Laís Araruna de Aquino: a poesía como un sopro da beleza que nos resta.

Se Camila Assad, a semana pasada non era demasiado frecuente na Rede, hoxe, con Laís Araruna de Aquino, temos moita máis sorte, polo que poderán ler unha boa mostra da súa poesía, da súa obra, da cal polo momento só coñezo un título: Juventude (Reformatório, 2018). Un só título, non é a primeira vez, mesmo teño difundido poesía brasileira de muller de poetas non éditas. Certamente, o título, “Juventude” dá para pensar en posteriores títulos xa de poesía “máis madura”. Se temos en conta que Láis naceu no 1988 (Recife) e versalitidade coa que ela se manexa á hora de poetar, non é precisamente calidade o que lle falta, todo o contrario; así que, evolución haberá (temática e formal) mais iso será porque é o normal en calquera autoría. O feito de ela ser de Recife, tan lonxe do triángulo São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ( ou do eixo SP-RJ)  tamén pode ter ter que ver en que tardara tanto en publicar, aínda que hai unha nada desprezábel tradición de autorías recifeñas, ente elas Manuel Bandeira, un dos nomes fundamentais para Laís..

Porque a poeta é un ser sensíbel que non quere calar, porque a poesía nunca é incoente e ela sabe ben de que parte debe estar. Se miramos na súa poesía da selecta hai dous conceptos que se repiten significativamente. “Noite”, dá unha idea da concepción da vida. E “sopro”, que dá unha idea da concepción da poesía, que pola súa brevidade é iso, sopro, e se botamos man dun seu  poema podemos concluir, como no título, que é un sopro de beleza e a beleza é todo o sentido que ainda nos resta.

Concíbese a poesía como un espazo de liberdade, tan necesario non só por ter a pel negra, mais fundamentalmente. E a voz poética feminina como unha voz de todas as mulleres, solidariedade e sororidade imprescindíbeis nos tempos que nos toca vivir. A escrita de pel negra non pode substraerse ás “escrivivencias” de Conceição Evaristo, non, porque para as autorías de pel negra non existe a liberdade temática de que goza a pel branca, ten na súa condición racial un imperativo temático ineludíbel. A poeta non pode formar parte da “vocación suicida da normalidade” porque fica interrompida a “ética da aceptación” -en palabras de Daniel Salgado no seu último poemario (Os paxaros, Xerais, 2021.

Deste xeito proponse unha ética do corpo, tanto na súa reivindicación racial como na inevitábel loita contra  o tempo. E esta ética do corpo denuncia, reflexiona e denuncia. Exerce a única liberdade posíbel, a poesía.

Tamén me satisfai moito non ser eu o  primeiro galego a reparar na poesía de Laís, que é unha poesía de moita consistencia, absolutamente contraria á vulgaridade procura ser ese sopro de beleza que abra a noite a un esperanzador día. Non, pois a revista Palabra Comum (Revista galega lusófona) xa divulgou a súa poesía, coa que precisamente comezamos a nosa selecta, xa o fixo en 2019.

Resta por dicir que Juventude recibiu o Premio Maraã de 2017, un bo motivo para ser editada, e que profesionalmente non se dedica a nada que teña que ver coas Letras, senón que a súa actividade laboral exércea no Dereito. Dígoo, porque a inmensa maioría de poetas que divulgamos rematan sendo formadas en Letras.

A continuación, como sempre, déixovos o seu Facebook e animo a que sexa seguido, pois ten ben interese.

Vai a súa poesía, enormemente vitalista, un sopro de beleza na noite dos días.

(Na PalabraComum)

INDIVÍDUO N. 3 (OU A FESTA DO VAZIO)

então retornas ao mesmo tema
que faz um homem entre demasiados homens,
existência entre existências refluindo sobre si

um homem, aberto ao tédio e aos desertos,
cujo ser, de tanto contemplar,
não imolou a própria vertigem
até o som da lira ou do asco crepitar

e a sua existência –
este incêndio da face destituída ao espelho,
tão breve como a pulsão da aurora
ao encontro da noite fria

as tardes não te darão nada, meu filho,
a não ser a hora demasiado tardia de caminhos esgotados
ou o fundo vazio de estações indivisas
que te convidam a morrer no azul

é inútil assim ir como permanecer
exaurido no homem antes de ti
mas, se vais, escolhe o longo caminho
fora dos portos conhecidos,
propícios aos naufrágios dentro de si

no limiar da noite esquiva, entre esquinas mal iluminadas de astros,
a chama ausente do satélite inundará o teu ser
com um chamado lúbrico para o abandono
na vasta planície onde cantam as sereias do nada

mas não te afogues em aporias
deixa que o sopro do absoluto –
isto que ainda tens de uma infância –
dê-te o fôlego, mas não a chave inútil

não há portas
todas as construções ruíram
mas sob a tua soleira – a do teu ser –
o vento continua a rugir

o vento – ou as vozes que conjuras
na festa do vazio

ODE À MANHÃ

a manhã levanta do horizonte
tenho vontade de escrever e a cabeça não dói
está nublado e chove um pouco como se
deus molhasse as pontas secas
do coração entrincheirado da véspera

ontem quando olhei o céu estrelado
só pude ver o vazio na cavidade do meu peito
mas a manhã veio como uma certeza e uma novidade
agora a água cessou, um hino se inicia
os pássaros dão glória e se lançam no azul

deus abre e fecha a sua obra
ou são os homens que esquecem a criação?
ao poeta cabe apanhar a luz do ser
e dar-lhe o cristal do nome, onde a imagem fulgura
e deixa-se permanecer como um estremecimento –
compete atentar para a anunciação,
os raios do sol quebrando numa geometria
concreta sobre a folhagem,

e deixar que a nossa alma se encha
de alegria ao crepúsculo, ao refluxo das águas
ou à chegada do sono após a exaustão
às vezes, lembramos nossos corpos imperfeitos
e sentimos exalar a tristeza da finitude
mas damos graças – ou deveríamos dar –

por ter acontecido de estarmos aqui
como um lampejo entre os dias e a noite,
entre um afeto e uma cicatriz,
entre Sêneca e Walser,
as flores do campo e o estio,
sendo por tudo tocados nesta alternância
e a tudo tocando

aconteceu de estarmos aqui,
neste instante fecundo,
salvo para sempre porque votado ao esquecimento e ao fim –
ao invés de vagarmos anonimamente e sem rumo
como a poeira eterna do universo

AS MEMÓRIAS INVISÍVEIS

caminhas pelas estradas polvorentas da tua memória
recebes o vento pelas costas
algum sopro veio do mediterrâneo e tem a secura do deserto
pessoas cruzam e desaparecem para nunca mais
estás sob o sol asfixiante de junho à esquina da Calle Evangelista
ou passeias no Luxemburgo sob um guarda-chuva chinês
foi este ano ou o passado ou uma década atrás
(agora já contas as décadas)
mas os nomes traem as coisas
falta-lhes o excesso a mancha a impureza
os nomes têm a textura derruída da ausência
e a sua lâmina, uma ponta cega encardida pelo tempo
a Rua da Aurora no começo de uma tarde em agosto
não é a Rua da Aurora no começo de uma tarde em agosto
é também o teu ser precário sobre o Capiberibe veloz
e os quadros e arcos das pontes na extensão do azul
sem os nomes as coisas dormem no lago universal
do esquecimento e misturando-se às águas e às algas
destituem-se pouco a pouco como as margens de um rio
tragadas pela correnteza
chamá-las porém não lhes devolveria a face
(vulto que se perdeu ao virar a esquina)
cada coisa porém guarda o seu secreto nome
sob a arquitetura inviolável de um momento extinto

a poesia é – talvez – a tentativa de construir
para esse nome – uma esfinge à luz do dia

NOTURNO N. 3

as nuvens estão baixas e cinzentas
como carvão queimado
a lua –
um pingente barato
ou, talvez, a coisa em si, satélite
não apareceu no firmamento
o céu está despovoado –
há no vento um presságio insignificante
quiçá, um barulho nos cômodos do apartamento
mas certamente não um chamado ou um embuste
tudo é excessivo para aquele que busca
colmatar as lacunas –
meu corpo está aberto como uma vala seca de rio,
exposta e indefesa aos vazios que a noite carrega
na transparência opaca das coisas
não chegaremos muito longe
todos os espelhos foram quebrados
desde o expurgo do último metafísico
nossos olhos piscam, confinados em arquiteturas
não virá a nave com que atravessaríamos
as veias escondidas deste breu
mas nunca se sabe a cadência dos meteoros
que podem riscar o céu
não esperes o fulgor de uma eternidade
de que não saberias o uso
a noite é este brilho interrompido –
para nós, que esperávamos a razão total
sob a glacialidade de uma estrela
mas é nesta noite – e não em outra maior
que nos cabe perceber a sua chama pura e inútil,
o seu afago tão largo como o vento,
ó morada transitória do sentido,
onde, por um momento apenas, nossos corações se acalentam
e depois se extraviam

MAIO 2018, NAS GRAÇAS

eu então sabia que a vida seria isto
enquanto descia a rua com meu cachorro
eu sabia que descia aquela rua no entardecer
da minha juventude, uma rua de mangueiras, jasmins e acácias,
em cuja esquina uma buganvília jorrava
em flor sobre os muros de uma casa,
renovando-me o gesto de calma contemplação
contra o meu espírito obstinado em velhas questões
seria isto –
passeios e intermitências, pensamentos engastados
em nomes e sínteses inúteis, mas no caminho não-raro
uma rua desaguava no céu polido de azul
ou uma lufada de vento fresco saciava o verão quase eterno
a cada manhã, logo cedo, os raios do sol ainda baixo,
perto do horizonte, iluminavam-me a face sem aquecer,
devolvendo a promessa dos dias como um sábado sem deveres
ou uma infância fora do tempo
seriam essas delicadezas inesperadas do cotidiano
e, por isto mesmo, esperadas sem ânsia e inquietude
seria isto e a consciência latejando como quem diz
estás viva e é isto ou nada
eu sabia que seria isto
a vida se consumando ininterruptamente
nos seus pedaços, sem uma borda ou um anteparo
de onde pudéssemos conservar intacta a memória
dos dias, sem a contaminação de tantos outros dias
perdidos na malha dos anos;
a vida se consumando sem o fulgor do bronze
ou de incêndios violentos, como uma perda gradual
que dá por si tarde demais
eu me despedia das quimeras, dos clarões duradouros de felicidade,
que pudessem alcançar todo o caminho
e ressignificar os fatos mais aleatórios, redimindo-os
em uma vida cheia de sentido –
as coisas ficavam para trás mais sutilmente
como o rastro de um barco no oceano
ou a fumaça de algum fósforo logo dissipada
talvez a mudança mais perceptível fosse o meu
rosto examinado atentamente, uma ou outra
marca que insistia em não abandonar,
a recuperação inexata da pele, que não fechava
as aberturas do tempo
por isto, por essas configurações que se perdiam
a todo instante, eu tinha de me deixar arrebatar
pela dignidade de cada coisa no mundo e iluminar-me
de sua presença, para que o sentido nascesse
dentro de mim como um voo de pássaro planando no azul
desprovido de direção, um voo que é todo voo
e não outra coisa ou desejo de ir ou retornar
um voo como um gesto vibrando no ar
no seu puro movimento
o sentido nasceria ao deixar-me existir
ao lado de cada coisa existente,
de que somos talvez apenas o mensageiro –
cada coisa –
as folhas do bambu vibrando sobre a mesa
o azul acima das antenas dos edifícios
exaurindo-se no fogo lento do horizonte
a hora escorrendo na boca da noite até encontrar o sono –
eu sabia que a vida seria isto ou qualquer outra coisa
escoando veloz dentro do tempo
veloz e volátil como o perfume das espadas de são jorge
numa noite ordinária de maio
e dentro desta noite meu coração batendo compassado
no meio de invisíveis destroços e nascimentos
até que o fluxo abandone o meu corpo
e paire acima, na copa das árvores, ondulando
no movimento eterno das massas de ar, indo e vindo
incessantemente, sem dar pela minha ausência
neste mundo

PREFIRO OS DIAS DE CHUVA

prefiro os dias de chuva
não obstante o eu esbarre na resistência
das coisas que estão aí fora e não dão passagem
os pragmáticos comprariam cigarros
eu imagino a sensação de um trago cálido
e a imagem é mais real que o ato em si
como a lembrança deste dia fundará outro dia maior
sim, prefiro os dias de chuva
posso ficar fundamentalmente só
estendendo a pouca roupa no varal ou aguando
as plantas da casa
os arranhões do mundo não escalavram
a ficha da existência dispensa carimbo
deito no chão frio
isto confere qualquer sentido à falta de sentido
como ter um guarda-chuva no exato momento
em que não tempestua e aranhas
monstruosas assomam no jardim
não pensei sobre o resto do dia
não, pensei e nada resolvi
sobre a longa tarde de sábado
ou um modo novo de evitar o aniquilamento
provocado pela passagem do tempo
porque as possibilidades se desgastam facilmente
no uso da existência
o recurso do sonho
o recurso do prazer
o recurso da indiferença
todos subterfúgios barrados na intrincadíssima peneira do real
mais real que qualquer realidade suposta
no entanto permanecer não é um recurso
é um imperativo de recusa à dissolução
na noite anônima e animal
porque o homem é a negação daquilo
que ele não é
cogito levantar do chão
se eu me agarrasse à aposta de Pascal
escolheria a existência de Deus
e momentaneamente teria um ganho infinito
mas o não-saber cai-me tão pesadamente
como uma fissura impede represar uma certeza
cuja única certeza é pôr-se eternamente em questão
como um homem é uma transitoriedade
no devir de todas as coisas
ah mas este momento e esta chuva
sim, esta chuva e este momento
nada os rouba mais de mim

TEIA

não há seguro contra o estar no mundo
nem tua casa te previne contra o assalto da existência
as janelas não impedem o vento e o cortejo de passos
de te trazerem signos do nada
o silêncio acusa que estás no centro de coisas
que não oferecem consolo porque apenas remetem a teu exílio
o expediente de levantar da poltrona e abrir a porta
da geladeira mede o intervalo de tempo gasto
e não sabes de que te serviria mais
teu olhar interroga paredes e detém-se numa lamparina
em vão um inseto debate-se contra o vidro
não há senão esta só e única realidade

à beira do Capiberibe ou do Nevá

JUVENTUDE

Teus amigos – alguns – mudaram de cidade
os teus irmãos já não moram
com teus pais
foram para o norte, o sudeste
para as Índias, talvez

Mas tu, fiel, ficaste
com o teu cachorro
tens tempo para o trabalho
para à tardinha à janela olhar detidamente
as gentes que passam
para a poesia – os livros
que nunca leste

Não precisas da economia do verbo
sempre podes falar sobre o tempo
(como são úmidos e quentes os dias do ano)
ou sobre o maldito governo
deste país miserável
com alguém no elevador
nas filas do mercado
– vai tudo muito caro

E quando o dia for muito belo
para as conversas pequenas e fáceis
restam-te os solilóquios
ou o sonho da espera
ainda tens muitos anos à frente
e a esperança, essa imprudente
te acompanha, oh jovem

Podes por um minuto
em tudo acreditar
para desacreditar logo depois
frustração após frustração
teus olhos têm um brilho inextinguível

Tudo está bem
mesmo as coisas fora de lugar
és jovem
podes o recurso extremo
dorme mais um pouco

MEUOFÍCIO

às cinco da tarde um som de apito no ar
anunciou à rua o vendedor de doce japonês
um outro – que inusitado – cruzou comigo
meia hora mais tarde no fim do passeio
em condições ordinárias não se cruza duas vezes
com vendedores de doce japonês
hoje é um dia ordinário cortado pelo maravilhamento
como todos os dias do ano
pela manhã quando atravessava para o cais no Bairro do Recife
as águas e os céus se dividiram em duas metades
de esplêndido azul
e meu coração fundeou à-toa
junto aos barquinhos do Capiberibe
no fim da tarde eu vestia minha camisa branca
bastante usada e rasgada e gostava de que pensassem
em mim alheia às coisas materiais deste mundo
não importa mas o homem é um ser
de grandes questionamentos – inclusive dos menores
meu trabalho consiste em redigir petições
como todos os demais
entanto meu ofício é deixar o coração aberto
permanentemente
o espanto não escolhe a hora de entrar

REITERAÇÕES SOBRE UM TEMA

o vento no canavial
as bandeirinhas de Volpi
os leões que Hokusai desenhou todos os dias
por 219 dias até morrer

a forma não se atinge nunca
na reiteração das coisas no tempo
as coisas – elas mesmas
são outras e tu
outro és

e o café as camisas brancas o assoalho da casa,
o qual pisaste e tornarás a pisar,
numa configuração nunca idêntica,
porque a madeira desbota e teus cabelos vão a cinza

viver – eis a fissura
é estar inacabado até o fim

…………………………..

