que além de torturar
levava crianças para verem
suas mães torturadas

e esses mesmos
abomináveis
que, diante de uma claque vergonhosa,
se orgulham
de terem
rasgado as placas
com o o nome Marielle Franco
estão sim
agora
eleitos
satisfeitos
mas não saciados
de todo o sangue
de inocentes
que há de correr
só por serem
diferentes
excitando em outros
o desejo de exercer
seu obscuro
poder
de milícia polícia esquadrão da morte
e o anúncio da Rocinha metralhada
como solução
a barbaridade finalmente
institucionalizada
como diversão
o Brasil finalmente
sem coração
fora da ONU
e dos acordos internacionais pelo
meio-ambiente
sem controle
de sensatez ou mentalidade
sem limite humanitário
“não vai ter ong!”
“não vai ter ativismo!”
“não vai ter mimimi!”
bradam
cheios de si e de ódio
criminosos contra o crime
opressores pela família
amorais pela moral
apesar de todos
os alertas
da imprensa internacional
de esquerda, de centro, de direita
só não vê quem não quer
a tragédia anunciada
divulgada
não como boato
mas escancarada
 mente
enquanto
empoderados pelo discurso
de ódio
de horror e ódio
seus eleitores
já saem pelas ruas
dando tiros
e gritos
enxurradas de fakes
suásticas nazistas gravadas com canivete
na pele da menina
que usava “ele não” estampado na blusa
e a promessa de violência desmedida
se concretizando
antes mesmo de começar o segundo turno
e nem um centímetro de terra para os índios
e nem um pingo de direitos civis ou humanos
e a volta da censura e o ódio,
o ódio, o horror
e o ódio
pra encerrar de vez
o sonho de uma nação
que tem a chance
de dar ao mundo
sua contribuição
original
agora fadada a repetir o que de pior já houve
na história
sem história agora
sem Museu Nacional
nem cultura nem educação
abolir filosofia e arte
em seu lugar:
moral e cívica
escola militar
religião
geografia dos lucros e dividendos
massacre das minorias
horror e ódio
e ódio
e horror
crescente permanente enquanto dure
pois ninguém larga o osso assim tão fácil
depois de um golpe
que precisa parir outro golpe
ou autogolpe
alimentado por todas as fakes e facas
contra as costas de artistas
como Moa
mas na cabeça de quem apóia
tudo se justifica:
o fascismo
a tortura dos presos
o sumário julgamento sem juri
autorização dada à polícia
para matar
e o ódio aos pobres
as blitzes ostensivas
a guerra declarada
dos que aceitam assassinos para combater bandidos
se está tudo invertido mesmo
pobre elegendo milionário,
pelo avesso e ao contrário
então se autoriza a sórdida
barbárie
dos fortes contra os fracos
algo está muito doente
no Brasil
no descoração do Brasil
que mente, se omite, agride, regride
para avançar sem freios
em direção ao fascismo
seguindo a música hipnótica do
ódio,
horror e ódio
pregados em igrejas
em nome de Deus
e de Cristo
só desamor em nome de Cristo
violência e brutalidade em nome de Cristo
armas e tortura
e preconceito em nome de Cristo
de Deus e de Cristo
armar a população
para metralhar os adversários
os diferentes
os miseráveis
os favelados
os do outro lado
os que se manifestam
ou contestam
ou pensam de outra forma
ou se vestem
de outra cor ou tem
outra cor ou
qualquer pretexto
que se crie
para espalhar o ódio, o horror
e o ódio
do machismo ao estupro
da mentira ao linchamento
do homicídio ao genocídio
(“tinha que ter matado pelo menos trinta mil!”)
já sem democracia
palavra vazia
em boca
de quem compactua
(e não são poucos)
pensando ser
possível
alguma forma de
neutralidade
nesse momento
como Pilatos
lavando as mãos
a chamada mídia
tenta fazer média
ao dizer que os dois lados são igualmente
extremistas e perigosos
mas então
onde estavam nos últimos três mandatos
e meio
antes do pesadelo Temer?
estavam numa ditadura comunista
e não sabiam?
na verdade
todos sabem muito bem
que o extremismo
vem de um só
lado, que
quer se eleger para acabar
com eleições
e que o grande perigo é mesmo
esse jogo
de equivalências que,
na verdade
serve ao monstro
pois a omissão é missão impossível
neste agora
impossível
mascarar o sol
da ameaça
hostil e explícita
do nazismo
crescente
com a peneira furada
de um bom senso
mediano hipócrita indiferente
que sempre
vai dizer:
sim, mas a Venezuela…
como se não tivéssemos ouvido exatamente isso
em 64,
quando diziam:
— Sim, mas Cuba…
para justificar a ditadura militar
que tanto elogiam
hoje em dia
e que o atual
presidente
do nosso Supremo Tribunal Federal
decidiu
que agora vai chamar
de “movimento”
em vez de
“golpe militar”
para adoçar um pouco a boca
amarga
do sangue
impregnado
que não vai sumir assim
mudando a nomenclatura
desnomeando a já tão dita
“ditadura”
mas esse des-
 equilíbrio
ético
que diz
preferir uma autocracia
perfeita
a uma
defeituosa
democracia
esse
erro
que nenhum arrependimento será
capaz de reparar
quando for tarde
demais
ainda dá
para evitar
ainda
é tarde
de menos
para
conter
o ódio,
o horror e o ódio
ainda

dd
a
d

Francisco Diniz é autor deste cordel, do cal reproduzo parte…ben significativa:

Convidei, num outro dia,

Amigos para glosar

E comigo meditar

Sobre essa agonia,

Bolsonaro e sua cria

No governo do Brasil,

Mas ninguém me sugeriu

Versos pro mote astuto:

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

Se ninguém se interessou

Em me dar uma resposta

Para escrever sobre a Bosta,

Que a eleição ganhou

E presidente virou

Do nosso belo Brasil,

Quem sabe o amigo sentiu

Que o mote era fajuto:

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil…

Ou era mote complexo,

Ou não queria se expor,

Pois aqui tá um horror

Falar daquele Sem Nexo

Para não ficar perplexo

Ou deixar de ser gentil,

Pois todo mundo já viu

Querela em todo reduto,

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

Se com o mote sou grosseiro,

Eu não vou pedir perdão,

Eu não tenho condição,

E não serei o primeiro,

Tampouco o derradeiro,

Como tantos no Brasil,

A não gostar do que viu:

O povo eleger um bruto,

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

Quando há decepção

Na política, o nosso povo

Pensa em mudar para o novo,

Sem uma avaliação

Da história, da tradição

Do político no Brasil,

Com o tempo, então viu

Que não se trata de vulto,

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

A elite ao perceber

Que perdia território,

Procurou fazer o velório

Da esperança do viver

Do pobre para assim ter

De volta o seu Brasil,

Que só era varonil

Para um bando de corrupto,

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

E sabe o que o rico fez?

Juntou seus representantes,

Deu golpe em poucos instantes

Com mídia, galinha pedrês,

Justiça, os malas da vez,

Políticos e assim pariu

Um tempo ruim no Brasil

E enganou até o matuto,

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

Com o poder em suas mãos,

A elite se utilizou

Do que Maquiavel falou:

Usou os falsos cristãos,

Povo simples, cidadãos,

E para todos, mentiu,

Propondo outro Brasil,

Que de amor está de luto,

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

A imprensa se encarregou

De um papel triste cumprir:

Deturpar e perseguir

O que Lula conquistou,

E assim ela inventou

Mentiras e conseguiu,

Com a justiça do Brasil

Um resultado astuto,

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

Tirou Lula da disputa

Dessa última eleição,

Inda o botou na prisão

Sem prova absoluta

Numa estúpida conduta

E farsa que bem serviu

Ao rico que aqui seguiu

Com seu plano vil e bruto

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

Bolsonaro fez campanha

Dizendo ser paladino

Da verdade, mas seu tino

É mentir, fazer barganha,

Fake news e sua sanha

É revólver, é fuzil,

É defender no Brasil

Violência e corrupto,

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

Desde que apareceu

Só ódio tem espalhado,

Sempre é fotografado

Com criança, amigo seu

E o bom senso ele perdeu,

Com armas se exibiu,

A estupidez pariu,

Contra esse grosso eu luto

Bolsonaro é o fruto

De ingênuo, tolo e imbecil.

……………………………………………………………..

Contra o que puidera parecer, a rede non é unha plataforma decididamente anti-Bolsonaro. Son moitas as páxinas que o defenden, o bolsonarimo está a se valer da rede para se xustificar. E mesmo hai páxinas absolutamente vegoñentas que aceptan tanto textos anti-Bolsonaro como outros textos en favor de Bolsonaro.

Os textos que eu reproduzo son  parte do que se pode atopar na rede contra Bolsonaro. Textos valentes, decididos.

A este respecto cómpre lembrar o Movimente Ele Não, movimento feminista anti-Bolsonaro que foi, hai dous anos, o meirande acontecemento feminista na historia brasileira, con seguimento fóra do Brasil mesmo. E cómpre lembrar tamén que o se creador segue no cárcere , no que me parece un escuro proceso para criminalizar o movimento feminista antes citado

Ana Guadalupe, a sobria poesía do simple

Non resulta doado atopar datos bio-bibliográficos de Ana Guadalupe pola rede. Que neceu en Londrina (Paraná) en 1985. Que comezou publicando nos blogs Afectiva e Portal Liberal, sendo poeta inédita xa foi traducida para o castelán. Que publicou primeiro Relógio de pulso (7Letras, 2011?) e despois Não conheço ninguém que não seja artista (Confeitaria, 2015). E Preocupações (Macondo, 2019) Foi seleccionada para  a É agora como nunca- Antologia Incompleta da Poesia Contemporânea  Brasileira, organizada por Adriana Calcanhotto, cantora e amante da poesía, e publicada na Companhia das Letras en 2017

 Tamén pubicou nalgunha revista portuguesa. E está presente en Otra línea de fuego- Quince poetas brasileñas ultracontemporâneas, a antoloxía bilingüe (portugués-castelán) de Heloisa Buarque de Hollanda de que temos falado anteriormente.

