Ana Martins Marques: elegancia estética e ética

Cando elaboro as selectas poéticas de mulleres poetas brasileiras, cada domingo, é moi frecuente que, de páxina web en páxina web existan bastantes ou moitos poemas a se repetir. Pois ben, no caso concreto de Ana Martins Marques iso acontece nunha proporción moitísimo menor. Iso quere dicir que, ou ben a poeta optou por difundir canta máis poesía mellor (no caso de ser consultada) ou ben que @s antólog@s teñen moitas dúbidas de cales son os seus mellores poemas e hai@s que optan por uns mentres otr@s se fixan noutros poemas (caso de non ser consultada)….do cal se deduce que a poesía de Ana Martins Marques ten tanta calidade que resulta complicadísimo escoller entre a súa producción poética.

Tamén é certo que Ana Martins Marques (Belo Horizonte, 1977) xa posúe un estimábel número de poemarios publicados, o cal contribúe a unha difusión extensa e variada. Mais non invalida o que antes dixemos.

Esta é a súa obra, polo que eu coñezo.

2009 – A vida submarina (Scriptum)

2011 – Da arte das armadilhas (Companhia das Letras)

2015 – O Livro das Semelhanças (Companhia das Letras)

2016 – Duas Janelas – com Marcos Siscar (Luna Parque Edições)

2017 – Como se fosse a casa (uma correspondência) – com Eduardo Jorge (Relicário)

2019 – Livro dos jardins (Quelonio)

Nunca o fago, mais hoxe quero singularizar un poema de Ana Martins Marques, porque me parece moi importante:

Agora deixa o livro

Volta os olhos

Para a janela

A cidade

A rua

O chão

O corpo mais próximo

Tuas próprias mãos:

Aí também

Se lê.

E paréceme importante porque nel se refire ao que eu denomino “terceiro grao do analfabetismo”.  Sábese que primeiro grao é o de quen non sabe ler nin escribir. Despois vén o segundo grao, o de quen sabe ler e escribir mais non consegue establecer tema e intención do que leu; é moi frecuente hoxe. E aínda hai o que eu chamo terceiro grao: o de quen non sabe ler no seu entorno, nos sinais que vai deixando a vida, como no poema se reflicte de forma tan bela.

Á marxe de todo iso tamén quero salientar a amplitude da visión poética desta autora, que é tan capaz de reparar nos obxectos da casa no día a día e de aí extraer poesía, e poesía de grande calidade, como levarnos por xardíns de xeografías ben apartadas da brasileira tocando temas que resultan do noso máximo interese porque tratan asuntos que están moi dentro de nós.

É como se a poesía de Ana Martins Marques nos envolverá con palabras a pel toda, e entón dicimos “quen ben, é bonita esta poesía”, momento no cal percibimos que a poesía non ficou na pel senón que se adentrou moi dentro de nós, no interior máis interior do noso interior.

De aí que Marcos Siscar fale de humanismo acolledor.

Tamén merece destaque a pericia formal coa que se expresa. Non é moi habitual referirse a ela, mais a min paréceme necesario e xusto. Non todo vale na poesía. Non chega con escribir liñas que non rematan na marxe. É necesaria unha capacidade observación ou sensibilidade que indique onde está a poesía, o que queremos transmitir. Mais tamén é necesaria a pericia técnica que nos permita facelo con efectividade, beleza e conmoción.

Lin nunha entrevista que se considera unha persoa distraída. Isto é o mesmo que dicir que a capacidade de abstracción para ela é algo natural. E non esquezamos que a abstracción é precisamente aquilo que nos permite “ver” cousas que doutra maneira, nun estado normal de consciencia e concentración no mundo real e tamén no abstracto, non reararíamos nelas nunca. E ademais é quen de transmitir con suma elegancia estética, acompañada da elegancia ética.

Ana Martins Marques, elegancia na ética e tamén na estética.

Este é o seu Facebook

E agora, a súa poesía.

(Na Ruído Manifesto)

Minas

Se eu encostasse

meu ouvido

no seu peito

ouviria o tumulto

do mar

o alarido estridente

dos banhistas

cegos de sol

o baque

das ondas

quando despencam

na praia

Vem

escuta

no meu peito

o silêncio

elementar

dos metais

*

Poema de verão

Você está sob a luz

de certos poemas cheios de sol

sua mão faz sombra sobre a página

encobrindo algumas palavras

a palavra menina agora está à sombra

a palavra retângulo

a palavra brinquedo

as outras palavras ficam pairando

no poema como partículas de poeira

brilhando na luz

você gostaria de escrever poemas assim

em que se encontrasse de repente

o esqueleto alvo de um animal pequeno

ou em que um jovem casal dormisse

dentro de uma picape vermelha

ou ao menos em que houvesse uma raposa

vinho de maçã, cadeiras desdobráveis

e onde as cervejas fossem postas para esfriar

dentro de um rio

você gostaria de escrever um poema

em que acontecessem tantas coisas

e as palavras vibrassem um pouco

num acordo tácito

com as coisas vivas

em vez disso você escreve este

*

O que nos aconteceu

o que não nos aconteceu

têm o mesmo peso no poema

Ontem visitamos

nosso amigo doente

era comovente ver seu esforço

para parecer melhor do que estava

Andamos um pouco pela praia

a certa altura me dei conta

de que nunca perguntei onde ele nasceu

Encontramos uma água-viva na areia

alguém disse que ser assim

indistinguível como a areia da areia

o mar do mar

deve ser algo próximo da felicidade

Uma dessas coisas não aconteceu

*

Jardim francês

Esculpir-me

como a uma

cerca viva

erigir-me

severa e simétrica

construir-me em volta

de um palácio (vazio)

ou apenas costurar-me

em torno

do touro

*

Jardim inglês

Aprendi que tudo o que vive

tudo o que cresce

vive e cresce

contra o cálculo

desde então

alamedas amplas me dividem

não exatamente

ao meio

*

Jardim japonês

Arqueio-me como uma ponte de madeira

sobre um lago aceso por carpas vermelhas

sou dura e seca e quase sem enfeites

como um jardim de areia

(mas há pedras que florem

como flores)

silenciosa como um papel de arroz

em que ainda

nada

foi escrito

*

Língua  

1

no princípio

toda língua é estrangeira

acerca-se do seu corpo como de uma cidade

até tomá-lo

fazê-lo chamar-se a si mesmo pelos nomes

que lhe dá

pé perna barriga dentes

fazer a língua chamar-se língua

chamar-se a si mesma pelo nome dela

língua

acerca-se até domá-la

para ensinar-lhe uma coreografia sua

que ela, língua, por sua vez

ensina ao pensamento

cantando

estar na língua como numa

casa louca

que obriga ao abrigar

ela pensa o seu sexo

ela pensa o seu coração

abrindo-o

ela é música

e combate

ela fala na sua boca

com a boca dos mortos

ela é a eletricidade

dos cadáveres

daqueles cuja boca ela encheu

antes da terra

ela cria raízes no seu corpo

dela não é possível se livrar

você é livro

dela

e se aprende outra

é contra ela

contra sua memória

excessiva

e em viagem

com ela

que te cobra e cobre

como um mar

2

Ou é um dueto

uma dança

muito antiga

dela você também se acerca

toma as palavras emprestadas

e empresta-lhes também

sua energia

sua coragem ou doçura

e talvez seja mesmo possível

descartá-la

dissolver-se num mar que não o seu       (Cf. Jorge de Sena, “Noções de linguística”)

livrar-se dela

trocá-la por outra

mais nova ou versátil

(meus únicos heróis

são os tradutores)

ou pouco importa a língua

mas o dizer as coisas

que ao serem ditas

extinguem-se

mas com que fulgor

(escrever poemas:

não se contentar com as línguas que se sabe

nem mesmo com as línguas que há)

as línguas são meios

de viagem, são meios

de transporte as palavras:

carrega consigo o camelo o arranha-céu

a baleia

não só a baleia

todas as baleias

não só o amor

todo o amor

……………………………….

(Na USP.BR)

Poemas selecionados dos livros A vida submarina, Da arte

das armadilhas, O livro das semelhanças e Duas janelas

Poemas do livro A vida submarina (Scriptum, 2009)

Da série “Arquitetura de interiores”

sala

na sala decorada

pela noite

e pelo imenso desejo,

nossas xícaras

lascadas

cozinha

nostálgicas de um tempo de intermináveis almoços

banha de porco alho pão açúcar sujeira

dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel

rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo

alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros

as panelas de seu desuso observam

a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel

e duas xícaras irônicas no aparador

porta

a porta

como toda fronteira

é apenas para se atravessar

rapidamente ela já não serve mais

um corpo-a-corpo

e já se está do outro lado

dela nasce o fora e o dentro

ela que é seu vazio

jardim

a mesa de lata

a cobra verde da mangueira

os canteiros bobos de manjericão

e mato

as rosas enrugadas como tias

atraindo formigas como xícaras mal lavadas

os brinquedos esquecidos

estragando-se de espaço

servidos todos de seu alimento

de sol e nuvem

guarda-roupa

seu vestido de verão

sem você dentro

não é um vestido de verão

porque no vestido o verão

era você

mesa

mais importante que ter uma memória é ter uma mesa

mais importante que já ter amado um dia é ter uma mesa sólida

uma mesa que é como uma cama diurna

com seu coração de árvore, de floresta

é importante em matéria de amor não meter os pés pelas mãos

mas mais importante é ter uma mesa

porque uma mesa é uma espécie de chão que apoia

os que ainda não caíram de vez

DARDO

Existe o corpo,

o eixo dos joelhos, as dobras,

a força teatral dos membros, o gosto acre,

o extremo silêncio,

as mão pendentes.

Existe o mundo,

as savanas e o iceberg,

as horas velozes, o falcão,

o crescimento secreto

das plantas, o repouso dos objetos

que envelhecem no uso, sem dor.

Existe o poema,

um dardo atirado a coisas mínimas,

à noite, às cicatrizes.

Um secreto amor os une,

as mãos na água, a memória do verão,

o poema ao sol.

Poema do livro Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011)

RELÓGIO

De que nos serviria

um relógio?

se lavamos as roupas brancas:

é dia

as roupas escuras:

é noite

se partes com a faca uma laranja

em duas:

dia

se abres com os dedos um figo

maduro:

noite

se derramamos água:

dia

se entornamos vinho:

noite

quando ouvimos o alarme da torradeira

ou a chaleira como um pequeno animal

que tentasse cantar:

dia

quando abrimos certos livros lentos

e os mantemos acesos

à custa de álcool, cigarros, silêncio:

noite

se adoçamos o chá:

dia

se não o adoçamos:

noite

se varremos a casa ou a enceramos:

dia

se nela passamos panos úmidos:

noite

se temos enxaquecas, eczemas, alergias:

dia

se temos febre, cólicas, inflamações:

noite

aspirinas, raio-x, exame de urina:

dia

ataduras, compressas, unguentos:

noite

se esquento em banho-maria o mel que cristalizou

ou uso limões para limpar os vidros:

dia

se depois de comer maçãs

guardo por capricho o papel roxo escuro:

noite

se bato claras em neve:

dia

se cozinho beterrabas grandes:

noite

se escrevemos a lápis em papel pautado:

dia

se dobramos as folhas ou as amassamos:

noite

(extensões e cimos:

dia

camadas e dobras:

noite)

se esqueces no forno um bolo

amarelo:

dia

se deixas a água fervendo

sozinha:

noite

se pela janela o mar está quieto

lerdo e engordurado

como uma poça de óleo:

dia

se está raivoso

espumando

como um cachorro hidrófobo:

noite

se um pinguim chega a Ipanema

e deitando-se na areia quente sente ferver

seu coração gelado:

dia

se uma baleia encalha na maré baixa

e morre pesada, escura,

como numa ópera, cantando:

noite

se desabotoas lentamente

tua camisa branca:

dia

se nos despimos com ânsia

criando em torno de nós um ardente círculo de panos:

noite

se um besouro verde brilhante bate repetidamente

contra o vidro:

dia

se uma abelha ronda a sala

desorientada pelo sexo:

noite

de que nos serviria

um relógio?

Poemas de O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015)

TRADUÇÃO

Este poema

em outra língua

seria outro poema

um relógio atrasado

que marca a hora certa

de algum outro lugar

uma criança que inventa

uma língua só para falar

com outra criança

uma casa de montanha

reconstruída sobre a praia

corroída pouco a pouco pela presença do mar

o importante é que

num determinado ponto

os poemas fiquem emparelhados

como em certos problemas de física

de velhos livros escolares

5 poemas da série “Cartografias”

E então você chegou

como quem deixa cair

sobre um mapa

esquecido aberto sobre a mesa

um pouco de café uma gota de mel

cinzas de cigarro

preenchendo

por descuido

um qualquer lugar até então

deserto

*

Você fez questão

de dobrar o mapa

de modo que nossas cidades

distantes uma da outra

exatos 1.720 km

fizessem subitamente

fronteira

*

Combinamos por fim de nos encontrar

na esquina das nossas ruas

que não se cruzam

*

Não sei viajar não tenho disposição não tenho coragem

mas posso esquecer uma laranja sobre o México

desenhar um veleiro sobre a Índia

pintar as ilhas de Cabo Verde uma a uma

como se fossem unhas

duplicar a África com um espelho

criar sobre o Atlântico um círculo de água

pousando sobre ele meu copo de cerveja

circunscrever a Islândia com meu anel de noivado

ou ocultar o Sri Lanka depositando sobre ele

uma moeda média

visitar os nomes das cidades

levar o mundo a passeio

por ruas conhecidas

abrir o mapa numa esquina, como se o consultasse

apenas para que tome

algum sol

*

Quando enfim

fechássemos o mapa

o mundo se dobraria sobre si mesmo

e o meio-dia

recostado sobre a meia-noite

iluminaria os lugares

mais secretos

É bom lembrar lembranças dos outros

como quem se oferece para carregar as compras de supermercado

de outra pessoa

é bom usar palavras que nunca usamos, palavras

que só conhecemos dos livros de botânica dos anúncios

de cruzeiros dos contratos de locação

é bom portanto usar palavras emprestadas

nem que seja para lembrar

que só temos palavras de segunda mão

é bom ficar de vez em quando para dormir

na casa de um amigo

usar uma velha camiseta dele habitar

alguns de seus hábitos

usar à noite se possível

um de seus sonhos recorrentes

é bom encontrar uma vez ou outra pessoas

que conhecemos na infância

é bom nos esforçarmos por um tempo

para parecer com a lembrança delas

é bom topar de repente com um tanto de areia

no bolso de uma calça jeans que há tempos não usamos

seguir as instruções do horóscopo de um signo

que rege um dia em que não nascemos

vestir-nos de acordo com a previsão do tempo

de uma cidade que nunca pensamos visitar

é bom ao menos uma vez na vida fazer uma viagem

em companhia de um parente morto

é bom escrever de vez em quando poemas

com viagens por dentro

com cidades e memórias de paisagens por dentro

que pareçam escritos

por outra pessoa

O passado anda atrás de nós

como os detetives os cobradores os ladrões

o futuro anda na frente

como as crianças os guias de montanha

os maratonistas melhores

do que nós

salvo engano o futuro não se imprime

como o passado nas pedras nos móveis no rosto

das pessoas que conhecemos

o passado ao contrário dos gatos

não se limpa a si mesmo

aos cães domesticados se ensina

a andar sempre atrás do dono

mas os cães o passado só aparentemente nos pertencem

pense em como do lodo primeiro surgiu esta poltrona este livro

este besouro este vulcão este despenhadeiro

à frente de nós à frente deles

corre o cão

O LIVRO DAS SEMELHANÇAS

O modo como o seu nome dito muito baixo pode ser confundido com a palavra xícara

e como ele esquenta de dentro para fora

o modo como a palma das suas mãos se parece com porcelana trincada

o modo como ao levantar-se você lembra um grande felino

mas ao caminhar já não se parece com um animal mas com uma máquina rápida

e de costas sempre me lembra um navio partindo

embora de frente nunca pareça um navio chegando

o modo como dita por você a palavra “sim” parece uma palavra

que fizesse o mesmo sentido em todas as línguas

o modo como dita por você a palavra “não” parece uma palavra

que você acabou de inventar

o parentesco entre as fotografias rasgadas os brinquedos esquecidos na chuva cartas

que deixamos de enviar produtos em liquidação frases escritas entre parênteses

papel de presente as toalhas que acabamos de usar e massa de pão

e, mais importante, o parentesco de tudo isso

com o modo como você chama o táxi por telefone

a camisa branca que você acabou de despir sempre me lembra um livro aberto ao sol

seus sapatos deixados na sala sempre me parecem ensaiar os primeiros passos de dança

numa versão musical para o cinema do seu livro preferido

o modo como no seu apartamento as coisas sempre parecem estar em casa

e você sempre parece estar de visita

e como você pede licença à penteadeira para chorar

o modo como as nossas conversas me lembram bilhetes interceptados cardápios de

restaurantes exóticos rótulos de bebidas fortes documentos comidos nas bordas

por filhotes de cão

o modo como os seus cabelos parecem as linhas de um livro lido por uma criança

que ainda não sabe ler

ou apenas desenhos que alguém por equívoco tomasse por escrita

o modo como os seus sonhos parecem os pensamentos de pessoas que sobreviveram

a um desastre de avião

parecem as lembranças de um ex-boxeador apaixonado

parecem os projetos de futuro de crianças muito pequenas

parecem os contos de fadas preferidos de ditadores sanguinários

os parentescos entre as guerras íntimas os jogos de armar as primeiras viagens sem

os pais os países coloridos de vermelho no mapa-múndi pessoas que sempre esquecem

as chaves as primeiras palavras ditas pela manhã e a disposição para usar a violência

o modo como apesar de tudo isso você não se parece com ninguém

a não ser talvez com certas coisas

similares a nada

Poemas do livro Duas janelas (com Marcos Siscar. Luna Parque, 2016)

Uma alegria haver línguas

que não entendo

delas foram varridas

as lembranças todas

nelas o sentido passa entre as palavras

como a luz entre as plantas

nelas é sempre a infância

balbucio, manhã, cachorros

nelas as núpcias de tudo

com tudo

se celebram

nelas tudo é ruído

doce, antigos barulhos

nelas não há

como na nossa

mortos por baixo

(ou antes há muitos

só não

os nossos)

nelas as palavras de amor

ainda crepitam

como madeiras novas

ando nas ruas entre as pessoas

que cantam (parece-me que cantam)

nessa língua que não entendo

parece-me que expressam claramente

a vida e a morte própria

e dos outros

ou que apenas gorjeiam

sibilam, silvam

ando nas ruas e é como uma conferência

de pássaros, pianos roucos

ando nas ruas e é como se lesse

às pressas

cartas em chamas

ando nas ruas pensando como é possível

tantas pessoas falando nada

em voz alta

quando me dirigem por equívoco

a palavra sorrio como se pedisse desculpas

depois fico tentada a correr atrás daquela pessoa

e devolver-lhe a palavra que ela deixou

cair por descuido

…………………………..