(Na Gueto)

a incerteza que nos move

I.
(A recusa de validade a todas as hipóteses
constitui um ato de pensamento — e de fé)

II.
Nos Ensaios, Sartre diz que a existência
é um frêmito no ar;
rastro apagado na areia ou vaga dissipada
no espelho; oblívio, rosto contorcido e submerso
em mar,
__________nuvens
_______________e urna,
ó porvir de eternidade e vazio

a existência —
_______________este acaso furioso
que se arroga um estatuto e uma dignidade,
em cujo propósito estancou sem saída
porque cresceu,
deu por si e
multiplicou-se
vorazmente à beira da estrada, sem compreender

o que estamos fazendo aqui afinal,
desmesuradamente apaixonados pela vida
e por constelações extintas,
enquanto nos arrojamos à praia
com qualquer despojo do navio

como se do que trouxéssemos de lá
houvesse arqueologia possível ou
se escavássemos a fundo os vestígios do nada
subitamente este desapareceria em meio
às palavras

III.
Suspeito, porém, de que tudo seja
mais um jogo à força do uso — e da crença,
a de haver ao menos entre um e outro sujeito
um fio ou liame comum que nos restitua contra a completa
arbitrariedade da falta de Deus

e assim comuns, arraigados na falta e nos deveres da falta,
tentamos um campo de virtude sem imortalidade,
forjando entre pedras a lavra

e nesta ordem de aleatórios meu coração escalavra
_____________________________________sem rumo
entre Delfos e Tirésias,
Ovídio
e a Melancolia,
aferrando-se ao fato que nenhuma razão ou cosmogonia desbasta,
o de não haver ninguém retornado para tirar à incerteza
a sua íntima condição, de tempo e glória

e, porque não estamos consumados em certeza,
como um curso extinto de rio ou uma encosta
à força do vento, até a planura e o sal,

porque não quedamos apenas ao sopro do ar
(se sopro há)
balouçando como o canavial nos morros
ou os trigais no campo

por isto não somos à força de ser
e o nosso ser — uma ferida do tempo
que não cicatriza nunca

convite

A terra abre suas pálpebras
e oceano e céu são um convite ao fim do mundo
os seus cílios são brancos cúmulos na dissolução da tarde
há um incêndio de sombras brandas e sangue púrpuro,
sem qualquer ruído

é apenas o sol deposto e a passagem do dia,
um estremecimento forte da pele, um respiro
mais fundo e as velhas questões acossando
tua consciência irredutível de estar vivo agora
e não depois

então diz adeus, despe a tua condição, forasteiro
deixa que a tua matéria seja a água e o esquecimento
do gosto acre da saliva deglutindo a seco
o contato incômodo com a existência

os dias que foram, os dias que virão
teu medo mais derradeiro
tua angústia mais inominável
deita-os na coluna de espuma

enquanto o corpo é envolvido pela escuridão,
que não te pede absolutamente nada,
a não ser o silêncio profundo da tua alma
e das tuas obsessões calidamente cultivadas

escuta só o corpo latejando na concha
fria do universo, reverberando abandonos
e o êxtase da solidão

existe apenas esta canção de muito longe,
que todos os homens, em todas as épocas,
já ouviram, sentindo a escassez infinita
de si ante o pálio frio e espectral das estrelas

este ar, este mar não te saúdam
mas te recebem
se tu deixas a ti mesmo para trás

encarando o silêncio
(a partir de P. Auster)

esta paisagem, os morros verdes,
o céu parcialmente azul
pairam ante o olho nu
com sua textura fechada
a que palavra alguma dá a face

aquilo sobre que te direi já não será
o que está aí, na manhã indiferente
ao anseio de dizer —
sobre a solidez suave deste verde
e por cima deste verde um azul conspurcado
de nuvens e poros,
como um mar invadido subitamente
de espuma

no balé livre das árvores,
o dia deslizará em direção à noite
eu deslizarei em direção à noite
mas a palavra não é uma estaca
no decurso do tempo —
é uma via franqueada
ao que ainda não existe mas está lá,
prestes a dissolver-se como uma vela
que o vento reflui

pois tudo consiste nisto, na compulsão
de dizer
não o que o dia silenciosamente guarda
na sua esfinge desde sempre aberta

mas dizer a experiência única, solitária e abissal,
de que saltamos para a palavra, revolvendo
o enxame de asas e caos, revolvendo
mais fundo ainda, sob o excesso
ou o vazio, o silêncio esquivo
e crepuscular,

revolvendo, no mais fundo
e derradeiro, o espaço
anterior ao silêncio,
onde me encontro

………………………………….

( Na Acrobata)

Nós Só Compreendemos Muito Depois

(a alma é uma intensidade a que regressamos
quando concedemos às coisas o silêncio
para serem percebidas em sua totalidade.)

é perto das quatro, o sol incide
obliquamente sobre as palmeiras
o vento rege uma canção entoada pelos
pássaros e cigarras –
aquela que veio de nenhum passado

agora, uma ave branca cruza o silêncio
nós só compreendemos muito depois
esta paisagem, este corpo, esta travessia
compreendemos numa estação diversa
quando as folhas estão secas no chão
ou sabem à resina

tudo está calmo e quieto
mas ninguém sabe os mundos que o coração
do homem abriga
os bois se juntam no pasto
e tangem os rabos contra as moscas
e também meu coração tange algo
que não sei nomear

estamos no presente como em um lago
onde pousamos os pés
e não sentimos o assoalho
e de repente se faz muito tarde

quando desejamos regressar
e abrimos a porta da memória,
há um caminho que muda
a cada entrada

então, na curva de tantos dias,
deixamos um pouco do passado
agora, o musgo cresceu
range a porta

damos talvez por uma falta
mas não saberíamos dizer
mesmo isto –
nós só compreendemos muito depois


Sobre o Mundo como Vontade de Poder

para Cela

quando saltou sobre o muro e nadou na piscina
do prédio ainda em construção, tinha oito anos
e um desprezo por regras de propriedade. ela era
uma pequena Raskólnikov e também desprezava
regras estúpidas que reproduzissem a cruel dominação
que crianças pampers exerciam sobre crianças frágeis
e submissas. por isto, não era tributável das qualidades
morais em voga – dispensável dizer sobre a estética
menos que kitsch e middle class do rebanho de
infantes que frequentava. apesar disto, estava entre
eles porque quase confinavam com os limites físicos
do seu mundo. mas, então, primeiro lhe negaram os dois
reais que haviam apostado. e ela subiu com as roupas
molhadas e os bolsos vazios para o seu quarto.
depois, compreendeu que, para eles, era um tipo
selvagem e andrógino – para eles, que só cultivavam
o que entendiam e eram tanto mais fortes quando em
comum professavam desdém em clubes de desestima
alheia. outros se revezaram no mesmo papel, trocados
apenas os nomes: os ferozes padeiros do mal;
os ferozes leiteiros do mal – os arautos das
congregações dos integrados, os que vão à missa
e comungam, ou não comungam, pagam o dízimo
e se pensam mais cristãos que o cristo, os que não
vão e têm piedade de si, os cordeiros e lobos que
se alimentam do mesmo pasto. and so it goes.
então, aos poucos, ela desceu ao fundo da ilha do seu
coração, onde preferia histórias como a de Crusoé
e era, em todo seu afeto, ignorada pela civilização.
agora, lê freuds, jungs, deleuzes – e explica alguma
coisa, ora outra e não pisa o território hostil da infância.
vezenquando, se lhe perguntamos se deseja sair
em férias conosco a uma praia, diz que não gosta
de se banhar e não mostra o corpo com facilidade.
prefere, diz, alguma quinta, menos frequentada,
onde beberá bastante do vinho, falará sobre literatura
e sonhará viver como nos filmes de Rohmer.


  Vida de Campo

quando chega ao campo, minha vó logo
se deixa ficar ao terraço, à cadeira de balanço,
os pensamentos para cá e para lá
como a gente descansa nessa paragem do tempo
verde, quando faz chuva, nos meses de junho a agosto
nos demais meses o mato fica seco
a gente descansa nessa paragem do tempo
e eu lhe digo que do pouco que faço
também descanso
um dia me deixarei ficar toda a semana
morarei aqui
com meus cachorros, o rumorejo das árvores
ao vento e toda a saparia
minha vó ri e diz é tão bom
nem precisa de gente
eu rio e repito nem precisa
de gente
ao longe, em uma estrada que meu olhar alcança,
um ruído de motor de carro
minha vó fala sobre o silêncio
e sua voz e o silêncio se confundem

no campo, o vento é o maestro de todas as coisas
de tudo que rege,
o ar, o balanço das palmeiras, o voo
dos pássaros e sua fala de canto,
de tudo isto, sobe o silêncio
e no corpo adentra – imenso

…………………………………

(Na Arribação)

QUANDO DEUS ERA CRIANÇA

quando Deus era criança, suas mãos passeavam
pelos campos de centeio desde a manhã até a noite
suas mãos eram pássaros e gorjeios inundavam o vento

os campos cresceram
as mãos de Deus sangraram de cansaço –
Ele sentia-se só, no coração despovoado da infância
e a sua voz era uma harpa plangente contra o vento

quando Deus era criança, sua ferida tinha o cheiro dos campos
o cheiro da solidão dos campos
e as suas lágrimas eram uma chuva escura sobre o vale

que coisa triste era Deus
que triste não ser visto e ouvido
que triste não ser compreendido
então, da matéria da sua solidão, Deus criou o homem
e deu-lhe liberdade para ver, ouvir e compreender
em uma paisagem austera, onde os astros brilham distantes

e o homem, feito da matéria de Deus,
é como um resquício triste de luz na sombra do vale,
é como um recinto que todos abandonaram
deixando uma vela acesa –

onde nomes pousam na tentativa de compreender
como se fora sol, mas é apenas chama provisória –
aonde os nomes descem do nome não revelado de Deus,
como houvesse um nome não revelado de Deus,
e partem como pássaros para o azul

e quando o sol deita na planície vasta
e o homem diz meu Deus
Deus sofre –
porque, não sendo compreendido,
não compreende a sua criação

*

TRAGA TUDO PARA CASA

segundo lustro dos anos 2000 pós-aula na faculdade
de direito do recife – cela e eu pegávamos o carro
íamos pela ponte onde augusto cismava
e dávamos na loja da cultura na beira do Capiberibe
onde escutávamos discos e folheávamos livros
cela comprou um dylan que o mês passado fez cinquenta anos
pagou setenta reais com a bolsa do estágio e talvez eu tenha
protestado mas flertávamos com a liberdade dos beats
e o pouco dinheiro que o kerouac tinha na estrada
o fato é que não havia streaming nem internet
nem pirataria que substituísse o disco
quase dois lustros depois quando escutamos
o nashville cela se diz descobridora do álbum
que de alguma forma mudou nossas vidas
tudo começou porque duda trouxe do canadá o no direction home
e guiga comprou mas não deu o modern times para rafa
e terminou que eu e cela também compramos o bringing it all back home
e escutamos e amamos todos ao som dessas canções
que de alguma forma mudaram nossas vidas
hoje é certo me pego vezenquando em busca de algum espectro
que substitua o espectro do passado mas o ritual mudou
rafa mora em são paulo e cela também
a cultura fechou as portas e quase ninguém mais compra e vende discos
e quando penso em tudo isso me vem um sabor acre na boca
tudo mudou
mas casei com guilherme e a quadrilha não acabou
que a canção seja sempre cantada
que o desejo permaneça em nossas bocas
forever Young

…………………..

(máis na Gueto)

noturno no campo n. 2

sobre as vozes da tarde os noturnos de Chopin
antecipam o coração silencioso da noite
o som dos homens retumba demasiadamente no espaço
a porta está cerrada como uma metáfora
o dia finda e as janelas estão abertas em par
sobre cigarras latidos e trevas
eles se foram e tudo ficou amplo
mas as palmeiras tão familiares não dão alento
a hora do lobo não distingue forma e enterra o cortejo de sombras —
em alguma parte mais obscura também eu sou lobo
com a face voltada para a face ausente da noite
o sentido não importa mais, não há nada trágico no ar
sequer o prenúncio de uma espera
contemplo demoradamente a fixidez do breu
uma e outra árvore se entreveem tacitamente no horizonte
dedilho nas costelas uma canção há muito esquecida
mas escutando atentamente são pancadas fortes
que martelam dentro do corpo
o vazio escavou profundamente seu canto seco
como desta terra não houvesse salvação
(há salvação mas não para nós)
então faço um movimento para afastar o presságio
e acompanho um barulho que se perdeu longe na estrada

…………..

morro na medida em que tenho consciência de morrer
(Bataille)

há dias em que não conheço a morte
são dias em que estar entre coisas
não se divide entre estar e não estar entre coisas
como viver fosse o fato mais natural

a vida sem a morte é uma canção
antiga repetida sem lembrança
não falta nem evoca nada
como os campos sob um sol casto
não suscitam a não ser si mesmos

e um deitar longa e atemporalmente sobre a relva
com todas as vozes — do eu — em silêncio
e estando sedento é como estivesse saciado

entanto acontece de se viver no limiar
de algo que escapa até o fim
tornando a vida mesma um limiar indefinido

por isso na transição do dia
divisa a réstia de luz sem a nostalgia
de mais luz
e tua vida expandirá como num sopro

…………………

(máis na Acrobata)

ATRÁS DO NOME

dizemos a palavra casa para referir a uma casa
dizemos casa e indicamos com a mão –
temos um nome
dizemos esta é uma casa, a minha
e ao alcance das mãos estão as coisas a que referimos
nós somos os que colocam o mundo à distância
das nossas mãos
então, quando caminhamos, atrás de nós caminham
os nomes; à nossa frente, caminha o passado
e, quando vemos o futuro, dizemos o passado

um homem não sabe que pode deixar os nomes
no chão e caminhar com as mãos vazias
sempre dirá isto, sempre dirá aquilo
não sabe que pode deixar os nomes no chão
e ancorar sua casa no vazio
sempre dirá isto ou aquilo
porque não sabe que pode se livrar
do vazio, livrando-se do nome
não sabe que pode desancorar dos nomes
habitando o vazio


ESTAR-AQUI É EXCESSIVO

Da oitava elegia de Rilke escolho o verso
estar-aqui é excessivo como título deste poema
estou em casa, sentada à mesa e escrevo
estou em face de coisas e abro-lhes um parêntese
no mundo
não basta estar aqui desde que isto significa
a consciência de estar-aqui em face de coisas
considero-as por um instante e ouço-lhes o chamado
ou sou eu que lanço um apelo incompreensível
eis a cadeira, a mesa, as folhas do bambu mexendo
ao sopro do ventilador
mas isto não é tudo
essas coisas remetem-me a mim mesma: o que faço
entre elas, qual o sentido desta remissão?
tomo tempo suficiente meditando a questão
tomo consciência de que o tempo atravessa este momento
e o ar torna-se pesado
tomo consciência desta consciência que ocupa as vigílias –
somos o que estanca em face das coisas
pondo-se a si a questão do que faz entre elas
enquanto é arrastado pelo destino de ser o remetido
ao próprio destino

sim, estar-aqui é excessivo


CONVITE

A terra abre suas pálpebras
e oceano e céu são um convite ao fim do mundo
os seus cílios são brancos cúmulos na dissolução da tarde
há um incêndio de sombras e sangue,
sem qualquer ruído

é apenas o sol deposto e a passagem do dia,
um estremecimento forte da pele, um respiro
mais fundo e as velhas questões acossando
tua consciência irredutível de estar vivo agora
e não depois

então diz adeus, despe a tua condição de estrangeiro
deixa que a tua matéria seja a água e o esquecimento
do gosto acre da saliva deglutindo a seco
o contato incômodo com a existência

os dias que foram, os dias que virão
teu medo mais derradeiro
tua angústia mais inominável
deita-os na coluna de espuma

enquanto o corpo é envolvido pela escuridão,
que não te pede absolutamente nada,
a não ser o silêncio profundo da tua alma
e das tuas obsessões calidamente cultivadas

escuta só o corpo latejando na concha
fria do universo, reverberando abandonos
e o êxtase da solidão

escuta esta canção de muito longe,
que todos os homens, em todas as épocas,
já ouviram, sentindo a escassez infinita
de si ante o pálio frio e espectral das estrelas

este ar, este mar não te saúdam
mas te recebem
se tu deixas a ti mesmo para trás

………….