Teño que dicir que, abonda lela, a súa poesía parece falsamente simple, tamén é falsamente descritiva ás veces, porque no fondo aniña a interpretación, unha visión da vida moi persoal. Tamén se ten dito dela que practica un humor sagaz, e que os seus poemas só  son o punto de onde arrinca a reflexión lectora.

Na súa poesía eu acho certa influencia das crónicas, ese xénero tan brasileiro.

É unha das voces brasileiras de máis actualidade no eido poético.

Mantén unha páxina web  onde se poden ler artigos, noticias e poemas seus.

Considero esta páxina de valía para se achegar á poesía de Ana Guadalupe

Guerra

tique nervoso
à espera de alguém
que venha

beber água
desabotoar as calças
jogar bola

atirar no macio
arrancar os músculos
acumular fôlego

pra sufocar
com o próprio peso
o peso do outro:

uma bigorna
um piano
um travesseiro

Ana Guadalupe, Relógio de Pulso

……………………………

POLTRONA PARA ENTIDADES

rua não escureça
janela não se feche
persianas não venham com loucuras
a não ser na presença
de telas vigilantes
e de abajures sensíveis
ao toque
quando além dos nomes
se confundem os tornozelos
narizes idênticos
cílios bem distribuídos
se falta luz joelhos gêmeos
se movem retos do mesmíssimo
jeito

Ana Guadalupe, Relógio de Pulso

……………………..

PASSÉ COMPOSSÉ

as escadas
pra perguntar sobre as palavras
derrubadas pelo meu sotaque

afirmei que meu amor é
enorme, um móbile
perdido entre arandelas;

disse que meu amor é
firme, retorna com maçãs
e canela nas pernas;

se perguntasse sobre a
fertilidade, os pernilongos,
a falta de sorte,

responderia que meu amor é
forte, chacoalha as árvores
sempre que parte.

Ana Guadalupe, Relógio de Pulso

……………………………..

SEM QUERER ELISA

tropeça no tapete
a caminho da cozinha
à meia-noite

sem querer elisa
esqueceu as calcinhas
lavadas no banheiro
há 3 semanas

sem querer elisa
no quarto da frente
borrifa saliva
nas folhas
relógio

Ana Guadalupe, Relógio de Pulso

…………………………..

três poetas

com um poema simplório 
o poeta disfarça pretensão 
só escreve em caso de tédio
e se rima ruim é por opção

com um poema médio
o poeta pode ser qualquer outro 
pisca os olhos pretos de novo
e a lua prata bate no prédio

com um poema pomposo
o poeta se leva muito a sério 
é lido no hall por um amante maldoso
que imita a voz do pica-pau


*


sustos & sustos

de pelo menos um susto 
todos nos recuperamos

o que muda é o conteúdo
que fica sobrando no chão

quando espremido o susto de um
esguicha repelente e algodão

o de outro deixa um rastro de fruta
pequeno cachorro sacrificado 

mas olha este que engraçado
explodiu orfanato e caco de vidro 


*


uma casa por ano

numa casa com aluguel atrasado 
falamos da chuva de granizo

numa casa movediça
o despertador toca mais cedo

de uma casa com incêndio
você talvez não saia a tempo

numa casa no deslizamento 
morremos pensando que pena

numa casa pequena 
não cabem os panos de prato 

sem uma casa arejada
você cheira a cachorro molhado

numa casa sem amor 
todos arrumam outros planos

numa casa às pressas
tem coisas que você deixa 

numa casa por ano
é melhor nem abrir essas caixas


*


o que enfim vai destruir a aspereza

será ave?
gaivota que na janela se revela pomba
mesmo assim um voo impressionante 

será vontade?
um sentido repentino que assalte
a coragem de tirar a roupa antes

será ônibus?
semileito ou leito-cama
de bruços ninguém chega longe

será homem?
surgirá no carnaval de peruca?
conseguiremos nos ver no meio da ponte?

será água?
submersos por acidente voltamos no tempo
e talvez encontremos 
a concha

libros para un desconfinamento ideolóxico

Durante estes meses pasados, porque foron meses, e aínda non certos de cando recuperaremos un ritmo de vida parecido, polo menos, ao habitual de antes, houbo moito tempo para que nos afixeran á idea de que nada volverá ser igual. É decir, puxéronnos na frontera da distopía, abeirados a imaxinar unha sociedade alternativa á que coñecemos, non por iso mellor senón que precisamente non debemos baixar a garda para que non nos cousifiquen máis, para estarmos en condición de esixir un trato un trato máis humano e xusto. Por iso, os libros que lles vou propoñeer fannos pensar na compoñente humana, social e crítica (tamén política, claro) a fin de manter valores universais e humanos ou simplemente de reforzar a nosa rebeldía. Ás veces serán distopías, outras non, pero sempre lecturas que fan ferver a componente ideolóxica de quen le. Non sempre son de actualidade, propóñelles que se poñan en contacto cos/coas seus/súas libreir@s para elas e/ou eles lles localicen os que sexan da súa escolla e teñan listos para a súa compra. Quen sabe se agora será este o prodemento máis habitual!

MATAR O HEROE. De Adolfo Camaño. En Galaxia. A mellor novela de 2019, ás veces realista até o pormenor que poida parecer máis insignificante, outras veces beireando e esperpento e entre medias pon en solfa o cinismo da humanidade.

NATURA. De Iolanda Zúñiga. Distopía clásica, moi clásica. Advirte dos parámetros de demencia a que pode chegar a humanidade precisamente en nome desa mesma humanidade (Sóalles de algo isto?)

A CONXURA DOS NECIOS. Un clásico, esta novela de Jonh Kennedy Toole, traducida para Kalandraka por Eva Almazán. Premio Pulitzer do 1981. Édita 11 despois do suicidio do autor. Botarán unhas risas. Esperpento made in USA co egoísmo (motor do capitalismo) como albo  demasiado serio como para tomalo en broma.

GERÓNIMO. En Positivas. A vida dunha personaxe rebelde e valente. Valentía e rebeldía que nunca falten.

VILLARDEVÓS. De Silvio Santiago. Reeditado en Galaxia. Levaraos á vida, a como era a vida no rural de principios do século pasado. Para reflexionar se a vida natural, sen tanta tecnoloxía etc., non é máis lóxica e máis humana. Evidentemente hai logros técnicos aos que sería estúpido renunciar, mais aínda así…

A PESTE. Outro clásico. A novela de Albert Camus foi posta en galego por Xavier Senín e Isabel Soto para Huguin e Munin. Imprescindíbel

SINGAMIA 1.1. En realidade, non perdan a triloxía AKTUAL, de Ramón Caride. En Xerais. É LIX pero é/son lectura obrigada para os adultos. EXOGAMIA 0.3, ENDOGAMIA 0.2 e a proposta. Nestes tres títulos hai algúns dos mellores relatos da narrativa actual. Fainos ver a actualidade social con outros ollos.

SE ISTO É UN HOME. Tamén outro clásico do s. XX. Para advetencia de a onde poden chegar os reximes totalitarios, os nazismos. Traducida por Xoán Manuel Garrido para Xerais.

O MAR QUE NOS LEVA. De Moncha Fuentes. En Xerais. Dá un repaso por algunhas das loitas sociais máis importantes do s.XX, e ademais é unha boa novela. Para non perder o espírito combativo, e non  deixarmos perder o con tanto esforzo gañado.

OS CORPOS INVISIBLES. De Emma Pedreira. En Xerais. Tamén é LIX. Tamén é lectura obrigada para @s adult@s. Para introducirnos na temática da muller, esta novela transmite como poucas a necesidade que a muller ten de reinventar o seu propio corpo (imaxe tiranizada polo consumismo, o capitalismo e o machismo)

A MONSTRUOSIDADE MODERNA. De Carlos Lema. En Euseino? Imos con algo de ensaio, non só de ficción se vive na literatura. Aquí, para dicilo con poucas palabras, Carlos Lema achéganos a como a Modernidade devén nun auténtico mostro. Pensar. Pensar. Nunca deixar de pensar.

BREVEDUME. De Xurxo Borrazás. En Galaxia. Para @s amantes das pilulas breves de alta concentración significativa. Prohibido lelo con automatismos. Ler e cavilar. Ler e cavilar.

A PÓLA BRANCA. Seguimos coas brevidades. Neste caso haikus de Xavier Seoane, en Xerais. Prohibido ler con automatismo. Ler e cavilar. Ler e cavilar.

CÓDICE CALIXTINO. Non lles esqueza mercar un libro de Luz Pozo Garza. En Sotelo Blanco, este que, sen dúbida, é un dos poemarios máis importantes do s. XX

TRANSMATRIA. De Daniel Asorey. En Xerais. Del escribín: “é un exercicio de inconformismo, unha pulsión irrefreábel que obriga a repensarnos no presente e no futuro para sermos mellores ou para sermos mellor.”

CHEGAMOS DESPOIS A UNHA TERRA GRIS. De Raúl Dans. En Xerais. É teatro. Por favor, non esquezan o teatro nas súas compras/lecturas. Esta é unha peza imprescindíbel dun extraordinario dramaturgo, dos poucos que gañou o prestixioso Premi Born de teatro en dúas ocasións.

E, para rematarmos a COMEDIA BÍFIDA de Núñez Singala. Para non esquecermos o valor de posuírmos unha lingua de noso, e á vez botarmos unhas risas.

Leamos teatro xa que tanto custa levalo á escena. Podo garantirlles que ficarán moi satisfeitos da experiencia.

Xa sei que hai moitos máis títulos que ben poderían entrar aquí, mais non quixen facer un relatorio tan extenso que fora doado perderse nel.