(En Tudo é poema)

A memória lê o dia
de trás para frente

acendo um poema em outro poema
como quem acende um cigarro no outro

que vestígio deixamos
do que não fizemos?
como os buracos funcionam?

somos cada vez mais jovens
nas fotografias

de trás para frente
a memória lê o dia

……………………………………..

(En Templo cultural Delfos)

Açucareiro
De amargo
basta
o amor

Agridoce,
ela disse

Mas a mim
pareceu
amargo
– Ana Martins Marques, em “Da arte das armadilhas”. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

§

Ainda é tarde…
Ainda é tarde
para saber
Ainda há facas
cruas demais para o corte

Ainda há música
no intervalo entre as canções

Escuta: 
é música ainda

Ainda há cinzas
por dizer
– Ana Martins Marques, em “O livro das dessemelhanças”. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

§

Barcos de papel
Os poemas em geral são feitos de palavras
no papel
seria melhor se fossem de pano
porque poderiam tomar chuva
ou de madeira
porque sustentariam uma casa
mas em geral são feitos de palavras
no papel
e por isso servem para poucas coisas
entre as quais não se encontra
tomar chuva
ou sustentar uma casa.

Dobrados sobre si mesmos,
lançam-se no mundo
com a coragem suicida
dos barcos de papel.
– Ana Martins Marques, em “A vida submarina”. Belo Horizonte: Scriptum, 2009.

§

Cadeira
I
Repetes
diariamente
os gestos
do primeiro homem
que se sentou
numa tarde quente
olhando as savanas

II
Pouso
de gigantescos pássaros
cansados
– Ana Martins Marques, em “Da arte das armadilhas”. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

§


Em branco

Dizem que Cézanne
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia.

É por isso
meu amor
que eu dedico a você
este poema

em branco.
– Ana Martins Marques, em “A vida submarina”. Belo Horizonte: Scriptum, 2009.

§ 

Esconderijo

Estas são palavras que eu não

deveria dizer

palavras que ninguém

deveria ouvir

que elas permanecessem no silêncio

de onde vêm

no fundo escuro da língua

cheio de doçura e ruídos

com o ranço informulado

dos segredos

por via das dúvidas escondi-as aqui

neste poema

onde ninguém as vai encontrar 

– Ana Martins Marques, em “O livro das dessemelhanças”. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

§

Fruteira
Quem se lembrou de pôr sobre a mesa
essas doces evidências
da morte?
– Ana Martins Marques, em “Da arte das armadilhas”. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

§


Leque
Contra o fundo da noite
desenha-se
a sua nudez
como um lápis

pele de
penumbra
poças de 
rosas quentes

luz diagonal
nos lençóis
de há pouco

e por fim
você se abre 
como um leque.
– Ana Martins Marques, em “A vida submarina”. Belo Horizonte: Scriptum, 2009.

§

Nome do autor
Impresso
como parece estranho
o mesmo nome
com que te chamam
– Ana Martins Marques, em “O livro das dessemelhanças”. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

§

O que eu sei?

Sei poucas coisas sei que ler

é uma coreografia

que concentrar-se é distrair-se

sei que primeiro se ama um nome sei

que o que se ama no amor é o nome do amor

sei poucas coisas esqueço rápido as coisas

que sei sei que esquecer é musical

sei que o que aprendi do mar não foi o mar

que só a morte ensina o que ela ensina

sei que é um mundo de medo de vizinhança

de sono de animais de medo

sei que as forças do convívio sobrevivem no tempo

apagando-se porém

sei que a desistência resiste

que esperar é violento

sei que a intimidade é o nome que se dá

a uma infinita distância

sei poucas coisas

– Ana Martins Marques, em “O livro das dessemelhanças”. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

§

Papel de arroz
Mira: 
as coisas construídas oscilam
numa frágil arquitetura
(os papéis cultivados
em campos
guardarão sempre a memória seca
dos dias alagados).
Também as palavras revelam somente o que escondem:
eis a solução de uma questão
delicada.
– Ana Martins Marques, em “A vida submarina”. Belo Horizonte: Scriptum, 2009.

§

Papel de seda

Houve um tempo em que se usava

nos livros

papel de seda para separar

as palavras e as imagens

receavam talvez que as palavras

pudessem ser tomadas pelos desenhos

que eram

receavam talvez que os desenhos 

pudessem ser entendidos como as palavras

que eram

receavam a comunhão universal

dos traços

receavam que as palavras e as imagens

não fossem vistas como rivais

que são

mas como iguais

que são

receavam o atrito entre texto

e ilustração

receavam que lêssemos tudo

os sulcos no papel e as pregas de saias

das mocinhas retratadas

as linhas da paisagem e o contorno das casas

eu receava rasgar o papel de seda

erótico como roupa íntima

– Ana Martins Marques, em “O livro das dessemelhanças”. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

§


Relâmpagos
Certas máquinas são feitas para o esquecimento.
Há dias em que sinto trabalharem em mim
as confusões do relâmpago.
Então coleciono letras, órbitas, radares.
A linha que me liga aos quadris dessa noite imensa
é a mesma que sai da garganta aberta do dia.
Vejo as estrelas desenharem-se em constelações,
sei muitas coisas rápidas, precisas,
por alguns instantes.
– Ana Martins Marques, em “A vida submarina”. Belo Horizonte: Scriptum, 2009.

§

Reparos
Algumas coisas
quando se quebram
são fáceis de consertar:
uma xícara lascada
uma estatueta de gesso
um sapato velho
uma receita que desanda
ou uma amizade arruinada.
Ainda que guardem
as marcas do remendo,
é possível que essas marcas
tenham um certo charme
como algumas cicatrizes.
Mas experimente consertar
um poema que estragou.
– Ana Martins Marques, em “A vida submarina”. Belo Horizonte: Scriptum, 2009.

§

Talheres

Colher

Se o sol nela

batesse

em cheio

por exemplo

numa mesa posta

no jardim

imediatamente se formaria

um pequeno lago

de luz

Garfo

Em três ramos

floresce

o metal

Faca

Sua fria elegância

não escamoteia

o fato:

é ela que melhor se presta

ao assassinato

– Ana Martins Marques, em “Da arte das armadilhas”. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

§

Título
Suspenso
sobre o livro
como um lustre
num teatro
– Ana Martins Marques, em “O livro das dessemelhanças”. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

§

………………………………………….

(En António Miranda. com)

  1.
         em pelos de bigode
         negros brancos.
         imita, em suíte.
         o avesso do atlântico.
         ele frequenta os extremos do dia.
         desperta a língua materna
         na ponta dos nervos:
         esta viva.
         ela se move com enganos.
         e à noite, com olhos de museu,
         observa observadores
         e ama imagens com
         cegueira sintática, com as mãos,
         as unhas em flores,
         habitando uma verdade de vidro
         soluçou dentro do vestido,
         em técnica água com açúcar,
         o canto das vigas em cálculo e cálcio
         é o ritmo do outro lado do mar,
         a língua-lâmina vai e volta
         sob os pelos do bigode:
         uma noite a noite aparece
         o vidro contra vapor, a hora do hálito,
         houvesse ali ela morado e alô
         com barulho de talheres
         seria a leitora de bigode branco
         postiço par irregular contradiz
         o impar, se ela personne personae.
         busca a porta em terceira pessoa.
         uma ana neutra, protegida
         em dicionário germânico,
         traz uma fortaleza cifrada.
         quem lê poemas expõe
         o dorso à intimidade da casa.

         por isso.

2.

         moro na cidade explicada
         em várias línguas,
         muitas delas não-latinas:
         não entendo a cidade
         na qual vivo, todavia.
         enquanto me banho
         ou quando os vizinhos
         têm sexo, as explicações
         da cidade, palavra por palavra,
         entram por um ouvido,
         saem por outro.
         o letreiro Roma 24 horas
         anuncia falanges á dúzia:
         Rômulo, Remo, por exemplo,
         gritam: “leite de loba” ou
         “hora da sopa”, desço
         banhado, a colher de prata
         no bolso do roupão bordado
         Immer der Sonne entgen.
         o bigode branco-preto reaparece,
         a corcova está maior e o esforço
         para ouvir o que ela lê em imagem
         permanece: se poema, borra de café ou
         as explicações da cidade onde moro.

…..

Espelho

Dentro do armário

do seu quarto de dormir

deve haver um espelho.

Se você sai

e deixa o armário aberto

durante todo o dia

o espelho reflete

um pedaço da sua cama

desfeita.

Se você sai

e deixa a porta fechada

durante todo o dia

o espelho reflete o escuro

do seu armário de roupas,

a luz contida dos vidros

de perfume.

Do outro lado do poema
não há nada.


Vaso

Moldar em torno do nada
uma forma
aberta e fechada.

Palavra por palavra
o poema circunscreve seu vazio.


Leque

Contra o fundo da noite
desenha-se
a sua nudez
como um lápis

pele de
penumbra
poças de
rosas quentes

luz diagonal
nos lençóis
de há pouco

e por fim
você se abre
como um leque.


Memória (I)

As unhas não guardam
marcas dos amores que,
delicadas, destroçaram.

Os olhos não retêm
a memória das imagens
indecifradas.

Com a lembrança pousada
na praia antiga de um beijo,
procuro
desatenta
traçar o mapa do desejo,
sua secreta geografia.

……………..

.

Noite adentro

Atado a um barco na noite
o sono curva-se sobre si mesmo,
entregue ao movimento secreto das ondas.
Durmo, acordo, vem dos livros fechados
o cheiro escuro dos sargaços.
Neste quarto, noite adentro, percebe-se
a presença perturbadora do mar:
nas estantes, nos tapetes, nos móveis submersos.
Nas paredes lisas de cansaço.
Sou jogada no sono de um sonho a outro,
lançada entre corais, como um peixe
que dorme na ressaca.
Quando for preciso novamente
acordar para o dia,
o mar terá se afastado lentamente
e voltado a ocupar o lugar
onde o vejo
pela janela esquerda do quarto.

PENÉLOPE

I

O que o dia tece,

a noite esquece.

O que o dia traça;

a noite esgarça.

De dia, tramas,

de noite, traças.

De dia, sedas,

de noite, perdas.

De dia, malhas,

de noite, falhas.

II

A trama do dia

na urdidura da noite

ou a trama da noite

na urdidura do dia

enquanto teço:

a fidelidade por um fio.

III

De dia dedais.

Na noite ninguém.

IV

E ela não disse

já não te pertenço

há muito entreguei meu coração ao sossego

enquanto seu coração balançava em viagem

enquanto eu me consumia

entre os panos da noite

você percorria distâncias insuspeitadas

corpos encantados de mulheres com cujas línguas

estranhas eu poderia tecer uma mortalha

da nossa língua comum.

E ela não disse

no início ainda pensei em você

primeiro como quem arde diante de uma fogueira

apenas extinta

depois como quem visita em lembrança a praia da infância

e então como quem recorda o amplo verão

e depois como quem esquece;

E ela também não disse

a solidão pode ter muitas formas,

tantas quantas são as terras estrangeiras,

e ela é sempre hospitaleira.

V

A viagem pela espera

é sem retorno.

Quantas vezes a noite teceu

a mortalha do dia.

quantas vezes o dia

desteceu sua mortalha?

Quantas vezes ensaiei o retorno —

o rito dos risos,

espelho tenro, cabelos trançados,

casa salgada, coração veloz?

A espera é a flor que eu consigo.

Água do mar, vinho tinto — o mesmo copo.

VI

E então se sentam

lado a lado

para que ela lhe narre

a odisseia da espera.

CAÇADA

E o que é o amor

senão a pressa

da presa

em prender-se?

A pressa

da presa

em

perder-se

COLEÇÃO

Colecionamos objetos

mas não o espaço

entre os objetos

fotos

mas não o tempo

entre as fotos

selos

mas não

viagens

lepidópteros

mas não

seu voo

garrafas

mas não

a memória da sede

discos

mas nunca

o pequeno intervalo de silêncio

entre duas canções

………………………..

(En Poesía Primata)

.

REGADOR

Num canto do jardim
onde alguém o esqueceu
pronto, ereto, o regador
aponta para o sol

embaraçadas por dentro
flores rápidas ou lentas
florem
findam

MITOLÓGICAS

Mortos em águas calmas
conservam os cabelos lisos
mortos em águas revoltas
os trazem encaracolados.
Eu, que morri de amor,
tenho os cabelos negros
pois morri em águas turvas
tenho os cabelos longos
pois morri em águas fundas
– sigo descabelada.


À BEIRA-MAR

Se eu vivesse
à beira-mar
teria
outra cor
outros cabelos
outras maneiras
de ferir-me
ou alegrar-me
me apartamento
meus sapatos
meus livros
minha boca
meus olhos
estariam cheios de areia
de céu de falésias
de gaivotas de água
eu me apaixonaria
por homens diferentes
e decerto aprenderia
a dançar
teria um senso de direção
mais apurado
gastaria meu dinheiro
com outras coisas
e as palavras
que eu usaria
seriam outras
talvez tivesse um altar
para anjos anfíbios
e obscuros deuses
do mar
talvez desse
festas
vestisse apenas
branco
gritasse com
os pássaros
talvez frequentasse
à tarde
a biblioteca municipal
teria outro ritmo
outro cheiro
outra velocidade
e pensaria no mar
de outro jeito
– eu perderia o mar
se o tivesse sempre por perto
como perco minhas canetas
meus guarda-chuvas meus isqueiros
essas coisas baratas
fáceis de encontrar?


I LIKE MY BODY

o meu corpo tão mais bonito
junto ao seu
músculos, pelos
meus seus cabelos
encostados nossos
joelhos juntos
densos, compactos
acidentes de ossos
nos seus braços
os meus braços
tão melhores
mãos encontradas
ao acaso das vértebras
um caminho
áspero, liso
pela pela
(sua língua
lenta
entre
entra)
o meu corpo tão mais bonito
junto ao seu
côncavas, iguais
nossas bocas
se recebem


DA ARTE DAS ARMADILHAS

O seu corpo para o meu:
seta,
precisamente

Inaudível
o mundo mudo
aciona o fecho
da flor

Há desilusão
mas não há
fuga

O caçador está
preso à presa

…………….