(Na Vício Velho)

Para Charles, com amor e miseria

(I)

Um homem, não; a Humanidade. Nada mais trivial
que nascer, morrer, povoar o mundo, superpovoar o planeta.
Perdoem-me, um nascimento é um novo começo,
mas entra na estatística como os demais. Sim, sofremos.
Os outros animais também sofrem, as plantas sofrem,
e nós ignoramos – talvez não com o nosso coração.
Até as pedras sofrem, rachadas pelo vento e pelo sol.
E então damos o nome de dignidade ao nosso sofrimento.
Mas, quando olhamos para dentro e vemos o vazio,
os psiquiatras tiram do livro o sintoma, os poetas repetem
“abismo” – e la nave va. Agora o homem deita confortavelmente
no leito de Procusto, temos um nome para cada coisa
e tudo se tornou exemplar. Mas o futuro talvez não chegará.
No ano de 2050, com otimismo, dois graus de superaquecimento
e mortandade. Ursos polares reviram o nosso lixo;
baleias morrem com quilos de plástico no estômago;
e o foie gras é uma comida de luxo que homens mimados,
bem-amados pelas suas mães e cuidados pelas instituições,
compram para escapar de um a outro tédio.
As mais sortidas esperas – eis o legado da técnica ou da exploração.
Homens – os que trocamos a austeridade do trabalho
pela escolha laboriosa da próxima refeição.

(II)

Eu me perdia inutilmente em questões como essas.
Mas, como fazemos à vista do superliminar, resolvi
me distrair e fui correr no clube. Eu já estava correndo
quando vi um garoto de quatro anos com um patinete
no meio da pista. Ao passar por ele, senti que se punha
em movimento e ganhava velocidade. Não sei por que
acelerei o passo, mas o barulho da roda não diminuiu.
Foi aí que escutei uma voz dócil gritar “ei, não é justo,
você está acelerando. M’espera.” O garoto havia percebido
que eu jogava – logo eu, que momentos antes havia desprezado
tudo, como se despreza o homem na ideia de humanidade.
Mas na hora eu só pude correr ainda mais rápido.
Então o garoto me esperou para a próxima volta. Quando o patinete
se pôs em movimento mais uma vez, fui o mais rápido que pude.
Eu me sentia puxada pelos cavalos de Zeus e não iria mais parar.
Depois, me despedi dele, rindo com toda a minha alma, porque tocava
you can’t always get what you want, e eu disse “vamos, deixe isso pra lá”.
Eu senti que minhas esperanças tinham sido renovadas,
porque, me perdoando a fraqueza de ganhar de um garotinho,
esquecia nele a minha ideia atroz de humanidade – nele, a quem
chamei Charles, dizendo-lhe em silêncio “meet you at the corner”.
Sim, Charles, eu sempre vou te encontrar na esquina.
Sobretudo quando estiver a passeio, na tentativa de ver
as quase extintas raposas-do-campo no final da tarde.
Agora eu sei que poderei sonhar com lobos e raposas e estar entre eles,
aguardando com paciência a minha vez na sua dança solitária,
para poder urrar em uma língua bela e desconhecida toda a minha dor
contra a face ausente da noite estrelada.
Eu saberei, quando os encontrar,
talvez em uma fotografia ou no livro esquecido de Kafka ou Kaváfis,
que a beleza perdeu todo o sentido –
ou que a beleza é todo o sentido que ainda nos resta

………………………..

GRAMÁTICA DA NOITE

A noite desce inescrutável
as estrelas são efígies destituídas de rosto
no vento, sopram signos diáfanos,
arredios como serpentes não encantadas
em todo o horizonte, amontoa-se o espólio
da ausência, essa forma que toma
o que foi e o que não será e jaz
na vala entre as coisas circundantes e teu corpo
(na soleira do ser,
a vigência do nada espreita)
entre sombras sem substância,
o pensamento divaga como um bote
cujo laço foi rompido
mas, desde que a vida se recusou imaginada,
o drama se deslocou para trás do palco,
entre mecanismos e metalinguagem
o corcel trôpego do teu espírito
encontra espelhos que conduzem
ao claustro na noite larga
é preciso retornar à planície
dos fatos e dos homens, tendo acima os caminhos aéreos
que as correntes frias e as andorinhas traçam
sim, é preciso sempre retornar das torres
onde a loucura se refugia,
onde toda voz é um eco,
e o vento é um látego que fustiga
escuta o uivo doce das palmeiras,
o orvalho nascendo sobre as pétalas da grama,
sem esperar de deus o canto
os pilares da noite suportam todo o vazio,
deixando-te os ombros para o pouso
de mãos tênues e pássaros
desde que caíste no irremediável,
estás destinado ao nunca mais
abandona-te a este ofício –
respiras, logo dissipas
este sopro breve de vida
mas, sob a asa lépida do instante,
faz – demoradamente – a tua morada

…………………….

Na Germina https://www.germinaliteratura.com.br/2019/lais_araruna_de_aquino.htm

…………………

Este é do seu Faceboook, para celebrar un aninovo:

ERGUEI BEM ALTO A VIDA, CARPINTEIROS

é fim de ano novamente e meu corpo, digo, meu celular

bugou; não tenho mais spotify, não bebo vinho e não jogo

tênis; meu estômago e minhas costas doem; em compensação,

troco a bebida fermentada por uma destilada e saboreio o uísque

gold reserve que Luiz deu ao papai – ah não! me corrijo a tempo

– a painho; e agora estamos vagando por todas as praias

de Alagoas e falando sem parar sobre a geografia abençoada

do Nordeste e os exóticos coqueiros nacionais, que substituíram

tão mal ou bem a mata tropical; no fundo, nada mudou, estamos em pleno

declínio, depois de trinta anos de prosperidade – a minha

o Brasil é um longo país dizendo adeus

e agora já posso anunciar que a minha geração teve a sua guerra;

mas eu não tive, não; estou deitada em um barco inerte

que corta os campos amarelos e secos; urubus lá no alto rondeiam

a minha cabeça e tudo é um teatro que monto dentro de um picadeiro;

ontem, estive triste, hoje, não mais; a melancolia é um vício plebeu

que troco por cartas, passeios no fim de tarde e uma boa cevada

seja dito, irmãos, só contra a ressaca não há salvação

quanto ao resto, as baronesas, verdejantes, esplendem no Capiberibe

na rua do cupim, eu como pão de queijo e tomo um coado, pitanga

ou caramelo, das Geraes; e, na Beira Rio, posso correr ao sol de trinta

graus contra algo que um dia chamei angústia e hoje trato com omeprazol

como disse Bergman, no fear, no self; e o meu Eu desce tão bem

na geleia de amora que Cela comprou, que eu só posso exclamar, raro leitor

a vida é uma beleza, vamos!

se um dia acabarem comigo, ah inexistentes detratores e inimigos,

não poderão nunca, jamais, falar que eu não fui do meu tempo

sou contraditória, cínica (tanto por nada!) mas não vulgar

vamos, erguei bem alto a viga, carpinteiros

)

crítica de ONDE AS RÚAS NON TEÑEN NOME, de Xurxo Ayán, en Positivas

ETIOPÍA, ETIOPÍA…

Título: Onde as rúas non teñen nome

Autor: Xurxo Ayán

Editorial: Positivas

Sempre existen razóns poderosísimas para abrir un libro, de ficción ou non ficción, tanto ten. Tanto ten porque cando lemos non ficción o contido é para quen le tan novo como se fora de pura ficción. Digo isto para animar a quen só le ficción a que bote man, por sinal, a este libro de Xurxo Ayán. Porque é un libro que nos achega á realidade da vida na Eiopía de 2006. Etiopía, Etiopía, ese país  tan descoñecido para nós, galeg@s da fin do mundo que pouco ou pouquísimo coñecemos dese país africano. Se cadra, a moita xente só lle soará do arquifamoso retrouso d´Os Resentidos no tema “Fai un sol de carallo” (tamén coñecido como “Galicia Caníbal”) de 1986, onde se dicía “Etiopía ten fame”. Ou diso ou dalgunha reportaxe televisioneira, fiábel só até certo punto entre outras cousas pola parcialidade que supón estar suxeitos a unha minutaxe establecida. Pois ben, este libro de Xurxo Ayán achéganos unha perspectiva de Etiopía avalada polo prestixio profesional do autor, persoa, ademais que parte dunha base cultural enorme na que se amalgaman lecturas literarias ou históricas coa cultura popular de quen viviu na aldea mais non lle é alleo todo o que se move a redor dos novos medios de comunicación, desde a tv. até internet, desde Zara até o fútbol…nunha síntese rápida.

            Nunha síntese rápida porque é importante deixar claro que o autor merece unha fiabilidade moi grande, a anos luz d@ reporteir@ que cumpre unha encarga máis, sen outro particular.

            Este libro de Xurxo Ayán xa atrae desde o seu mesmo título. Un título precioso que describe marabillosamente a maioría dos lugares que percorreu en Eiopía. E digo “libro” porque non resulta doado adscribilo a un xénera concreto. Quizá fique máis comodamente entre os “libros de viaxes”, porque relata, conta, unha viaxe a Etiopía no ano 2006, e esa é a súa finalidade principal, pois así está concibido, como unha viaxe de ida e volta. Porén, o libro tamén ten as súas cousas de diario persoal, de diario de campaña e de etnoloxía comparativa, resultando un texto de enorme atractivo, escrito á marxe das convencións xenéricas, moi persoal, e tamén por iso interesante. Hai que lamentar, iso si, que tardara tanto en ver a luz. Desde aquel 2006 da viaxe, a hoxe, van 15 anos. É máis, cando polo que parece comezou a ter visos de saír á luz, o autor escribiu un limiar desde unha distancia temporal de trece anos.

            Fóra diso, Onde as rúas non teñen nome xa resulta un título singular desde o momento en que o autor non dubida en comparar a realidade das etnias etíopes que atopa co que foi/(e ás veces aínda é) a realidade rural galega. A fin de contas, mudará a cor da pel mais non somos tan distintos. Por iso falaba antes de etnoloxía comparada. Por iso e porque, á hora de describir a realidade etíope, non lle queda máis remedio que ofrecer datos que fornecen esa consideración; por sinal, a influencia chinesa en África, ou o feito de que as etnias etíopes consideren as cousas feitas de plástico como artículos de luxo. Porque si, a viaxe de Xurxo Ayán ( e os seus compañeiros e compañeiras expedicionari@s), para @s gaelg@s de hoxe representa unha viaxe no tempo, co retrato dunhas xentes que, comparando con nós, viven aínda hoxe segundo parámetros para nós moi afastados no tempo. Nótese que non quero dicir nada desa realidade retratada, que, por moi “atrasada” que nos pareza (por sinal, polos apeiros de traballo que utilizan) non deixa de ser unha vida qua garda bastante máis harmonía co medio vital cá nosa rutina de rurbanos ou urbanitas. Tamén hai que recoñecer que é unha vida dura. Etiopía é un país grande, cunha grande diferenza entre as xentes que viven nas cidades e as que viven no rural, onde tamén hai deiferenzas entre zonas onde a terra é rica (o planalto) e outras onde a aridez marca por completo a vida.

            Alén diso, Xurxo Ayán, non dubida en incluír referencias políticas, é imposíbel falar de África sen elas, porque África é como é porque así a deixaron os colonizadores europeos…e porque así a teñen os intereses xeopolíticos actuais. Algún poema, da súa autoría, que merece ser lido con coidado, ou outro (satírico) de Florencio Delgado Gurriarán sobre Franco que vira a luz en Nueva Galicia (1938). E, sen querer afondar máis no contido do libro, mais para dar unha idea de como este é en boa parte misceláneo, tamén se inclúe unha desmitificación da batalla de Little BIg Horn, a famosa batalla onde os do xeneral Custer foron derrotados polos indios.

            Como se di no limiar, e na información editorial, a lectura desta experiencia viaxeira permítenos coñecer os OUTROS, uns outros para nós moi afastados que, porén, nos permitirán tamén coñecernos mellor a nós mesmos.

            Unha lectura impagábel.

ASDO.: Xosé M. Eyré

Conversa con ILLA DECEPCIÓN, de Berta Dávila, Galaxia

Cando escribín a crítica da Illa Decepción, ultima novela de Berta Dávila, ficoume un aspecto por comentar a xeito, toda vez que excedía moito a intención da crónicas libresca que escribía. Mais era perfectamente consciente de que, en tendo unha miga de tempo, volvería a ela focalizando a visión desde a perspectiva da metaliteratura, desde a perspectiva que ofrece unha novela que reflexiona intensamente sobre o propio acto de creación. Que é o que vou facer agora, concebindo o presente artigo como unha conversa; unha conversa coa novela que tamén é unha conversa coa autora, unha conversa que me atrae excepcionalmente pois é unha conversa tamén entre dúas xeracións: a de Berta Dávila (1987), unha das autorías de novo cuño mellor preparadas e con máis éxito e recoñecemento, e a miña, a dos que xa peiteamos cabelos brancos e que vivimos o paso da situación de “tolerancia na clandestinidade” en que viviu a Literatura Galega nos derradeiros anos da ditadura franquista…aos esforzos pola vertebración xenérica que se foron desenvovendo precisamente no tempo en que Berta nacía e que representa unha xeración que tivo oportunidade de aprender Lingua e Literatura Galegas no ensino…

Relativo a isto, e porque ten moito que ver co contido do artigo, quero lembrar que Chus Pato se referiu nas redes sociais a esta novela como “un don”. Non vou eu negalo, nin moito menos. Só quero facelo extensivo á escrita de Berta en xeral e á propia autora. Berta Dávila é en si un don para a nosa narrativa, escriba en verso ou prosa ela sabe chegar a quen le com @s elixid@s só son quen de facer. A súa naturalidade para que quen le se sinta atinxido polo texto (repito, tanto ten prosa como verso), porque considero que esa “naturalidade” é un “don”, tampoco debe agachar o traballo sobre o texto que  autora efectúa. Nin moito menos. E deixamos esta facina do poliedro por moito que desaxiariamos continuala, debemos volver á intención inicial destas liñas.

Como é sabido que son moi dado a subliñar mentres leo, os diálogos estableceranse precisamente sobre eses subliñados. Evidentemente prodúcese unha descontextualización, é inevitábel, mais a abstracción tamén a provoca a propia novela cando se volve metaliteraria – e iso acontece case como en ninguna outra, porén non debemos esquecer que esa descontextualización existe e que se trata de reflexións a través da ficción, é moi importante isto.

Imos.

Emprego con coidado cada palabra, coma se as escollese dunha caixa de cereixas do mercado. Apreixo soamente as que me parecen maduras: o lugar, o territorio, a casa. (9)

Velaí un dos segredos do éxito que segue a cada título que publica Berta Dávila, sexa en prosa ou sexa en verso. É moi revelador que diga eu isto, porque o coidado na selección lingüística non se produce sempre, ás veces hai desleixo e otras mesmo reduccionismo lingüístico. Ese mimo na selección das palabras percíbese de maniera case inconsciente mentres se le mais remata por ser unha realidade indiscutíbel en quen le. Unha das características da escrita de Berta que non se debe esquecer. Igual que tampoco se pode pasar por alto o remate, as palabras son, a final, a casa. Isto tense repetido moitas veces, a lingua como casa, ao longo do tempo, mais segue sendo moi necesario lembralo hoxe.

Con todo, eu síntome máis como Alvy Singer, o personaxe que interpreta Woody Allen, permanentemente atormentado coas cousas triviais (11)

Eis outro dos puntos de partida da escrita de Berta Dávila, sexa en prosa ou sexa en verso. E, en definitiva vén sendo un sentimento que nos é familiar a moit@s d@s que a lemos porque tamén o temos experimentado.

Os libros con frecuencia molestan. Poucas veces acompañan. (13)

Comparto plenamente o primeiro postulado, é importante que incomoden para que movan á reflexión e mesmo á acción. E non comparto para nada o segundo, eu son desas persoas que sempre se sente acompañado polas lecturas (boas ou malas) que fixen (e mesmo das que vou facer, xa se sabe, o horizonte de expectativas.)