Velaquí a miña proposta literaria para saírmos do confinamento (tamén mental)

a distopía: entre o peor lugar posíbel e a esperanza

Aí atrás escribín aquí un artigo sobre a distopía na narrativa galega actual (https://ferradura.blog/2020/03/30/reflexions-sobre-a-distopia-na-narrativa-actual/) . Eran unhas reflexión que viñan a conto despois da lectura dun artigo de Irene Pin no diario Nós. Pretendía aclarar certas cousas e tratar de establecer no posíbel un catálogo comentado da distopía na narrativa galega actual. Por exemplo, unha das miñas pretensións ou conviccións é que a política ficción debe ser estudada en por si e non dentro das distopías, que diluirían o seu significado perigosamente e teñen entidade de seu. Pero o que realmente explica o que a continuación escibirei é que Eva Moreda publicou con posterioridade outro artigo sobre o tema no Biosbardia (biosbardia.wordpress.com/2020/04/30/evidencias-e-lagoas-no-estudo-da-distopia-galega/)

E, claro, o seu artigo espertou en min a necesidade de poñer luz nun tema no que precisamente teño poucas certezas e moitas dúbidas ou lagoas, aínda que é moito do meu interese por tratarse dun tipo de escrita en auxe. Pode ser que o meu natural ecléctico me estea condicionando en demasía. E que me resultara máis útil botar man dunha teoría ( será por falta delas!) e aplicala con todas as súas consecuencias e matices. Porén non podo, non atopo unha que non me suscite máis dúbidas ou preguntas, e así é moi complicado.

Así que, o que van ler a continuación é unha foto apurada do que a o tema das distopías

Por exemplo e para comezar, a distinción entre utopía, anti-utopía, eutopía e distopía ( xa saben o clásico : o peor lugar posíbel) nin remato por vela clara nin creo que sexa tampouco moi operativa. E a isto aínda temos que engadir a non-utopía, outro concepto a engedellar máis o asunto. Non o vexo claro porque son incapaz de non ver eutopía dentro ( ou a partir ) da distopía, por exemplo. Non son o único, Gabriel Alejandro Saldías Rossel, na súa tese de doutoramento (da cal tiro parte do título destas liñas: No peor lugar posíbel, Universitat de Barcelona 2015), tamén concorda nisto. Por non falar de que outros autores tamén falan de distopía e utopía á vez. Porque, se é posíbel ver eutopía na distopía, máis doado é ver utopías dentro das distopías, aínda que sexa a partir de. Xa ven que non todo é culpa do eclecticismo, realmente a distinción entre utopía, eutopía e distopía resulta unha superficie esvaradía na que  é doado atoparse nun lugar pensaándose que se estaba moutro.

O que si teño moi claro é que hai que trascender a definifición de distopía que se desprende dos clásicos (Huxley, Wells, Bradbury), como ben viu Eva Moreda, segundo a cal a distopía entende do ben común (nace dunha crítica á realidade para lograr o ben común), ben, no caso de Bradbury isto hai que tomalo con matices polo menos. Porque xa non é tanto así. Se ben a Natura de Iolanda Zúñiga é unha distopía á clasica, se miramos nas distopías de Alberte Momán Noval (Terra Nullius, por exemplo) xa aparece a individualidade como epicentro desde o cal pivota a distopía. E outro tanto se pode dicir da de Xesús Constela, 15.724, por dar dous exemplos. E conste que as distopías ciberpunk, herdeiras do pulp negro, tampouco achgegan nada realmente significativo, só nos lembran que o distópico non está xa no futuro senón no presente; cousa que antes era misión do lector establecer e agora se fai desde o texto, máis nada, na miña opinión.

E tampouco teño dúbidas á hora de afirmar que, cando falamos/escribimos de distopías, estas son literatura escrita. Todo o que ten que ver co cinema, tv, ou audiovisual debe ser tratado nese eido, non no literario, posto que deveu un artigo de mercado nese eido e responde ás claves dese eido. Con dicir que existe polo menos unha canle de tv. (SyFy) que só programa cousas deste estilo, abondará, aínda máis cando esa canle tamén produce ficcións desa natureza. Evidentemente aí están os casos onde obras clásicas son levadas ao cinema, ás veces bastante respectuosamente, outras menos, pero en todo caso sempre existe un filtro entre a obra escrita e o filme, e as claves audiovisuais son imprescindíbeis.

(Vén isto a conto porque en moitas páxinas web, sobre todo de literaturas onde a distopía, en principio, non acadou aínda moito éxito, resulta unha fórmula repetititiva)

En canto á definición de distopía non será compicado colixir que eu entendo a distopía como a (re)presentación dunha sociedade alternativa. Esa é a razón de que algúns títulos entren na miña listaxe. E non só iso. O máis importante é que non creo útil a  esixencia de que a distopía sexa un futuro anticipado. Xa as ciberpunk o matizaron, pero eu creo que non hai que acurralar as historias dentro dunha esfera temporal. Volveremos sobre isto. Mais agora cómpre engadir algo fundamental: esa sociedade alternativa debe nacer dunha crítica ( explícita ou implícita) á sociedade actual

Imos por partes. A non distinción entre eutopía, utopía, non-utopía, e distopía lévame a pensar n´A república de Platón como orixe de todo. Que é unha eutopía non o nega ninguén, xa, pero se en toda distopía tamén se pode ver eutopía (aínda que sexa como referente), as cousas mudan. Do mesmo xeito que, por exemplo, na miña concepción tamén hai que contar coa Alicia no país das marabillas (L. Carroll) ou Rebelión na granxa (Orwell, anterior a 1984). Non ha de estrañar entón que eu incluíra a Compañía clandestina de contrapublicidade de Marilar Aleixandre; aquí a crítica social resulta evidente, que se propón unha sociedade diferente tamén e, o que me parece máis significativo: non existe distanciamento temporal ( xa ven).

Se non se restrinxe ao futuro ( máis ou menos presente) o texto distópico, isto equivale a que as viaxes no tempo tamén poidan entrar dentro das distopías. Falamos de futuro e de pasado nas distopías, como antes falaramos do ben común e da individualidade. Pois ben, entre os títulos por min propostos, Longo voo de paxaro, de Fermín Bouza, resulta un título un tanto problemático desde que todo acontece nun cuarto, presente, onde van aparecendo da nada diversas personaxes ademais do protagonista central. Non é problemático porque aconteza no presente, xa vimos o caso de Marilar Aleixandre. Éo porque non se presenta unha sociedade alternativa. Tal sociedade alternativa tena que pensar quen le a partir do texto (con toques surrealistas e satíricos). Porén esta epifanía non é nada que non se contemplara na distopía clásica, e a ironía, a sátira ou a hiperbole tamén son recursos empregados da distopía clásica. Aínda así, recoñezo que é o título máis problemático. Porén entendo que tamén é un título a ter en conta nun posíbel estudo da distopía.

Outra cousa. É frecuente atopar as distopías como un subxénero da ficción científica. Pois na miña opinión debe ser ao revés. Debe ser a distopía o xénero e debe ser a ficción científica o subxénro. Paréceme máis lóxico, pois xa non é o desprazamento temporal eixo imprescindíbel.

No meu anterior artigo remataba cuestionando se a distopía non debería ser contemplada pola crítica como un práctica escritural en si. Algo semellante vén dicir  Gabriel Alejandro Saldías Rossel na súa  tese de doutoramento ( p.135) cando fala dunha “vontade escritural esperta ás múltiples maneiras en que as distopías se actualizan no tempo”.

O que si quero conservar das distopías clásicas é a “problematización” ou “actualización” do binomio vontade-non vontade, pois resulta operativo (aínda que á veces con matices) na meirande parte dos títulos propostos.

Do mesmo xeito teimo en poñer en relación as distopías ( aparición ou auxe) coa crise do realismo. En realidade o realismo sempre estivo en crise, porque sempre dependeu (desde a súa aparición ou creación) das crises sociais propias de cada momento. A este respecto, e pola actualidade e porque vén moito a conto, recomendo repasar a lectura de A monstruosidade moderna, de Carlos Lema. Por iso da actualidade e que vén a conto, porque en realidade na faceta fiolosófica de Carlos Lema a crise da realidade non deixa de estar presente. A lóxica do poder e da opinión enfrontadas.

Falo de crise da realidade. E de crise da realidade falando non cómpre esquecer o realismo fantástico como síntoma literario desa crise. Xa no anterior artigo suxerín que quizá aí tamén haxa distopía. E a Historia dun paraugas azul, de Xosé Miranda, naturalmente que non pode ser esquecida a propósito disto.

Quizá. Porque o tema da distopía é tan amplo que non vou pretender solucionalo cun artigo que xa de por si leva moita carga semántica en pouco espazo.

Mais, para ir rematando, o que non podo deixar de dicir é que os estudos distópicos made in USA ou mesmo europeos non me interesan tanto como os estudos da distopía nas sociedades poscoloniais. Neste apartado o estudo de O último Voo do Flamingo (de Mia Couto, Mozambique) por parte de Fernanda de Castro, atráeme moito. Do mesmo xeito que o relativo a O Cão e os Caluandas, estudo da mesma Fernanda, novela de Pepetela (Angola), tamén me interesa. O caso de Pepetela non fica aí, tamén en Mayombe e Predadores é estudado por Marco Castilho como distopía. E Fernanda Vilar tamén estuda os usos de utopía e distopía en Mia Couto, J.M. Coetze e Sony Lebou Tansi, tres autorías de tres países distintos. E hai máis bibliografía sobre a distopía no poscolonialismo, por suposto. Quizá noutro artigo sexa materia exclusiva.

Evidentemente interésanme moito, sendo nós unha sociedade colonial,  o seu estudo no poscolonialismo.

E para rematar, agora si, a esperanza. Levo dito hai moito tempo, e mesmo escrito en microconto, que a esperanza é realmente o motor da literatura. Comezamos a ler coa esperanza de que aconteza algo, ou non aconteza. Mais sempre a esperanza. Unha esperanza que loxicamente tamén está de maneira moi especial nas distopías. Porque esa é outra característica imprescindíbel da distopía. O feito de que xeran esperanza en quen le.