SEGUNDO POEMA
para Paulo Henriques Britto

Agora supostamente é mais fácil
o pior já passou; já começamos
basta manter a máquina girando
pregar os olhos do leitor na página

como botões numa camisa ou um peixe
preso ao anzol, arrastando consigo
a embarcação que é este livro
torcendo pra que ele não o deixe

pra isso só contamos com palavras
estas mesmas que usamos todo dia
como uma mesa um prego uma bacia

escada que depois deitamos fora
aqui elas são tudo o que nos resta
e só com elas contamos agora

POEMAS REUNIDOS

Sempre gostei dos livros
chamados poemas reunidos
pela ideia de festa ou de quermesse
como se os poemas se encontrassem
como parentes distantes
um pouco entediados
em volta de uma mesa
como ex-colegas de colégio
como amigas antigas para jogar cartas
como combatentes
numa arena
galos de briga
cavalos de corrida ou
boxeadores num ringue
como ministros de estado
numa cúpula
ou escolares em excursão
como amantes secretos
num quarto de hotel
às seis da tarde
enquanto sem alegria apagam-se as flores do papel de parede

Não sei viajar não tenho disposição não tenho coragem

mas posso esquecer uma laranja sobre o México
desenhar um veleiro sobre a Índia
pintar as ilhas de Cabo Verde uma a uma
como se fossem unhas
duplicar a África como um espelho
criar sobre o Atlântico um círculo de água
pousando sobre ele meu copo de cerveja
circunscrever a Islândia com meu anel de noivado
ou ocultas o Sri Lanka depositando sobre ele
uma moeda média
visitar os nomes das cidades
levar o mundo a passeio
por ruas conhecidas
abrir o mapa numa esquina, como se o consultasse
apenas para que tome
algum sol

Abro o mapa na chuva
para ver
pouco a pouco
diluírem-se as fronteiras
as cidades borradas
diminuem de distância
as cores confundidas
nem parecem mais aleatórias
perderam aquele modo abrupto
com que as cores mudam nos mapas
agora há um grande lago
onde antes havia uma cordilheira
o mar não é mais molhado
do que o deserto logo ao lado

Deixo depois o mapa
para secar ao sol
sobre a grama do jardim
mais rápidas do que aviões
as formigas atravessam
de um continente a outro
uma lagarta riscada
apossou-se das Coreias
agora unificadas
um tapate de folhas
cobre o mar Egeu
e o rastro de uma lesma umedeceu
o Atacama
uma formiga enamorou-se
de um vulcão
exatamente do seu tamanho
um dos polos
ficou à sombra
e resfriou-se mais que o outro
de longe não sei se são moscas
ou os nomes das cidades

Penso que se deixasse o mapa aí
tempo o bastante
em algum momento surgiria
quem sabe
um pequeno inseto novo
com esse dom que têm os bichos
e as pedras e as flores e as folhas
de imitarem-se
uns aos outros
um pequeno inseto novo
eu dizia
um novo besouro talvez
que trouxesse desenhado nas costas
o arquipélago de Cabo Verde
ou as linhas finas das fronteiras
entre a Argélia e a Tunísia

6

Perder a cabeça
e então buscá-la
nos últimos lugares
onde esteve
dentro da touca
de banho
sobre o travesseiro
entre os joelhos
entre as mãos
na casa demolida
da infância
sobre suas coxas
mornas
ainda

9

Esperar horas a fio
e então desvencilhar-se
das coisas tecidas na espera
dos ponteiros do relógio
cada um mais lento que o outro
dos pelo menos dez cigarros
das poltronas de mogno
uma delas
vazia

Estou no dia de hoje como num cavalo
você está nas suas roupas como num navio
estamos na cidade como num teatro numa floresta na água
a tarde de terça é uma feira de bairro
nos encontramos quase por descuido
à mesa do café com sua toalha xadrez
de frente para o cinema contínuo do mar
no vagão deste mês setembro sereia sinuosa
era quente o dia era o equívoco das estações
era a música pequena da memória
estou no dia de hoje como num casaco largo demais
estou no país desta tarde estudei
na escola do enfado
você dobra a tarde como as mangas
da sua camisa branca
você desdobra a tarde como um guardanapo
lançado ao colo
você conhece os modos no que se refere às tarde
você sabe usar
os talheres da tarde
estou desconfortável no meu nome estou
na antessala do amor estou na estação
da espera queria distrair a morte
você conhece muitas coisas você sabe falar
sobre as coisas como esses bichos que conhecem
desde sempre as rotas ancestrais
como os pássaros que trazem impressos no corpo
os mapas migratórios você conhece a língua do amor
que eu soletro tão mal

(En O Ninho ea Tempestade)

ÍCARO

Somos os dois

Incompatíveis

como a cera

e o sol

e no entanto

parecemo-nos

como se parecem

o açúcar e o sal

devemos

porém

deixar

de insistir

pois se até

Ícaro

caiu

em si.

MÃOS

Uma trabalha mais que a outra.

Dividem o peso dos anéis.

Uma nunca aprendeu a escrever.

Com isso a outra tornou-se mais silenciosa,

mais firme, mais acostumada ao adeus.

Em alguns gestos entram as duas

numa mesma coreografia

como quando é necessário contar algo

mais que cinco.

Aceitam as manchas dos anos

como solteironas

que envelhecem juntas.

(En Desafiando o silencio)

Tenho quebrado copos
é o que tenho feito
raramente me machuco embora uma vez sim
uma vez quebrei um copo com as mãos
era frágil demais foi o que pensei
era feito para quebrar-se foi o que pensei
e não: eu fui feita para quebrar
em geral eles apenas se espatifam
na pia entre a louça branca e os talheres
(esses não quebram nunca) ou no chão
espalhando-se então com um baque luminoso
tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar
tenho embrulhado os cacos com jornal
para que ninguém se machuque
como minha mãe me ensinou
como se fosse mesmo possível
evitar os cortes
(mas que não seja eu a ferir)
tenho andado a tentar
não me ferir e não ferir os outros
enquanto esgoto o estoque de copos
mas não tenho quebrado minhas próprias mãos
golpeando os azulejos
não tenho passado a noite
deitada no chão de mármore
estudando as trocas de calor
não tenho mastigado o vidro
procurando separar na boca
o sabor do sangue o sabor do sabão
nem tenho feito uma oração
pelo destino variado
do que antes era um
e por minha força morre múltiplo
tenho quebrado copos
para isso parece deram-me mãos
tenho depois encontrado
cacos que não recolhi
e que identifico por um brilho súbito
no chão da cozinha de manhã
tenho andado com cuidado
com os olhos no chão
à procura de algo que brilhe
e tenho quebrado copos
é o que tenho feito

…………………

(En Brainly)

Esperar junto àqueles
que caíram em si
que caíram na risada
que caíram no ridículo
que caíram do cavalo
que caíram das nuvens
que a noite
caia

…………………

(En Tudo é Poema)

Pode ser que como as estrelas
as coisas estejam separadas
por pequenos intervalos de tempo
pode ser que as nossas mãos
de um dia para o outro
deixem de caber
umas dentro das outras
pode ser que no caminho para o cinema
eu perca uma de minhas ideias
preferidas
e pode ser
que já na volta
eu me tenha resignado
alegremente
a essa perda
pode ser
que o meu reflexo sujo
no vidro da lanchonete
seja uma imagem de mim
mais exata
do que esta fotografia
mais exata do que a lembrança
que tem de mim
uma antiga colega de colégio
mais exata do que a ideia
que eu mesma
agora tenho de mim
e portanto pode ser
que a moça cansada
de olhos tristes
que trabalha na lanchonete
tenha de mim uma imagem
mais fiel
do que qualquer outra pessoa
pode ser que um gesto
um jeito de dobrar os lábios
te devolva
subitamente
toda a infância
do mesmo modo que uma xícara
pode valer uma viagem
e uma cadeira
pode equivaler a uma cidade
mas um cachorro estirado ao sol não é o sol
e uma quarta-feira não pode ser o mesmo
que uma vida inteira
pode ser
meu querido
que esquecendo em sua cama
meu brinco esquerdo
eu te obrigue mais tarde
a pensar em mim
ao menos por um momento
ao recolher o pequeno círculo
de prata
cujo peso
frio
você agora sente nas mãos
como se fosse
(mas ó tão inexato)
o meu amor

a propósito de GRAMO STENDHAL, de María Lado, Apiario.

POESÍA DE PROXIMIDADE

Título: Gramo Stendhal

Autora: María Lado

Editorial: Apiario

A poesía, que noutros tempos señoreaba as letras galegas, pasou a ser un xénero minoritario, e a xente que le poesía pasou a ser considerada como entes raros e sesudos, capaces de gozar de textos tan crípticos como os da poesía actual, textos difíciles de decodificar e por iso esa consideración, que tamén se estende ás/aos poetas. Esta creo que é unha visión xeral bastante acaída. E bastante falsa. Moi falsa. Porque a xente, inclusive en idade escolar, si pode chegar a esa decodificación; e se hai que axudar en casos que o teñan difícil, pois para iso estamos. E logo, se na autoría está María Lado con poemarios como este Gramo Stendhal…a afirmación inicial vólvese absolutamente risíbel. Non hai moito, nestas páxinas da Ferradura II, falabamos da presentación en papel da sociedade Aldaolado, verdadeiras especialistas en transmitir poesía de xeito descontraído, con chiscadelas de ironía e ben humor. Agora, unha das integrantes dese dúo, María Lado (a outra é Lucía Aldao, como todos sabemos), entréganos un título en solitario. Visto o visto, a sede de poesía non nos dá paradura deica que abramos libro.

                     Porén, o primeiro que encontramos é o título, Gramo Stendhal, que parece indicar un poemario máis ben abeirado ao cultismo. E non é así. Stendhal, o esritor francés, é fundamentalmente valorizado pola agudeza na caracterización psicolóxica das personaxes que utilizou. E, neste sentido, ese “gramo” debe indicarnos a predisposición á hora de encarar a introspección propia da poesía lírica, tanto da voz poética coma do “ti”, in paesentia ou in absentia, ao que se dirixe dita voz poética. A predisposición ou o resultado da devandita introspección.Non deixando de preguntarnos se en realidade é posíbel afondar máis que ese “gramo”, pois vivimos tempos nos que  parece que a capacidade de análise ve reducido o seu ámbito de proxección…toda vez que a realidade se tornou tan variada e confusa que calquera especulación sobre ela ten que ser, como mínimo, tomada con moita prudencia e mesmo certa desconfianza.

                     Ben. Isto é así deica que entran en escena as Aldaolado. Ou, neste caso, María Lado.

                     Porque a poesía de María Lado neste Gramo Stendhal caracterízase primeiramente por ser moi  asequíbel a calquera que colla o poemario entre as mans. O coloquialismo que impregna a lingua utilizada, así o anuncia e así o demostra. Para escribir poesía non é imprescindíbel crear textos de difícil lectura.

                     Perecisamente por iso da decodifación, escuros e, seica, trascendentes. Non, precisamente esta poesía de María Lado vén demostrar presisamente o contrario. Trátase dun tipo de poesía que non só é necesario, senón imprescindíbel. Lava a cara da poesía e devólvenos un discurso que, desde o coloquialismo (ben medido, ollo, porque sempre é utilizado con mesura e oportunidade) logra textos nos cales o ton confidencial, desde o inicio, acompaña a lectura como dándonos a man, sen chegar nunca a un nivel de desenfado tal que minusvalorice ou banalice os temas a tratar extraéndoos dun clima superficial. Porque eses temas non dixan de ser, serios, ben serios. Velaí, por sinal sexa dito, a infancia invocada (non exactamente como paraíso perdido) senón como presenza que non se ve e está aí, formando parte de nós. Velaí a revisitación da casa (ese tema tan presente ultimamente) e os mobles antigos. Velaí a mocidade e o medo á morte, ou a frustración vital . Velaí o medo ao futuro, desde un presente problemático. Velaí o desengano, a culpa, o arrrepentimento, o sexo como agarradeira á vida. Velaí a condición efémera da poesía. Velaí a poesía como pregunta.  Ou a soidade. Como adiantamos, dito sexa por sinal.

                     Porque é unha poesía escrita desde o coloquialismo, con algo de desenfado (com dixemos, ben mesurado), mais non deixa de ser poesía que trata temas serios. Trata temas serios e non polo dito teñen que ser menos fondos no seu tratamento. Todo o contrario. Agradécese esta tipo de poesía porque hai que ter en conta que o exceso de introspección (propio da poesía “seria”) pode levar precisamente a desatender o que fica na tona e que por iso, por estar tan visíbel, non reparamos nel.

                     Velaí que a min me guste chamarlle a esta poesía, para que está tan ben dotada María Lado, poesía de proximidade, pois sen renunciar a tratar temas altos e graves, nos conduce por unha lectura poética de man amiga, de voz confidente, unha lectura de convite, coma se detrás da chsicadela de ollos nos prometera acceso a un mundo curioso e interesante, sen por iso deixar de ser dramático cando cómpre. Sen dúbida, unha proposta poética máis que interesante. Unha forma de democratizar o acceso á poesía, na medida de beleza que é quen de nos achegar.

ASDO.: Xosé M. Eyré

breves apuntamentos sobre a poética de Chus Pato a propósito da reedición de m-Talá

Título: m-Talá (edición do vixésimo aniversario)

Autora: Chus Pato

Editorial: Euseino?

 Anuncia Euseino? A publicación da obra completa de Chus Pato, ocasión impagábel para revisitar a poesía e poética dunha das autoras fundamentais da nosa poesía. E o primeiro título é este m-Talá. Co gallo do vixésimo aniverdsario da súa publicación, Carlos Lema preparou esta deliciosa e completa edición dun dos poemarios claves na nosa historia poética. A poesía de Chus non é doada de ler; nin tampouco de escribir, moi seguramente. A primeira vez que tiven diante os poemas de Chus Pato, aínda inéditos, aínda poeta inédita, pensei: “porque esta muller agacha o eu lírico tras tantas e variadas imaxes?”. Non lembro se llo dixen, porque o certo é que naqueles poemas existía un magnetismo que te levaba a contínuas relecturas; dixen magnetismo, e mellor diría que producían un fascinio que conducía a un lirismo até entón descoñecido. Si, fascinio, porque fascinio é unha palabra moi da Chus. De todo isto extraíase que a poética de Chus asentaba sobre un CRIPTICISMO que esixía lecturas activas, colaborativas, que se internaran por entre aquel vizoso labirinto de imaxes tan variadas e de procedencias dispares, aínda que nos primeiros títulos a preferencia pola historia (tamén da arte) parecían nuclear un proxecto poético no cal a topo-grafía parecía conducir a unha poesía pura, pura no sentido de exenta de figuras que viñan caracterizando a lírica. A única figura observábel directamente era a imaxe; e despois, quen quixer, podería xogar a ver símbolos, símbolos moi abstractos e tamén por iso moi perigosos.

                     Ora ben, por tras dese cripticismo achábase tamén a imposibilidade da palabra para comunicar, algo do que se queixou reiteradamento nos seus poemarios, que caracterizou a súa escrita e que tamén integraría a poética doutr@s autores e autoras. Sendo que a palabra é o instrumento máis efectivo para comunicarnos, isto pode chocar coa mentalidade lectora e xerar unha incomprensión que, curiosamente, ela quería precisamente inocular nos seus textos, pois o mundo interior, o mundo froito dunha capacidade de observación tan aguda como rica en matices e fonda e dispersa en canto ao alcance (pois procede, nace a partir dun universo cultural ao que nada lle é alleo), ese mundo interior tan intenso non é precisamente doado de comunicar, pois hai nel, a meu xuízo, tantas preguntas sen resposta como con respostas ambiguas e por suposto tamén certas realidades-respostas ás cumpría/cómpre achar a pregunta ou orixe. En resumo, a realidade (concreta, abstracta) non é doade comprender, e moito menos de transmitir o estrañamento que produce. Estrañamento, outra palabra clave non só para explicar a posición da poeta perante a realidade eperante o dicurso. E tamén porque é outra estratexia literaria (non só poética) que máis caracteriza a literatura actual.

                      O método para pegar un pinchacarneiro que solventase esta problemática estivo fundamentalmente na naucleación temática dos textos, mais aínda así para ela os resultados semellaron non ser óptimos, a inacpacidade da palabra era a incapacidade de poesía/lírica para acadar os resultados que ela procuraba. Era a súa unha poesía nada doada de decodificar, mais tamén unha poesía de altísima calidade. E lembroume moi axiña a poesía de Manuel Antonio, era unha poética moi manuelantoniana, e (dando por suposta a incontestábel infuencia ferriniana, pois é Ferrín non só poeta que admira senón tamén fonte de onde mana a súa poética, non hai máis que lembrar o nome deste poemario ou uso antroponímico nos seus  poemas, disto isto por sinal, que esa influencia é moito máis complexa) tamén, tamén a súa poesía deixaba pousos de certas vangardas, non todas, mais o creacionismo e o cubismo estaban aí, están aí, como referentes claros e irrenunciábeis da súa poesía. O creacionismo desde a necesidade de crear, non de reproducir; o cubismo desde a posibilidade de adoptar puntos de vista diferentes á hora de ocnstruír un texto único.

                     Deste xeito, m-Talá, hai que entendelo como unha tentativa por destruír a lírica tal como tradicionalmente se viña entendendo. O uso de recursos xenéricos alleos á poesía, tantos e tan variados, hai que entendelo nesa dirección. E tamén como estratexia, xa non para crear poesía senón para que quen le acceda á poesía por si mesm@ a partir dos textos que a poeta dispón para tal efecto, o cal non deixa de ser unha estratexia hoxe moi de boa parte da poesía actual e que hai que ter en conta á hora de establecer o seu legado poético. A propósito disto tamén hai que parabenizar a excelente edición feita por Carlos Lema, que nos permite observar con clareza o ritmo discursivo precisamente naqueles casos onde Chus máis rachaba o que viña sendo o instrumento definitorio da poesía máis fiábel, unha vez que a rima e o cómputo silábico deixaran de ser isignias poéticas…o ritmo, referímonos ao ritmo. Mais non se trataba de destruír por destruír, dinamitar sen outro propósito que a destrución. Nin tampouco era unha descrenza absoluta na poesía. De feito, o poemario non se consome aí, senón que remata con poemas, non poemas convencionais mais si máis recoñecíbeis como textos poéticos dentro da vangarda actual máis pura.

                     Era un toque de atención, unha subversión, rebeldía no mellor sentido da palabra.

                      Un inciso. A propósito de todo isto convén lembran o Unicornio de cenouras que calagas os sábados (1994) do  grupo Ronseltz, que, a partir fundamentalmente da ironía pretendía a ruptura co discurso lírico herdado. Non. Non cómpre esquecelo pois o propósito viña sendo moi semlleante. Por outra parte tamén é necesario, polo menos a min parécemo, establecer correspondencias entre o discurso poético de Chus Pato e Xabier Cordal. Non creo que sexa agora o momento de facelo, pois teño outro propósito detrás destas liñas, mais si creo que vai sendo hora de reparar nel.