As rúas constrúen as rutinas e as rutinas constrúen a vida. (20)

Eu non sei se diría “constrúen” mais do que estou convencido é de as rutinas nos confiren seguranza para vivir.

Ás veces, xusto despois de rematar unha novela, semella que aparecen por todas partes cousas que teñen que ver coa novela ou ideas que explican mellor o que ti querías contar. É un fenómeno enigmático. Todos os conceptos, todas as imaxes fermosas que perseguiches durante meses, emerxen agora, cando xa non teñen cabida na trama, cando pensabas que non querías dicir máis nada do que dixeches. (37)

Velaí unha sensación que seguramente partillan moitísimas autorías, cómpre moita prepotencia e arrogancia para pensar ou dubidar se non se puido facer/escribir doutra maneira ou doutra maneira mellor. É unha sensación que ten moito de caos, ao meu ver, e, como diría a poeta brasileira Camila Assad, son “as infinitas posibilidades do caos”

Durante toda a niña vida estiven interesada pola duplicación, pola simetría e pola idea do dobre (50)

Reitero, non esquezamos que estamos conversando sobre unha ficción. Porén, se é aplicábel á autora da novela, é outra cousa como para non esquecer nunca. Por outra banda, isto tamén ten lectura ben suxestiva se entendemos a personaxe, o avatar, como segundo termo ou espello da autoría.

(…) a vida real contra esta, que, aparentemente, non é real  (51)

Quen decía aquilo de que “todo que escribo é real”? Quen decía aquilo de que “todo o que imaxino é real?”

Non me parece que ninguna virtualización da vida sexa máis verdadeira que outra (53)

A literatura como “virtualización da vida”, non sendo tese nova resulta especialmente interesante nun momento no cal, a meu ver, se escribe/escribiu xa demasiada literatura narcótica. A tendencia (e Berta participa de cheo nela) a escribir sobre as propias vivencias, a escrita de “non ficción” creo que debe tomarse como reacción fronte a iso. As “escrivivencias” que diría Conceição Evaristo. De todos xeitos aínda temos que ver até que punto logra triunfar esta tendencia.

Mais, ollo, ningunha é máis verdadeira que outra, e aquí incluímos mesmo as distopías ( e esta novela de Berta ten moito de distopía), mesmo as literaturas narcóticas destinadas a pasar o tempo. Isto merece unha reflexión moito máis fonda do que este diálogo permite.

Na niña última novela perseguín as miñas propias coordenadas, que ignorara obstinadamente durante media vida, debuxei nela un mapa de quen son. Agora busco unha muller da que ignoro todo coma se ela fose facerme algún tipo de revelación tamén sobre min. (57)

Non quero que se esqueza que falamos sobre unha ficción. Porén, xa na crítica que escribin tracei un paralelismo entre esta necesidade de Berta de atopar o seu lugar na HISTORIA (tanto na que é unha sucesiva sucesión de cousas que suceden coma na propia historia que concibe e narra quen escribe) e o que aconteceu con Otero Pedrayo e o seu avatar Solovio. Dá moito para pensar, entre otras cousas pasamos dun autor de situación socioeconómica folgada a unha autora da que seguramente non podo dicir o mesmo (imaxino). E este tránsito de comezos século XX a comezos do século XXI tamén nos leva a pasa dunha autoría masculina a outra femenina, con valores absolutamente diferentes e distantes. Xa digo que dá para moito pensar.

(…) restaurar o que non podo saber pero supoño que existe, seleccionando os pigmentos útiles no labor de completar os ocos que se abren entre os datos que si coñezo e os que non. (58)

Esta reflexión sobre o día a día de quen escribe, lévame outra volta a pensar na ficción como instrumento para encher eses ocos. Non querendo ser exactamente ficción, ese problema resolveuno Suso de Toro (Un señor elegante) na súa ultima novela introducindo reflexión autoriais sobre as personaxes. Dito sexa, por sinal

.

Lembro algunas novelas nas que os personaxes se rebelan contra os autores e saen dos libros para perseguilos pola rúa ou para dicirlles como queren que se escriba o desnvolvemento narrativo das súas vidas, pero ninguna na que sexa a autora quen vai na procura do personaxe (58)

Resulta ben significativa esa persecución das personaxes, di mito de como é e como se escribe a novela. Todos lembramos a Pirandello, aínda que sexa teatro. Porén a min, polo que coñezo de diversas autorías e pola niña propia experiencia, as personaxes á hora da escrita resultan absolutamente claves, tanto como a propia historia que se vai relatar; e a procura de personaxes ricas que termen da historia é unha das obsesións máis común nas autorías, polo que eu sei.

Günter Grass deixou dito aquilo de que “os escritores somos espoliadores de cadáveres” (Escribir nun mundo sen paz), refíndose ás personaxes.

             

Na niña primeira hora na illa entendín que estou xogando a ser unha náufraga que chega a un sitio remoto e constrúe desde cero o lugar, á idea de levanta de novo un mundo habitable en ausencia do mundo que coñecía antes, porque aquí é onde vivo agora (81)

Se trasladamos iso á literatura, eu non o comparto doadamente. Explícome. Non creo que se constrúa unha historia desde cero. A realidade físca do libro é unha cousa, mais a realidade inmaterial da historia que se conta nel é anterior (como proxecto, como soño…) e tampoco se pode dicir que non sexa real (xa vimos)

Tamén nesta vida virtual o meu cometido principal é perseguir a beleza. (82)

E nunca cho pagaremos, @s que te lemos, como mereces, Berta.

Albiscamos un fragmento do que o futuro pode ser, e temos na man o pasado que foi, pero o presente é un limbo indefinido. (…) a narrativa do que estábamos a ser (…) e só nos queda a posibilidade de analizar o que xa pasou e de especular co que pasará. Isto último é un exercicio case literario, e, mesmo entendéndoo así, semella difícil inventar algo, atreverse a avanzar. (85-86).

Volvemos ás “infinitas posibilidades do caos” que é o presente. E á literatura como especulación. E á constatación das dificultades para avanzar, para crear algo novo, entendo, porque a literatura, como todo na vida, avanza a base de rupturas. Inclusive rupturas sen esquecer o que se escribiu antes. Lembremos a Manuel Antonio, ou lembremos a Xela Arias (comezo e final do século XX), por sinal.

(…) como unha intrusa que ten acceso ao pensamento dos demais sen que se estableza unha reciprocidade. (87)

O “voyerismo” das autorías, ese sentimento de ollada ás agachadas sobre as personaxes…sempre está aí.

Como crítico gústame coñecer “dede dentro” as dificultades á hora de compoñer claquera práctica escritutal. Por iso, cando estudei a microficción para o Nin che conto, escribín este microconto que agora vén ao xeito:

Vixíe as súas costas

Deixouse caer no sofá con aquel libro entre as mans. Mercárallo a un traficante de antiguidades que puxera unha escura tenda a poucos metros do portal da súa casa. Entrara  matar o tempo. Por algunha razón, de todo o que alí había era o único que o atraía. Colleuno, acariciouno, sopesouno, uliuno, xa non o soltou para nada.

Parecía vello, non sabería dicir canto. Mentres agardaba polo elevador, nin se lle ocorreu pensar na excesiva suma que viña de pagar por el, quixo oír a música das súas páxinas. Agora, comodamente instalado no sofá, concentrou os ollos na portada, abriuno e, vorazmente, incontrolabelmente, comezou a ler conto tras conto. Mais desde había un bon pedazo permanecía  estático, petrificado. A lectura fora adonándose del, sentía como as palabras saltaban do papel, como os sintagmas se introducían, penetraban os poros da súa pel. Durante un tempo, tivo a sesanción de que era o libro quen o estaba lendo a el, que o estaba explorando; non se importou, eran agradables aquelas cóxegas. Xa contra o remate, comezou a remexerse, a suar, establecérase unha identidade  total entre a vida de fóra e  a de dentro do libro, el era a ponte e el viaxaba pola ponte e estaba chegando á outra beira. Mais non era iso o que o desacougaba daquela maneira. Aquel conto, recoñeecíao,  aquel alterárao. Tratábase de “Continuidade dos parques” de Cortázar, e falaba dun home que le un libro, sentado nun sillón, onde se relata como le escrita a súa propia morte sen poder facer nada por imped”

E por iso, tamén escribo nas fendas do que escribín antes, nas fendas dunha novela previamente concluída, porque é unha maneira xenuina de conversar co pasado. (87)

É unha maneira xenuina de conversar co pasado, efectivamente, e tamén de procurar o lugar propio na HISTORIA (nos termos que xa vimos), que é ese macroproxecto en que resulta a obra de calquera autoría.

Hai que escoller ben as verdades que se cospen dinta da cara dos vulnerables, e non creo que haxa ninguén máis vulnerable que alguén que escribe algo e o entrega a outro para ler. E cando é evidentísimo que un edificio está a piques de caer, non necesario sinalar cales son as gretas que o atravesan de arriba abaixo, senón encontrar alguén que sexa hábil en encontarar as fortalezas dunha armazón insuficiente para que sexan reforzadas con puntasi. (88)

Como crítico que son, comparto plenamente o comezo. As autorías son especialmente vilnerábeis cando comezan a escribir, e, aínda que o resultado non sexa literariamente moi satisfactorio, cómpre ser moi prudente á hoar de cualificar ou de falar do texto. Xa non estou tan seguro de que todas as autorías sexan tan vulnerábeis, por outra banda; ben coñecida é a “vaidade autorial” e ben sabido é que hai autorías que cren que ninguén pode facelo mellor ca eles (poñemos nomes com Umbral ou Cela?). De todos xeitos sempre dixen que non hai libro non que non haxa algo bo, hoxe sei que hai excepcións mais sígoo mantendo.

Podo investir moitas horas imaxinando un mundo e logo amoblándoo antes de saber como quero contar de maneira precisa cada cousa. (…) Estou afeita que a ficción ou os lugares nos que a ficción se desenvove me atrapen. (89)

Velaí a realidade inmaterial do  proxecto narrativo xa comentada, a xénese do que será a realidade material do libro cando o teñamos nas mans. E esa sensación autorial de “estar atrapad@” na ficción, é unha das “drogas” que leva as autorías a non deixar de escribir unha vez que se tomou a primeira dose. E un privilexio, esa vida ou comuñón na ficción, na niña opinión, unha das cousas que máis me marabillan de escribir ficción.

(…) a sensación é a de vivir a través de alguén ou de algo, vivir unha simulación de vida creada por outra persoa. (89)

Pode entenderse como unha sensación tanto das personaxes como proxección da autoría. Pode entenderse como unha sensación da autoría ao sentirse proxectada nas personaxes.

Quería escribir sobre a vulnerabilidade (97)

Tomemos nota. Non é primeira vez que atopamos a vulnerabilidade. Tomemos nota como característica da obra (en prosa ou verso) de Berta Dávila. No remate retomarémolo.

As historias que decidimos compartir repítense case sempre independientemente das sinaturas e dos lugares que visitamos  (107)

Saíbase que na novela está a se falar de postais. Porén resulta aplicábel á literatura. Lévase tanto escrito, a estas alturas, que resulta ben complicado non repetir tema, o diferencial está na forma en que se fai, esa é unha das grandezas da literatura.

Tamén me gustaría que a novela servise para imaxinar outra historia posible ( 118)

Cada lectura é sempre “outra historia posíbel”. De feito, esa é unha das cousas que máis nos levan a abrir os libros (libros que, cando son bos, nunca se pechan, pasa moito cos de Berta, e a moita xente)

Hai un lugar no mundo onde a porta á esperanza está case sempre aberta. E eu vivo nel. (120)

Despois de comentar sobre a vulnerabilidade, resulta unha alegría inmensa ler isto.

Trato de indagar os porqués deste libro e cal é a causa de que algunhas casas me persigan e otras me abandonen.  (121-122)

Impagábel reflexión sobre o acto da escrita. Moi definitorio da autora. Teño constancia de que non todas as autorías farían esta reflexión, tamén hai moitas autorías que escriben “en modo automático”, dun tirón, e non se paran niso. Depende das formas de escribir, porque tamén hai quen escribe, reescribe, pensa e repensa cal é a mellor maneira de dicir as cousas. Isto lévame a pensar no comezo desta conversa.

(…) é tan importante cando se trata de construir o relato de quen somos en función de quen foron os que viñeron antes. (127)

Non vou comentar máis nada do que xa dixen antes. Só engadir o triste que resultaría “perder o camiño dos que nos precederon”, aínda que haxa que modifícalo.

A palabra naufraxio en xaponés tamén significa fracaso. (…) Escribir sobre este naufraxio, desde Illa Decepción, fai tamén destas páxinas un lugar para a franqueza. (132).

Un lugar para a franqueza. Hai cousas que non son doadas de dicir se non é desde a ficción. E tamén houbo tempos en que a franqueza só era posíbel desde a ficción. En todo caso hai que valorizar a posición autorial, a franqueza. Nun mundo tan habituado á mentira ( das que mesmo se fai noticia) resulta reconfortante ler isto, e como tal hai que valorizalo e agradecelo.

No telexornal fálase do ruído cultural e da reducción dese ruído cultural, que ten consecuencias sísmicas.  (135)

Botaría días falando do ruído cultural. Sempre o houbo. Antes era na prensa e no boca a boca dos dixomedíxomes que sempre hai a redor da literatura. Hoxe é nas redes sociais onde máis se percibe, habiendo autorías que son auténtic@s especialistas en xerar ruído con tal de que se fale delas.Enfin.

A literatura é levantar unha illa desde a nada, erguer o relato do que nos pasa para situarnos dentro del. A literatura tamén é recolección. (136)

Disto xa falamos. Na literatura nunca ergue un discurso desde a nada, lembremos o dito sobre a realidade material e inmaterial da historia que se vai contar. Mais covén moito non esquecer a seguda parte, erguer o relato do que nos pasa para situarnos dentro del, por moito que tamén o comentaramos. Finalmente, a literatura como recolección, é un aspecto que comparto plenamente, mais quero sinalar efusivamente que tanto é recolección para quen escribe como para quen le.

E para remate, quero finalizar cunha reflexión sobre a autoficción que me parece que vén omoi ao caso. Se ben con Carrusel se falou abertamente de autoficción, eu quero ver que esa autoficción moi ben se explica desde a pretensión de procurar un lugar na HISTORIA ( tal e como o vimos concebindo). E paréceme importante esa explicación porque nun mundo tan confuso como é o da autoficción, achega un motivo de ser para esta que, polo que eu sei, resulta tan novidoso como ben acaído. A propósito da autoficción téñense dito moitas cousas, aínda que o termo nace en 1977 cando Doubrovski publicou Fils, e téñense proposto (Dóra Faix, por sinal) achegamentos desde a fotografía ou a psicoanálise, a socioloxía ou a música, por sinal. E a este respecto tamén quero lembrar que Ouellette-Michalska xa falou tamén da vulnerabilidade dos corpos, cousa que Berta recolle tamén. Mais este da autoficción é un mundo nada claro, e non perdamos o fío.

Porque falo agora de autoficción cando en Carrusel era máis obvio? Pois porque me parece, teño a impresión de que aquí algo tamén hai, e falo desde esa impresión que será ela quen determine até que punto chega, se a hai. A min paréceme que o que haxa dela é unha maneira de balizar a ficción nos lindes da existencia real da escritora -e podemos engadir que nos termos antes propostos, porque resultan moi trascendentes. A propósito da autoficción tense falado desde a morte da novela (outra vez máis, e son máis de 30 veces que se ten anunciado) até unha redefinición do pacto lector redefinindo conceptos como verosemellanza e veracidade, mesmo se ten falado tamén de autodestrución. A propósito disto lembremos aquilo que lin dun escritor portugués (hai case 40 anos, dismúlenme que non lembre o nome) no Jornal de Letras, Artes e Ideias: “ o escritor, mentres escribe, vaise escribindo”. E paremos aí, porque a escrita de Berta Dávila é todo o contrario á autodestrución (Houllebeck, por sinal) porque non hai ningún tipo de humillación da personaxe, todo o contrario. Tamén se ten posto en cuestión a ética de entregar ao aeido público as vidas de xentes que conforman o ámbito vital da autoría. E tamén, tamén, Berta Dávila ten moito coidado con isto.