O que se vén de ler é a foto das inquedanzas que provoca en min o tema das distopías, unha práctica escritural en progreso exponencial, que me apaixona, que me  obriga a descrer de postulados “clásicos” e a reformulala noutros conceptos.

O importante é que se vexan as distopías con outros ollos.

Resumo o máis groso:

-A distopía é un xénero narrativo (de momento só narrativo) onde é posíbel atopar subxéneros como a ficción científica ( de vello coñecida e identificada) e asemade outros que nos obrigan ( de momento) a poñer un cualificativo á palabra distopía ( de xénero, apocalíptica, tecnolóxica…mesmo política -non confundir esta coa política ficción, por favor)

-Para que poidamos falar de distopía é necesaria a existencia de crítica social, explícta ou implícita. E, por suposto, o texto debe suscitar epifanía. A distopía sempre obriga a pensar alén do texto.

-A distopía pasou de preocuparse polo ben común ( distopía clásica) e xa existen exemplos ( mesmo entre nós) onde ese ben común é remudado polo individual. Esta parece unha deriva irrefreábel. Hai que prestar atención por ver en como pode afectar isto no eido da distopía.

-O desprazamento temporal cara ao futuro tampouco é imprescindíbel, nin sequera cara ao futuro inminente. As viaxes no tempo entran en xogo. Despois do cataclismo (María Alonso Alonso, Urco) xa propón unha viaxe no tempo cara atrás. Na literatura universal (mesmo na galega, pero non nos imos deter agora, que moito é LIX e aí non entramos) hai máis exemplos, pero hai que ter coidado coa crítica social.

-Resulta interesante contar co binomio vontade-non vontade nas distopías. Non en todas as distopías está igualmente explícito, mais a deriva distópica parece levarnos aí. Polo momento, porque tampouco é un binomio totalmente estábel.

-Por suposto, diferenciar entre utopía, non-uotpía, anti-utopía, eutopía e distopía tampouco parece sosterse, toda vez que é posíbel atopar unha dentro das outras.

-E, finalmente, reafírmome na idea de que hai que ir pensando na distopía como práctica escritural en si, desde o momento en que esixe unha modalización especial ou diferente da da narrativa clásica.

Bruna Beber, calquera cousa é válida para escribir poesía

Outro dos nomes que ecoan con moi poetente voz propia na máis nova poesía brasileira, é o de Bruna Beber. Poeta carioca nacida no 1984, os seus poemas son coñecidos na Alemania, en Portugal (significativo, isto), México, Italia ou Estados Unidos. E traducida ao castelán. Non é, pois, flor de un día. E cómpre que tamén sexa coñecida na Galiza. Xa. Tamén se ten desempeñado como tradutora, e na crónica (ese xénero tan brasileiro) ou como xornalista. Alén dos poemarios publicados : Rapapés & apupos (Edições Moinhos de Vento, 2010; Ed. 7Letras, 2012), Balés (Ed. Língua Geral, 2009), A fila sem fim dos demônios descontentes (Ed. 7Letras, 2006), Rua da Padaria (Ed. Record, 2013) e Ladainha (Ed. Record, 2017), tamén participou en obras colectivas: Otra línea de fuego (Ed. Selo Maremoto, 2009), antoloxía española de poesia brasileira contemporánea organizada por Heloísa Buarque de Hollanda e Teresa Arjón, en edición bilingüe), Traçados Diversos, antologia de poesia contemporânea (Ed. Scipione, 2009), Poesia do dia: poetas de hoje para leitores de agora (Ed. Ática, 2008), Caos portátil: poesía contemporánea del Brasil (Ed. El Billar de Lucrecia, 2007) ou Amar, verbo atemporal , Ed, Rocco, 2012).

Fíxose notar desde o primeiro momento ( A fila sem fim dos demonios descontentes, 2006), mais foi con Rapapés & apupos (2010, reeditado en 2012) que xa se fixo un nome imprecindíbel da nova poesía brasileira. Tamén incursionou no teatro, na poesía para os máis novos ou nos microcontos, alén de se mosar sempre interesada no produto audiovisual en diversos formatos. Particularmente interesante é o seu proxecto Programa Poesia Visual, baixo curadoría de Alberto Saraiva.. Tamén é unha das máis notábeis divulgadoras da poesía. Non só da poesía escrita en papel senón sobre calquera superficie ( véxanse máis adiante os seus poemas,ou instalacións poéticas, visuais). E tamén, tamén se poden atopar polo youtube entrevistas e recitados seus.

Dos seus poemas tense ditos que combinan de maneira moi orixinal humor e melancolía, reflexiona sobre o propio oficio de escribir, abaneando entre o sublime e o banal e sen descoidar o cadro paisaxístico brasileiro en que se desenvolve a vida ( Elfi Kürten Freske, que xa será nome coñecido para quen siga estes artigos divulgadores da nova poesía brasileira.)

Bruna tamén ten presencia na rede e aí se poden ler máis textos da autora.

Imos coa súa poesía:

coleciono mas não leio
cartas antigas, anúncios de almanaque
em latas de goiabada nolasco

sei que estou em permanente mudança
porque todos os dias abro e fecho
gavetas e caixas

no entanto aprendi pouco sobre apostas
e temporais, só sei que levam
muito mais do que trazem.

(de Balés)

……………………………………………………….

deve ser perigoso
esse gosto recorrente
de incêndio na boca

mas não há saliva pra apagar
e não há saliva que apague
por isso falo pouco

não sei o que de fato queima
fecho a boca e o fogo sai
pelo nariz

respiro mal, meu ar é qualquer fumaça
queria um gosto bom, queria pernas
pra sair correndo.

(de Balés)

………………………………………………………

durante toda minha caminhada
pela bola que uns chamam
de terra e outros de água
ou como carinhosamente
já apelidaram um amigo
balofo no colégio
só consegui
tomar posse
de uma certeza
e por isso gostaria
de dividi-la passem
para os seus filhos:
não há
sequer
um ser
humano que caminhe
pela bola – há quem
a diga achatada –
que não tenha
não teve
ou nunca terá
uma
toalha
bordada
é importante
que seus filhos
passem pros deles
essa verdade
mas se não tiverem
filhos netos tudo bem
sempre terão toalhas
bordadas.

(de Rúa da padaría)

………………………………………………

Plantei uma goiabeira
dentro do banheiro
e a cigarra veio
morar comigo

Desde então tomo banho
de óculos, uma sensação
de melancolia molhada
que aprecio

Mas não amo, amor é o que vejo
semear, romper e brotar
da barriga da cigarra
uma parceria:

O canto
é ancestral, adquirido
às vezes peço uma canção
ela não tem ouvidos

Seu olho esbugalhado
de sapo explosivo
o meu inchado
de chorar sem motivo

Estou satisfeita,
mas não devo esperar
nada, é como criar
uma sereia.

(de Ladainha)

…………………………………………………


Ando cansada.
Ando cansada da perna
Ando cansada da veia
Ando cansada do pé

É a musculatura, a ossatura
e a fascite plantar. Metatarsalgia,
Neuroma de Morton, rígido hálux

Ando muito devagar. É informação,
é inflamação. E o que não é dedo,
é tornozelo ou calcanhar

Ando muito cansada dos cigarros
que eu fumo porque eles se fumam
sozinhos quando venta.
Ando cansada de pólvora.

(de Ladainha)

………………………………………………..

Sei que não é o momento
mas espere um instante
escrevi a resposta
letra sincera, simulada educação
e cheguei ao final
morrendo de sede

Sei que não é o momento
mas espere, estava deserta
a casa, fiz uma ligação
para povoar a casa,
mas não fui atendida
que bom

Sei que não é o momento
mas aqui do lado tem ferrovia
o trem passa dentro de casa
o trem passou
passou como quem desiste
o trem raramente desiste de passar

E amanhã, amanhã
eu juro, amanhã eu vou
sair de casa
com a carta
pra longe
do trem

Sei que não é o momento
mas a carta não diz nada
demais, é como tudo
depois de tudo
a carta sou eu dormindo
a carta é alguém

jantando no escuro
Sei que não é mas eu digo
e vou dizer na ligação
assim que for atendida
e fui e é sua
a opção de deixar

o telefone no mudo
Sei que ele é quem persevera
célere, enérgico, vivaz
ligo, escrevo, canto, rio
para falar do instante
como este que dividimos agora

(de Ladainha)

………………………………………………………….

Sempre limpo os pés antes de entrar
no sono e aí um frango inteiro lindo
e cru me tira para dançar

O filme é a revolta dos folclores e o mundo
se carameliza em bosta, toda vaca
é gordona e a terra cinza de papel

Os prédios têm mais nome de mulher
que nome de homem, e o azul é o azul
céu do centro-oeste brasileiro

Uma TV a flores ligada
na cena de um mandacaru
nascendo no dedão do pé

Bate aquela vontade de voar
e de descer a escada de barriga
pelo corrimão, cair de cara e morrer

Mas tomar distância num copo de pinga
beber leite pra brincar, depois pinga
depois distância de novo e cantar

A cabeça suja é boa para as coisas
que fazemos em cima dos castanheiros
por exemplo nada, e também um poema.

( de Ladainha)

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Quanto tempo falta pra gente se ver hoje
Quanto tempo falta pra gente se ver logo
Quanto tempo falta pra gente se ver todo dia
Quanto tempo falta pra gente se ver pra sempre
Quanto tempo falta pra gente se ver dia sim dia não
Quanto tempo falta pra gente se ver às vezes
Quanto tempo falta pra gente se ver cada vez menos
Quanto tempo falta pra gente não querer se ver
Quanto tempo falta pra gente não querer se ver nunca mais
Quanto tempo falta pra gente se ver e fingir que não se viu
Quanto tempo falta pra gente se ver e não se reconhecer
Quanto tempo falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu

(de Amar, verbo atemporal. Antoloxía de poesía que tematiza o amor, ao coidado de Celina Portocarrero, 2012. Curiosamente este poema publicado nunha antoloxía xunto con outras autorías, converteuse nun dos seus poemas emblemáticos)

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tudo tem barulho de mar
enceradeira isopor carro
em movimento aerosol
espirro pistola moeda
telha bombardeio cigarro
queimando pia degradê
cãimbra inseto monge
sua vizinha o futuro
tem barulho de mar
na camiseta no quadro
chinelo aeroporto gaiola
panela caverna birita
beijo tem biblioteca
também um curió bola
de chiclete sobretudo
um dinossauro alado
tem mar de todo tipo
de barulho e dentro
de cada mar um ralo
entupido de cabelos.