                     Volvendo ao rego, volvendo á poética de Chus Pato, e na dirección que imos, e de resultas do que xa indicamos, na miña opinión a poesía de Chus é maioritariamente unha poesía de fricción. En m-Talá percíbese xa desde o uso de recursos extra-poéticos, extra-xenéricos, para indicar a quen le o camiño da poesía, do contido poético. Esa fricción xenérica é síntoma doutra fricción que na súa poesía ten unha importancia absoluta, pois é un concepto sen o cal non se pode entender cabalmente a poesía de Chus. Refírome á ÉTICA no sentido máis amplo posíbel, tanto que tentado estiven de escribir “éticas” pois a ÉTICA ten diferentes manifestacións igual que a vida ten tamén diferentes manifestacións. Non se trata dun concepto que só atinxe á moral, senón dun compromiso vital coa xustiza e equidade no día a día, desde o ámbito político (imprescindíbel), ao cultural, linguístico, histórico (somos froito da historia) e tamén persoal. Dito sexa, por sinal, que as manifestacións vitais son moitas. Precisamente a observación da realidade e o sentido ético da autora, cando entran en fricción, desencadean a xa comentada desconfianza na palabra como instrumento de comunicación, e, neste poemario moi concretamente: a imposibilidade da poesía para dar conta do contido poético que Chus pretende comunicar, e para o cal se ve obrigada a trascender, a trnasgredir as fronteiras xenéricas. A este tipo de poesía tenlle chamado poesía mutante, e non cabe dúbida de que é unha poesía que camiña no gume da navalla.

                     Cando se di que algo camiña no gume da navalla é adoito frecuente entender que se trata dun camiñar sobre o abismo. E é certo que a noción de abismo está moi presente na poesía de Chus. De feito, os seus poemas parecen abismos nos cales quen le debe mergullarse para chegar á poesía, ou ás poesías porque no mesmo texto poético pode haber varias. Non o nego. Mais na miña opinión o concepto de abismo aplicado á súa poesía desencadea algo fundamental para entender os seus textos: o labirinto; pois, efectivamente os seus poemas, sobre todo os máis longos son auténticos labirintos balizados pola poeta para que quen le chegue á poesía.

                     m-Talá, foi publicado no 2000, encetando un novo século, porén seguramente foi escrito con anterioridade. Como tamén é difícil considera a Chus Pato unha poeta dos 90, xa que a súa poesía fora escrita con anterioridade.

                     De todos os xeitos, esta oportunidade que nos brinda Euseino? coa edición da obra completa, é unha magnífica ocasión para ler en conxunto a súa poesía, ademais de posibilitar o acceso a algúns poemarios xa difíciles de atopar.

ASDO.: Xosé M. Eyré

Bianca Gonçalves, a poesía da conciencia…

Han de perdoar a ousadía, que este home branco e deste outro lado do Atlántico queira comezar esta presentación da poesía de Binaca Gonçalves afirmando que @  poeta negr@, cando é consciente das circunstancias que rodean o seu mundo, NUNCA É LIBRE. Terríbel afirmación. Mais creo firmemente nela. Pois sendo así, a necesidade de autoafirmación na súa negritude, a necesidade de loita contra o racismo, impóñense como temática preeminente, apremiante, primordial…e, polo tanto esa necesidade impugna toda liberdade. E máis se se é muller negra. E máis se se vitalmente non se pratica a ortodoxia social.

Non pode haber liberdade de expresión se existe racismo.

Non pode haber liberdade de expresión se o machismo devora todo.

 Obviamente, esta apreciación non só é válida na poesía actual, tamén o foi  históricamente.

Mais, aínda así, a poesía negra consegue tocar otros temas! De certo que si! Créana human@s, que como tales teñen múltiples necesidades comunicativas. Que como tales necesitan múltiples válvulas de escape (en palabras da propia Bianca Gonçalves). E con todo, isto non invalida a niña apreciación inicial senón que explica o contexto. Precisan crear certa normalidade nun contexto humano (racismo) anormal.

Polo momento Bianca Gonçalves ( Saão Paulo, 1992) é autora de un só título: Como se pesassem mil atlânticos (Urutau, 2019). E, sendo poeta tan nova e autora de un único título, o seu é un dos nomes que últimamente máis chararon atención, máis conmoveron o mundo poético e literario brasileiro. Sen dúbida estamos vivindo o espertar, o nacemento de un nome que dará moito que falar na literatura brasileira, e non só na poesía, pois a poesía non encerra todas as súas inquietudes comunicativas. Mais estamos aquí para presentar a súa poesía, e a iso nos diriximos. Agardamos con impaciencia un novo poemario seu, na certeza de será aínda máis rico.

Polo momento podo dicirlles que a poesía de Bianca non responde á típica ilumincaión que nace instantáneamente cando as condición contextuais lle inspiran un determinado texto. Ou si. Ese instante de revelación existe, aí nace o poema mais non é o poema. O poema constrúese despois ao longo de períodos temporarios variábeis. Poden ser días, poden ser semanas, pode inclusive que sexa máis tempo. E isto indícanos que a súa é a unha poesía fondamente meditada. Fondamente meditada tanto no seu contido como na súa forma. E isto é importante porque indica que é unha poesía da conciencia, o sentir da conciencia, non pirotecnia espectacular, fogonazo da brevidade puntual. E isto é importante porque indica que as súas poesías, formalmente falando, son textos moi traballados; son textos moi traballados nos que ten especial importancia o aspecto oral, a sonoridade da lingua que emprega.

“eu canto porque o instante existe

e minha vida está completa

não sou alegre e nem triste

sou poeta”

Lembren estes versos de Cecília Meireles, que serían tan importantes para Bianca, porque definen unha forma de estar na vida, unha forma de concebir a vida, unha forma de concebir a poesía.

Como poeta novísima que é, exprésase non só en libro senón que utiliza todas as plataformas que se lle ofrecen. Máis nomes importantes de poetas importantes para Bianca: Angélica Freitas, Paulo Leminski, José Paulo Paes, Ana Cristina César, Ledusha ou Alice Ruiz.

Este é o seu blog, bitácora que ofrece lecturas sumamente interesantes.

Este é o seu Instagram, acharán poesía nel.

Este é o seu Facebook por se queren seguila.

E agora vai a pequena selecta que elaboramos.

(En Ruido Manifesto)

segunda onda

com as feministas

que lutavam contra a ditadura

aprendemos

mas fazer pacto suicida com o companheiro

é pouco feminista

daí fomos morar juntas

e o pessoal de casa finalmente ficou político

*

natal 2018

todos os olhos dos convivas voltaram-se à ana

antes que fosse tarde

e a atravessassem uma bala

ana chamou à casa

demolição

com todos os convidados

incluindo a avó fazendo bordado

duas galinhas num cercado

*

ancestralidade

catação de pelos no queixo

seja com a pinça ou com os

próprios dedos

é a prática mais antiga

das mulheres de casa

analógicas experientes

recolhem pela ponta

dos pelos

desencravam com

finíssimas unhas

outras investem

em pinças

e se contorcem

diante do espelho

as mais velhas andam

pelos corredores

na eterna catação

inclusive eu mesma

enquanto escrevo

a dissertação

me flagro no

gesto ancestral

de dedos que se

encontram com o

queixo

talvez para evitar

na próxima visita

minha vó que sempre

bulia com a barba

das meninas

o que explica

o fato da

mais nova

da família

ter inaugurado

uma franquia

de clínica de depilação

………………………

(En Literatura Br)

necropolítica

escrever um poema a um homem
antes que o levem

antes que ele se perca numa
estrada vazia antes
que ele desista
de sua própria vida

escrever um poema a um homem
antes que o joguem água fria
ácidos ou gás antes
que em praça pública
depositem sua cabeça
numa bacia

escrever um poema a um homem
escrito em caneta rosa
com ponta fina
um poema que toque
e o faça tocar
cada parte
da sua estrutura
física

um poema que reduza a estatística
e que meu amor
traduz

antes que seja tarde
antes que o deus deles
apague a luz

………………………………

(En Mulheres que escevem)

NÃO BEBO CAFÉ

nos encontramos antes
da benção do chiste
graças aos nossos
largos passos
fugimos daquele script
mas eu ainda perguntava
da piada que não entendi

nós duas juntas
dava um filme:
two girls and one cup
of tea.

fitava cismada
aquela caixa
coisa
que só homens
podiam tocar
ficava estático
decorativo
na sala de jantar
não sabia objetivo
mas queria por
minha boca lá
~
meu pai dizia
que gaita é
coisa muito
íntima
pigarro
cigarro
saliva
de três gerações
da família
e também
o movimento
sugeria
com o formato
ginogeometria
provavelmente
não me toleraria
me restando
dessa forma
o apito
do palito
que sobrava
no final
do pirulito
~ ~
ah se eu
voltasse
aos tempos
de menina
eu refaria
meus idos
tocando
ocarina.

ENTRE PAUL GILROY E O RAP QUE NÃO FIZEMOS

uma cama que boia atravessa o atlântico
uma cama — ainda boia
mesmo com nossos corpos
ainda que encharcados
de tanto gozo

meu corpo de mulher é uma ilha:
uma parte se descolou de algum lugar dos trópicos
e a outra daquela maldita península
formando aquilo que julgam alguns dos nossos
ser porção indigna e corrompida

mas teu corpo de homem também é uma ilha
cujas partes unidas são minhas reconhecidas
também são minhas as tuas ruínas

à deriva trocávamos entre memórias e amassos
ânsias maltrapilhas
a despeito de qualquer alcunha
dada aos nossos antepassados
(e também a despeito de qualquer imprópria fama
nosso peso bem comporta o lugar possível
de uma cama)
em terra firme eles se atracam e batem com força
papéis punhetas panelas e as próprias cabeças
enquanto nós — recolhidos — por mais ínfimo que seja
(e que a eles pareça)
matutamos correntes fugas: outra matéria
êxitos sem pensar no peso da pressa
vitória sem peso de miséria
triunfo sem usar conta-gotas

quer comigo fincar raízes
ou negociar rotas?

OUTRA QUADRILHA

hoje beijo João
com a mesma doçura
que beijei Maria
ontem à tarde
debaixo daquele pé de amora

ela
por sua vez
abraçou minha amiga

enfim
até parece
uma quadrilha correspondida

BEYONCÉ À MERCÊ

por que insisto tanto
se me faz tão mal?
rock it ’til waterfalls

……………………………………………………

(En Nó de Oito)

“levar a sério quem não conhece a revista Klaxon
prestar tributos a quem não diferencia Leste Europeu de Oriente Médio
criar uma lista de bons modos num churrasco – para cada lado da família
um romance em javanês

eu agilizava conversas mentalmente e herdava da minha vó
essa angústia de quem tem filha desaparecida
de rezar em voz semi-baixa enquanto estendia
roupas no varal
(na frente as calças e camisas
nunca as cuecas e calcinhas)

apesar da reza agora ser outra
(algo entre T. Morrison e G. Stein
excertos de bell hooks
& poemas não-escritos)
o irremediável é sempre
senhora vestida de saia e tamanco caro
às sete da manhã e doutrinas

de como eu devo ser doce
corpo fechado
corpo limpo

mulher nova ordem mundial”

……………………………..

(Na Mallamargens)

duas meninas 

acho bonito o traço dos desenhos algures
e lamento por não conhecer tua filha

colo no quarto o que resta
     memorabília
e lamento por não conhecer tua filha

naquele dia eu lembro
vi você de barriga
florida e de brincos
uma sandália de tecido
de sombrinha da china
e lamento por não conhecer tua filha

tarde demais e a cabeça já feita
perdoou a si mesma por ultrapassar
a linha:  a via quatro não te pega
nos braços nem dá colo
nem peito

mas você sim

e se vissem nós três juntas
perguntariam qual das duas
é de fato
tua menina





fim do mundo


quando M. deixou de odiar as formas de vida que não eram ele
um buraco se abriu
entre suas pernas
pronto, aquí

a propósito de ZONA A DEFENDER. A ESPERANZA INDÓCIL, de Manuel Rivas, en Xerais.

ESPERANZA DE REVOLUCIÓN, A REVOLUCIÓN DA ESPERANZA

Título: Zona a defender. A esperanza indócil.

Autor: Manuel Rivas

Editorial: Xerais

O mundo anda escaso de revolucións. O Gran Poder, desde a Revolución Industrial o Gran Poder Capitalista, sempre controlou os surtos revolucionarios, minimizando o seu impacto, converténdoos en algo oacsional e concreto que o tempo devora, mesmo facendo deles pouco menos que unha “noticia festiva”. Algúns aínda lembramos o Maio do 68 e as doses de esperanza que nos inoculou, na procura de que a sociedade podía ser máis xusta e igualitaria, un mundo mellor. Todos sabemos como rematou a cousa. Hoxe, despois da caída do Muro de Berlín, o capitalismo adoptou a súa cara máis feroz e destrutiva, e non parece, non hai indicios de que pare. Nin sequera nesta situación de pandemia mundial que é a covid-19. Todo o contrario, enrócase e faise máis salvaxe aínda.

                     Porque toda revolución ten que ser anticapitalista, non hai outra. O ser humano ten que reaccionar contra un sistema que o cousifica, que o robotiza, que o humilla, que o despreza facendo del man de obra barata (cada vez máis) e consumidor compulsivo á vez (cada vez máis, tamén). Neste contexto, a única revolución que o Gran Poder Capitalista aínda non deu domeado é a revolución feminista que, con máis convicción nuns países ca noutros (ou nuns continentes ca noutros) vai avanzando a paso firme, convencidamente. Manuel Rivas, adiantamos, tamén se manifesta a prol desta revolución, tamén moi convencidamente.

                     Porén, imos ir pouco a pouco, e permítanme sinalar que abrir un libro atopar palabras decoro, honra, honestidade, dignidade, decencia ou utopía, é xa unha razón para collermos este novo libro de Manuel Rivas e para lelo con suma atención, mesmo con degoro, coa cobiza, co devezo que prende en cós o olor a herba fresca (imaxe que tamén ua Manuel Rivas). Si, porque son palabras practicamente desaparecidas tanto no discurso político, como no xornalístico e mesmo me atrevería a dicir que non vivien o mellor momento no literario.

                     O volume preséntase estruturado en tres partes. A primeira é o manifesto  A esperanza indócil. Manifesto Mayday. Reparemos noutra palabra: esperanza. Estando as cousas como están, sendo cada vez máis reféns do capitalismo salvaxe (Manuel Rivas chámalle capitalismo impaciente), aínda hai lugar para a esperanza. Neste apartado, Manuel Rivas vai expoñendo os peares imprescindíbeis para unha revolución que remate co capitalismo. Permítanme que me deteña nos seus pormenores, non o farei nos dous seguintes capítulos e non porque sexan menos importantes senón porque o terceiro é unha colectánea de pensamentos breves, entre o aforismo, a poesía (e aquí nótolle certa sombra fértil de Dieste), o xornalismo comprometido e mesmo algo de filosofía; e o segundo apartado son uns textos en formato xornalístico (algúns deles xapublicados en El País Semanal) que tampouco son nada doados de reducir ou xeneralizar nun comentario breve; faremos o que poidamos, mais deste primeiro capítulo quero expoñerlles, punto por punto, o contido do manifesto porque o considero fundmamental:

                     Comeza refíndose á “angustia planetaria” como froito das inseguridades en que vivimos, as vulnerabilidades máis urxentes (a carreira armamentística, a pobreza infantil, a “civilización do lixo”-permítanme esta expresión-, o machismo, a extición do xornalismo comprometido-exemplificado na figura de Julian Assange- ou o espolio incesante e ríos e terra -ao mar xa se refira falando da “civilización do lixo). E despois comeza a explicar aqueles puntos que defende, comezando por unha internacional en código Mayday  ( é dicir, unha internacional en constante estado de revisión e creación que anuleos efectos do Gran Poder), lembranzo ao efecto o pensamento indíxena de Ailton Krenak, a voz dos indíxenas brasileiros. Logo, defendendo a posibilidade, critica resiganción, iso que nos anula a esperanza. Cre, a así o expresa, no ser humano, na humanidade que se rebela e pon fin ao intereseiro eloxio da servidume: as persoas competentes non compiten, só compiten as incompetentes; reclam aos espazos da biodiversidade como lugares a compartir. Logo defende unha república de iguais, a “corruptura” (así no orixinal) por unha sociedade de “común decencia” (así no orixinal), criticando a monarquía feudalista que vivimos e reclam ao benestar mental (salientado meu), imposóibel na avalancha diaria de dolor. Defende tamén unha sociedade solidaria, e aliás, que sexa unha sociedade imaxinativa nas súas protestas e reivindicacións, que active unha nova linguaxe  imaxinativa contra a política do dano. Defende o humor, o humor como arma contra o dogmatismo. Defende  un feminsimo que emancipe as mulleres e libere os homes do “histerismo masculino” (así no orixinal), pois, recollemos literalmente” o que máis desequilibra o pensamento reaccionario é o feminismo que vai á raíz”. Defende o libro, defende a cultura, como autocoñecemento, como recoñecemento da relaidade como arma fronte á insensatez. Defende a autoconstrución, a ocupación dos lugares públicos abandonados, as feiras de venda autónoma, as verbenas de barrio, as salas de  cine, os redutos tabernícolas,e os garitos subterráneos de música en vivo; é dicir, a cultura en calquera manifestación. Reclama descolonizar a imaxinación (salientado meu, paréceme un concepto importantísimo). Defende a relocalización, a universalidade  dos lugares (non en van o concepto “zona a defender”, nacido e propagado desde Francia camiña en sentido universal), lembrando a Miguel Torga, e cito literalmente “o universal é o local sen paredes”. Defende a des-extinción, devolver á vida as especies extinguidas. Defende unha nova loita pola liberdade, fronte aos que queren impoñer a liberdade de ser servos. Defende a insurxencia poética, a linguaxe ao norte do futuro que dicía Celan. Defende a total prohibición armamentística cunha única excpeción: a risa. Defende o acordo interxeracional, a transmisión do saber de xeración en xeración. Defende a arte da escoita e o xornalismo como activismo democrático. Defende a democracia dos afectos, os libros demasiado longos e as películas demasido lentas (é dicir, a creación sen fronteiras, sen ataduras). Defende a arte de caer, como forma de aprender a erguerse. Defende pensar o impensábel, non debe haber fronteiras para o pensamento. E defende foder co futuro (isto non o vou aclarar, propositadamente…)

                     Este é contido, polo miúdo do Manifesto Mayday, compromiso social, ecolóxico e humano.