En realidade, Berta, con esa explicación/intención de “procurar un lugar na HISTORIA” está dando a explicación máis convincente que coñezo para existencia da chamada autoficción (nótese que nin quixen  mentar o “novo xornalismo” de Capote) e, outra cousa aínda, por moi atrás que se queira retroceder no eido da autoficción (e pódese moito) nomes de muller na autoficción non dou enxergado ningún, o que tamén é de ter en conta

E máis nada. Deica aquí chegou esta conversa, que pola niña banda, considero ben agradábel.

Camila Assad: as infinitas posibilidades do caos.

Hai tempo xa que quería escribir sobre a poesía de Camila Assad, mais como a súa presenza na Rede non me dá para facer unha selecta  á altura do que ela merece e a min me gustaría, fun adiando a ocasión até hoxe. Até hoxe, en que considero que unha poeta desta altura non pode agardar máis, pois, aínda que a selecta da súa poesía me gustaría que fose maior, o que reunín ben abondará para deixar unha imaxe fiel dunha poeta extraordinaria, unha poeta da década dos 80¨ (finais) que agora se atopa comezando eses anos que se din de madureza  atendendo á evolución biolóxica. Que se din, porque, en realidade Camila é, desde os seus inicios, unha voz poética tremendamente potente, consistente, esixente e moi traballada, desas que un cando un as le, nunca esquece. E non por afortunada casualidade senón que desde a mesma concepción do poema se proxecta unha autoría, unha voz moi persoal, moi singular, absolutamente imprescindíbel.

Cal é entón a súa poética? Cal é a súa concepción? Pois da lectura dos seus poemas extráese que non procura que quen le sinta admiración polo texto. Ese é un obxectivo moi primario e a poesía de Camila Assad está tan traballada, e a poesía de Camila Assad é sempre unha quebra da obviedade convencidísima…de xeito que os seus textos están máis destinados a incomodar a que le, a inquirilo e movelo a reflexión…que a epatar, que ao inmovilismo admirativo.

Camila Assad (Presidente Prudente, cidade do interior de São Pualo, 1988) non é unha poeta prolífica. Tendo en conta a importancia que lle concede ao traballo sobre a expresión, á contínua experimentación na procura da mellor expresión, o seu perfeccionismo…tamén non era de agardar outra cousa. Deica o momento coñézolle Cumulonimbus (2017, Quintal Edições), e eu não consigo parar de morrer (Urutau, 2019); teño noticia de que tamén publicou Desterro, mais pouco sei del, tamén é de 2019, chamou a atención do ProAc/SP e permitiulle publicar na Macondo, nela establece un diálogo do corpo coa cidade, unha temática moi de ideario feminista (visto deste lado do Atlántico) polo que ten de reifección, de refacer continuamente a muller o seu corpo (esa necesidade), cousa que, se se pon en contacto co seu anterior título (eu não consigo parar de morrer) resulta bastante agardábel. Non quero con isto dicir que os seus pomarios non teñan unha personalidade propia e diferencial, distintiva; mais ese título, “eu não consigo parar de morrer” resulta tremendamente significativo, tanto que en si vale por todo un poemario. Debo vencer, pois, a tentación de continuar o camiño temático que veño de sinalar, a fin de contas estas presentacións pretendo que sexan breves.

Mais hai outra cousa, vostedes poderán comprobalo na selecta, que non pode esquecer porque dá conta de algo que xa dixemos (o contínuo traballo sobre o texto) e á vez tamén é tremendamente sintomático: a ruptura da voz poética tradicional da poesía; Camila procura diversas voces, diversas personaxes que se manifesten, case se pode dicir que existe unha voz supranarradora que dá entrada a otras desde as cales se procuran novas focalizacións que, desde o estrañamento, se proxectan a atraen a atención de quen le, de quen le unha poesía que nunca é inocente. En realidade, a escrita nunca é inocente, e, desde a voz femenina e feminista hai tantas cousas que contar, hai tantas cousas que denunciar ( neste Brasil hiperconservador, machista e racista).

Camila Assad é tamén unha poeta urbana, como poderán ler. É desde a cidade que ela se propón sorber o mundo, precipitarse no mundo para achar o seu lugar ou para denunciar o que ve, o que sente ao ver. E na súa visón do mundo ha de influír, con toda seguranza, a súa intensa actividade tradutora, que sempre achega voces poéticas interesantes non só polo que din senón tamén por como o din.

Aínda sabendo que xa falei moito del, quero reiterar o título eu não consigo parar de morrer. A bon seguro ha resultar central na súa obra porque é unha extraordinariamente bela forma de expresar como se sente a muller, como se senten as mulleres que o mundo non remata de entender, de asimilar, de contemplar na especificidade dos valores que o seu sexo lles confire e a Historia oculta.

O mundo é puro caos.

O mundo é puro caos onde o negativo ocupa os espazos que deberían ser positivos.

Hai séculos, hai moitos séculos, hai todos os séculos que ninguén atopa a razón.

A poesía é un camiño, unha praxe, un método de autocoñecemento. A poesía é unha forma de partillar.

A poesía nunca é inocente.

Sen vertixe non se pode atopar o equilibrio.

Cada vertixe é unha posibilidade.

Como sempre, deixo ligazón ao seu Facebook, e non é preciso que indique que a súa lectira é do máis interesante. 

Imos coa súa poesía, precipitémonos.

(Na Ruido Manifesto)

1)

M. não está conseguindo

se lembrar de seus mortos

o rosto da mãe, o gosto da

nicotina exalando pela

pele ao fim do dia.

*

é como se o passado fosse

um túnel de desenhos animados

em preto e branco arranhados

em uma parede.

ela ainda está tentando.

pensa em bois e plumas,

pensa em como carregamos

sempre conosco um mugido

de tristeza.

uma memória extinta é um país que sumiu do globo terrestre

hoje vou contar todos os

melros entre a prisão

e o Walmart onde agora

na sua tristeza galopante

um homem careca soa a

buzina no carro, onde um bebê

balbucia pela primeira vez

um som parecido com “água”,

onde a namorada — com toda sua

infelicidade — prende com um grampo

a franja recém-cortada.

*

agora mesmo

na emergência

no ápice da crise

ao lado da enfermeira

diz que se sente enterrada

como uma mosca no âmbar

como as tvs da sala de espera

e gira a ampulheta dourada

do desespero.

*

eu penso em quando eu era

uma criança, em quantas vezes

o mundo parecia que ia quebrar,

mas então, milagrosamente,

impiedosamente, não o fez.

*

2)

nunca fomos tão ingênuos

mas a materialidade das superfícies

encarando arestas brutas

invadiram nossas mãos.

toda mão é ferramenta

serve para estancar o sangue

do porco recém-abatido

serve para contar as horas

em que o sangue permanece quente

serve para acariciar os cabelos

consolar: não chore o abate suíno,

a vida é muito menos que isso.

*

3)

eu lhe peço para que não olhe

a saia rodando com o vento

e com os movimentos bruscos do

quadril adentrando a trigésima

temporada invicta. tem algo de

maligno no teu olhar, por isso não

note a unha roída, o pó compacto

ressecado no compartimento de

organização de maquiagens; é

hora de começar a escrever

poesia em bactérias e esperar

pela contaminação. o ambiente

anaeróbico favorece o desaparecimento

das doenças incuráveis. a pelúcia

ainda está na sua cama, mas

eu não me atrevo.

*

4)

construo as ruínas pra dizer que já estive

aqui. mesmo nos dias de feira eu vinha

acampar nos seus quintais sem verde.

mesmo a pé eu vinha, exalando fogo

pelos buracos do nariz, expelindo os

órgãos, como se não me fossem úteis

assim como saber que o coração de um

peixe tem apenas duas cavidades e o dos

anfíbios três.

*

5)

eu esqueci nome da minha mãe

declarei guerra contra a Suíça. me

aliei aos alfaiates que restaram na

avenida São Luiz, vamos costurar seu silêncio.

é mais que promessa, veja, o fim da manufatura

me permite ter três jogos de lençol

— embora nenhuma cama

………………………

(Nos “poemas da quarentena” de Macabéa Edições)

silente

não sei como deve ser fundar uma vila

chegar entre mata muito fechada ou

ir ao encontro da natureza inviolada

dos terrenos e das clareiras mais sagradas e puras do mundo

sei apenas dividir meu cabelo, partir o pouco pão a que tenho direito,

gastar a cor das sapatilhas com que ando

não sei

recuperar a luz dos dias mais bonitos

e escrevo neste lugar temente

de que de repente tudo finde

e nós não tenhamos testemunhado

quase nada sobre a beleza daquilo

que vimos e não pudemos guardar

………………………………….

(Na Poesia Primata)

Eu moro nos atrasos

e por isso ninguém nunca

                      me encontra

Eu me exilo no bolso

rasgado do teu terno azul

– aquele reservado para os

velórios dos parentes distantes

Eu sou minúscula

por vezes

  invisível

Eu moro na poeira

oculta dos idiomas

                  extintos

Eu submerjo das águas

da fonte central

da cidadela de

três mil membros

– dizimada há

mais de meio século

Quando fito o espelho

nem me percebo

sou maleável, sou

um elástico de cabelo

desses que se perde um por dia

                                        por aí

há prazer no inacabado por isso Florença

chorou ao perceber a última demão seca.

não se pode confiar nas aparências, ela me

disse, não confie porque sei que embaixo de

tanta camada não há beleza. sei a cor do tijolo bruto

o amarelo canário não disfarça as bolhas no cimento

que ela sabe, ainda resistem, ainda a encaram.

.



eu construo uma antessala

com balões de gás hélio

e reciprocidades

fico apanhada ao seu dedo mindinho

como se um furacão nos cingisse

e você fosse a esperança derradeira

as mesas estavam postas

mas foi tudo

             derrubado

………………………….

(Na SubVersa)

como transpor dez anos de ausência de um coração minguado pro meu estéril papel?
como misturar o que vem da carne mole e tenra do músculo que pulsa a gritar teus nomes perdidos àquilo que vem da árvore extinta?
eu que ousei considerar ser possível
destilar o que fenece daquilo que vibra
ou até mesmo fragmentar o que se sente
daquilo que provoca brando alivio.
como sobreviver a todas as faces
conversas
estórias?
Bob deu um tiro no peito na Alemanha em 09.
Ebba pariu um rebento loiro na Dinamarca em 11.
Lucas casou-se com Benny em cerimônia de luxo na Califórnia em 13.
Marilia ficou órfã hoje pela manhã na Vila Mariana.
mas como eu faço
pra medir desgosto em pés ou em polegadas?
unir matéria física àquilo que foi feito pra dissociar?
você
você já sabia que não ia ficar mas disse que ia mesmo assim e eu aprecio quem mente por consolo
você vai casar parir um rebento virar órfão e dar um tiro no peito nesses anos iminentes e como é que eu vou fazer pra transmutar meus pés que ardem em bagagem que plana desafiando a gravidade em senso comum?
vai doer uns 10 mil pés e umas 10 mil polegadas e eu nem lembro mais o quanto isso significa mas sei que é muito.

………………………

Para rematar, e porque ten moita importancia no seu traballo intelectual, lean estas traducións de Louise Glük, Nobel de Literatura 2020.

Teoria da memória

Muito, muito tempo atrás, antes de eu ser uma artista atormentada, afligida pela saudade ainda incapaz de estabelecer ligações duradouras, muito antes disso, eu era um governante glorioso unindo todos em um país dividido – foi o que me disse a cartomante que examinou minha mão. Grandes coisas, disse ela, estão à sua frente, ou talvez atrás de você; é difícil ter certeza. E ainda, ela acrescentou, qual é a diferença? Agora mesmo você é uma criança de mãos dadas com uma vidente. Todo o resto é hipótese e sonho.

Pingos de neve

Você sabe o que eu fui, como eu vivi? Você sabe
o que é desespero; então
o inverno deve ter algum significado para você.

Eu não esperava sobreviver,
a terra me suprimindo. Eu não esperava
acordar novamente, sentir
na terra úmida o meu corpo
capaz de responder novamente, lembrando
depois de tanto tempo como se abrir novamente
na luz fria
da primeira primavera –

assustada sim, mas entre vocês novamente
chorando mas arriscando alegrias

no vento cru do novo mundo.

Manhã

Você quer saber como eu gasto meu tempo?
Eu caminho pelo gramado frontal, fingindo
estar capinando. Você deve saber que
Eu nunca estou capinando, de joelhos, puxando
aglomerados de trevo dos canteiros de flores: na verdade
Estou procurando por coragem, por alguma evidência de que
minha vida vai mudar, embora isso
leve uma eternidade, verificando
cada aglomerado para a folha
simbólica, e logo o verão estará terminando, as folhas já girando, sempre as árvores doentes
indo primeiro, a morte virando
amarela brilhante, enquanto alguns pássaros escuros executam
seu toque de recolher musical. Você quer ver as minhas mãos?
Tão vazias agora quanto na primeira nota.
Ou a intenção sempre foi
continuar sem um sinal?

Sirene

Tornei-me uma criminosa quando me apaixonei.
Antes disso eu era garçonete.

Eu não queria ir para Chicago com você.
Eu queria me casar com você, eu queria que
sua esposa sofresse.

Eu queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todas as cenas fossem cenas tristes.

Uma boa pessoa
Pensa assim? Eu mereço

créditos pela minha coragem —

Sentei no escuro na sua varanda.
Tudo estava claro para mim:
Se sua esposa não te deixasse ir
isso provaria que ela não te amava.
Se ela te amasse
ela não gostaria que você fosse feliz?

Eu acho agora que
se eu sentisse menos eu seria
uma pessoa melhor. Eu fui
uma boa garçonete.
Eu conseguia carregar oito garrafas.

Eu costumava te contar meus sonhos.
Ontem à noite eu vi uma mulher sentada em um ônibus escuro –
No sonho, ela está chorando, o ônibus em que ela está
está se afastando. Com uma mão
ela está acenando; a outra acaricia
uma caixa de ovos cheia de bebês.

O sonho não resgata a donzela.

Primeira memória

Há muito tempo, fui ferida. Eu vivi
para me vingar
contra meu pai, não
pelo que ele era –
pelo que eu fui: desde o começo dos tempos,
na infância pensei que
aquela dor significava que
eu não fui amada.
Isso significa que eu amei.

Os orixinais:

Theory of memory

Long, long ago, before I was a tormented artist, afflicted with longing yet incapable of forming durable attachments, long before this, I was a glorious ruler uniting all of a divided country-so I was told by the fortune-teller who examined my palm. Great things, she said, are ahead of you, or perhaps behind you; it is difficult to be sure. And yet, she added, what is the difference? Right now you are a child holding hands with a fortune-teller. All the rest is hypothesis and dream.

Snowdrops

Do you know what I was, how I lived? You know
what despair is; then
winter should have meaning for you.

I did not expect to survive,
earth suppressing me. I didn’t expect
to waken again, to feel
in damp earth my body
able to respond again, remembering
after so long how to open again
in the cold light
of earliest spring –

afraid, yes, but among you again
crying yes risk joy

in the raw wind of the new world.

Matin

You want to know how I spend my time?
I walk the front lawn, pretending
to be weeding. You ought to know
I’m never weeding, on my knees, pulling
clumps of clover from the flower beds: in fact
I’m looking for courage, for some evidence
my life will change, though
it takes forever, checking
each clump for the symbolic
leaf, and soon the summer is ending, already
the leaves turning, always the sick trees
going first, the dying turning
brilliant yellow, while a few dark birds perform
their curfew of music. You want to see my hands?
As empty now as at the first note.
Or was the point always
to continue without a sign?

Siren

I became a criminal when I fell in love.
Before that I was a waitress.

I didn’t want to go to Chicago with you.
I wanted to marry you, I wanted
your wife to suffer.

I wanted her life to be like a play
In which all the parts are sad parts.

Does a good person
Think this way? I deserve

Credit for my courage –

I sat in the dark on your front porch.
Everything was clear to me:
If your wife wouldn’t let you go
That proved she didn’t love you.
If she loved you
Wouldn’t she want you to be happy?

I think now
If I felt less I would be
A better person. I was
A good waitress.
I could carry eight drinks.

I used to tell you my dreams.
Last night I saw a woman sitting in a dark bus–
In the dream, she’s weeping, the bus she’s on
Is moving away. With one hand
She’s waving; the other strokes
An egg carton full of babies.

The dream doesn’t rescue the maiden.