(de Rúa da padaría)

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Tamén traballou a poesía visual. Brinquedos espalhados deu inicio a un proxecto que iría mudando de nome até volver ao principio. Aquí, poden ler a historia deste proxecto, e botarlle u nolllo á súa poesía visual.

Alice Sant´Anna, nome imprescindíbel da máis nova poesía brasileira

ALICE SANT´ANNA

Un dos nomes que máis está dando que falar no actual panorama poético brasileiro é, sen dúbida, o de Alice Sant´Anna, nacida no Rio de Janeiro, en 1988. Leva publicados: Dobradura (2008, 7 Letras); Pingue-pongue (2012, independente, impresso en serigrafía con Armando Freitas Fillo; Rabo de baleia (2013, Cosac Naify) e Pé do ouvido (2016, Companhia das Letras) que nós saibamos. E figura nunha edición en castelán (Otra línea de fuego – Quince poetas braileñas ultracontemporáneas, organizado por Heloísa Buarque de HOolanda e traducido por Teresa Arjón) da novas poesía brasileira. Tamén é sigbificativo que se coñeza o seu nome e a súa poesía antes en Madrid que na Galiza. Moi significativo, e por iso esta serie de artigos que estou a publicar nesta Ferradura II, por se en algo amolezo o descoñecemento que aquí, na Galiza, se ten da poesía brasileira ( máxime da poesía de mulleres), aínda sendo a ddo Brasil e a da Galiza linguas que nacen do mesmo rego de auga, se é que non continuan a ser augas do mesmo mar.

Poucos son os datos biográficos que dela puiden pesquisar, pois é aínda moi  nova. Sei que comezou a escribir con 16 anos, aproveitando unha viaxe a Nova Zelandia e despois de coñecer a Ana Cristina Cesar, é poesía de mocidade mais xa entón chamou a  atención. Que estudou e se graduou en Xornalismo e posteriormente en Letras na Pontificia Universidade Católica do Río de Janeiro. E que, sendo tan nova, mesmo é colaboradora do jornal O Globo  e na revista Serrote publicada polo Instituto Moreira Salles

No seu labor poético non só é importante o nome de Ana Cristina César, poeta ela que se suicidou aos 31 anos, senón tamén o de Armando Freitas Fillo, que mantiña boa amizade con Ana Cristina ( ás veces asina Ana C. ) e tamén a mantén con Alice.

Tamén sei dela que non é poeta que planifique os seus poemas, pois os seu spoemas nacen no momento máis inagardado. Son poemas que convidan á reflexión, certamente, mais na súa orixe maniféstanse coma unha incontíbel forza de se expresar por parte da autora.

Son imortantes as vixes na súa vida e produción poética (Nova Zelandia, Francia), mais non escribe poesía de viaxes senón que a viaxe lle proporciona un punto de desconexióncoa realidade habitual, e é esa desconexión que fai nacer nela a poesía, interpretamos nós. A propia Alice fala da estrañeza non só como orixe da súa poesía senón da poesía en xeral.

Deixo aquí ligazón co seu blog, aí poderedes ler poemas que eu non recollo ( outros si), ademais de prosas moi breves.

E queremos comezar a presentarvos a súa poesía precisamente a partir dunha figura ( a balea) que tivo bastante predicamento entre as escritoras galegas hai uns anos.

um enorme rabo de baleia

cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
era abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com el

Sedundo a crítica,  o segundo libro (Rabo de baleia), publicado con 24 anos,presenta unha meirande maturidade na poesía de Alice, como recoñece a antóloga Heloísa Buarque. Porén, a propia Alice nega este feito.

Mái poemas de Rabo de Baleia

TITINA

1.
caminhávamos na estrada de terra
o dono da casa apoiado
numa bengala de madeira
parou e apontou para o lago
onde uma árvore seca continua seca
desde que compraram a fazenda
lá se vão trinta anos a árvore
seca no meio do lago

2.
aqui dá muita formiga saúva, s. disse
a verdadeira praga do brasil (quem disse?)
a formiga rainha é maior que as outras
e todas dependem dela de suas ordens
quando ela morre todas as outras morrem
por isso a melhor solução pra acabar com a praga
é matar a rainha
ela já nasce rainha?
como as outras são capazes de reconhecê-la?
s. não soube responder ou se distraiu
esmagando um inseto
com a ponta da bengala

3.
quando m. foi cumprimentar
a dona da casa ela falou surpresa
que ele era a cara do harry potter
vou chamar um mágico, ela gritou
e tomou a agenda o telefone
convidou-o para o dia seguinte
ainda que já fosse tarde da noite
todos sentados na sala de jogos às oito
em ponto à espera do mágico que vinha
de petrópolis

4.
era duro ver aqueles truques tão de perto
d. tentava a qualquer custo desmascará-lo
olhava cheia de olhos, deve haver algo
entre as mangas
jura que a bolinha vermelha
estava escondida no bolso do paletó
mas ninguém acreditava, a bola
surgiu do nada mesmo, o truque da carta
aparecer dentro do limão, como pode?
depois voltamos para a sala de jantar
vovó não estava com força
nas pernas, eu e g. a conduzimos
pelo caminho de pedras cada uma
segurava um braço

5.
o nome do cavalo era mistério
não contei nem a g. nem a l. a aranha
pendurada no teto
em um fio invisível a aranha
sobre nossas cabeças
poderia pôr tudo a perder
se bem que eles já eram craques
corriam na trilha de barro e aos poucos
éramos deixados pra trás: eu e mistério
galopávamos a toda para alcançá-los
o sol era forte e me deixou
a marca da camisa

*

a sandália nova branca com dedos
que se refestelam do lado de fora
como crianças que sabem o verão que vem
de repente a chuva míngua os planos
da calça jeans com sandália de dedo
uma combinação entre-estações
para não se sentir nem tão lá nem tão
cá os dedos curvados corcundas feito crianças tristes
as unhas recém-cortadas que planejaram
se mostrar sobre a cadeira de rodinhas
mas que nada a água inundou a sexta
da janela os bambus se movem muito
chegam a parecer desesperados
as folhas penduradas são cabelos colados
que gritam novas rugas onde nada havia

*

se ficar bem quieta
conto o que nos trouxe aqui
eu e ela
todas as palavras
roubadas da estante de cerâmica
da mais cara são objetos
que se lançam
com o risco de espatifar no chão
passei muito tempo tentando dizer
mas quando abria a boca o que pintava
era uma bailarina de caixa de música
que girava no ar contra a minha vontade
ela não sabe mas eu queria mesmo
era ser franca dizer que o sol batendo
na mesa é meu
os caquis na fruteira
os papéis que o menino do correio
lança por debaixo da porta
todas as coisas que posso
segurar isso é meu

*

abro o envelope
e espero praias grandes paisagens
sua letra miúda contando coqueiros
a data à caneta
marcando meses anos
que não nos vemos. mas o envelope
branco e frágil
traz estrela cadente na borda
anéis de saturno onde você talvez esteja
um homem-palito astronauta
boiando num céu estrelado. você talvez
tenha desenhado numa noite de lua
nunca vou saber
onde foi que gravou
esse sofá amarelo, essa porta de geladeira
numa cozinha de pedra são tomé
uma cadeira sobre fundo
de azulejos verdes. me pergunto
se diante de tantas paisagens
por que você só mostra
os cantos das casas por onde passou
nenhuma janela aberta
nenhuma amostra
se faz sol ou chuva
se aí também amanhece

§

a bola branca entrou manchando
toda a sala de branco
de luz do inverno
que não esquenta, mas se não
sentíssemos nada não usaríamos casacos
pois a luz já convenceria do calor

aqui nessa casa a luz entra
por trás de bambus
bambus amarelos, alguns pendem
e as folhas pairam no ar às vezes
mexem para provar que não são fotografia

tem dias que a arrumadeira
por descuido deixa a porta do banheiro aberta
quando vai tratar de outra coisa
em outro canto a porta aberta
permite que eu entre no banheiro antigo
onde os visitantes não têm acesso
já que a porta fica sempre fechada

por um minuto posso ver secretamente
a banheira com a torneira dourada em forma de ave
e o espelho com ferrugem no entorno
tudo isso me dá um imenso prazer
a casa à noite, ninguém a habita
caminho sozinha
entre paredes de vidro

POEMA INÉDITO


a sombra do avião atravessando
a copa das árvores não carrega ninguém
que se despeça ou tome chá
água fervida em bule de ágata
na sombra do avião não há quem acorde
com os pés pendurados pra fora do colchão
não há ninguém que uma vez tenha se assustado
com o sangue do nariz
colorindo de vermelho a cama
em plena madrugada a sombra do avião
não faz sentir saudade nem pena
nem vontade de ir com ele e cruzar
a copa ou o quarto
pode apenas olhar pra baixo
quem vê a sombra do avião
na copa entre as

Do seu primeiro poemario: Dobradura (2008)

quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente

***


na esquina da rua
um piano que toca
notas esparsas
em lá menor

nunca vi
o rosto de quem
se esconde por trás
de acordes sustenidos

e que desfila dedos no teclado
com a leveza de quem
sustenta passarinhos
no ar

***

RUA DOS BACALHOEIROS

na rua dos bacalhoeiros
em frente à casa dos bicos
pontualmente às seis em pleno domingo
todas as lojas fechadas
sento na calçada para assistir
ao balé das andorinhas
são milhares, trilhares em revoada
que mergulham sincronizadas
feito um cardume
para anunciar em coro
os últimos dias de inverno