                     A continuaión vén a “Psicoxeografía dos ventos”, que contén “vento perigoso”, “vento nas pólas” e “vento indócil”. Como dixen, algúns textos xa viron a luz no dominical de El País, e o resto seguen o formato do artigo xornalístico, tratando temas que afortalan o manifesto anterior, desde unha perspectiva comprometida, culta, indómita, que sempre sorprende polo punto de vista adopatado ou por revelacións infrecuentes no  xornalismo de hoxe. Por sinal, comeza cun texto onde se fala dunha vaca rebelde (dunhas vacas rebeldes) com síntoma resistencia animal ao capitismo impaciente e voraz. Logo ocuparase do lixo no mar, das cazarías (varias veces), das abellas, das árbores, que como se ve son temas que teñen como denominador común o medio natural. Logo vén outra parte que comeza refríndose ao horror, reivindicando a figura de Simone Veil. E continuará con outro texto que ten como albo a cidade mexicana de Juárez, para falar do Inferno, do inferno social e até onde pode chegar. Despois ocúpase dos eufemismos cínicos (e volverao facer) e esa creación de anormalidades que o capitalismo impaciente fai pasar por “nova normalidade”. Tamén se aocupará no nefoascismo ou fascismo de segunda man, tan apegado ao antisemitismo. En “vento nas pólas” escribe sobre as app, sobre a lectura e os móbiles, sobre o xornalismo da mentira, da maldade, das fake news, sobre as valoracións  nas novas plataformas de comunicaión, sobre o feminismo, sobre natureza e o saber popular que o capitalismo idiota ignora ( este texto nace do fenómeno da néboa na A-8). No apartado final desta parte trata temas como a fin do mundo (outra fin do mundo é posíbel), os negacionismos, a muller como inciadora da rebeldía (nada menos que  contra Deus), tamén nos enfronta á realidade que este ou é o século da barbarie ou da ecoloxía, para rematar reivindicando as palabras, as palabras e a risa como armas.

                     E remata o libro con textos hiperbreves, de moi poucas liñas, que son reflexións entre o proverbio, a poesía, a filosofía, a agudeza do pensamento indócil.

                     Ben. Para remate. Segundo as “Zoñas a defender” van deixando de ser locias e se internacionalizan, eu quero dicir que entre esas “zonas a defender” estamos nós, a xente toda, que podemos ser espectadores artífices colaboracionistas no inferno que o capitalismo voraz prepara para nós…ou podemos ser axentes liberadores. Precisamente para iso está escrito este libro, para que sexamos axentes liberadores.

                     E nisto, na máxima difusón que debe ter un libro tan importante como este, nisto han ter que ver moito @s axentes que se ocupan da dinamización lectora: docentes de lingua  e literatura, bibliotecar@s, clubs de lectura etc… Non todo van ser novelas e este é un libro perfectamente asequíbel xa na adolescencia. Asequíbel e moi importante para esa idade, porque son futuro e deben saber que outro futuro é posíbel e contra que loitar.

                     Lectura imprescindíbel. Tanto no ensino como para a cidadanía xeral.

ASDO.: Xosé M. Eyre

Laura Liuzzi: a poesía e o hiato especulativo

Laura Liuzzi naceu no 1985, no Rio de Janeiro. Coñézolle tres poemarios:

2010 – Calcanhar (7Letras)

2015 – Desalinho (Cosac & Naify)

2016 – Coisas (7Letras)

Tamén participo una antoloxía de Adrana Calcanhotto É agora como nunca. Antologia incompleta da poesía contemporânea  brasileira (Companhia das Letras , 2017), e forma parte, entón, das voces máis interesantes da poesía brasileira máis nova. E, a verdade é que hai un poderosímo motivo para incluíla neste selecto grupo. Non se trata dunha poeta esteticamente virtuosa ou especialmente inclinada cara ao aspecto formal da poesía. Non. E que conste que o que dicimos non significa que a súa poesía sexa formalmente pobre; nin moito menos; precisamente, un dos posíbeis ángulos desde o que estudar a poesía de Laura Liuzzi que se nos ocorreu…foi xustamente ese…porque parece que a xente se fixa moi pouco nesta dimensión da súa poesía.

Porén, escoller ese posíbel ángulo, sería desatender o principal motivo polo que a poesía de Laura Liuzzi se singulariza, toma identidade propia, se constrúe fronte ao mundo.

 “Existe um hiato inevitável entre o pensamento e a realidade objetiva. E talvez a poesia seja a investigação dessa frincha.”

E velaí, nas súas propias palabras, unha concepción da poesía que eu quero chamar poesía especulativa. Poesía especulativa no sentido que nos fornece a mesma filosofía especulativa como arma para investigar a realidade. Até aí e non máis, porque esta poesía especulativa tamén é unha poesía da experiencia. Sendo desde a experiencia que se deriva a especulación, toda vez que a realidade non deixa de ser un mundo fronte ao cal a estrañeza é a reacción máis común, máis común na poeta, na poeta e na xente, e na xente lectora.

Desde xeito, a poesía de Laura Liuzzi funciona como un espello que nos devolve a realidade, mais unha realidade na que hai cousas que non agardabamos, que non esperábamos. Ábrenos os ollos ao abismo do coñecido que non coñecemos. Dalgunha maneira, a poesía sempre é un abismo.

É neste sentido que eu falo de poesía especulativa, non no máis común nas letras “castelhanas”, onde por poesía especulativa se vén entendendo unha sorte de poesía de ficción científica.

Laura Liuzzi tamén tivo moito eco mediático cando na Festa Literaria Internacional de Paraty, en 2016, cando ridiculizou o presidente interino Michel Temer, deixándoo como un poesta ben ruín, de igual menira que é un político tamén ben ruín. O que fixo Laura foi ler un poema de Temer, sen dicir a autoría, e revleándoa só no renate e no sentido xa dito. O poema de Temer era este:

Por que não paro?
Por que prossigo?
Por que insisto?
Por que lamento?
Por que reclamo?
Por que ajo?
Por que me omito?
Por que desabo?
Por que levanto?
Por que indago?
Por que questiono?
Por que respondo?
Por que este infindável
Por quê? 

A conclusión de Laura Liuzzi, totalmente lóxica. Non é?

Imos coa súa poesía, esta vez non indicamos o seu Facebook, vito que o ten bastante inactivo

(  Na Seleçao Hypennes)

GRAVIDADE

Não são os meus pés na areia
nem a insistência das manhãs
é a interferência da saudade
e um homem sentado na franja da praia
tremelicando
é o silêncio das ilhas fixando o oceano
distraindo essa inevitável vontade de escapar
é o andaime erguido na frente da janela
saída de incêndio ou emergência –
você era o meu ponto de fuga
um anjo disfarçado
meio curinga
com perigo de correnteza
e se eu me arrastar
vou te dizer que sou um transatlântico
inabalável
altiva, com pálpebras pelo meio dos olhos.
Não são os meus pés na rua
eu te garanto que navios não têm pés.
É uma alma de astronauta.

……………………………….

(Na Piauí)

AUTORRETRATO

Como pode água nascer
de pedra
como pode, posso eu
também ter matéria
grave e intransponível
conjugada a esta outra
transparente, irrepresável.

Basta um olhar à fotografia –
o bebê no colo
o papel envelhecido.
Ao mesmo tempo que um avança
somando anos
o outro recua, mais antigo.

Quando as tardes pareciam
maiores
quando o fim do dia
era o fim do dia
quando tatuagens não eram
para sempre.

O tapete da sala era branco
e peludo, parecia um bicho
depois da ração diária.
O sol entrava geométrico
e, espremendo-se entre as grades
desenhava escarpas
onde eu me deitava
junto ao bicho.
Eu fechava os olhos
para ver as cores no escuro.

Só o que morria era inseto.

Sorrir nunca foi fácil.
Cresço com a boca miúda
e ainda não gosto de piadas.

Conservo a interrogação
quando de frente ao espelho:
como pode ser tão diferente
o frontal do perfil?
E me pergunto, desde lá
se todos enxergamos as mesmas coisas
se a língua não é tão só
um mesmo código para coisas distintas
se entre mim e você
não há um abismo sem solução.

O que sei é o que não sei
sobre projetos de futuro.

E mesmo assim escrevo cartas
(funcionam melhor que espelhos)
para meu próprio endereço.
Me respondo como se já tivesse
arquivado toda a memória
e pudesse confortar
confrontar o porvir.

Quando escrevo me passo a limpo
sem riscar as imperfeições.

A infância ainda gravita
em mim. Não só
a minha, mas outras
que vêm com músicas
sub-reptícias, por um atalho
por onde atravessam
com a velocidade
incalculável
do tempo.

Dar nome às coisas:
primeiro passo torto
até que se deseje
as coisas puras
sem auxílio de som —
a rosa única
a pedra que se sabe pedra.
Segundo passo, falho:
inominar.

Nos retratos guardamos nos olhos
o vidro dos olhos do gato
a cama ainda desfeita
a última tempestade
e o escuro do que virá.

[Colher nas mãos o que
das mesmas mãos se extinguiu:
pedra papel tesoura.]

…………………..

SOBRE UM LIVRO

Ler à noite
nesse quarto
à meia voz
metade som
metade sopro –
emprestar vida
ao livro
antes morno
sem rumor
deixá-lo que use
minha voz
me surpreenda
a cada linha
de língua inglesa
até que desalinhe:
ondula, angula-se
dobra a curva
e desaparece.

ARQUITETURA
com o pensamento em Franz
Kafka

Encapsular o inferno
numa tarde sem mais
de Praga. No entanto
era ele quem deslocava
a cidade para a parede
incalculável de seus olhos.

Auscultar o pântano
de sua razão intranquila
até que nenhuma ponte
se arme para nossa passagem.

Inventar entradas falsas
(entrar sem sequer ter saído)
traços pontilhados, estradas.
Procurar praças estações catedrais
como um cão sem faro.
Como um cão fora de si.

Alcançar o fio cego do horizonte
por algum túnel longíquo
incomunicável; abastecer
o teto mais que o chão.

OUTRO

Perdi meu senso de urgência.
Não sei se foi antes ou depois
daquela lambida, seus anticorpos
e o meu corpo no que ia
submergindo, derrubando as traves.

Qual o meu interesse
qual o quê eu não sabia
essa casa está doente
e o tamanho da minha mordida
até que todo o mar congele
não será maior que qualquer estrada.

Aqui dentro não há mais vaga.
Aqui dentro não há mais nenhuma vaga.

Perdi mais objetos que encontrei
e agora a maior parte deles
existe sem os nomes que lhes dei.
Volto à sua língua, sua lambida:
corta, abre, costura e fecha.

ORQUESTRA

Não há cortina
para esconder os músicos
nem mesmo a música
se esconde nos instrumentos.

Está tudo aos olhos da platéia
porque a sinfonia não se pode ver
senão nos gestos do maestro.

À minha frente, antes do primeiro
comando, pode estar o violoncelista
em terno preto, como muitos ouvintes.

Quando se sentam os músicos
cada um em seu tempo afina
seu instrumento e acerta a folha
da primeira sinfonia: confusa algaravia.

Então vem o regente
sob uma saraivada de palmas
com sua vara de condão.

Os músicos ajeitam a coluna
alisam os traços do rosto
e encaram o maestro

que, com dois olhos apenas
cruza com todos que têm nele a mira
buscando a confirmação
de que pode começar.

Tão logo soerga
a batuta e soe
o primeiro acorde
ouve-se, milagrosamente, o silêncio.

VONTADE

Entrar em casa sem que a porta
rangesse, sem que o cachorro
da vizinha farejasse minha vinda
sem que o sofá conservasse as
formas do meu corpo, sem que
eu precisasse tomar aquele copo
de água que toca o azulejo e emite
um som rouco, sem que houvesse
corpo. Entrar em casa como
a música entra nos ouvidos.

PONTEIRO

Não é o tédio da falta
do que fazer. Não é
ansiedade (a noite
não promete nada
além de uma dúzia
de guarda-chuvas).

Não é minha mão
testando o calor
do fogo nem sua
mão tocando meu
seio. Não é o pulso.
Não são as cordas.

São vacas gordas
e preguiçosas
calculando a seca
da maré. É uma
fruta que apodrece
aos olhos de ninguém.

É o êmbolo de uma
cafeteira forçando
passagem. São os
gases flutuando
no espaço. Tem a
forma de um
palmito e despetala.
É agora como nunca.

RETRATO DE SZYMBORSKA

Mesmo com os olhos
semicerrados
nota-se, atrás da nuvem
do cigarro
na leveza dos ombros
e pescoço esguio
na colher que descansa
sobre o pires
na dobra folgada
da manga da camisa
nos livros apoiados
sem pressão
na estante e na estante
quase vazia
atrás de si, ela
moça arguta
que sorve o mundo
como quem sorve
por hábito
o café.

SUCESSÃO

1.
Nota-se a instalação do tédio
no modo como os dedos do pé
se encolhem como minúsculos
animais marinhos à suspeita de
visitas. As almofadas parecem
zangadas e o jornal não tem
modos a essa altura da noite:
se esparrama, não deixa espaço
para o que não é notícia, embora

não haja assunto para preencher
o vazio que a música deixou
ou ao menos sobrepor-se a
o peso dos pequenos rumores
dos corpos na sala: a respiração
que não cabe na boca; os estalos
dos ossos acordando no sofá.
Ninguém parece ouvir lá de fora
as baforadas das ondas na praia
o esforço de gravidade da lua.

2.
Silêncio não é ausência de som.
É uma sintonia dos ruídos tal
que eles não se distinguem uns
dos outros. Se transparência não
é ausência de cor, mas passagem
da luz, silêncio é a passagem do som.

3.
A noite esconde o mar que esconde
os barcos que esconde os marinheiros
mas ninguém tem os olhos fechados.
Todos se espreitam e se ouvem
sem sabê-lo. Os livros aparados
na estante dizem o que dizem
quando estão fechados? Estariam
apenas em silêncio?

Não há palavra que toque a coisa
mas há palavra que a invente.

Atravessar o vazio da sala de meias
pode ser a solução para vencer
a âncora desta noite porque todas
as noites parecem não ter fim
até que venha o sol anunciar
que nada é tão complicado
quanto parecia. O dia sucede.

( En MÁQUINA DE ESCREVER)

DE UMA MANHÃ

A praia sob a bruma
na primeira hora de luz
é um Turner improvável.
Não teria esse véu gris
sobre a baía que desperta
plena de certezas e pulmão
se não se ouvissem os bugios
no coração fundo da mata
a sugar a noite sem o mel
do dia, seca e sólida
arranhando a garganta
ancestral que anuncia
que quer nascer, quer nascer.

…………………………..

(Na 702)

“Coração sobre cama”

“Se de repente acordo

é madrugada

surpreende o coração

descansa sobre os lençóis

exausto

não tenho sede nem sono

e nem mais coração.

Se acordei e é madrugada

era pra ver você

que não está nesta cama.

Enquanto canto bem baixinho

os batimentos desaceleram

lentamente, quase imperceptível

até a voz sumir entre os lençóis.

Esperaremos a manhã

o coração e eu

e os jornais o carteiro as babás

colocarão as coisas no lugar:

o coração no peito

você à distância

os lençóis na lavanderia.”

…………………

(Na UAI)

a propósito de ENTRE DONAS, varias autoras, en Baía.

 10 NARADORAS. CELEBRACIÓN E LOITA.

Título: Entre donas

Autorías: Varias Autoras

Editorial: Baía

Primeiramente imos dar conta de quen son esas “varias autoras” que nos permiten saír do paso sen ter que enumerar unha a unha todas e cada unha delas. Neste caso, as autoras que reuniu Baía neste título son Marilar Aleixandre, Marica Campo, Rosalía Fernández Rial, Inma López Silva, Teresa Moure, Emma Pedreira, María Reimóndez. Eli Ríos, Anxos Sumai e Antía Yañez, ademais de Ana Luísa Bouza Santiago, que é quen asina o epílogo. Estamos, polo tanto diante dun volume que nos presenta un bo número de narradoras, naradoras pertencentes a  promocións ou xeracións diferentes, e que supón unha inmellorábel ocasión para achegarnos á narrativa de muller no panorama da narrativa actual. Tamén se pode dicir que unha inmellorábel ocasión para achegarnos  á narrativa feminista galega actual. E debe. Mesmo falar de diferentes sensibilidades dentro do feminismo narrativo, mais eu non o vou facer. Non o vou facer porque considero este título un volume de celebración: celebración de que actualmente gozamos dunha estupenda narrativa de autoría feminina (as autoras aquí reunidas son as que son e ben puideran ser máis ou outras) e isto quere dicir que a literatura galega das últimas décadas normalizouse achanzando unha carencia que berraba aos ceos; non pretendo ao dicir isto sinalar que sexa unha situación óptima, só que esa situación mudou felizmente para mellor, hoxe a ninguén estraña atopar narradoras, e narradoras ben competentes.

                     A segunda cousa que me chamou a atención é que ningunha das autoras optara polo conto como xénero da narrativa breve. Non é que isto sexa en si moita novidade, xa as últimas décadas do século pasado amosaron o ascenso do relato na narrativa breve, en detrimento do conto. Certamente. Mais como considero o xénero do conto como unha das estratexias narrativas máis esixentes tecnicamente falando, e sempre me satisfaceron moito, non deixo de sentir certa mágoa. Pola contra, nesta mostra de narrativa breve de autoría feminina, un bo número, unha clara maioría de autoras optou polo relato fragmentario. Desde calquera opción xenérica dentro da narrativa breve se pode acadar a excelencia literaria, iso non ten discusión. Mais considero oportuno salientar este feito, particularmente considero moi inetresante esta consideración técnica porque permite dotar á narración de meirande variedade e xoga un papel moi importante no mantemento da tensión narrativa, do suspenso narrativo. Unhas veces o recurso fragmentario é moi visíbel, outras veces está máis integrado no discurso (como é o caso, por sinal, do relato de Marica Campo). En todo caso, é unha opción que adoita dar bos froitos.