First memory

Long ago, I was wounded. I lived
to revenge myself
against my father, not
for what he was—
for what I was: from the beginning of time,
in childhood, I thought
that pain meant
I was not loved.

It meant I loved.

a propósito de HORTENSIA, de Medos Romero, en Medulia

MATER AMANTISSIMA

Título.: Hortensia

Autora: Medos Romero

Editorial: Medulia

Recoñecer e agradecer o amor dunha nai, é un deber filial inexcusábel. Facelo empregando a literatura, neste caso a poesía, xa é un don non asequíbel a calquera. En todo caso a emotividade despois da perda dunha nai ten deixado exercicios poéticos moi interesantes, por sinal aínda lembramos o poemario de Eva Veiga A frecha azul do teixo, dito sexa por sinal e sen querermos excursionar fóra da poesía actual, que ben se podería, mais a finalidade é dar conta do poemario de Medos Romero.

            A finalidade é dar conta do presente poemario de Medos Romero, o segundo que dela viu a luz no 2020, canda Peixes que esvaraban ao unísono, vencedor no Illas Sisargas de Poesía Erótica e do cal xa escribimos nestas páxinas. E, con tal finalidade, quero facer unha reflexión inicial, pois a nai, máis que como dadora de vida, que xa é o primeiro recoñecemento, é vista como símbolo de unión a unha Terra, a un país, a unha cultura, aínda que esas nais non foran moi letradas (a miúdo, todo o contrario) souberon inculcar o amor polo propio, antes diríase que o amor polos usos e costumes do que viña sendo a patria, hoxe, con toda razón, hai que chamarlle Matria. Amor e, tamén neste caso rebeldía. Rebeldía, un concepto de extarordinario valor cando se é consciente da pertenza a unha Terra escravizada e colonizada por outros. Como di Medos: “Galicia, este cadaval enmourecido e fumeante /como un territorio de guerra na intemperie da noite./ Galicia, unha ruína de fume e chousas./ Galicia, severamente castigada, /severamente desmemoriada,/severamente sometida” (27). A rebeldía sempre é importante, porque sen ela ben se pode dicir que non existe progreso. Mais se esa rebeldía é herdo ou transmisión da nai resulta máis importante, a meu ver, pois tal rebledía xa é unha cadea de posicionamento ante a vida, o cal ten non ten prezo.

O poemario iníase cun texto reflexivo e moi emotivo onde se fala da soidade, da espiritualidade e firmeza da pedra e tamén de árbores, eses símbolos que tamén se poden estender á palabra, en todo caso trátase dun texto no cal se procura refuxio na soidade extrema dun “animal profundamente ferido” (11). E segue o poema que leva o nome da nai e do libro, “Hortensia”, un longo poema evocativo, tan longo como o amor da filla/poeta. “Toda ela, sinxela, limpa, amábel, protectora, /  a que nos acollía sen medida e sen reclamo. / Iso era a liberdade: sentirnos libres de verdade, donos de nós. / E agora xa non cruzas os prados co teu mantelo anoado” (13) A nai como símbolo, como elo de unión coa terra, esa primeira xeografía emotiva pola que camiñamos e na cal nos sentimos acollidos. “Mans de terra e terra firme eras” (14). A Terra/terra, tan importante como o sangue herdado. Parir terra mesturada con sangue ( 14) E nacín así, muller coma ti, rebelde ,/ desgraciada, íntegra sempre, entregada sen medida. (14) Son de ti, nai, campesiña (15) Ese elo de unión coa terra, ese recoñecemento como campesiña lévaa a evocar a vida e os traballos propios no campo, mais esa lembranza e afirmamento consciente non evitan a dor inmensa. Regrésame, nai. Regrésame e páreme de novo, / para que eu aprenda a amarme íntegra e capaz por primeira vez / e poida ser aínda rotundamente feliz (17). Porque o poema é en si unha bela demostración de amor, amor á nai, amor á Terra/terra, amor á vida; unha bela demostración de amor e dolor, de paixón e dolor. Morrerasme sempre, meu amor. / Morrerasme sempre… (18)

            Segue outro poema como segue a fonda emotividade da perda, e a visión/voz poética proxéctase sobre xeografías familiares, interiorizadas, natureza en estado puro, humilde (non é a Amazonia) mais rotunda. Son barro firme, un tombelo, unha soa dureza encrustada (19) da cal se denuncia a desnaturalización. Este país convertido nun inmenso eucaliptal (20) E o abandono. Todo é unha bouza de difícil acceso (21). E xorde a presenza/ausencia do pai. Hai un corazón ao lonxe, verde e tépedo. / E aí naceu meu pai (19). De quen tamén se recolle herdanza dun mundo que marchou, poerén un mundo natural que resultaba máis humano (inevitábel comparanza co mundo de cemento urbanita). A túa fala como un símbolo ergueito de toda a dignidade (21). Outro elo de unión/comuñón coa Terra/terra, coa Historia, coa Cultura, coa Vida. Humilde, vivo, único, firmemente inmaduro e feble. / Simplemente iso, unha criatura mortal (23). Triste cosntatación da finitude humana, mais tamén valoroso recoñecemento de amor filial e do valor como transmisor do amor pola Terra, dunha herdanza que é unha posición fronte á vida, unha posición na vida.

            Segue outro longo poema onde se reflexiona sobre a vida sen eles, sobre a vida que nos queda e na cal temos que loitar. Tanta vida acurralada, tanta soidade inexplicábel, / tanta desolación! (24). Onde todo é memoria de nós (25). Desta terra amábel e vizosa somos, / hoxe un cadaval amplo como un país enteiro,/  que se ergue tolleito, denegrido, salvaxe e cinzento, / tremendamente violentado (25) Auga, auga fresca para un país que se afunde (26). Esa necesidade para unha matria/patria asasinada polo fatal desamor dos que non saben amar esta terra / de xeito contundente (26). Este é un poema de amor filial, xa vimos, de amor ao pai, mais tamén  é unha denuncia da dor e non só da dor pola perda dun ser amado, é tamén a denuncia dun País que camiña cara á ruína, unha traxedia tras outra. E aínda que xurda poderosa  voz da xenreira (fasme sufrir tanto! (27)) finalmente xa o dixera o poeta de “Penélope”, “Galicia, sempre como un manso animal que non se rebela nunca, / feble criatura solitaria entre tépedas néboas” (27). E o poema, que era un poema de amor filial remata sendo un poema de amor filiar á nai Galicia, cun precioso e emotivo remate, despois do cal vén ourro poema de afirmación na estirpe, e, dentro da estirpe, da pertenza a un colectivo, o  feminimo, que necesita ser reivindicado e que se propón como medio de cambiar o mundo. Somos  mullerres coma vós, mulleres que mudaremos o mundo (31). E a un, que le este enorme exercicio de amor á nai, ao pai tamén, á Terra, ao País, quédalle esa esperanza que se desprende das palabras de Medos Romero. Que as mulleres, por fin, cambien o mundo. Hai aínda outros dous poemas, de afirmación na condicón feminina, que tampoco deixa de ser un poema denunciador. Fica a cicatriz por sempre como única palabra. / Quen nomea o noso sexo, quen?/ Quen de vós é capaz de atreverse a descifralo, a precisalo?/ Quen é cpaz de dicir nada, nada?. Dicídeme qun? “ (33). E finaliza o libro con outro poema no que se evoca a figura paterna, se denuncia o abandono, a ruína da Terra/terra, da identidade da tribo e a firmeza nos principios da niña dignidade. (36)

Para concluir, un, que le, sente especial emotividade pola dor da perda da poeta. Dor pola perda da nai, Dor pola perda do pai, Dor pola perda da Terra, do País. E a un, que le, atínxeo especialmente a firmeza, a dignidade dunha voz poética que non só recoñece o seu amor de filla senón que tamén proclama a firmeza na dignidade que como muller, e como galega, posúe e da que fai gala.

Cantas voces poeticas como a de Medos Romero necesitamos! Medos Romero, poeta humilde, imprescindíbel, que pouco se fala dela!

ASDO.: Xosé M. Eyré

crítica de ESTADO INTERMEDIO, de Rexina Vega, en Galaxia

O TÚNEL E A MEMORIA

Título: Estado intermedio

Autora: Rexina Vega

Editorial: Galaxia

A última novela de Rexina Vega ten un título extraordinariamente claro respecto ao contido da trama; é o que vén sendo un título ideal ou  o que máis e mellor se aproxima ao que se contará despois. Sen pretender dar moitos datos sobre a trama, non pode deixar de dicirse que esta presenta un morto (que é un pai) nese estado anterior a  acceder ao máis alá. Ao alén que haxa despois de que finalizara o tempo de vida dunha persoa. E, paralelamente, a filla que pretende desfacerse de todo canto lle lembre o sei pai, co cal tivo unha relación traumática en vida e que, curiosamente, esa relación traumática non rematará nin desfacéndose das cousas materiais que lle quedaron en herdanza. Na nosa cultura occidental, ese estado do pai antes de ingresar no Alén ven sendo representado por un túnel ao final do cal existe unha luz; ou, polo menos é a máis común porque, evidentemente, ninguén volveu do Alén para dicirnos como é a cousa.

                     En si, a novela é un exercicio de memoria que enlaza a vida do pai coa vida da filla. Un exercicio de memoria traumática, pois a vida do pai non deixou nunca de selo ou de estar inserida no trauma. De xeito que, nin cando era mozo e apuraba os goces da vida desaparece esa situación traumática pois atopámonos en pleno franquismo e nun contexto social que fai contrastar a boa vida, a vida luxosa do madrileño barrio de Salamanca coa máis dura das pobrezas, coas vidas máis vulnerábeis a causa das carencias para levar unha vida digna, como é o que acontece no tamén madrileño Pozo do Tío Raimundo. Despois, o pai terá un vivir marcado sempre polo conflito entre o que el desexaría e a realidade que lle toca vivir, que o levará por unha costa abaixo, que o levará vivir nunha contínua degradación, sen exercer nunca de pai, ou do que se agrada que sexa un pai. Unha degradación vital inxustificábel, covarde e lesiva para oa demais. Nese estado se atopan os dous, o pai e a filla facendo balance, a avaliación final. No caso do pai, é ese estado intermedio do que vimos falando; mais tamén o será no caso da filla, esa é a sorpresa que nos agrada no remate e da que, evidentemente, non queremos desvelar máis.

                     Polo medio, na reconstrución da vida do pai repásanse momentos históricos do medio e tardofranquismo. E tamén dos primeiros anos despois da morte do ditador. Do contraste traumático entre a vida desafogada e luxosa coa pobreza, xa falamos, agora queremos salientar o conflito obreiro vivido en Vigo, aquela folga xeral do ano 1972, pola súa importancia histórica, que marcará tamén un punto de inflexión na vida do pai, facendo que esta se degrade moralmente aínda moito máis. Lembran aquela canción, “Libertad sin ira”, que trataba de propoñernos unha vida nova na que non houbera conflito coas esgazaduras vitais (e igual é moito eufemismo) da ditadura? Pois non, non é posíbel vivir sen que  haxa conflito, sen que haxa trauma, así aparece a vida nesta nova novela de Rexina Vega, unha novela  (xa que falamos de música) moi atenta ás cancións que foron marcando o paso do tempo, igual que as formas de vestir, poñamos por sinal.

                     A novela está maioritariamente contada en capítulos breves, que confiren dinamismo á lectura, mais tamén son moitas as enumeracións (un recurso moi usado), de xeito que o mesmo contar da novela reflicte a dialéctica, o impase en que se atopan as personaxes. Porén, nada disto é a auténtica novidade que presenta Rexina Vega na novela,  pois esta consiste na “introdución” de conceptos budistas á hora de entender o tránsito entre a vida e o Alén. Dese xeito a novela cóntase en dúas partes: “Chikhai. Estado transitorio no momento da morte”e “Chonyd. Estado transitorio da realidade. Esa, a cocepción filosófica budista do paso ao outro mundo, é a auténtica novidade, non querendo dicir isto que non haxa referencias á relixiosidade católica que nos foi imposta.

                     Para rematar, diremos que, e isto sempre nos acontece cando lemos a Rexina Vega, non nos abandona a sensación de que a proposta narrativa mereceía unha máis demorada exposición.

ASDO.: Xosé M Eyré

Zainne Lima da Silva: da actualidade máis potente na poesía brasileira.

Prometo non repetir argumentario: por moito que as condicións para unha poeta negra non mudaran en nada, hai cousas que temos que admitir como inherentes á condición negra da poeta, mais que tampoco deben quedar no esquezo porque son condicionantes absolutos á hora de escribir. Lembrarei, pois, mais só lembrarei, a carencia de liberdade dunhas autorías condenadas a escribir e reivindicar tanto sobre a súa condiicón de persoas de pel negra, como da súa condicón de mulleres de pel negra plenamente conscientes do que iso significa. Lembrarei, mais só lembrarei as “escrivivencias”, que diría Conceição Evaristo, esa afortunadísima expresión. Mentres non haxa otras condicións sociais e políticas, esta é a situación de partida para calquera autoría de pel negra. É dicir, o corpo é territorio político de disputa.

                E feminista, naturalmente, que tampoco hai que esquecer.

                Mais hoxe queremos salietar que a de Zainne Lima da Silva é unha das voces poéticas máis potentes e convencidas que a actualidade brasileira nos depara. De feito, tanto Pedra sobre pedra como Canções para desacordar os homens (que nace en formato e-book) son títulos de 2020. Zainne naceu en 1994, en Taboão da Serra, poboación (auténtica cidade) da perifeira paulista onde, se os nosos datos non erran, a poboación branca supón máis do 60%  mentres a xente de pel negra non chega ao 9%. Este dato debería ser intrascendente, mais nun país tan racista como o Brasil resulta decisivo, de maneira que estamos a falar dunha poeta consciente da súa condición de muller negra e da periferia.

                Hai razón para explicar o impacto e a esperanza que se desprenden da obra desta novísima poeta, negra e feminista, brasileira. Eu voulles ofrecer as miñas. E quero comezar porque a súa poesía reflicte un intenso traballo formal previo. A “inspiración”, “eclosión” ou “revelación” do poema pode ser nun instante, indeterminado ou preciso, do momento ou que volve á memoria, mais é poeta moi esixente, moi auto-esixente, á hora de elaborar os textos. Iso é algo que se percibe moito na lectura dos seus poemas.

                Como é muller e poeta moi nova, é de agardar evolución tanto formal como temática co paso do tempo. Se cadra máis formal que temática, se temos en conta o inicio destas liñas. En todo caso, comprobarán que en Zainne hai unha excelente poeta non só no presente senón que que representa unha moi agradábel e consistente esperanza de futuro. Un futuro esplendoroso que xa comezamos a disfrutar.

                Da selecta que a continuación lles presentarei, gustaría que se fixasen en certos motivos temáticos nela presentes, como  a noción de “inferno”, como a noción de “odio” ou como a nocións de “silencio”  ou “berro” (implícito na gorxa) ademais do valor da palabra neste contexto temático. É unha maneira de tomar posición na vida, de significarse, porque a vida é só @s que a viven e toman partido, non para espectadores

                Para remtar esta breve presentación quero convidal@s á lectura do seu Facebook onde atoparán máis poesía dela. De feito, un dos poemas da selecta provén de aí.

Imos coa súa poesía.

(En Cabine Cultural)

Infernópolis

queria escrever um poema

a calcular quanto pesa a menos

um corpo pisoteado dentro do caixão

o poema ficou intragável

e ao invés de terminá-lo

chorei as lágrimas do absurdo:

amargas, mudas e irrecuperáveis

diante do ser negro e favelado no Brasil

amanhã tampouco o poema

desceria goela abaixo

nem depois de amanhã –

no próximo dia de qualquer dia

o luto coletivo se renova

ainda mais insuportável.

Falar do ódio

este, que eu esquento com a comida

e ponho na língua a ponto de queimar

ódio que compõe meu corpo como água e sangue

falar do ódio como fala-se do amor

da filosofia, da religião, da transcendência

falar dos livros, poemas e teoremas

construídos essencialmente a partir do ódio

falar do ódio que cresce e lota a minha cabeça

que me dá o lampejo de vida após a crise suicida

falar do ódio que me molha para a masturbação

do que me leva ao sentido legítimo da vingança

falar do ódio, essa música muda

essa linda música muda

humanizar o ódio

usá-lo como ferramenta para a revolta

e para revolução.