***

SETE ANOS

ela come tangerina
com centenas de dedos
meditativos
empenhados na função
de descascar, separar um gomo
do outro
mas não mastiga, empurra
com a língua até a pele
descosturar
feito tecido ou papel
e romper
em suco

depois caminha pelos quartos
acaricia os cabelos das bonecas
muda a posição dos objetos
desliza dedos pelas paredes

até que cada canto da casa
cheire como os dias de verão

***

dentro do apartamento
a janela sustenta a paisagem.
me aproximo, apóio
os braços: todo o mundo
desmedido
em minha frente.

mas nada
que eu possa segurar, reter.
nem mesmo o perfume
dessas tardes sem perfume, nem
um bibelô
para colecionar na estante
como fazem as avós
que não medem cuidados
com a porcelana

E outro “inédito” publicado en O Globo

COPACABANA

 quando chegou em casa

o gato não estava na porta

como de costume o gato pensa

que é um cachorro

traz um elástico de cabelo

na boca para ser arremessado

e depois busca e devolve o elástico

de boca aberta, arfando

a noite é um cupido perigoso

é o que você pensa enquanto esconde

as unhas que esqueceu de cortar

olha para a piscina do hotel

onde vocês fingem que estão hospedados

no duzentos e um

só pela graça de tomar um táxi

rumo a um hotel na própria cidade

como naquele livro que fala

sobre ir a um restaurante com a namorada

e memorizar todos os gestos

para depois de meia hora voltar

e sentar na mesma mesa e pedir

o mesmo prato e reclamar igualzinho

que o ar condicionado

está muito gelado

por fim pagar a conta com a mesma nota

para deixar maluco o garçom

que não entende se aquilo é um déjà vu

se não está precisando descansar

se tem trabalhado demais

pergunta porque nesse hotel

as pessoas não se vestem

como nos anos cinquenta

se seria feliz morando aqui

com pouca coisa para carregar

além da roupa do corpo

ela insiste que não consegue

ver as mãos nos sonhos

antes de dormir você olha fixo para os dedos

para esse quarto que ainda precisa

de alguma parafernália para não ser

um duzentos e um qualquer

as coisas não podem

ser nem leves demais

nem pesadas demais

as coisas têm que ter um peso

muito específico

de manhã o gato olha pela porta

Aquí podedes escoitala recitando poemas de Rabo de baleia

sobre VILLARDEVÓS, de Silvio Santiago

VILLARDEVÓS, reedición dun clásico do século XX

Título: Villardevós

Autor: Silvio Santiago

Editorial: Galaxia

Comunmente escribo sobre novidades editoriais, a fin de contas é o que máis demandan os lectores e lectoras, e tamén o que en meirande medida (fóra libro de texto) enche os petos das casas editoras. Sigo as reedicións con curiosidade, é certo, mais tamén con cautela e certo desazo. Explícome, desde que se fixo común regularizar na otografía oficial os textos todos reeditados, teño moito máis apego polos orixinais porque me permiten ler na lingua orixinal e iso resulta impagábel (sobre todo nos días de hoxe). Sei que existe a crenza de que, se non é na ortografía actual, a xente non se achegará ás reedicións, e, moito menos xente nova, lectores e lectoras en idade escolar. Parece lóxico. Mais é falso, como despois se verá.

                     No caso concreto da reedición de Villardevós, celebro con gozo unha reedición que se fixo agardar case corenta anos, pois a novela de Silvio Santiago foi édita no 1961. E celébroo con gozo porque esa primeira novela de Silvio Santiago é un dos clásicos máis descoñecidos da narrativa galega. Pode parecer un contrasentido falar de “clásico” e “descoñecido” á vez. Porén non o é. O que sucede é que a novela de Silvio Santiago era fundamentalmente coñecida e estimada en círculos críticos ou con bo coñecimento da historia da nosa narrativa, non polo lectorado xeral -oxalá esta adición axude a reverter a situación. Lembro ter lido (bastante despois de ler a novela) que foi saudada a súa aparición con ledicia por máis dunha persoa (non só Otero Pedrayo, prologuista), mais non lembro quen e esta maldición do covid-19 impídeme acudir a esas fontes que non teño comigo. Lembro bastante ben que foi saudada coma un refacho “de aire fresco” (literalmente) esta novela de Silvio Santiago que viña desancorar a narrativa galega do folclorismo, do enxebrismo, do tradicionalismo, do costumismo. Ben, esta opinión sobre a narrativa galega do medio século, na miña opinión non é precisamente moi atinada, ten máis de pexorativa e descoñecedora que de certa. Lembremos que o mundo editorial daquela era moi cativo, e nomes como Cunqueiro ou Blanco Amor dificilmente entran aí e estaban de plena actualidade. Mesmo tería reparos, moitos, á hora de incluír a Fole no costumismo. Por poñer uns exemplos.

                     Mais o certo é que Silvio Santiago (1903-1974) achega ese aire freso, renova a narrativa ruralista, enxebre e tradicional, costumista, desde dentro dela mesma. Como fan os grandes. Matan un xénero para resucitalo no mesmo feito. Porque o contido de Villardevós non é outro que as lembranzas da nenez que Silvio ten das súas vivencias en Villardevós (Ourense) para que a súa filla tivera memoria dos tempos en que el fora rapaz. Si, pura temática enxebre, tradicional, rural, costumista. Porén, Silvio Santiago, escritor autodidacta, cóntao con tanta viveza ( e velaí un dos seus segredos narrativos nesta novela) que calquera ápice de “estatismo” ou “cadro costumista” (acusacións máis frecuentes deste tipo de narrativa) xa non é que desapareza, é que nin asoma. Certamente era, no momento da súa edición, un exercicio memorialista que non fuxía do folclórico no que ten de etnográfico, pois precisamente o etnográfico é un valor engadido nada desprezábel. E éo hoxe, que pasou maís dun século desde aquel Villardevós que Silvio retrata con tanta habelencia. Non quero adiantar contido, pero lembro que cando lin a novela entendín moi ben o que significaba ir buscar auga á fonte, esa ritualización dun feito que levaba séculos e séculos repetíndose. E emocionoume. Porque, antes ca outra cousa, Silvio Santiago sabe moi ben trasladar a emoción do narrado ao lector, a paixón que el sente compártea co lector ou lectora. Polo texto decorren paisaxes, xeográficas e humanas, emocionadas e emocionantes, nunca estáticas. Non son un cadro, un fresco, que adoita dicirse, senón vida a manifestarse no seu dinamismo. Dinamismo, outra palabra clave nesta novela que é posíbel ter como novela de aprendizaxe, aprendizaxe da vida e das mudanzas que se van sufrindo.

                     Xa dixen que Silvio Santiago foi escritor autodidacta, quizais precisamente por iso fuxiu tan ben do costumismo estéril nesta novela. Quizais tamén por iso tivo o éxito que tivo con O silencio redimido, outro título clásico que tamén precisa mellor cosideración da que ten. Só escribiu esas dúas novelas, e tanto nunha coma na outra desbotou efectismos decantándose por unha escrita sinxela na procura de verismo. Porque Silvio é escritor realista, nos dous títulos. E o realismo precisa verismo, moito verismo.

                     Porén, no comezo adiantei que a lingua orixinal só é un falso problema para lectores e lectoras de hoxe. Porque a lingua e orotografía adoptados non son os orixinais, mudouse todo á lingua escrita actual aínda que o propio Silvio se queixa na novela dos problemas que tivo coa lingua…eses “problemas” xa non son accesíbeis, por desgraza.

                     E adiantei o que adiantei polo que vou contar a seguir. Durante os meus anos de docencia da literatura galega e responsábel da dinamización lectora do meu centro, co tempo deseñei un itinerario lector no cal alumnos e alumnas puideran ler como foron variando as formas de ocio ou lecer entre a rapazada ( e preadolescencia) ao longo do século XX, deica  a década dos 80, para ser máis exactos; de xeito que podían ler como pasaban o tempo ou lecer, os seus avós e os seus pais, e mesmo preguntarlles a eles sobre o lido. Non era máis que unha maneira de “venderlles” unha serie de lecturas, sempre voluntarias, ofrecéndolles unha focalización lectora pola que estimaba que sentirían curiosidade. E funcionou. Funciomou moi ben. Non daban con todos os títulos nun curso académico, mais repartían as lecturas ao longo de dous, por exemplo. Outras veces, só lles interesaba un tempo concreto, mais con tal de que leran un xa ese chamaría por outros títulos. E así era.

                     Pois ben, o primeiro título dese itinerario era o Villardevós de Silvio Santiago, na edición primeira, a de 1961, coa lingua orixinal. E aínda que eu advertía sempre dos posíbeis problemas coa lingua, nunca tiven queixas ou protestas por esa cuestión, absolutamente nunca. Por iso digo que o problema da limgua, para min é un  problema falso.

                     Tamén debo saudar a reedición desta novela polo feito de poñer de actualidade o nome de Silvio Santiago, na miña opinión un nome clave na historia da narrativa do século XX. E necesitado de reconsideración meliorativa, tamén na miña opinión, no panorama da nosa historia narrativa.

ASDO.: Xosé M. Eyré

Ana Elisa Ribeiro, poesía e vida

O nome de Ana Elisa Ribeiro é, hoxe por hoxe, un dos de meirande recoñecemento no Brasil, sendo poeta traducida a varios idiomas.