                     Evidentemente, sendo tantas narradoras non vou poder escribir sobre cada relato en particular, o tempo no me permite ese luxo, mais hai algunhas particularidades que non quero deixar de comentar. Por exemplo a necesidade non só xa de falar de muller, senón de mulleres. Nótase ben por exemplo no  de Marica Campo, e isto responde á necesidade tamén de rachar estereotipos: a muller, en realidade son moitas mulleres, mesmo dentro da mesma persoa poden convivir disferentes tipos de muller segundo as circuntancias vaian esixindo ser así ou destoutra maneira. Parece obvio. Mais quéroo sinalar porque vén denunciar unha situación inxusta: á muller pedíuslle ( e esta palabra é un eufemismo) que fora de determinadas maneiras e (case) sempre sen consultar a súa opinión porque eran obxecto de dominación por parte dos homes. E isto, polo claro, aínda hai que dicilo en presente. E isto, tamén se aplica á opción sexual que a muller teña, evidentemente.

                     Desde o punto de vista puramente técnico hai outra circunstancia que tamén ten que ser salientada porque non é nada frecuente. Refírome ao relato de Emma Pedreira, onde en lugar de presentar unha narradora, son dúas narradoras as que nos van dar conta da trama nun ton desenfadado que tamén singulariza o relato. Con tanta narradora, e de tantas xeracións distintas, e con máis ou menos experiencia tanto narrativa como especialmente na narrativa curta, non todos os relatos teñen a mesma calidade literaria e ás veces nótase que ben quererían dispoñer de máis espazo. Porén, estamos de celebración, Entre donas, xa o dixen, é unha auténtica e oportunísima ocasión para celebrar a narrativa de muller. E non por ser celebración deixa de ser un título eminentemente reivindicativo e denuncador das dificultades que a muller atopa na nosa sociedade para realizarse como tal muller. Unha cousa non quita a outra senón todo o contrario. Tamén é oportuno celebrar a loita, oportuno e necesario. Como di no seu relato Marcia Campo, “non hai que confundir a realidade co desexo dos homes”, e, como di a epiloguita, Ana Luísa Bouza Santiago, “non hai que confundir a literatura coa ollada masculina” como infortunadamente sucedeu durante demasiados séculos. As olladas feminina e feminista non só fican ben patentes, ademais tamén o fan desde un punto de vista universalizante ao valerse de culturas como a irlandesa (Marilar Aleixandre) ou clásica (Marica Campo), por sinal, e este non  é pormenor tampouco a esquecer.

                     Fica por comentar o epílogo. Como teño dito, non son moi  amigo dos prólogos/limiares que pretenden balizar a lectura que se vai facer; a liberdade de quen le debe estar por riba de todo, debe poder ler con toda liberdade. E, neste contexto, epílogos como este son para recibir e poderar con xustiza e alegría, toda vez que axuda a reinterpretar ou redescubrir cousas que na lectura puideron pasar por alto, sempre desde o contraste entre a opinión de quen leu e a información que se achega. Enriquece a lectura.

                     E tampouco quero rematar sen mencionar o relato de Anxos Sumai, toda vez que enfronta un tema, ben pouco presente na nosa narrativa, como é o coidado dos nosos pais e nais cando chega un momento en que xa non se valen por si mesm@s. O relato non só se singulariza polo tema tratado, que é unha realidade dura que moit@s vivimos día a día, alén diso está contado cunha tenrura e sensibilidade que encollen o corazón.

                     Ben. Aquí teñen un volume para celebrar a escrita feminina (e feminista). E que nesa celebración non lles esqueza a denuncia das dificultades para ser muller, para realizarse como muller aínda hoxe en día.

ASDO.: Xosé M. Eyré

Rita Isadora Pessoa: a poesía e a tempestade

Rita Isasora Pessoa nace en Rio de Janeiro, alá polo 1984. Ademais de psicóloga e psicoanalista, tamén traballa como astróloga e taróloga. Tamén se doutorou en Literatura Comparada. Mais agora queremos fixarnos na súa actividade como astróloga porque iso pon o nome de Rita Isadora en contacto co de Júlia de Carvalho Hansen e comparar as dúas poéticas aparécese como unha tentación irresistível. Que nós imos resitir, porque a nosa única finalidade é presentar a poesía de Rita Isadora.

A día de hoxe ten publicado tres poemarios:

-no 2016 – A Vida nos Vulcões (Oito e Meio)

-no  2018 – Mulher sob a Influência do Algoritmo (Cepe)

– no 2020 – Madame Leviatã (Macondo)

Sobre A vida nos Vulcões recomendamos a lectura deste artigo de Gabriela Farrabrás, que o describe con precisón e rapidez.

Mulher sob a influencia do alogoritmo foi vencedor do terceiro premio Cepe de Literatura. Trátase dun estudo poético, un estudo lírico sobre as posibilidades de existencia da muller, e tamén da capacidade da linguaxe para representalas. Necesariamente, salvando as distancias, lémbranos en certa maneira o poemario de Rosalía Fernández Rial Árbores no deserto.

Do seu terceiro libro, moi recente, temos moi pouca información.

Ben, aínda que nun principio o seu primeiro poemario parece levarnos por xeografías exóticas, non é máis que un artifíco para introducir un tipo de pensamento pouco ortodoxo en occidente, e esa é a filosofía oriental. E sempre diremos nun principio porque a poesía de Rita Isadora parce sempre un punto de chegada, unha meta que é inicio (inicio cósmico) sempre a percorrer as interioridades da complexidade que é ser muller. Ou ser mulleres porque á voz poética de Rita Isadora nada do que supón ser muller lle é alleo. Ás veces, a súa poesía é como historias líricas, auténticas historias mediante as cales crear ese clima, esa ambientación interior que xa consideramos como signo da vangarda poética actual. Que, por moito que sexa vangarda tampoco é allea ao mundo literario clásico, e ben se pode dicir que no fondo da súa poesía aniña unha traxedia grega que ás veces a obriga a un xogo de desdobramento para sentirse a si mesma desde a estrañización.

E dese desdobramento, desa estrañización tamén nace a poesía como confidencia,como cofidencia a si propia e como confidencia a quen le a través do suxeito interposto dun eu/você que axuda á introspección.

Si, porque non é suficiente con ollar o mundo ás avesas, senón que se fai necesario virar un /unha mesm@ no aveso…para ter unha visión o máis completa e o máis ampla posíbel. E mesa completude, nesa amplitude, ten moito que ver o universo cultural de que é posuidora, onde entran desde Cortázar a Elliot ou Modigliani, por sinal, e onde tamén hai que contar coa súa formación como astróloga e a amplísima tamén formación humanística que das súas poesías se desprende.

Queremos finalmente que se fixen na concepción de vertixe, de abismo, da que parecen nacer moitos dos seus poemas, poemas que son tempestades interiores, delicadezas salvaxes, avalanchas, precipitacións…E tamén na riqueza formal, ás veces ben comexa, dos seus poemas, onde a concepción do texto como un obxecto no espazo a fai extarordinarimente variada.

Como sempre, deixamos constancia do seu Face por se queren seguila. E tamén o seu blog, onde poderán ler máis poesía súa.

E agora vai a súa poesía.

(En Mulheres que escrevem)

“a casa dos pequenos animais”

para suzana pessoa

você insiste
no clareamento forçado
dos meus cabelos
aparentemente lera um artigo
sobre uma técnica de suavização
de traços a partir da falsificação
de molduras capilares
e de alegrias insuspeitas
às quais sabe que sou alérgica
“é que o preto
enche o teu rosto
de sombras”
você decide ignorar que o preto
é na verdade uma pequena homenagem
que presto
ao corvo invisível
que segue pousado
no meu ombro
há uns bons anos

você pesquisa
sobre as 30.000 espécies
de escaravelhos
há horas você pesquisa sobre o egito antigo
há dias você escuta a cacatua da vizinha
berrar como se estivesse assombrada
você jura ter sido
visitada por um escaravelho dourado
na noite anterior
mas tem dúvidas se o bicho era apenas
um besouro luminoso ou talvez uma barata
geneticamente modificada
o fato é que você não sabe o que fazer
e nós duas sabemos que isso é um perigo
você o isola dentro de um pote de ervilhas
esvaziado há tempos de seu conteúdo
mas segue acordada
a noite inteira
angustiada com seu escaravelho
preso dentro do pote vazio de ervilhas
debatendo-se
na cozinha
o corpo arrendondado
a emitir uma luz sobrenatural
você sabe que é bem possível
que isso seja um sinal
um indício ou uma distinção
uma nobreza inusitada
entre seus colegas artrópodes
menos aristocráticos
mas nada a convence verdadeiramente de que não se trata
de uma barata geneticamente modificada
você teme
e retira o amor do poema
planeja uma corajosa operação de soltura
respira aliviada quando o bicho
compreende exatamente o que tem de fazer
e quando você o deixa livre
ele voa
voa com agilidade
para bem longe
sem hesitar

você se sente finalmente livre
para voltar a pensar nos cupins
que roem a estrutura da casa
do sofá e das portas e armários
a gata presta atenção aos ruídos
inaudíveis aos ouvidos humanos
os ruídos
de uma lenta demolição

você estremece e devolve o amor
de novo ao poema
sente agora uma certa liberdade para pensar
nas pequenas feras
no amor
na casa
na madeira nas paredes
nos ruídos inaudíveis
a todos
os ouvidos
salvo os da gata
cuja atenção se volta
para um murmúrio em particular
fora do seu alcance

“o método doppelgänger”

neste dia há de descobrir
que dentro do teu tórax
habita uma granada fossilizada
com meu nome gravado

a letra que te fez fêmea
mistério veneno
e me privou de teu estatuto de bípede
para inaugurar uma ordem secreta
de concubinato
de circe sereia convite aberto
para colisões contatos

para denunciar enfim em ti
uma voz
capaz de hastear mortos
como bandeiras em riste
para desvendar o gesto feroz
o giro carpado
geometria incansável
da foda
do limite
das cordas

e ainda assim ser capaz de
arrancar furiosa o encanamento
da tua planta hidráulica
[tua superestimada liberdade]
ter na ponta da língua
uma sentença óssea capaz de perfurar a membrana
sustar a anestesia
revelar tua rota fundamental de fuga

sustentar aquilo que rui
mas faz costa
a parte de ti que é pavimento
e se curva em istmo
sintomática em seu mecanismo
de defesa contra a água

na convicção daquilo que se tinge
e ainda assim permanece seco

no que insiste na afirmação
de propriedade
do poema
“esse poema é meu”
mas eu sigo mesmo vagarosa
[na dúvida]
sigo na possibilidade de que
este poema não seja meu

que animal é este?

“a hora da estrela”

esse é para você
morcego noctívago
que não reconhece nem teto nem parede
nem o próprio brilho
seguimos no nosso diadorim off-sertão
modernismo wannabe dos que vieram
diretamente da água
para matar a sede do rio

no fim prosaico da discussão de duas horas
sobre o copo quebrado ou o lixo vazando na cozinha
ou a panela de batata doce que cozinhou demais
você constata que, de nós dois, sim,
você é o mais romântico
e eu digo ‘mas nós somos românticos de formas diferentes’
e você graceja ‘é, de fato, eu sou da tradição
do romantismo inglês e alemão’
[sim, com tua solidão proporcionada pelo bosque
e a vastidão dos espaços naturais abertos,
você, oxóssi-caçador da bílis negra]
mas eu, no caso, segundo você, sou a tragédia!
você me diz, ‘você é a própria grécia’,
[cassandra, antígona e medeia
enfileiradas na cabeça da hidra, mais a fúria do olimpo
com raios de iansã e ingenuidade de macabea]
você diz que sou a origem de todo o romantismo, de todo o cinismo,
da neurose, perversão e da forclusão do nome-do-pai, da mãe […]

e aí, cá para nós, você há de me responder então como faremos
para cumprir a nossa parte, nosso fair share
na tarefa hercúlea de soçobrar
o mito do amor romântico,
essa bitch, essa marca indisputável —
fardo-sísifo da nossa geração pós-yuppie

— se somos nós, meu amor, o próprio mito
se nós somos o amor romântico
o perverso, a amor perdido
[encenado reencontrado]
— o amor com a faca na mão

e a própria sede do rio.

………………………………

(En Ruido manifesto)

das ruínas preliminares

ou

dos papéis individuais no fim do mundo

aquela sou eu esperando a catástrofe

com as mãos seraficamente pousadas

sobre o colo

a verdade é que só preciso

me agarrar violentamente

a um ponto fixo

na disco-voragem

deste sonho

e permanecer submersa

acontece que eu engulo tua indiscrição gulosa

descendo pelas minhas pernas

e devolvo delicadas ossadas

sob o signo da carnificina moderada

(uma forma de canibalismo contemporâneo?)

expostas em seu tutano todas as comissuras dos ossinhos

equilibrados sobre a porcelana

frágil  do meu prato, porque uma coisa que acontece é que

o meu corpo

ele não se quebra

não quebra como se quebra um prato

ou um fêmur

não como se quebra uma linha

no fim de uma frase longa e deselegante

alinhada à esquerda

o que tenho a ser feito

pode até ser chamado de ofício

de linha e agulha

mas eu contenho hemorragias

é o que eu faço

— deveria ter sido médica

mas me coube ser dique

: eu contenho hemorragias

com as mãos

todos os dias

— um ofício que empresto

da pedra

para subjugar o rio

*

eu, olga hepnarová

é verão em praga

e o ano é 1973.

[você,

olga misantropová, com seu figurino de caminhoneira nouvelle vague, suas calças de veludo cotelê e  a jaqueta de couro craquelada, você, anna karina psicopata, ainda que visionária, você ignora o óbvio

: o avesso do amor não é o ódio]

é verão em praga

mas faz ainda muito frio

e o avesso do amor é o coração terminando de bater de encontro ao asfalto, fraturas expostas, intestinos a migrar da cavidade abdominal como uma corda autônoma que sabe exatamente o destino que lhe é devido: o pescoço que espera a quebra

de parágrafo,

o cadafalso que espera

a quebra         do pescoço

com a corda na mão.

[corta para] o caminhão de olga estacionado na calçada;

a fileira corpos estendidos como uma oferenda satânica, mas você não é satânica, olga, você é uma assassina em massa e isso é diferente. satânico é outra coisa. planejar um assassinato simples requer               um engodo fundamental, um paralaxe e você

escolheu ignorar que o avesso do amor

não é o ódio.

é verão em praga

e faz frio;

o avesso do amor

se faz por meio de grandes colapsos,

colisões no concreto, no asfalto,

um embotamento brutalizado,

e você, olga hepnarová,

espera seraficamente

a polícia;

a bolsa no colo,

sentada em seu caminhão

você, a autora dessa carta perturbadora

para as gerações que virão:

“eu, olga hepnarová,

vítima de sua bestialidade,

condeno-os todos à morte.”

*

diário do ano do macaco de fogo

se como celan

  eu tivesse a certeza

de que os poemas estão a caminho

se ao menos eu não tivesse

fundado toda uma mulher

[uma mulher inteira

Garganta glote ancas

       sexo tornozelos]

apenas em torno

de uma palavra infeccionada

se eu não tivesse

as mãos gretadas

 como uma figura mitológica

mal-sucedida

em suas peripécias amorosas

eu poderia sim acreditar

[como se a minha vida

dependesse disso de fato]

 no efeito de luz

na voragem súbita

no obscurecimento

que se segue

e se repete

e se repete

nesse projeto desconjuntado

de revolução

mas é que eu vejo coisas

vejo coisas em ti e neles

constato o que há de cínico — o símio

que mimetiza o desfecho ígneo

e não

eu não sei mesmo manusear o objeto isqueiro

não tenho habilidade

para os grandes gestos incendiários

estou aguardando

 p a c i e n t e m e n t e

a grande água

como alguém que gesta

um filho querido

na cicatriz íntima

de seu próprio útero

mas se aterroriza diante

da perspectiva brutal

do nascimento

de um grito

*

como batizar um ciclone atlântico

para priscilla menezes

você me assegura que

a tarefa de manufaturar a tempestade

deve ser   como

a     atmosferização do poema

como descolar uma palavra da outra

:  seccionar a polpa

da casca

ou como subordinar            a sua paisagem

à escansão     algorítmica      do vento

mas o silêncio dos astros segue

numa linguagem temporária

[ como nomear a passagem de um   a    outro? ]

uma tempestade do tamanho do estado de ohio

você garante:      o ciclone toca o solo

como um ponto de voragem

toca o mapa geológico de alguma página escrita em tempo real acredite

você diz

[qual é mesmo o nome do ponto?]

85% dos furacões se formam a partir dos ventos africanos

você desliga a tevê e promete jamais assistir telejornais novamente

alimenta os peixes

sugere distraidamente

um cronótopo de deserto      um nome

uma mulher

prateada como um arenque finlandês

montada num cavalo

em seu epicentro

— a imagem que te vem

é de um leviatã composto de destroços        e vento

que se move

de um ponto               a outro

[      dar nome a um ciclone é ser

também nomeada por ele, você conclui    ]

você segura com dificuldade

uma lanterna entre os dentes

fixa o olhar sobre horizontes imóveis

para desacelerar a vertigem

como sua mãe ensinou

você não tem certeza

sobre a intenção da tempestade

:      um tropismo de ilha

que não sabe se é continente

ou océano

……………………….