Astral

meu signo trabalhador, exausto

escolhe a dramática-expressiva

a partir de ruínas

ergue alguma construção

monumental

apenas com as pontas dos dedos

a sua inimiga, embaciada

confabula com bulas e cartelas

reclusa-silenciosa

arranca as portas de toda a casa

convida o suicídio

toda vestida de amarelo

às tempestades dos copos

venceu o trabalhador

até quando mais um dia?

Borges

amo tua cama hasta o último pó

lembro do lodo preso nas paredes de teu alugado

líquen; musgo, verde como grama de desenho de criança

verde como a planta que eu crio para você

às escuras

sonho com teus vizinhos, arroz doce

não vejo teu rosto

lembro do lodo preso dentro de mim

falta de visitação

não me acomodo no tempo

desde que teu ser me adentrou

eu sou um velho alemão sentindo frio sentado na estação de trem sem saber que destino tomar nem o caminho de volta para casa.

 [sem título]

lhe desejaria um cancro se ser amado por mim não fosse mais terrível que isso

este peso da minha caneta

que se não mata

rouba e destrói

eu não sou o diabo

ao contrário, te sou deus

e te faço barro de ânimo

com papel e tinta

quê pode ser pior a um homem

que a eternidade da palavra?

……………………………………..

(En Escrita Droide)

Carne de cabra(l)

escrever é minha faca só lâmina
me corta profundo
não sangro
não sei se dói
o corte
a imagem perfurada seca
ou o espelho que a faca é
me mostra o poema
maturado andando sozinho
encima de mim.

A duplicada


eu

visto permanentemente uma máscara
de pele mais escura e resistente
com a identidade de zainne lima da silva
tenho duas faces de moeda sem valor
tenho duas de mim
uma tenta a vida no tempo agora
a outra inventa o momento seguinte
e o anterior
não me acomodo no tempo
estou entre desver e transver a poesia
transcrever fauna e flora para a língua universal
e ser uma mini deusa negra
como minha avó e minha neta
que não existem
mas que estão prontas na supermassa da oleira
que sou toda vez que escrevo
ou quando digo não
para um verbo de estado.





[sem título

escrever o poema
como se aria uma panela velha
até que de seu ferro
se extraia um espelho
em que se veja no branco do olho
a lágrima dele escorrida
no dia anterior.

………………….

(En A Casa de Vidro)

Uma canção de puro ódio que

Jamais será cantada mas que

Certamente deveria

o mito da mulher que sou

repousa no absurdo

de achar que não tem olhos

nem destino a seu caminho

que as pirâmides egípcias eram

imaginárias

que não há sensibilidade em seu corpo

nem coração em seu peito

de achar que há algum edifício a pular

depois ainda de um suicídio.

II

eu não perdôo as memórias racistas

projetadas para mim

nem as dissonâncias irresolúveis

encrostadas em minha alma.

III

de confundirem certa noção de justiça

com vingança

pegaram o pretinho menor de idade

furtando quatro barras de chocolate

pela terceira vez, no Ricoy

amordaçaram o pretinho

chicotearam suas costas

pela terceira vez, torturaram

o pretinho, quase nu

os homens não confundem nada

– na verdade, há uma alva definição

no desejo quase sexual de ser

um senhor de engenho

:

idiotas racistas sentem-se deuses com

armas nas mãos

*

menstruação de aniversário

seco-me

do papel, uma gota de sangue

cria rastro em minha mão

miro a víscera nas linhas da palma

descubro, aterrorizada

de todas as mulheres de minha casa

sou a mais viva

*

ovulação

o fio que me invade

e me arremata no cio é

puro cerol.

…………………………

(Na Acrobata)

agradecimento

choro quando ovulo
todo mês fecundar
filho de ninguém
décimo quarto dia
enlutada, gozar
em cima de dedos tristes.


Hija de Yemayá
a Annandra Lís

tu vem me arrastando como onda brava
achando que o amor é isso, um joelho ralado
uma queda engraçada pra gringo rir
tu vem me arrastando
e nem liga se eu estou conseguindo respirar
se perdi meu biquíni no tombo
se engoli ou não a água suja do mar usado
se terei virose por quinze dias seguidos
tu vem me arrastando
com essa voz de sereia amuada
eu nem quero ir, já lhe disse
que o rio teme o desembocar
mas tu mostra as asas, os dentes, os seios
tu me quer, eu te quero (apesar de não querer)
tu vem me arrastando como quem deseja que me afogue
como quem satisfaz as próprias vontades, irredutível
tu vem me arrastando como a morte no oceano
imensa, linda, límpida, viva e feroz
tu me ama, eu te amo
(ainda sem saber o que é amar).


Reentrâncias

amar as mãos e os pés do homem negro
saber quantas de suas canelas
fugiram de polícias milícias
quantas vezes seus ombros caíram
em mãos atrás da cabeça
amar suas impressões digitais
debaixo dos calos de trabalho
e música
amar suas cicatrizes
de skate cerol e bala perdida
amar seu sobrenome
sem pai
amar seu corpo estirado no chão
vivo ou morto (sempre morto)
amar seus traumas suas neuroses
amar suas contradições
amar sua ejaculação precoce
sua ejaculação retardada
sua impotência
diante dos absurdos da vida
amar as canções que ele ama
amar os poemas que ele odeia
escrever sobre sua percepção de mundo
respeitar seu silêncio
exercitar sua paciência
despertar sua delicadeza
perceber a minúcia
atrás da couraça protetora
saber arrancá-lo à força de seu pesadelo
pôr-se à beira do precipício
que é amar um homem negro
ser gentil na queda
esquecer a colisão.

……………………….




A educação pela pedra ou A educação pela noite

de madrugada eu trabalho
eu e os pedreiros construindo
em frente à minha casa

erguemos obras de tijolo e cimento
a cada rabisco da caneta
ajunta-se um reboco de parede

eu também sou arquiteta popular
com algumas pedras noturnas ergo
a minha poesia.

…………………………

(Na Pixé)

II_ANATÔMICO EVOLUTIVO

ver-como
o corpo se comporta quando nu
onde dobra onde alonga onde enrijece
as cores que o pintam os pelos os poros
as ranhuras estrias celulites
os caroços as pintas as cicatrizes
de catapora de vacina até de violência doméstica
onde é úmido onde é seco onde é encharcado
e por que
o sangue a pele a unha o cabelo o cílio a sobrancelha
fungos bactérias inflamações putrefações obturações
sons de espirro tosse riso choro engasgo gozo
contrações expulsivas
corte e costura
ver-como
o corpo se comporta quando nu
ao nascer
ver-como
o corpo se comporta quando nu
ao transar
ver-como
o corpo se comporta quando nu
ao morrer
ver-como
o corpo deixa de se comportar
quando pó
 

III_MEMÓRIAS DO CÁRCERE

amei homens
cujo prazer era gozar o silêncio
principalmente quando deviam explicações
para eles silenciar era uma escolha
um repouso para quem o direito do dizer
esteve sempre e sempre garantido
 
eu descobri o poder da garganta
para quê calar se estive muda nos corpos
de minhas tetra tatara bisa avó
se estive quieta em Eva e em Maria
se meu único som legítimo fora o gemido
de choro dentro de um navio negreiro
 
o silêncio para mim é cárcere
não fico quieta não ficarei
gritarei cada vez mais alto em prateleiras públicas
forrando os livros com os meus nervos
de aço sim mas humanizados e raivosos
furiosos desvairados excelentemente polidos
no uso poético de cada palavra minha
 
se um dia me calar será em fogueira de papéis
censura aniquilação do pensamento da expressão
ainda depois de morta
estarei cá em meus livros a falar
sobre memórias de libertação.

……………………..

(Na Germina)

…………………

(No Face de Lendo Mulheres Negras)

tenho um par de homens
que se propõem a deitar comigo
(se não se propõem, os seduzo)
e que depois fogem de meu perigo
de exaustos ou de assustados.
os escolho pela cor do corpo
por vezes, pela textura do cabelo
para conformar este curso, que é recôncavo:
inclinam-se em negras cores
em cima, atrás, embaixo de meu sexo
gritam e gemem como fêmeas
em redes de pesca, queimando nas areias
enfim, se desfazem no oposto –
num ápice, como leite derramado
profundo e caudaloso lago
(ou, quem sabe, alegre banho de chuva)
margeando o mais próprio e mágico em mim:
o sussurro do atrito em meu lado de dentro.

………………………….

Do seu Face

CASA AMARELA

este poema é uma palafita

com quintal de árvores que dão flor

madeira brilhante de peroba

tanque de amolar peixeira de baiano

aqui, nunca é baixa a maré

e a casa está sempre alagada

cadeiras de pé para cima

todas as portas de contenção

uma vela que nunca se apaga

para Santa Luzia dos olhos

que a totalidade veem

o leitor, que desenfreadamente entra

neste terreiro sem terra

que molhe só as pontinhas dos pés

nesta água tem cobra enfeitiçada

e não vai querer se encantar

ficar sempre preso neste alagamento

que é a minha poesia

ouve, leitor: apenas as pontas dos pés.

crítica de DICIONARIO IRREAL PARA UN PAÍS IMPOSIBLE, de Xavier Seoane, en Xerais

 A CABEZA NON PARA…

Título: Dicionario irreal par aun país imposible                         

Autor: Xavier Seoane

Editorial: Xerais

Quizá o título destas liñas poida parecer un tanto prosaico, porén dalgunha maneira cómpre describir a intensa actividade intelectual de Xavier Seoane, sempre unha actividade na procura da beleza xa sexa en forma poética (contei 18 títulos) ou narrativa; e dentro da narrativa velaí están os títulos de ensaio e, o que máis nos interesa, os aforismos…por iso de que os aforismos combinan a reflexión e a beleza verbal- a este respecto lembremos os Aforismos do riso futurista escritos con Francisco Pillado, ou a máis recente A póla branca, haikus que tamén convidan á reflexión pois dela e da contemplación nacen. A este respecto é de considerar que Xavier Seoane sempre tivo como unha das súas angueiras intelectuais o devir social, cultural e mesmo político da Galiza. E de aí nace este Dicionario irreal para un país imposíbel, como unha forma de dar cabida nun único título ás preocupacións autoriais, manifestándose estas en prosas que xunguen a expresión didáctica propia dos dicionarios (despois comentaremos máis) coa creación tanto en prosa como en forma poética, que dos dous casos se poden atopar exemplos, exemplos manifestados desde a pericia escritural a que Xavier Seoane nos ten habituados, de xeito que o libro resulta unha auténtica miscelánea (que pouco se usa hoxe esta palabra) non só do saber senón tamén no relativo ás formas literarias.

                     Ben, volvamos sobre o didactismo. Non cabe dúbida de que calquera dicionario persegue iso, ensinar. Porén este é un dicionario “irreal” porque en realidade non se trata do que comunmente se entende por tal, senón unha forma, unha estrutura editorial que lle permite dar cabida non só ao relativo ao “pensamento” ou reflexión senón que tamén lle permite ao autor introducir diversas formas escriturais ( como xa vimos)  de maneira que se ofrece unha ollada panorámica sobre a cultura, sobre a sociedade, sobre a Historia…con todo o que iso ten de político. Neste “pensamento” ou reflexión, hai moita ironía, hai moito humor, retranca e mesmo sátira e xogos verbais, o cal proporciona unha lectura que tamén xungue o desenfado coa distancia analítica que proporcionan as figuras antes mentadas. Cousa curiosa é que esa distancia analítica representa en realidade unha comprensión fonda do concepto pertinente, e permite un achegamento lectoral máis efectivo, fondo e á vez divertido que promove a reflexión de quen le.

                     As “entradas”, os conceptos de que se ocupa Xavier Seoane son de natureza moi diversa, e van desde a denuncia (por sinal, véxanse os conceptos “feísmo” ou o da romaría dos Caneiros) á reivindicadión (por sinal, véxase o relativo a Seminario de Estudos Galegos ou o futbolista Fran) pasando pola análise de tópicos (non podía faltar o dos galegos e as esclaeiras, por sinal), como de feitos históricos (por sinal, os naufraxios na Costa da Morte), escritores e creadores plásticos (Celso Emilio, presente en varias entradas, por sinal, Laxeiro ou Urbano Lugrís…) e onde non faltan reflexións sobre sobre aspectos da nosa Historia e cultura que presentan déficits ou son mellorábeis.

                     A concepción do libro como dicionario permite unha lectura que non ten porque ser contínua, que pode adiarse en calquera momento e ser retomada sen perder nada do contido, e que tamén pode ser aleatoria ao permitir ler entradas de diferentes letras sen que teñan que ser consecutivas…o comezar por onde nos praza. Isto ademais de poder dar entrada a forma literariaa diversas, como xa vimos.

                     Fermosamente ilustrado por Ramón Trigo, este Dicionario irreal para un país imposíbel non só constitúe unha moi agradábel lectura desde o punto de vista literario, senón que tamén é unha boa ocasión para reflexionarmos sobre nós mem@s, sobre o pasado, sobre o presente e sobre o porvir, cousa que sempre é tan necesaria, que sempre é tan imprescindíbel. Xavier Seoane, auténtico mestre humanista ao que nada lle é alleo nin do mundo das ideas nin do mundo do pensamento, déixanos outro título que non debe faltar en calquera biblioteca que se prece do noso IMPAÍS, que driría Xavier Alcalá.

ASDO.: Xosé M. Eyré

crítica de SILENCIO, de Agustín Agra, en Galaxia.

LITERATURA CONTRA OS DOGMATISMOS

Título: Silencio

Autor: Agustín Agra

Editorial: Galaxia

Dende O recendo das mimosas (2009) non lembro ler nada de Agustín Agra dirixido a adult@s. E, como se di na presentación editorial da contracapa, “pagou a pena a espera”, e moito, porque os oito relatos desta Silencio están construídos coa pericia do ourive que pretende que as súas obras sexan únicas aínda que ás veces garden certa continuidade á hora de argallalas. Comezarei por explicarlles o título, pois non en van preside e dá sentido único ao monllo de relatos, mais xa lles adianto que procurarei non identificar as personaxes centrais dos relatos porque precisamente a administración desa información é un elemento clave, fundamentalísimo, a pedra mestra, dos relatos de Agustín Agra. Pois ben, o título, ese “Silencio” refírese a un retrato de Charles Darwin onde parece a súa faciana cun dedo sobre os beizos, actitude de pedir silencio. E agora que mentei a Charles Darwin, xa non é segredo ningún se lles digo que a temática dos relatos está concebida para ilustrar como ao longo do tempo a ciencia loitou contra os dogmatismos imperantes no momento. “Atrás deben quedar a ignorancia, a superstición e o dogmatismo milenario “ (136). No seu lugar aposta por “valores como a universalidade do coñecemento, o respecto entre as diferentes culturas, os dereitos humanos ou a democracia, esa vella e desvirtuada palabra, baleira xa nos nosos beizos do seu significado orixinal” (136).

                     O libro ábreo un relato onde Cristina Goettsch (Mittermeier), xenial e imprescindíbel fotógrafa mexicana, se adentra nunha xeografía inhóspita mais tamén unha xeografía non cartografada polo ser humano. Esta viaxe (non ten importancia que saiban o nome da viaxeira) é a presentación dun volume onde se reunirán relatos de xente que desafiou a hostilidade de dogmatismos históricos que impedían o progreso da humanidade. Unha anunciación metafórica e tamén un xeito de reivindicar o papel da muller (e non será a única vez, pois hai outro relato no que tamén acontece o mesmo) nun mundo que historicamente as relegou ao rol de acompañantes case anónimas de homes que levaron o mérito, un mérito onde non se recoñece o seu traballo. E, igualmente, o derradeiro relato tamén é máis que o relato reivindicando a figura dun dos nomes imprescindíbeis á hora de falar da Xeografía moderna, porque ten o seu de metaliteratura e, por sinal, se explica que este sexa un libro de relatos en lugar dunha novela. O relato volve estar contado por unha muller, que fala do seu fillo ( e debemos entender que matofricamente ese fillo tamén é libro que teñen nas mans) e lle aconsella que “é tempo de crear, de descubrir, de soñar” e “que o abraio mova o mundo” (137).