Moradora no barrio da Renascença de Belo Horizonte, onde naceu e viviu a súa familia, formada na UFMG (Universidade de Minas Gerais), procede dunha familia onde non estaba precisamente ben visto o camiño das letras. Naceu en 1975 e, desde moi nova sentiuse inspirada/motivada pola poesía de Paulo Leminski, tamén se confesa influída por Antônio Carlos de Brito (coñecido com Cacaso), e por Ricardo de Carvalho Duarte (máis coñecido como Chacal). Comezou a publicar poesía en fanzines (Vitamina Rock de Wagner Merije) e xornais. O seu primeiro poemario édito, con 22 anos, é Poesinha (1997), despois (2002) deu á luz Perversa, ao que segiu Fresta por onde olhar, no 2008. Despois veu Anzol de pescar infernos (2013), Xadrez (2015) e Por um triz (2016, poesía para mozos e mozas), e Álbum (2018, Gañadora do Premio Cidade de Manaus). E tamén, como non podía ser menos, escribiu crónicas no Digestivo Cultural, que despois reúne en Chicletes, lambidinhas e outras crónicas, aínda que se confesa non ser unha cronista á maneira habitual, cando se escribe o talento é o talento, e Ana Elisa non é precisamente deficitaria niso. E minicontos.

Se digo que Ana Elisa domina moi ben o rexistro poético, pode parecer pueril ao tratarse dunha recoñecida poeta. Porén é a sensación que me queda cando leo poesía súa, tan versátil.

Se digo que na súa poesía tematiza a vida, tampouco semella nada orixinal. Porén, non lle coñezo especialización temática fóra da realidade máis próxima. Por iso precisamente é unha poeta que, nos seus textos, consegue proximidade co lector, algo sempre envexábel.

“Alguma necessidade de me expressar que talvez tenha a ver com a sobrevivência, com a loucura, com a angústia constante, com uma raiva domesticada”. Son palbras de Ana Elisa.

Debe ser salientado tamén o seu labor de divulgadora poética, de parcería con Bruno Brum.

Este artigo de Ana Elisa Ribeiro sobre a poesía, tamén é abondo interesante.

Non imos acrecentar máis nada. A súa biografía é rica, mais o importante son os poemas. Alá van.

Ciuminho básico


escuta
calado
a proposta rude
deste meu
ciúme:

vou cercar tua boca
com arame farpado

pôr cerca elétrica
ao redor dos braços
na envergadura
pra bloquear o abraço

vou serrar teus sorrisos
deixar apenas os sisos

esculhambar com teus olhos
furá-los com farpas
queimar os cabelos

no pau acendo uma tocha
que se apague apenas
ao sinal da minha xota

finco no cu uma placa
“não há vagas, vagabundas”
na bunda ponho uma cerca
 
proíbo os arrepios
exceto os de medo

e marco no lombo, a brasa,
a impressão única do meu dedo.

(Este é o seu poema máis emblemático)

Eu não tenho a alma de um corrimão.

Eu sou mais do elo, da liga e do laço.

Respeito para mim é coisa fina,

assim como o abraço.

Mais do que as transas e os beijos,

as mãos dadas me parecem mais sinceras.

Tão ruins quanto as promessas

são as esperas.

O cão

Por onde anda aquela sua lima

de alisar meninas?

Tens mesmo um bico doce, querido.

Delicinhas te acompanham nos eventos

e pagas as contas dos restaurantes.

Pois agora vamos ver quem é mais Cão.

Afinal,

sobrou-me uma casa com livros.

Além disso, relva, vidros

e um cachorro de patas curtas.

Restou-me também um filho,

mas isso já é luxo.

Fico em pé

ali, entre suas

três ou quatro guitarras.

Quem sabe eu te toco?

Se eu chego antes,

te pego com respeitos demais;

Se eu chego atrasada,

te pego casado e pai;

Então eu chego agora,

pra ver se é boa hora.

Poemas de Anzol de pescar infernos (Patuá,2013).

Peças de madeira em pau-marfim

A linha dos olhos

faz flechas da cor de futuros

As mãos formam conchas

de pegar contentamentos

Os pés são grandes como

as telas holandesas realistas

O corpo inteiro é um tabuleiro

de jogar jogos de azar

As costas quadriculadas

As coxas quadriculadas

A boca quadriculada

Onde eu me finjo

de dama

Antigüidade d’onde viemos

Péricles disse que a maior virtude de uma mulher

Era ficar calada.

Péricles se fodeu.

Péricles, hoje, levaria uma surra

dada por mil mulheres como eu.

EL NIÑO

          a poesia
          tem se escondido
          atrás das coisas.

          e tenho
          me esforçado pouco
          para encontrá-la.

          talvez a encontre
          já morta.

          se envelhecida, (ressequida)
          já será
          vantagem.

          — poesia
          também sofre
          na estiagem.

BURKEANA

aprendemos a ler fotografias

com um historiador:

os detalhes dos cenários

das mãos das poses

dos ângulos e dos objetos

nas paredes ou que repousavam

em mesas, menos ou mais adornadas

nas fotos da família
os uniformes eram novos
e as joias reluziam
até em preto e branco

já o outro ramo dos parentes
guardava uma pequena caixa
de fotos que quase não nos mostravam

para que não gastássemos
— com os olhos e as mãos sujas —
aquelas relíquias

INSTANTÂNEO #5

Só mesmo uma foto

para nos flagrar

no auge

de um quase

E OUTRAS AVENÇAS

nem todo dia
acordo
pária de mim

nem sempre
a minha dor
é vária

faz diferença
sentar-me
diante
das avenças

(aquiesce
aquele pardal
que me olha
de soslaio,
prestes ao voo)

*
DA ESCRITORA

Já a metade
da minha vida
passei nesta lida

com letras,
papel, projeto,
poemas, falida.

Já a metade,
conforme contei
outro dia.

E prestes já
a contar
mais da metade,
em breve,

estimando,
quem sabe,
que, ao cabo,
pareça
ter sido
leve.

*
VINCO

me abate
e desfigura
um desânimo
aterrador

a célere
visão

como se
o chão

pudesse
me
engolir

e se
me debato

viro-me ao
avesso

em meio
a tanta
carne &
sentimento

vejo
mais um
vinco

nada que
o tempo
não
possa
esmaecer
*

GALIPEDIA, ESA GRAN MENTIRA

Éncheselles a boca con iso de que prestan un servizo esencial á cultura galega, que nos tempos que corren precisa unha fonte de información como a Galipedia, porque hoxe todo está na rede. Con estas palabras ou semellantes, téñoo lido en máis dunha ocasión.

Ben, eu era perfectamente consciente de que a Galipedia non resulta precisamente unha fonte moi fiábel en moitas ocasións.

Pero imos á cuestión. A sabendas diso eu quixen colaborar desfacendo a información falsa que na páxina da revista Ólisbos atopei, que era moita e, non vou calar, mesmo me pareceu malintencionada. Como eu teño no meu poder os números 0, 1, 2, 3 e 4, e participei no nacemento da revista, quixen desfacer as mentiras que sobre a revista lía, e achegar información sobre os números que teño seguindo o esquema dos números que aparecen na Galipedia.

Comento isto antes de nada porque desde esa pretendida colaboración fun sabedor dalgunhas cousas que do contrario non sabería.

Xa é cuestinábel, por raro, que calquera poida subir información sobre calquera tema sen posuír información contrastada del. Ben, para iso están os administradores, que supervisan todo que se vai subindo, dirá alguén na súa defensa. Pero é que eses adminstradores tampouco teñen porque saber do tema que se trate máis que quen sobe a información. E teñen o poder de corrixir a quen sexa, aínda que quen suba información a teña de primeira man.

Foi parte do que me pasou. Parte. Con moito traballo fun subindo información sobre eses números, guiándome do que xa estaba escrito sobre os números 9, 10, 12 e 19; ademais de corrixr erros xerais sobre a revista, como o de que foi unha revista bilingüe. E nestas vai o adminstrador que me tocou a min, Xabier Cid, e cárgase a información polo miúdo que eu subira do número 0, reSumíndoo miserabelmente, cando aínda non era a versión definitiva (e o adminstrador sabíao, faltaban notas, enlaces, esas cousas). Evidentemente, o feito indignoume. Porque supón favoritismo respecto a quen subiu os números 9,10, 12 e 19. E iso é moi grave. MOI GRAVE.

Por outra banda, e sen deprezar o contido deses catro números, estou moi lonxe diso, considero que a información dos primeiros números é esencial porque permiten observar como nace e se vai consolidando unha revista, a que nace para ser revista da Facultade de Filoloxía da USC, como vai ampliando seccións e a motivación destas etc.

Despois Ólisbos remataría por ser unha revista cultural máis ( e non nos sobran precisamente), mais os inicios foron outra cousa: unha revista plura que atendera as necesidades expresivas do alumnado Facultade de Filoloxía, sen renunciar tampo a colaboracións noutras linguas alén das estudadas na facultade. E así foi, chegaron artigos en alemán, en inglés, en catalán…

Volvamos ao asunto. Todos sabemos que, no relativo á literatura galega, o tratamento que se lles dá aos autores e autoras é, como mínimo, cuestionábel. Non sabía a razón, hoxe seina.

Porque a Galipedia só en segundo lugar atende as necesidades da cultura galega. O seu cometido primordial é servir os intereses da Wikipedia castelá. Nin máis nin menos.

Como exemplo, abonde a actitude do adminstrador que a min me tocou. Quen estableza contacto con el lerá na súa ficha:

“As miñas teimas principais:

  • Corrixir o nesgo nacionalista que calquera proxecto wikipedia ten, onde todo se organiza por nacións, incluso as cousas que non son nacionais.”

Dinse máis cousas, pero esta é moi significativa. “Corrixir o nesgo nacionalista” galego, por suposto. Porque a ver quen corrixe o nesgo nacionalista que a Wikipedia ten en castelán, que é innegábel. Xabier Cid, xa podías aplicarte un pouco niso, nonsi?

A cultura galega está claro que necesita un proxecto como a Galipedia. Pero un proxecto críbel, do que poder botar man sen temor á desinformación ou mesmo á información malintencionada. Como a min me pasou. Un proxecto que non estea nas mans de xente incompetente, que ten a última palabra por riba de quen posúe información de primeira man, e se entromete mesmo antes de publicar unha versión defintiva.

Mentres tanto, a Galipedia, como fonte de información fiábel seguirá sendo ESA GRAN MENTIRA.