(Na Escamandro)

Noir

faço votos
para que o talho
[a ferida melódica
no teu discurso]
trespasse o teu gesto
no escuro
e afugente de vez
o mal.

porque nos fulge
um apelo
ao corpo
cósmico
deste universo de avalanches
que nos cobrem
em gloriosa aventura
de facas de cozinha escondidas
às pressas
e comprimidos,
e chuveiros ligados
e tempestades elétricas
acuadas em apartamentos
de dois cômodos, sem rotas
de fuga.
tenho tido soluços, arrepios
na base da espinha dorsal,
na base               da questão.
tenho esperado, com insistência febril
por uma revolução sonar
de            decibéis                     inaudíveis;
tenho implorado      re-pe-ti-da-men-te
por      um romance      policial           noir
e pela existência de norma desmond
compacta
em minha mão
imbuída
de todas
as más intenções.

não tenho certeza se
caibo
nesta pequena vida
que       diviso por entre
a janela da sala,
por entre nesgas de compromissos
heteronormatividades de conduta
e filhos gêmeos – ainda não
nascidos.

ana c.,
não é bem verdade
que virar do avesso é, de fato,
uma experiência
mortal.

porque eu preciso da dúvida
: dessa incerteza corriqueira,
[essa, sim, letal]
sobre a existência de algo
verdadeiro,
sobre a existência de algo
verdadeiro, sobre a existência
de algo verdadeiro
que resista.
sobre a existência que resista
a algo de verdadeiro, eu-preciso-da dúvida
que resista
a algo de verdadeiro
sobre a existência.

§

antimusa

aquela que traz,
nas cartas de baralho,
notícias sobre a vida silenciosa nos vulcões;
a cigana verdadeira das suas repetições seriadas.
com pés de mujique e linhas siamesas
para você, morcego siciliano que gastou sua melhor poesia
com as anteriores: valquírias, rosas, lobas e todas
as meninas prodigiosas, musas indiscutíveis;
sua barba ensopada de sangue, seus sonetos escandinavos,
suas certezas de amor jurado na carne trêmula.

mas eu, eu tenho um passado romeno; um coração eslavo
de proporções gregas, com colunas e templos em ruínas.
partilho minhas agruras conjugais com a moça alta da padaria,
seus dois filhos e casa na baixada, anulada entre tijolos e turnos.

mais ainda, minha alma não é legível,
passível de ser extraída em formato compatível.
paga-se um preço pela serenidade doméstica,
serenamente; um holograma ornamental,
esvaziado e preenchido,
repetido até a exaustão dos nossos membros difusos.

a inconsistência de conteúdo
do amor há que ser forma
e caminho.
uma forquilha aos pés de cabra
onde desdobram barbatanas, justo no lugar que havia
apenas respiração
e um breve entorpecimento noturno
da pele.

§

um casamento romeno

quando penso em você
eu me lembro
do som ininterrupto
de patas e correntes
resvalando sobre
a terra batida
do encantador
de ursos
empoleirado
com seu acordeão
longínquo se afastando
do vilarejo
para retornar no verão
seguinte com o mesmo urso
sempre o mesmo urso
a mesma intenção oculta
a fome do bicho
a dança notável do bicho
impressionante
o mesmo urso

me lembro de quando
anoitecia
e a avó ladrava
para eu sair logo da rua
e voltar
para perto
do        fogo
pois aquela era
a hora
dos morcegos
dos mosquitos
das criaturinhas aladas
que voam suicidas
em direção à luz

eu me lembro claramente
do dia do nosso casamento
os sinos dobrando em dois
eu me dobrando em duas
de dor         de desterro
o som dos pratos quebrados
as moedas voando sobre nós dois
os votos de boa fortuna
dos anciões
em vão

our big fat romanian wedding
um matrimônio italiano à leste
de bucareste

nem a teoria do multiverso
explicaria nossa presença nesta
tragicomédia a lakusturica

mas escrever sobre o amor
é como fundar um país íntimo
deslocado                     à parte
de um domínio continental
operante

escrever sobre o amor
é como violentar um poema
no seu cerne
de crisálida
quase sem pele
ainda sem asas

e partir sem nada
mais à leste
do que antes

porque escrever sobre você
me faz lembrar de coisas
que eu não deveria lembrar
escrever sobre você
é sempre esse problema:
o choque de metalinguagens
o urso, as patas,
o roteiro cinematográfico
desandado, o fogo, o sangue
as asas.

§

primavera autocrata politeísta apocalíptica

deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
e não melancólicas

porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
anacrônicos
apenas os sanguinários

homicidas.

aqui nos movemos
na sombra

e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]

então desliguem
os holofotes
e apreciem
aquilo que cresce e goteja
úmido entre as frestas.

§

sobre o incidente de emagrecer 5kge se tornar uma serpente mítica grega por alguns días

escrevo este poema
neste estado de cetose
química
que nada mais é do que
o termo médico
para quando o corpo
resolve devorar a si próprio
[como a serpente ouroboros
que engole a própria cauda
infinitamente non stop]
depois de um período de privação
de carboidratos
simples
ou complexos
[ou depressão anoréxica]
ou simplesmente
um jejum prolongado

aqui
entre estas doze paredes
e suas incontáveis quinas
arestas ângulos agudos
o b t u s o s
[eu contei todos esses dias]
não há amor
não há sombra
nem carboidratos
é a porra da terra devastada
do eliot

só há esta luz que penetra
tornando tudo nítido demais
as cores primárias demais
essa saturação insuportável
onde estão os fiftyshades de
qualquer maldita cor que seja?
quem diria que a sutileza
se perdia
junto com os carboidratos?
‘um nevoeiro mental’ o médico disse
‘é um dos sintomas
você vai ver’
significa que está funcionando
e em breve
esse peso também irá embora
[mas não]

eu vejo mesmo todos os contornos
não há nada difuso aqui
nem nevoeiro nem sombra
eu vejo todos os contornos
excessivamente
quero rasurá-los

mas        eles se recompõem
quando eu não estou olhando

§

devagar

com o pensamento em Ana C.

troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema
por outro

a pele
por outra

flor

escrita nas imediações
das catástrofes naturais

……………………………………………………….

(En Avenida sul)

mefistófeles para iniciantes

enquanto você está preocupado

com a musculatura do poema

      eu limpei sua ossada

      com os dentes

e povoada de arcos

e colunas        e pilastras

aquieto uma arquitetura clássica

                entre os braços

ensinando demonologia contemporânea

para a caravana medieval aqui do apartamento ao lado

                                       jurando de pés juntos

que o século dezenove nem terminou ainda

enquanto você diz algo sobre fuzis acelerados

sobre não ir-se gentilmente para dentro da noite

              eu me deito quieta nua

sobre a impenetrabilidade fumegante

  deste chão de pedra

             considerando

entrar na madrugada

como se entra num vestido

                 prensado a vácuo

[como se entrar em algo

                      fosse de fato

                           a questão

e não apenas o início cósmico

         de um grande problema]

………

dos vulcões em miniatura

   o poema está sempre na iminência

                    de uma parada perigosa

 enganchando-se à maneira do amor

                    ao fazer eclodir na pele

aquilo que inflama

        aceso

             e que

   com um estampido

                          logo

                   apaga-se

#

fauno

cultivamos ciclones

sazonais como

veleidades que pendem

da boca, as mancuspias

de cortázar:

um compósito bestial

perfeito.

nenhuma translação

escapa

à nossa disco-voragem

[lampedusa]

                        de ilha.

um ouriço albino desloca-se

lentamente

através dos meus dedos

transparentes;

                              [ há ]

um animal sagrado

sentado em lótus

que nasce do rastro

de teus cascos,

um centauro,

atravessa o peito

num salto

[flecha & alvo]

em casamento trágico

e perfeito.

porque você invoca em mim

a paixão mítica,     

ancestralidade da        carne,

que é a gênese cosmogônica

do universo               inteiro,

me desvela arquipélagos urbanos

entre prédios, ruas, entre seixos.

tenho a pele infectada de ti,

doença desconhecida que me

tangencia:

uma cicatriz desenhada

com os dedos.

[você],

você integra

my very own bestiário

contemporâneo

e me ensina pacientemente

duas ou três coisas

                 sobre a pele das ostras

e a minha própria morte.

#

o problema do vermelho nos objetos

I-

sobre o problema

dos objetos

e o teorema das superfícies

sobrepostas com texturas

                       enganosas

: o atrito impede

a cálida aderência

de um volume

sobre um sistema

mecanicamente isolado

do resto do mundo.

esse problema —

o problema fundamental

do mundo —

         é que

teus volumes drapeados

        acumulam-se

[inteiriços e impalpáveis]

sobre os móveis

depois que te vai

e me pego

timidamente voraz

na tarefa

de assomar tua forma

com dedos inábeis,

esculpir tua voz

com fonemas de pele eriçada,

pelo sopro sintático quente

da tua língua materna emudecida,

substituída por equívoco

por grotescos saltos

           de tradução.

II-

presto incontinente

atenção ao vermelho

que ondula nas falsas

       constelações

de luz artificial na parede

       da sala térrea

quando acontece de um carro

       a t r a v e s s a r

a fachada do teu sagrado

    edifício de pastilhas

    [de gosto duvidoso]

— esse jogo de luzes e sombras

a que alguns objetos

                se prestam

quando ninguém mais se importa.

                 e durmo com

o problema dos objetos

e de teu volume drapeado

               sobre as coisas,

o que se acumula à revelia

                      do sonho

                             e da terrível

……………………….

(na Cult)

ANÁTEMA

a partir de “Fala”, de Orides Fontela

Rita Isadora Pessoa

a mulher não deixa seu quarto
a mulher não abandona
sua zona de quarentena
ela olha o céu –
piscina lustrosa de negror
salpicada de pontos de luz
distantes                  em cena –

a mulher observa
o céu
esquadrinhado
por losangos cruéis
através da rede de sua janela
a mulher ela não abandona
a sua zona de quarentena

[         quando alguém olha o céu
ele retribui de volta o olhar
e a intenção de quem observa         ]

(não há piedade nos signos)

não há compaixão nos planetas
nas constelações ou supernovas
a palavra
– essa falsa seta –
é um corpúsculo oco
de pura treva
ela arremessa e ricocheteia
de volta ao discurso de quem tenta
a impostura infame
de um poema metalinguístico
(não                 não há piedade nos signos)

a mulher está sob a influência
de uma quarentena
a palavra arremessa e fracassa
a palavra se curva
vergada
a um mal indefinível

de natureza incurável

…………………………………………………..

(na Oceânica)

“nota sobre a manufatura doméstica de mitos autodestrutíveis”

na nossa pequena fábrica de ruínas

eu pedalo indoors

porque não sei bem o que faço

com tamanha liberdade

tenho um pouco de medo dos grandes espaços                     abertos

por isso os círculos

                   por isso

eu puxo os  aparelhos ergométricos pelos guidões

um suave deslocamento sem [realmente] sair do lugar

puxo a bicicleta pelo guidão riscando o chão da sala

como se segurasse

um touro pelos chifres

~um minotauro ex machina

de uma mitologia recém-criada ~

e finjo assistir um seriado sentada

ou termino um romance russo esfarelando

páginas amarelecidas

        compreendo bem todas as suturas

do mais célebre parricídio da literatura

por isso os círculos

                                           por isso

as tentativas insalubres de figurinos extras

como se estivesse finalmente preparada

para ocupar o papel de protagonista

e esses furos acidentais

seguem perpetrados pelos dedos

ou pela máquina de costura?

por isso

os capilares intradérmicos

perfurando invisíveis

partes ainda por vir

        do meu corpo

e o aprendizado lentíssimo

da pecilotermia

 meus minidemônios meridianos

brotando barbatanas brânquias

                           braços

enquanto fraturo

ossos imaginários

para acolher

em silêncio

    uma nova ordem

                   de feras

 por isso

você sabe

 os círculos

xxx

“escrevo teu nome no grão”

por tudo o que tomba

sem se reerguer sem

sequer lembrar da queda

        pela sombra

que nunca é proporcional

   à luz         

                 pela sombra

que não é proporcional

de maneira alguma

                      à luz

te escrevo o nome

onde se escondem

as montanhas

onde o sinal do celular

    n ã o           pega

nãopega nãopega n-ã-o pe-ga

escrevo ainda

com a tinta

que extraio dos moluscos

que aparecem mortos

pela praia

no inicinho da manhã

pelo esquecimento compulsório

    da

     q

     u

     e

     d

     a

“escrevo o teu nome

   no grão de arroz”

porque saturno retorna

        fora de hora

e a sombra não é proporcional

               ao facho de luz

             que te acompanha

[e é um absurdo que a luz

produza tantos monstros

com tamanha facilidade]

porque há sim pulsação nos vasos

         altamente periculosos

           das minhas pernas

e por tudo aquilo que tomba

                 sem levantar-se:

toma este grão luminoso

 onde te escrevo o nome

   devidamente instalada

             na virada invisível

                                 do rio

xxx

“uma mulher sob influência”

queria escrever um poema sensorial, um sobrevoo rasante, ébrio, erótico,

com palavras que pudessem salvar algo disto aqui, mas o poema ele fracassa.

o poema fracassa justo onde eu preciso ser salva, justo onde eu, como gena,

mabel, como outras, como todas as mulheres que levantam os braços e rodopiam

com ou sem roupa, pelas ruas ou entre paredes, em silêncio ou aos berros,

            justo onde enlouqueço numa sazonalidade que não omito

                                                                                         mas não controlo.

queria escrever um poema que colasse no corpo como um drink açucarado que seca

sobre as pernas no dia seguinte após ter sido derramado numa noitada sem que fosse

sequer percebido. mas o poema fracassa porque esta loucura

porque esta loucura tem o formato de dunas que se movem

lentíssimamente durante a noite, rearranjando uma nova paisagem estática

ainda que movente a cada dia.

                                      o poema ele não se curva

                            ele é tão domesticável quanto uma onça

                                     fumando charutos cubanos.

mas se você superar isto e seguir adiante, o poema te oferece

                                  uma delicadeza selvagem

como a de um gato que brinca monotonamente com um balão de gás

                                                           já meio murcho,

rolando-o pelo chão com as patas e unhas, mordiscando de leve, 

                                                                        sem o destruir.

      queria mesmo que o poema tivesse uma qualidade profética,

                     que inaugurasse um universo paralelo

           mas o poema é bidimensional; ele tem a velocidade

          de gotas descendo espáduas octagenárias, incorrendo

               em cada vinco, hesitando nos profundos sulcos,

                                           ensaiando um desvio

                                       a cada acidente epidérmico

                                             causado pelos anos.

xxx

“teresa”

para aquele que tem mar no início, meio e fim

tenho te escutado

com considerável dificuldade,

como aos balbucios morninhos

que escapam de um gato

      sobressaltado

      durante um pesadelo

— baby, por cierto, ¿sabes?

                     con qué infierno

                      sueñan los gatos?

não me resta outra opção

senão organizar meu tempo:

a) categorizando objetos;

b) esculpindo sisos extraídos;

o fato é que crio pontes de heras

para tuas frágeis elipses

e faço de mim tua vodca

em tempos de crise.

você, tez amadeirada

de contorno impreciso.

você, puro pêndulo

que eu sulco, inteiro

justo naquilo que se arrepende

                a i n d a     n o      a r

                inseguro

                e densamente noctívago.

eu, a primeira lasca

                  — goiva

       de duas pontas

feito lança que arpoa

                   em cheio

                   mas

                   não

                   retorna.

xxx

“dos rumores que se instalam”

     não posso dizer que

  ignoro com seriedade

a consciência do medo

                nas gengivas

e a eletricidade que alimenta

o corpo venoso brutal

da vergonha porcamente

equilibrada nos joelhos.

          como é possível

que a despeito de tudo

         as gentes sejam?

que sejam com pavor,

e dentes caninos a mostra,

                 mas que sejam.

a mim, é impossível

deslizar com graça

por essa existência

de pequenos naufrágios

de impossibilidades rotundas

de quebra-mares.

ouço um fino assovio

              que assegura

o cativeiro de muitas feras

nos porões deste navio

        e sei dos rumores

instalados, pesando sobre

grossas cordas e velas içadas:

o coração batendo vivo

no fundo desta caixa.

xxx

“supernova”

              tenho contido

             entre os dedos

             uma resolução

cabisbaixa ante o sono

eis que tenho evitado

meus próprios olhos

em reflexos

vidros polidos

cobrindo espelhos

como se faz após uma morte

                    ou na iminência

               de  tempestade

                 de raios

      palavras setas

  galáxias em colapso

em templos esvaziados 

                  panteões

em abandono dorsal

um desterro nuclear

é preciso sobretudo saudar

        a colossal quantidade

        de massa

   concentrada

em um minúsculo ponto

                    no universo –

nada escapa

à tua força gravitacional

           nem mesmo a luz

nem o início

      o sentido de todo amor 

            e do mundo inteiro

nem os artistas e os estetas

     os anjos com trombetas

isso tudo indica

que sofremos de

qualidades extintas    aladas

estrelas em último    estágio

                         de evolução

é bem verdade que

                nêutrons

[tuas palavras agônicas]

não nos                  salvarão

pois        deste sistema binário

                      fechado fecundo

em órbitas    circulares

não se sai com graça

nem de graça

          perceba

   há um preço

 se  uma força

         aplicada

  a uma massa

  de um corpo

em        r e p o u s o

    é  d e r i v a

tudo há de ser

  impermanência

    :  m a r

 do início

 ao   f i m

[ do  fim  ao

   i  n  í c i o ]

    dos tempos

xxx

“nota sobre um inferno astral em quase dezembro”

ou

“prove que não sou um robô”

hoje falo por mim,

                 eu

                 [gargalhadas]

que suo gotas constrangidas

ao ouvir minha própria voz

                        ao telefone

    como a de um estranho

falo por tudo aquilo que fala

por intermédio de um vermelho

        terroso violento atroz

                  como em

modigliani, como no abstracionismo russo

                                          que mata poetas

                                em linhas geométricas

e por todos

aqueles que golpeiam os telhados

como gatos revolucionários

                         por toda e qualquer

                       sensação existencial

[na fronteira anatômico-imaginária

entre boca do estômago e pulmões]

por todo sentimento filosófico-existencial

de terreno baldio

inviolável

selvagem como um poodle abandonado

                                                no parque

                         como uma abelha rainha

                         presa    por um barbante

inauguro hoje com a ponta dos pés

             essa hospedagem ambígua

   na casa número doze do zodíaco

onde é preciso prestar contas

                à esfinge moderna

                          com senhas

              de letras e números

            e enigmas insolúveis

   “prove que você não é um robô”

            [   ] não sou um robô

prove

que

não

sou

um

robô

xxx 

oxóssi-caçador”

tua queimadura de sol

invoca a existência

de um metabolismo secreto

pois, quando gotas do tamanho

              de gatos siameses

                                    pendem

pelos teus cílios compridíssimos,

teu corpo inaugura

          essa dança de exílio

:    porque o amor é a causa de tudo

            que       levanta       v o o

                    e       pousa    sem      memória.

 a hora do chumbo

                          é nossa

pois        há algo

de profundamente tocante

    no teu desespero ígneo,

no torpor vaporoso que tomba

     de   nosso limbo doméstico;

                há algo de bárbaro

no desalento único, tão teu,

na sombra de dois corpos

                       consonantes

e por isso mesmo aterrorizados,

                    prodígio do fulgor

de carne, dentes, pele

                                  e pelos.

nosso

caso é antigo, oxóssi caçador –

      flecha disparada na mata cerrada.

note a rosa dos ventos

esculpida no teu peito e aceite

                                 o que há

:  uma constelação nossa reservada

     há séculos, por anos-luz

                        [siga as setas, siga a água]

……………….