                     Mais volvamos aos relatos tal e como se presentan. O segundo tráenos unha sorte de cruzamento teórico entre Isacc (Newton), Nicolao (Copernico), Tycho ( e non lles direi o apelido), Johannes (Kepler), Giordano (Bruno) e Galileo. Digo cruzamento de opinións porque o relato, fragmentario, consiste na sucesión de fragmentos dedicados a eles, ás veces en alternancia. E, posto que aquí non me quedou máis remedio que citar os protagonistas, non lles direi nada sobre a trama porque, sabendo quen son os protagonistas seguro que vostedes poden enxergala axeitadamente. E, como xa lles dixen, non volverei identificar os protagonistas dos seguintes relatos, non, porque precisamente o autor xoga moito con esa información, de xeito que só se revele o nome completo do protagonista central ao remate. De todas maneiras, quen le ben pode imaxinar quen son sabendo o contexto científico en que se moveron aínda que todo está moi coidado para menter a tensión até o final, ofrecéndonos unha visión desa personaxe na que está moi presente o contido humano. Hai aquí un evidente apelo a que quen le amose unha actitude participativa, e non nunha actitude pasiva, á hora de ler. Só lles adianterei que a seguir aparecen os “pais” da Química moderna (e aí se volve reivindicar o papel da muller, xa lles dixen), da Xeoloxía, da Bioloxía ou da Botánica…

                     O libro, en cada un dos relatos e máis perceptibelmente nos fragmentos ou relatos menos breves, mesmo hai que dicir que está contado con elegancia, cunha elegancia que se amosa tan discretamente como efectivamente. Ao que hai que sumar un traballo estrutural, para crear e manter a tensión narrativa, moi loábel que se manifesta xa desde a mesma concepción do relato e da voz que nolo conta. E tamén que se literaturicen pasaxes da vida destes ilustres que agrandan o seu perfil humano, como dixemos.

                     O resultado é un libro non só de moi agradábel lectura, senón que tamén esa lectura resulta unha homenaxe a “científicos” que se atreveron a desafiar dogmatismos imperantes durante séculos, de xeito que a humanidade puidese progresar. Naturalmente, tamén é un libro semente, un libro semente desde o momento en que o remate convida a seguir loitando polo progreso da humanidade nun momento como actual, especialmente crítico.

ASDO.: Xosé M. Eyré                                      

Lívia Natália: a contundente elegancia da ética negra

Escribir para presentarvos a poesía de Lívia Natália hoxe constitúe para min un compromiso ético ( a miña posición ética sempre estivo do lado dos máis vulnerábeis e perseguidos, porque eu, como nacionalista galego sempre se sentín así e porque creo que é o único moralmente aceptábel), estético ( é unha brillante poeta, volveremos sobre iso) e tamén repetir parte do argumentário que xa comentei a porpósito doutras autoras negras.

                Por exemplo, sempre que divulgo poesía de poetas negras debemos ter en conta que se trata dunha escrita feita nun contexto de carencia de liberdade, porque se se é negra e consciente do que significa ser muller negra nun país como o Brasil, estás obridada a que esa temática estea presente na túa obra. E así sucede na poesía de Lívia Natália. Se lle aplicamos a ela o concepto de “escrivivencias” de Conceição Evaristo non imos errar nada, porque en realidade toda escritora negra precisa facer fronte ao poder branco desde a escrita coraxosa, valente e subversiva da súa alteridade negra. E tamén non é novidade que recorra á africanidade como elemento distintivo social e literariamente falando, o afrcanismo centrado que aquí tamén nace e  se expresa desde unha relixiosidade propia e diferente.

                E se engadimos a ser muller e negra ser tamén feminista, a necesidade do activismo político e social é innegociábel aínda máis.

Esta carencia de liberdade, no caso de Lïvia Natália manifestouse moi claramente na censura dun seu poema. Si, estamos no século XXI, mais a censura segue existindo. O poema é este:

“Quadrilha”

Maria não amava João. 

Apenas idolatrava seus pés escuros.

Quando João morreu,

assassinado pela PM,

Maria guardou todos os sapatos.

            Parece ser que o poema atentaba contra a honorabilidade da Policía….

                Censurar a arte é censurar á expresión máis elaborada de humanidade. Censurar a arte cando denuncia é a expresión dun fascismo intolerábel para calquera persoa consciente e non alienada. Aínda que só fora por iso, divulgar a poesía duunha autora censurada xa sería para min motivo máis que xustificado para facelo unha e mil veces.

                Cando Día Bonito para Chover foi considerado pola APAC (2017; Associação Paulista de Críticos de Arte que é é a máis tradicional institución de críticos do Brasil) representou unha auténtica sorpresa para a autora, non polos seus innegábeis valores literarios senón por ela ser negra.

                Cando a crítica sinala a presenza da auga na súa poesía (xa desde os títulos se ve, como comprobarán), Lívia Natália responde con palabras de Ruy Espinheira “Todo escritor escribe con aquilo que le é”. A este respecto quero lembrar o que xa escribín sobre Angélica Freitas e a poética da chuvia.

                Demoraía inmenso escribindo sobre a poesía de Lívia Natália, unha poesía que, por difinila con poucas palabras, eu digo que é contundentemente elegante, na selecta que hoxe lles presento poderán comprobalo.A súa é unha poesía moi elaborada, moi traballada, que toca con elegancia a fibra sensíbel de quen le, con elgancia e con toda contundencia. Mais estas presentación quero que sexan breves, o importante é a poesía. Imos pois exponer a obra poética da poeta nacida en Salvador de Bahia no 1979:

2010 – Água Negra – EPP Publicações

2015 – Correntezas e outros estudos marinhos – Ogum’s Toques Negros

2016 – Água Negra e Outras Águas – EPP Publicações

2017 – Dia Bonito pra Chover – Editora Malê

2017 – Sobejos do Mar – EPP Publicações

       Esta é a obra que lle coñezo, e, sinceramente, cústame moito traballo decidirme por algún título en particular. No referente á autoría individual porque tamén participou en É agora ou nunca – Antologia incompleta da poesia brasileira contemporânea, organizada por Adriana Calcanhoto e édita na Cia. das Letras.

                Pouco máis quero engadir, que a calidade da súa poesía foi recoñecida desde o primeiro título (o que non salva do silencio nun país tan racista e machista como o Brasil) e, sobre todo, que nas referencias literarias imprescindíbeis para Lívia atópanse tanto nomes brancos como negros. É toda unha lección, a beleza non coñece color de pel. Vexamos algunas das súas referencias:  Conceição Evaristo, Landê Onawalê, Cecília Meireles, Clarice Lispector, José Carlos Limeira e Drummond, Bandeira…Carolina Maria de Jesus, Pessoa…

Este é o seu Facebook, seguilo é ben interesante

Agora celebremos a beleza da súa poesía. Esa beleza contundente e por iso máis preciosa.

(No blog e Emmanuel Mirdad)

Sina

Todo mês eu sangro.
Diversa de mim,
atravesso Águas brutas,
oceanos que me povoam bravios.
Expulso o que em mim excede
e, do que sobra,
algo se move lívido
pulsando nas sendas de meu ventre.

Quando sangro,
o animal onde moro troca de pele
por dentro,
expurgando entranhas.

Todo mês eu sangro.
Todo mês eu singro este mar,
em que me banho.


——–


Assombro

Num dia como este
de chuva uterina,
meus pés dançam belos
no equívoco dos sapatos novos.

Esta sou eu, em ledo engano:
enfeitando o mal, o errado,
e as ausências do mundo
com meus pés pouco delicados.


——–


Buscâncias

Precisa-se de estrelas que brilhem
nos vãos do corpo,
que poluam com seu tom luminoso
a dobra opaca de que toda sou.

Paga-se bem:
em fartas moedas de silêncio,
com dores sem cura,
com sangue duro e vivo de entranhas.

Preciso de alguma luz estranha e calma.
D’algum clarão vivo e verdadeiro.
Algo que negue este estreito
onde moro em solidão.


——–


Anatomia


Meu corpo se dobra na curva dos dias,
as ondas passam prenhes de pássaros, peixes e maresias
o mar bebe o mundo com sua língua de onda
e meu útero permanece vazio.

Desconsolada,
engoli naufrágios inteiros
com pescadores e navios
e meus sonhos ganharam pele de peixe.

(Ando com esta barriga murcha,
recolhida no labirinto das entranhas.)

Meu útero bebeu a tinta das letras,
comeu papéis e teclas,
guardou-se debaixo do travesseiro, para o quando,
guardou-se no bolso, numa caderneta fina, para se.

Tudo vão:
Meu útero apenas ganhou guelras
e respira submerso.


——–


Filosofia da composição


Um poema me invade e nada me resta
senão o silêncio branco da página
que é o negativo de escrever.

Mas, no alto das brumas novas,
onde as nuvens se fazem brancas
como a página virgem
não há mais consolo
que neste inferno que é a palavra.

Todo corpo de artista é também uma espécie de inferno.
Zumbe o mundo em brasas na cabeça do poeta.

A mim,
me sangra é entre os dedos da sapatilha,
e minhas mãos flanam no alto,
no contra-luz do palco,
desta cena em que sou vista.


——–


“O que rima
quando tudo se finda
é um retrato perdido,
uma porta fechada para o inútil
e as tramas delicadas das cortinas
desvelando,
no paladar das horas,
aquele instante em que o trinco
permanecerá imóvel.”


“O mar se deslembra homérico do que passou.
No seu infinito de profundezas
tudo o que do mundo guarda,
é apenas rastro do perdido.”


“Enquanto espero, tudo é horizonte
e adivinho seu rosto antigo
na anatomia das pedras.”

……………………………..

(No Escritablog)

QUADRILHAS

Maria não amava João.
Apenas idolatrava seus pés escuros.
Quando João morreu,
assassinado pela PM.
Maria guardou todos os seus sapatos.



ÁGUA NEGRA
Chove muito na cidade.
No asfalto betumoso um sangue transparente,
ora de um rubro desencarnado,
ora encardido de um cinza nebuloso,
é vomitado em cólicas
por toda a parte.
Das paredes duras vaza um mais escuro que,
imagino,
seja a água mordendo as estruturas.
A água é assim:
atiçada do céu,
infinita no mar,
nômade no chão pedregoso,
presa no fundo de um poço imenso:
a água devora tudo
com seus dentes intangíveis.
                   


OSUN JANAÍNA


Descobri que, para mim,
ser mulher basta.
Para puxar véus,
levantar saias
pintar as unhas de vermelho feroz –
mesmo que seja só para dizer: para.
Ou para ver a dança des-contínua do seu corpo
sobre o meu (o meu oposto)
pelo espelho que se emancipa
das paredes deste quarto
e desta tarde delicada.
Mas sempre ser mulher basta:
posto que é inteiro e vão,
onda que bate na pedra e despedaça
apenas para voltar inteira
– afogada –
num mar de (in)diferenças
onde cada gota solitária e única
forma um discurso descomposto,
cambiante,
plural:          
mesmo quando me atiro sobre esta pedra,
que me rechaça.




ODISSEU


Seu corpo cresce em puro júbilo de ser.
E só.
Sobre a cabeça, dança uma juba arisca
alimentada pelo vento e pelos sonhos
com que embala o mundo.
Seus gestos firmes cortam o tempo,
inscrevendo,
na pele crua da memória,
seu rastro.
Sua voz,
saltando frenética sobre os átimos,
devassa as franjas silenciosas que embainham
o mundo.
Mas quando seu corpo ressona nos lençóis,
onde o espero,
é meu o seu silêncio
e a calma do depois.
É no meu corpo que escreves
sua narrativa mais primeira
e definitiva.

…………………………

(En Algumapoesia. com)

SOMETIMES

Às vezes é um vento mais forte
e ele vem de longe, tangendo as colinas
E as tardes se emancipam de mim,
como se fossem feitas de puro desejo.

Um azul intenso devora meus dedos
e os olhos, inteiros, são de oceano e vão
e eu estou perdida: não há portas
mas as chaves persistem,
pendendo de minhas mãos.

Um vento que me fala em uma outra língua
e, ainda assim, toda me devora,
e não há apelo,
e não há distância que o coloque de volta:
entra pelos meus cabelos
e faz deles sua mais perfeita morada.

Um vento, e eu de todo exilada.
Um vento, e eu desfeita,
calada.
Um vento e, pobre de mim,
sou toda feita de Água.





ORI ASÈ

Quando a quartinha canta,
prenhe de água absoluta,
um suntuoso aquário se tece
no breu de suas bordas.

Na sua voz de metafísica e nada
ouço a água doce e fria
de que está plena e emprenhada.

{Sua casca barrosa se limita
com o chão líquido do Orum
onde dançam Deuses de pele translúcida.}

Quando a quartinha estala a sua língua
saveiros dobram seus ombros nas docas
o mar respira, bebendo a si mesmo,
enquanto as ondas coçam as costas das pedras.

Onde canta o estalido
da quartinha
um Ori se planta no profundo.









ESQUECIMENTOS

               Para minha Mãe


Se doer mais um pouco,
de minha boca sairão pedras
e tochas acesas devorarão minha carne.

Se doer só mais um pouco,
as palavras brotarão de meus poros
e minha boca se demorará em silêncios.

Se doer ainda mais,
nascerá um sangue bruto entre meus dentes

e meu útero perderá seus segredos de vazio.








O CASO DO VESTIDO


           De tempo e traça meu vestido me guarda.
                             Adélia Prado


Meu corpo não respeita as estações.
Chove grosso em cada dobra da cidade
E eu trago comigo um vestido de verão intempestivo.


Meu corpo não cede e, vivo, arde no ligeiro das rendas,
nas maresias que lambem o ar.
Meu corpo não cede.

E o vestido que me desveste neste calor temporão
é todo bordado na minha pele:
por dentro.





ORISA DIDÊ

Arranca as percatas de seu cavalo
e nele galopa com os pés no chão.
Solta um grito que se espeta no alto
e,
repetido,
saúda a terra com a majestade de sua presença.

Dança sem a calma das horas,
pois seus braços se erguem para fora do tempo.

Caminha com sua carne de mito
e, quando vai, não parte.
Apenas se banha em seu próprio mistério.

………………………………..

(En LierAfro)

Poema-ebó (pelo 20 de Novembro)

Dono das encruzilhadas,
morador das soleiras das portas de minha vida

Falo alto que sombreia o sol:
Exu!

Domine as esquinas que dobram
o corpo negro do meu povo!
Derrama sobre nós seu epô perfumado,
nos banha na sua farofa
sobre o alguidá da vida!

Defuma nossos caminhos
com sua fumaça encantada.
Brinca com nossos inimigos,
impede, confunde, cega
os olhos que mau nos vêem.

Exu!

Menino amado dos Orixás,
dou-te este poema em oferenda.
Ponho no teu assentamento
este ebó de palavras!

Tu que habitas na porteira de minha vida,
seja por mim!
seja pelos meus irmãos negros
filhos de tua pele ébano!
Nós, que carregamos no corpo escuro
os mistérios de nossas divindades,
te vemos espelhado nos nossos cabelos de carapinha,
nos traços fortes de nossas faces,
na nossa alma azeviche!

Mora na porteira de nossa vida,
Exu!
Vai na frente trançando as pernas dos inimigos.
Nos olhe de frente e de costas!

Seja para nós o que Zumbi foi em Palmares:
Nos Liberta, Exu,
Laroiê!



……

Negridianos

Para Cuti, Limeira e Guellwaar Adún
Há uma linha invisível,
lusco-fusco furioso dividindo as correntezas.
Algo que distingue meu pretume de sua carne alva
num mapa onde não tenho territórios.

 
Minha negritude caminha nos sobejos,
nos opacos por onde sua luz não anda,
e a linha se impõe poderosa,
oprimindo minha alma negra,
crespa de dobras.

 
Há um negridiano meridiando nossas vidas,
ceifando-as no meio incerto,
a linha é invisível mesmo:
mas nas costas ardem,
em trilhos rubros,
a rota-lâmina destas linhas absurdas que desenhas
enquanto eu não as enxergo.

………………….

nde o espelho?

Para minhas irmãs negras
Este cabelo que lhe vai liso sobre a carapinha,
é o simulacro infeliz do que não és.
(Ao vestir-se com a pele do inimigo
o que de ti silencia e se perde?
Quantos animais conheces
que assim o fazem senão para reagir?)

 
Este cabelo pesa desfeito sobre sua carapinha.
Veste-a como um manto impuro
abafando o preto caracolado
sobre si dobrado:
filosófico.

 
Os fios se endurecem como cavalos açoitados,
e bradam da morbidez desta couraça
que te mascara branca.

 
Este cabelo requeimado e grotesco
sepulta o que em ti há de mais belo.
A dobra também é uma forma
de Ser.