Cristiane Sobral: abrindo camiños sempre ou cando escribir é resistir

Unha das poetas e voces negras brasileiras máis coñecidas, recoñecidas, e divulgadas da actualidade é a de Cristiane Sobral.

Cristiane naceu no ano 1974, na zona oeste do Río de Janeiro, e no mesmo RJ estudará teatro, mais en 1990 múdase para Brasília onde comeza a súa andaina no mundo teatral, non hai que esquecer que Cristiane é a primeira actriz negra graduada en Interpretación Teatral pola Universidade de Brasília.

Na literatura estréase publicando textos nos Cadernos Negros, e actualmente é membro do Sindicato de Escritores do DF e tamén da Academia de Letras do Brasil.

Será do 2010 cando con  Não Vou Mais Lavar os Pratos irrumpa con decisión e moito éxito no panorama poético brasileiro, sendo título reeditado en varias ocasións. A súa poesía presenta unha intensidade que salienta porque a voz poética interpela o lector desde moi axiña amosando unha actitude rebelde que nunca desparecerá e que acompaña a lectura esixindo do lector reacción perante as mensaxes tematizadas. Dito isto non sorprenderá que sexa a de Cristiane unha das voces que abandeiran a loita dos negros e negras brasileiros contra o racismo e reivindicando a figura da muller ( e muller negra) na sociedade brasileira. É dicir, abandeirada contra o racismo. É dicir, abandeirada do feminismo.

No 2014 publicará  Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, incrementando a súa “popularidade” ( se é que iso pode existir no mundo poético de hoxe, mais é maneira de nos expresar, ben comprenderán) e certificándoa como unha das autoras imprescindíbeis da poesía brasileira pertencente a faixa temporaria máis achegada a nós.

E no 2017 sae o último título que lle coñecemos; Terra negra.

Mantén aberto un blog, onde se poden consultar textos da súa autoría, non só poéticos.

E non imos engadir nada da súa biografía, aquí podedes consultar máis datos polo miúdo… e vai acompañado dunha entrevista con Cristiane para o portal Literafro. O importante son os textos. O importante é a poesía, porque escribir é resistir. Velaquí unha selección do que atopamos pola rede da súa autoría.

Retina Negra

Sou preta fujona
Recuso diariamente o espelho
Que tenta me massacrar por dentro
Que tenta me iludir com mentiras brancas
Que tenta me descolorir com os seus feixes de luz

Sou preta fujona
Preparada para enfrentar o sistema
Empino o black sem problema
Invado a cena

Sou preta fujona
Defendo um escurecimento necessário
Tiro qualquer racista do armário
Enfio o pé na porta e entro


Black Friday

Alguns homens sonham com meu corpo
Entre os seus lençóis
Eles desejam desesperadamente
Consumir meu sexo
Mas não suportariam meu banzo
Meu clamor
Não aguentariam vestir a minha pele negra
Nem por um segundo

Eles poderiam tomar posse de tudo que sou
E até germinar ali os seus filhos
Mas sairiam sem olhar pra trás

Esses homens devorariam o meu corpo
Com ardor
Como lobos sugariam o meu interior
Até secar meu ventre…
Impunes, voltariam para os seus lares brancos
Sem o meu menor pudor

Tenho medo desses homens
Que rezam para o criador
Que juram um falso amor
Eu tenho medo desses homens

Não aceito os seus sorrisos
Nem me iludo com as suas promessas
Não sou produto com desconto
Esqueçam as ofertas

Black Friday
Meu corpo nunca estará em liquidação!
Para vocês jamais venderei barato
O que sempre custará o dobro.


Tente me amar

Tente me amar
Enquanto a chuva não vem
Depois que o leite derramar
Ame como nunca amou ninguém

Tente me amar
Sem pensar em voltar
No balanço do trem
Esperando a hora certa
De fazer um neném

Tente me amar
Sem desculpas pra me deixar
De anel no dedo
Ame completamente sem medo

Tente me amar
Sem me confundir com ninguém
Enquanto seu lobo não vem
Tente me amar
E consiga.

(Estes tres poemas fan parte de Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz)

Freud explica

Nunca confiei em estranhos
Talvez porque a transição
do indispensável leite materno
para a rude colher inoxidável
condutora da alimentação sólida
tenha sido feita de forma brusca,
com “papas”, insossas,
colocadas à força
em minha boca ainda sem dentes

Não Vou Mais Lavar os Pratos

Não vou mais lavar os pratos

Nem vou limpar a poeira dos móveis

Sinto muito. Comecei a ler.

Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi

Não levo mais o lixo para a lixeira.

Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal

Sinto muito. Depois de ler percebi a estética dos pratos,

a estética dos traços, a ética,

(este é o seu poema “emblemático”)

A estática

Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros,

mãos bem mais macias que antes,

e sinto que posso começar a ser a todo instante.

Sinto.

Qualquer coisa

Não vou mais lavar. Nem levar.

Seus tapetes para lavar a seco.

Tenho os olhos rasos d’água

Sinto muito.

Agora que comecei a ler, quero entender

O porquê, por quê? E o porquê

Existem coisas. Eu li, e li, e li. Eu até sorri

E deixei o feijão queimar…

Olha que o feijão sempre demora a ficar pronto

Considere que os tempos agora são outros…

Ah,

Esqueci de dizer. Não vou mais

Resolvi ficar um tempo comigo

Resolvi ler sobre o que se passa conosco

Você nem me espere. Você nem me chame. Não vou

De tudo o que jamais li, de tudo o que jamais entendi,

você foi o que passou

Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto.

Desalfabetizou

Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira

Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá

Desinfetarei as minhas mãos e não tocarei suas partes móveis

Não tocarei no álcool

Depois de tantos anos alfabetizada, aprendi a ler

Depois de tanto tempo juntos, aprendi a separar

Meu tênis do seu sapato,

Minha gaveta das suas gravatas

Meu perfume do seu cheiro

Minha tela da sua moldura

Sendo assim, não lavo mais nada,

e olho a sujeira no fundo do copo.

Sempre chega o momento

De sacudir, de investir, de traduzir

Não lavo mais pratos

Li a assinatura da minha lei áurea escrita em negro maiúsculo,

Em letras tamanho 18, espaço duplo

Poema de Narciso

Se você acha que literatura é perfumaria

Olhe para o espelho do banheiro e leia minha poesia

Engula a força da letra como o pão de cada dia

Haverá cura

Não será um exercício fútil

Verás que trago um poema útil

Munição para os tempos de violência

Cachecol para os dias frios

Palavras pretas luzeiro

Poema farol.

“Barbie” quebrada

cansei de ser fetiche
com minha pele azeviche
enfeitando lençóis
cansei de ser sobremesa
enquanto da janela vejo a beleza da vida
cansei
parei com isso enquanto ainda tenho carnes
parei enquanto ainda tenho sangue nas veias

cansei de ser seu almoço
de sonhar que farei sua janta
enquanto no banheiro você canta
pensando no conforto de sua casa

cansei, cansei
parei com isso
não quero um amor sem compromisso
um meu bem tão omisso
cansei de passar noites em claro

quando você vai embora
eu fico a sonhar com um mundo lá fora
um mundo que você nunca fez questão
de me apresentar
cansei, cansei
esses nós dois nunca existiu
pega o seu sexo e sai

faz de conta que nunca me viu
seu amor tem gosto de cigarro barato
e eu parei de fumar, lembra?
sei que posso deixar de te amar
eu consigo
se não der também não ligo
não gozo mais
não volto atrás
vou viver por minha conta
alimentar-me das minhas próprias carnes
cansei desse “nós dois” desafinado
dessa paixão com gosto de comida requentada
dessa minha cara de “barbie” quebrada
cansei.

(publicado na coletânea Cadernos negros, v. 37. Quilombhoje.)

Heroína crespa

A cada dia

Luto pela minha raiz

Sou rebelde e estou em extinção

Minha bandeira é crespa

Escovas progressivas?

Escovas inteligentes?

Barbáries sucessivas das mentes

Esse grito de ordem e progresso

Poderá ser o regresso

Aos padrões hegemônicos!

Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça

A subalternidade é heteregênea

A Rainha de Sabá

Mulheres, não sejamos impunes

Nossa existência dura pouco

Nosso corpo não é um copo

Bebamos a vida com precisão cirúrgica

Mulheres, não sejamos infames

Bebamos a vida com línguas de fogo

Saibamos ganhar o jogo

Do ser

Não sejamos insossas mulheres

Gozemos a vida com sabedoria

Nosso corpo não é um copo

Somos a taça premiada

Saibamos brindar

Resiliência

Por outras portas hei de passar tranquilo

Encontrarei o desafio e passarei a segui-lo

Inalcançáveis janelas poderei romper

O final não vai acontecer

Talvez eu tenha que saltar um muro

Posso até quebrar as pernas e ficar doente

Mas não me entregarei simplesmente

O mal não vai encontrar futuro

Quando disserem “já era” talvez eu mude o percurso

Pois sei que não posso desistir do próximo instante

Algo de bom me espera logo adiante

Quando disserem “acabou”, a vida estará em curso

Se eu de fato estiver a agonizar, perto do fim

Encontrarei forças para reverter as previsões

Estarei pronta a reinventar as minhas decisões

Enxergarei uma nova estrada diante de mim

( Todos estes poemas, agás o sinalado ao final, pertencen a Não vou mais lavar os pratos)

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Como sempre estes artigos van dedicados ás mulleres da miña vida. E o hoxe, este. é para MARISA.

Hai amizades, e amizades…e despois está ela, Marisa. É un privilexio que á vida de calquera chegue unha persoa como Marisa, a bondade encarnada nunha muller preciosa por dentro e por fóra. Nunca a escoitei falar mal de ninguén, aínda que a ela había quen a poñía verde…E é que a boa xente sempre esperta ciúmes e incomprensións…

Quitoume de moitas molladuras, agracioume coa súa amizade. Non se pode pedir máis nin mellor. Sempre estará no meu corazón…