(en Uma pausa na luta)

…………………..

(Na Escamandro)

“em caso de emergência estes demônios serão despejados nos jardins do palácio”

este é para os desavisados que
não atinam para a natureza incontidamente dupla do amor,
para os que acreditam na força centrípeta de algumas estrelas
ou creem ainda que isto se trata de um poema.
eu faço das suas palavras as minhas;
[com delicadeza atroz
faço dos seus gestos
……………..os meus]
isto é um aviso
a vocês, os incautos; este aqui é mesmo para vocês,
os angelicalmente
desavisados, os que não sabem o que os espera, os desacordados.
os que aguardam algum tipo de salvação, sob o signo de pisces,
em caso de emergência,
quebre o vidro.
mas não atravesse ainda os estilhaços.
atente para o que desperta ao lado, para o que acende
convoluto
quando o botão é finalmente acionado.

não atravesse ainda os estilhaços,
preste atenção ao ruído surdo,
ao que causa susto
ao pássaro,

à compressão de sua caixa torácica,
ao sopro que eventualmente há de se tornar
uma cardiopatia, um descompasso.

esse enegrecimento do céu
não é do tipo que se liquefaz
e isso não se vê todos os dias,
não é mesmo
eu vejo consolidar-se
como cal que assenta no chão após
a última demão de tinta
o princípio secreto de ruína
e ele não se vai.

se for o caso de emergência,
favor quebrar o vidro,

mas não atravesse
ainda
os estilhaços.

obs: em caso de eventos extraordinários, este poema deverá ser destruído.

§

madame leviatã

você sintoniza uma estação de rádio
……………………………sem dificuldade
nas próteses metálicas
dos seus dentes míticos
[você]
com seus inúmeros filhos
………………doados ao circo
atravessa um punhado de séculos
………………montada no lombo
…………….de um cavalo sem nome

[you see I’ve been through the desert
………………on a horse with no name]

………………………………testa os efeitos do galvanismo de hobbes
…………………………….num cadáver fresco
………………………você, a czarina da festa
com sua predileção por animais noturnos
………………………………..por choques elétricos
sempre uma pequena catástrofe express
…………………………….para chamar de sua
…………………………….é o que dizem: velhos hábitos — velho testamento

[…………………….in the desert
you can’t remember your name]

…………………….você se impacienta
com as elipses
com a interferência radiofônica
— a supremacia musical superestimada
…………………….da década de 70 —
e corrompe propositalmente
…………………….…………………….a letra

after nine days I let the horse run free
‘cause the desert had turned to sea

the ocean is the desert and the desert is the ocean
[a perfect disguise above]

você supervisiona diligente:
a sobrevivência das línguas mortas
a fabricação seriada de nebulosas
e também a nova edição unabridged do livro de jó
………………..a queda de sodoma & gomorra
a queda da casa de alguém chamado usher

— a visão da cordilheira devastada…… a comove
…………….por um breve momento
o cavalo o galope…… a música incessante dessa estação

………………………………………..e também o rebatimento da luz
……………………….numa outra superfície metálica

[after three days in the desert sun,
I was looking at a river bed
and the story it told of a river that flowed
and it is now dead]

…….aplaude secretamente
o colapso da beleza formal
……………..o objeto no breu
a permanência do deserto
e confirma
a consistência
do relacionamento lésbico
que venho cultivando
distraída
……….com essa jovem senhora
…………………..gótica
de óculos escuros & longas luvas
……………………….de veludo
……………….que
, parada diante de mim
, estende um cartão de visita
…………………..onde
sem elipses ou……. hurt feelings
lê-se:

[ codinome
morte

……………….

Na Mallamargens

crítica de BENVIDOS Á CIDADE, de Xurxo Sierra Veloso, en Galaxia

MOVEMENTO DE LIBERACIÓN ANIMAL

Título: Benvidos á cidade

Autor: Xuxo Sierra Veloso

Editorial. Galaxia

Non son frecuentes senón excepción os discursos ecoloxistas na narrativa galega. E cando afortunadamente aparecen, é común que o fagan da man de distopías. Porén, no caso que  nos ocupa, a última novela de Xurxo Sierra Veloso, non se trata en si dunta novela das que se entenden como ecoloxistas, senón que a trama presentada, o Movemento de Liberación Animal, só pode entenderse como unha parte do ecoloxismo. Unha parte fundamental, tamén hai que dicilo. O cal individualiza, singulariza enormemente a novela de Xurxo Sierra Veloso porque, se os discursos ecoloxistas non son precisamente a norma, esta novela “animalista” é rarísima avis no panorma das nosas letras contemporáneas. E nada de distopías, é unha ficción absolutamente realista.

                     E velaí teñen xa sinalada a trama desta Benvidos á cidade. Dun xeito moi xeral. E aínda que pode abondar para decicir mercar a novela, cremos necesario explicitala un chisco máis, só un chisco máis. Un grupo de persoas concienciadas a cerca do indignante trato que se lles dá a algúns animais dos cales despois se van utilizar as peles, decide intervir e liberar os animais encacerados nunha granxa de visóns, que, como sabemos son uns dos máis escravizados para esta finalidade -permítasenos a exprsión “escravizados”, porque, realmente, é a máis xusta que se nos ocorre. Evidentemente, a acción de liberar os visóns, que por outra banda foran inoculados cunha substacia que os volvía máis feroces, ten consecuencias, tanto para quen os libera como para cidade próxima a onde se dirixen os visóns. E agora si, non diremos máis, porque precisamente a novela consiste niso, nas consecuencias que a liberacións dos visóns ten para sociedade/cidade.

                     Cousa que cómpre salientar, porque en lugar dunha novela de tese, Xurxo Sierra Veloso construíu unha trama a partir da cal quen le reflexione e chegue a conclusións propias relativas ao tema central. E iso é de agradecer moito. En todo caso, o título, Benvidos á cidade, refírese claramente aos visóns de xeito que non é neceario máis nada para que a postura do autor sexa evidente.

                     A novela achéganos un discurso “de narrador”; un discurso de narrador omnisciente que funciona como unha cámara de cinema que nos vai ensinando o que esa liberación animal supón para un considerábel número de persoas, de persoas de diferentes status social, de diferentes idades e de diferentes condicións laborais. Tanto que mesmo os diálogos aparecen integrados no discurso do narrador. E resulta eficiente esta estratexia, porque o narrador é dilixente. Tamén é certo que se trata dunha novela moi coral, con moitas personaxes, e, aínda que en principio poida parecer que iso supón unha pexa para seguir o acontecer desas personaxes, hai que dicir que a eficiencia do narrador se ocupa con pericia de que iso non aconteza. O cal nos leva a comentar outro dos aspectos salientábeis da novela, que é a configuración das personaxes, que tamén depende do narrador porque é desde el que se manifestan. Non sendo unha novela de moita paxinación (158 páxinas) e non habendo, polo tanto, moito espazo para esa configuración, esa limitación  non empece a rica configuración dunhas personaxes tan variadas e en tanto número. No que si interfire é na recreación de diferentes ambientes, aí si se nota o pouco tempo e o pouco espazo de que dispón o  narrador. Porén, isto non é ningún defecto, non fala mal nin do narrador nin da novela. Simplemente se trata dunha escolla narratatorial doadamente comprensíbel: na sociedade estamos todos, e indiferentemente do ambiente en que nos movamos, a todos nos afectan as consecuencias.

                     As consecuencias que ten o capitalismo feroz que leva a inocular subatancias perigosas nos animais para obter meirande rendemento económico – coma se non abondara o réxime carcerario, egaiolados cantos máis mellor e en menor espazo! E as consecuencias que ten para sociedade a liberación duns animais que non son precisamente mansos, por moito que a súa beleza e corpo reducido conviden a tratalos con mimos e agarimo, pois por detrás do seu aspecto aniña unha ferocidade tan perigosa como insospeitada.

                      E do capitalismo feroz falando, non pode pasar desapercibida a meción, no texto, de Jeremy Bentham e de Jonh Stuart Mill, máximos expoñentes do utilitarismo (que na granxa de visóns e na súa dopaxe está representado) fronte Konrad Lorenz, zoológo alemán e grande estudoso do comportamento animal (aínda que Lady Constance, unha das personaxes, dubide que lectura escoller).

                     Agora, despois da lectura, son vostedes quen ten a palabra.

ASDO.: Xosé M. Eyré

crítica de OS INCURÁBEIS, de Antonio Tizón, en Xerais.

 NOVELA ENTRE O POLICIAL E O NEGRO

Título: Os incurábeis  

Autor: Antonio Tizón

Editorial: Xerais

A situación de saída da trama desta novela é ben curiosa: hai que resolover o asasinato dunha prostituta sexaxenaria que aínda exercía e da cal os cleintes estaban fondamente namorados. E digo que é curiosa porque nas nosas letras non lembro un caso semellante. Mais non podo dicir que sexa orixinal, porque esa mesma proposta xa a fixo Andrea Camilleri en Gli arancini di Montalbano (1999), que é un libro de contos negros, e un deles presenta a mesma proposta de Arturo Tizón. Non só é a mesma proposta, entre a forma de actuar de Montalbano e a de Xosé Sánchez Pereiro tamén existe un paralelismo bastante evidente. E cando esta situción se lle presenta ao crítico, tentado está de escribir unha crónica libresca comparativa, que para algo está a Literatura Comparada.

                     Mais non, non o vou facer. Non quero comparar un mestre da novela negra como Camilleri con outro autor que con este título é a terceira vez que se manifesta. Din que as comparacións poden ser odiosas; e, agora, do que se trata unicamente é de dar conta da novela de Antonio Tizón, sen máis. Por moito que nos estrañe que entre os moitos autores de novela negra citados na novela non apareza o de Camilleri, pois a estas alturas son moit@s e tampouco se pode citar a tod@s. Mais se lera a Camilleri igual escribía outra cousa…

                     Ben, digamos a súa vez que esta é unha novela coruñesa. Visto o algareo que se ten producido coa “novela negra viguesa” (cando non sempre son novelas negras), resulta oportuno que n´A Coruña tamén poidan falar de “novela negra coruñesa”. Deixémolo así, de inicio, porque por moito que se reivindique como novela negra esta de Antonio Tizón, para min a súa “negritude” nin está clara nin ao mellor resulta eticamente oportuna.

                     En canto a esta novela que quere ser negra, ten como protagonista central un inspector de Policía que é un home con moitos vicios e de honradez cuestionábel xa que el mesmo se confesa corrupto. Un dos acertos da novela radica precisamente aí, en que quen non se estableza até que punto é honrado o proceder do inspector, até que extemo é ético, alén das dúbidas sobre a efectividade da xustiza, sobre cal é a mellor maneira de facer xustiza: a convencional ou a que trascende os límites legais vixentes ou convencionais. E rematará a novela e a pregunta ficará no ar, como é lóxico.

                     E, dentro d´A Coruña, ten especial protagonismo o barrio d´Os Castros. E concretamente unha rúa en especial, a rúa dos sete bares Será aí precisamente onde se mergulle Xosé Sánchez Pereiro para tratar de esclarecer a morte da prostituta sexaxenaria. Falando cos hostaleiros, conversando cos parroquianos, xogando aos naipes con eles…sempre coa esperanza de que este ou aquel o poña sobre algunha pista do crime. Mais, a tentativa de escribir novela negra leva a que a  parte policial sexa inoperativa. Arturo Tizón trata de describir os ambientes en que se moven os parroquianos dos distintos establementos, incluído o prostíbulo, e tamén de configurar as diferentes personaxes que son os parroquinanos. Mais esas diferenzas nunca se trasladan desde a lingua, de xeito que o ambiente fica máis descrito que creado. Algunha personaxe hai que sae mellor parada, caso de Iván, por sinal que si é moi recoñecíbel desde a lingua que emprega.

                     Neste mergullamento aparecen xa o mundo dos enfermos mentais e tamén o sibaritismo gastronómico do inspector. Sendo precisamente a transición entre estes momentos o aspecto mellor logrado da novela. Non precisamente nesa orde, porque primeiro é o sibaritismo do inspector o que parece adonarse dun discurso policial que non avanza. Un sibaritismo que, outra volta coa lingua deixa que desexar cando se fala de “racións de bacallau” en lugar de “postas”, que vén sendo o termo tradicional e habitual aínda que o dicionario en liña da RAG nin o contemple. Volvo dicilo, o dicionario en liña da RAG só serve para cuestións ortográficas ou consultas menores, de pouca dificultade. Ou que o arranxen, ou que o retiren xa, porque resulta tremendamente prexudicial nun momento no que se escribe maioritariamente en computadores e neles se acode aos dicionarios.

                     Tampouco é o único caso de uso lingüístico pouco afortunado, cando se lle “veludo”

ao pelo non cremos precisamente que isto se deba á suavidade do pelo…

                     O sibaritismo deixará paso a algo moi pouco tratado na narrativa galega, como é o caso dos enfermos mentais. Porén, as gravacións desde as cales se manifestan, que si son moi efectivas, non deixan de ser unha pasaxe relativamente curta, desaproveitada, porque eses enfermos mentais só aí se comportan como auténticos enfermos, no resto sabemos que están enfermos mais o seu comportamento, aínda que nalgún caso sexa curioso, non pasan da excentricidade ou de consecuencias do moito vicio.

                     Chegados a esta altura, tamén chegamos ao momento en que a psiquitra Helena Salcedo (esta si é unha personaxe ben configurada, a mellor da novela) e o inspector debaten a cerca de se os enfermos mentais incurábeis (de aí o título) tamén son susceptíbeis de eutanasia ou non. Cuestión espiñenta (non espiñosa, e por algo o dicimos) que dá para moito pensar e contrastar opinións. E tamén hai que dicir que a postura de Helena Salcedo se achega pergigosamente aos principios nazis de depuración da sociedade eliminado as persoas enfermas, as que incurábeis, as que xa non teñen solución. Na miña opinión, quen lea novela terá que dicidir se eses principios  nazis sonos memos que pon en práctica Helena Salgado ou non.

                     E, se damos a boavinda a unha novela que por fin se ocupa dos enfermos mentais, cómpre preguntarse se contexto da novela negra é o máis xusto e ético con eles. Aínda que, por outro lado, os enfermos mentais aquí só son vítimas…

                     A novela de Arturo Tizón preséntase como negra. E existe unha corente crítica que sitúa a novela policial como subxénero da negra. E existe unha total confusión entre o que é novela negra e novela policial, pasando a novela policial a ser considerada como negra. Porén nin son o mesmo nin debería existir confusión ningunha. A novela policial ten como finalidade esclarecer un delito, e a novela negra ten como finalidade presentar o mundo do delito, do crime, sen ánimo de chegar a establecer culpabilidades e precisamente cuestionando até que extremo hai culpabilidade ou esta se produce polo condicionamento social. E esta diferenza trasládase tamén desde a lingua, mentres na novela policial a linguaxe é a convencional…na novela negra a linguaxe é a propia dos ambientes en que se producen os delitos. Así as cousas, a novela de Antonio Tizón, partindo de presupostos policiais quere ser negra mais só en parte o consegue, e tamén, a parte pilicial tampouco se resolve como sería de agardar.

                     Cando comezamos a lectura preguntámonos se podería ser Antonio Tizón o noso Camilleri, dados os paralelismos existentes entre o proceder de  Montalbano e de Xosé Sánchez Pereiro. E a pregunta fica no ar.

ASDO.: Xosé M. Eyré